Reportagem
Elevador da Glória, 6 meses depois. "O tempo vai passando, custa menos. Mas ainda é muito triste"
03 mar, 2026 - 11:00 • João Cunha
Quem por ali vive ou passa diariamente, não esquece os momentos vividos no dia do acidente com o Elevador da Glória. Nesse e nos dias seguintes. Seis meses depois, as vítimas ainda aguardam a conclusão dos processos indemnizatórios. E há quem continue a deixar flores no local do acidente.
No início da Calçada da Glória, junto aos Restauradores, já não há ramos de flores, velas, fotos ou cartões com mensagens de homenagem às 16 vítimas mortais do acidente de há seis meses com o icónico elevador amarelo da Carris. Quem por ali passa todos os dias, a caminho do trabalho ou de casa, admite que o acidente, meio ano depois, ainda está muito presente
Que o diga Cláudia Duarte, funcionária da cantina da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que perdeu quatro dos seus colegas naquele trágico dia.
"Todos os dias lhes servia refeições", lembra, adiantando ainda que ainda há funcionários da instituição hospitalizados.
Hoje, sempre que desce a Calçada, os olhos fogem-lhe sempre para o mesmo sítio. "Todos os dias olho para aquelas grades. Não quando subo, porque custa e vou de miniautocarro. Mas todos os dias eu desço, e todos os dias olho para aquela grade, naquele pequeno cruzamento onde o elevador caiu."
As grades de que fala protegem as janelas da parte do Hotel Turim que está virada para a calçada. Nelas, alguém colocou, há já algum tempo, a julgar pela sujidade, flores feitas de crochet e fios de metal maleável, de flores diversas. É um dos poucos sinais que subsistem das homenagens feitas nos dias seguintes ao acidente.
No topo da calçada, já não há ramos de flores, cartões com mensagens nem velas. Que também já não estão lá ao fundo, junto aos Restauradores. Lá em baixo, resistiram apenas umas letras em madeira, azuis, com a palavra "saudade", onde já falta o segundo D. Estão coladas na parede, junto ao chão, num dos pilares do Palácio Foz.
No dia do acidente, Paula Lobato só teve um pensamento: "A primeira reação que tive foi ligar aos meus colegas que saiam àquela hora. E perguntar se estavam todos bem. Eu sabia que passavam por aquele caminho."
Um caminho que é feito diariamente por Leni Iara, que, antes de subir a calçada, respira fundo para ajuda a superar o declive. A caminho do trabalho, admite que "logo nos primeiros dias", o ambiente naquela zona era pesado. Agora, ficou mais leve.
"O tempo vai passando e custa menos. Mas ainda é muito triste", desabafa. Tão triste que há quem continue a homenagear as vítimas: "Às vezes alguém passa aqui e deixa ramos de flores. Às vezes vejo-as."
O acidente
O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários publicou poucos dias depois do acidente uma nota informativa preliminar, indicando como causa provável o desprendimento do cabo de sustentação da peça onde o mesmo se encontrava fixado à cabina n.º 1, denominado de "trambolho".
Estimou-se que a colisão final terá ocorrido a cerca de 60km/h, antecedida por uma colisão da traseira contra um poste de iluminação e outro de suporte da rede de fiação aérea do ascensor, assim como com a parede de um edifício. Estima-se também que entre a rutura do cabo e o desfecho trágico terão passado 50 segundos.
Foi também confirmado que o plano de manutenção de todo o sistema estava a ser realizado de forma regular, e que uma simples inspeção visual do cabo não permitia a verificação da zona onde se deu a rutura.
As indemnizações
Os processos de apoio às vítimas e seus familiares continuam em desenvolvimento por parte da seguradora da Carris, a Fidelidade, que à agência Lusa, indicou que já foram celebrados acordos indemnizatórios.
“Os processos encontram-se atualmente em diferentes fases de regularização, em função da natureza e da evolução clínica de cada situação: em alguns casos, foram já celebrados acordos indemnizatórios; noutros, aguarda-se a receção de documentação legalmente necessária para formulação de proposta indemnizatória”, indicou fonte oficial da Fidelidade à agência Lusa.
A seguradora adiantou ainda que, “em diversas situações relativas a vítimas com lesões corporais”, o processo se encontra “ainda em fase de consolidação médico-legal”, sendo necessário aguardar a estabilização clínica para avaliação definitiva de eventuais incapacidades e subsequente cálculo indemnizatório.
“Por respeito à privacidade e à proteção de dados pessoais e clínicos das vítimas, a Fidelidade não comenta situações individuais”, acrescentou.
Sem adiantar dados concretos sobre os apoios já atribuídos às vítimas, a seguradora referiu que, até ao momento, têm sido assegurados e liquidados os encargos devidamente comprovados e enquadráveis nas coberturas aplicáveis. São estas: despesas médicas, hospitalares, farmacêuticas, deslocações, repatriamentos, serviços fúnebres e outras despesas resultantes do sinistro.
A posição da Carris
A empresa municipal Carris, que tem como acionista única a Câmara de Lisboa, disse à agência Lusa que tem estabelecido contactos com as vítimas e/ou respetivas famílias, além do trabalho que está a ser desenvolvido pela seguradora.
A Renascença solicitou uma entrevista ao presidente da Carris, Rui Lopo, nomeado há três meses e um ponto de situação à Câmara de Lisboa. Nenhuma das duas entidades respondeu afirmativamente aos pedidos.
O Ministério Público está a investigar um alegado crime de violação de regras de conservação no acidente da Glória. Em causa, uma moldura penal que pode chegar até aos oito anos de cadeia para eventuais responsáveis, casos sejam provadas falhas mecânicas provocadas por uma manutenção deficiente.
No caso de negligência, a moldura penal máxima baixa para os cinco anos. O processo estará ainda em fase de inquérito.













