Cáritas de Leiria: "Muitas empresas não voltarão a abrir e desemprego vai aumentar"

27 fev, 2026 - 06:30 • Ana Catarina André

Diretor de Serviços da Cáritas Diocesana de Leiria adianta que só na área do fabrico de moldes podem encerrar 100 empresas.

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Quase um mês depois da tempestade Kristin , a campanha solidária da Cáritas Diocesana de Leiria angariou mais de 1,8 milhões de euros para apoiar as famílias afetadas pelo mau tempo.

Em entrevista à Renascença, o diretor de serviços, Nelson Costa, diz que a instituição está no terreno a identificar as necessidades da população, para dar início às reconstruções

Nelson Costa afirma que, nos próximos meses, com o encerramento de diversas empresas, o desemprego irá aumentar, na região. “Vai haver famílias que vão deixar de ter possibilidades para fazer face às suas despesas”, alerta o responsável, contando que atualmente há falta de mão-de-obra para fazer as reparações necessárias nas casas e edifícios danificados.


Quase um mês depois da tempestade Kristin, quais têm sido as principais áreas de intervenção da Cáritas Diocesana de Leiria?

Essencialmente, nos primeiros dias fomos para o terreno à procura de situações mais graves que precisassem de uma intervenção rápida da nossa parte. Com a colaboração de técnicos de outras Cáritas Diocesanas, fomos bater porta a porta e levar algum conforto e alguns bens.

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Constituíram um Fundo de Emergência Social com o contributo de particulares e empresas que, neste momento, é já superior a um milhão e oitocentos mil euros. Como é que se vai agora processar o apoio à reconstrução?

Passado três dias da tempestade, decidimos criar um fundo, porque percebemos que, possivelmente, os apoios do Estado seriam escassos para as reais necessidades das pessoas. Muitas das famílias que foram impactadas de forma negativa pela tempestade não teriam seguro e não teriam capacidade de resposta financeira para fazer face também aos estragos que a tempestade Kristin fez.

Desde o início, assumimos que este fundo iria ser gerido com a maior transparência, de forma também a dignificar todos os donativos que nos foram entregues. Começámos logo a fazer contactos com auditoras, e houve uma auditora que se prestou a colaborar connosco e a auditar o fundo, do início ao fim. Montámos, assim de forma relâmpago, uma comissão composta por sete pessoas, sendo que só duas fazem parte da Cáritas Diocesana de Leiria. É uma comissão independente, toda ela voluntária. No espaço de uma semana e meia, duas semanas, criámos um regulamento, um documento dos procedimentos e critérios que também nos irão orientar neste fundo. Agora, estamos a identificar situações, a ir aos sítios que já nos foram reportados para verificar as reais situações. Podem dizer que o processo poderá ser moroso esperamos que não seja, como é evidente.

Vai ser preciso ter um projeto para a reconstrução? Será caso a caso? Como vai funcionar?

Será caso a caso, tendo em conta também as especificidades de cada situação. Algumas terão de ter uma intervenção mais robusta mesmo a nível técnico, porque tem de haver reforço da própria estrutura [da casa]. E há outras situações, como houve uma, em que uma família ficou sem a sua viatura, que era o seu meio de transporte para ir para o trabalho e tudo mais. Estamos a falar de situações completamente dispares, mas que efetivamente são importantes para as pessoas, e como é óbvio, a Cáritas estará presente de forma a tentar minimizar [o impacto] e a levar algum conforto às pessoas.

Há muitas empresas que não vão voltar a abrir. O desemprego vai aumentar

Nos primeiros dias após a tempestade Kristin, o cenário era de emergência humanitária e as respostas foram sobretudo alimentares e de bens essenciais. Neste momento, quais são as necessidades desta população afetada pela tempestade?

Desde o início, tivemos a perceção que haverá um grande impacto na coesão socioeconómica da região. Nos dias de hoje, a região já está fragilizada, mas daqui a alguns meses, a situação irá alterar-se. Teremos empresas que irão fechar, o desemprego irá aumentar. Estamos a falar da região de Leiria e da Marinha Grande que é bastante industrializada, com um tecido empresarial muito forte. Contudo, há muitas empresas que não vão voltar a abrir. O desemprego vai aumentar.

O impacto psicológico também vai ser enorme em todas estas regiões, Ourém, Pombal, Batalha. A Cáritas também terá de estar preparada para dar resposta a este tipo de situações, porque vai haver famílias que vão deixar de ter possibilidades para fazer face às suas despesas. Não nos podemos esquecer que há muitas famílias que tinham os seus créditos pessoais, o seu crédito ao consumo, e que estavam completamente confortáveis para fazer face a essas despesas. O desemprego irá fazer com que não consigam dar resposta.

O impacto psicológico também vai ser enorme em todas estas regiões

Que relatos vos chegam das empresas na região? Referia que algumas não vão reabrir….

Sim, algumas não vão abrir. Como é óbvio não sou especialista [neste tema], mas nas diversas conversas que vamos tendo, surge a questão das empresas de moldes que já estavam a passar por dificuldades. Tivemos aqui a informação de que 100 empresas, moldes não iriam voltar a abrir. Portanto, se isto se concretizar, vai ter um impacto enorme na vida de muitas famílias.

Paralelamente a isso, há a questão dos migrantes, que não têm retaguarda familiar. Muitas famílias estão a morar em casas com contratos informais de arrendamento. E temos algum receio que [a tempestade] sirva de desculpa para os senhorios arrendarem as casas por um valor superior.

Na área da construção civil, por si, já havia escassez de mão de obra, já havia muito mais procura do que oferta a nível habitacional. É um problema que se vai agudizar nos próximos tempos: os preços vão aumentar com toda a certeza. Isto acontece, também, agora com as reparações das habitações: há falta de resposta das empresas para a reconstrução destas habitações e com a celeridade que seria tão precisa, neste momento.

Temos algum receio que [a tempestade] sirva de desculpa para os senhorios arrendarem as casas por um valor superior

Falando de respostas políticas concretas, são incipientes as respostas apresentadas até agora pelo Governo?

Sim. Creio que 10 mil euros é insuficiente para algumas situações. Em algumas visitas ao terreno, estamos a falar, às vezes, de telhados com orçamentos na ordem dos 40 mil euros, outras de 20, 26 mil. Não nos podemos esquecer que há muitas famílias que nem pé-de-meia tinham, o que é natural tendo em conta os baixos salários.

No último mês, como em tantas outras situações, instituições da Igreja, como a Cáritas, têm tido um papel relevante no apoio às populações afetadas. Na sua perspetiva, quais são as principais áreas a que a Igreja deve estar atenta nos próximos tempos?

A preocupação da Igreja terá de ser as comunidades e as pessoas. A Igreja tem de marcar presença, tem de ser uma voz ativa em todo este processo. Temos de saber trabalhar em rede com o poder local, com as autarquias, com os grupos, com as comunidades, para ajudar as pessoas. As pessoas precisam da Igreja, e é nesta altura que a Igreja, mais uma vez, irá com toda a certeza dizer que sim, e marcar presença na vida das pessoas.


NOTA: Depois da publicação desta entrevista, a Cáritas Leiria explicou que a informação sobre eventuais encerramentos de empresas no setor de moldes "não deveria ter sido partilhada publicamente sem a devida verificação junto das entidades competentes do setor", assumindo a responsabilidade pela divulgação desta indicação. A instituição apresentou "sinceras desculpas ao setor de moldes e a todo o tecido empresarial da região por qualquer preocupação ou dano de imagem que estas declarações possam ter causado".

[notícia atualizada às 16h05]

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