Reportagem

Depressão Kristin. Que Leiria renascerá da tempestade?

05 mar, 2026 - 14:31 • João Carlos Malta

Vai ser necessário repensar muita coisa. A forma de construir, a rede elétrica, as telecomunicações, mas também toda a rede arbórea do concelho. Uma lista vasta, que não fica por aqui, e que não é uma empreitada para pouco tempo. Vai demorar até a cidade do Lis voltar a ser o que era. Mas para vislumbrar um pouco do que poderá ser esse futuro, a Renascença desafiou um engenheiro, uma arquiteta e um autarca a pensá-lo.

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Não foram poucos os que compararam as sequelas de Leiria no pós-depressão Kristin às de uma guerra. A destruição, mais de um mês depois, é ainda visível um pouco por todo o lado. Há postos de eletricidade caídos, sinais da estrada dobradas e vergadas, há árvores, milhões de árvores caídas por todo o lado, e muitas casas por reparar. O caderno de encargos da reconstrução não termina aqui, mas depois do choque é preciso pensar no futuro: Que Leiria nascerá da tempestade?

A Renascença procurou respostas com especialistas: uma arquiteta, um engenheiro e um autarca. Todos estiveram desde o primeiro dia no terreno a perceber quais as fragilidades do território que foram massacradas pelo mau-tempo, e também quais as possíveis soluções a cidade no futuro estar mais preparada para catástrofes naturais.

A arquiteta Liliana Moniz ꟷ membro da equipa de arquitetos e engenheiros que em Leiria faz o levantamento de todos os estragos ꟷ revela que à vista saltaram logo algumas questões que contribuíram para o amplificar das consequências da depressão Kristin. Desde logo, os problemas de drenagem ligados ao pavimento existente.

Numa paisagem marcada pelas árvores derrubadas ou decepadas, cinco a oito milhões no total, a arquiteta diz que na lista de coisas a fazer está a necessidade de coordenar melhor “a forma como implementamos toda a estrutura arbórea que, atualmente, temos”.

A especialista apela a que o tecido ecológico seja “pensado de outro modo”. “A escolha das árvores na cidade tem de ser de novo feita. Os técnicos, os arquitetos, os paisagistas, têm de se sentar juntos para que possamos redesenhar toda a estrutura urbana”, argumenta.

A questão não só da parte citadina, mas da floresta, preocupa muito os que ali vivem, porque com tanto tronco e ramagem no chão, há o temor justificado de que a seguir à água venha o fogo, tanto é o rastilho deixado no chão.

Noutra dimensão, uma das questões que ficou bem evidente foi a das limitações na mobilidade do território. “Percebemos que houve várias fragilidades que ocorreram e que têm de ser melhoradas daqui em diante”, adianta Liliana Moniz, que defende que para no futuro Leiria e a região não sofrerem o mesmo impacto numa tempestade é necessário que “arquitetos, engenheiros, urbanistas, paisagistas, estejam todos a pensar no mesmo para encontrar soluções”.

Estar no terreno também já permitiu perceber as zonas do território em que mais ocorrências aconteceram e em que as habitações têm de ser revistas. “O modo de construção vai ter de sofrer alterações. Vamos ter de identificar mapas e os riscos de cada uma das áreas do território para percebermos onde é que existe uma maior incidência numa situação que ocorra futuramente”, detalha. Uma coisa é certa: “Não podemos ignorar que há áreas que são inabitáveis”, alerta.

“Por isso, é que é mesmo muito importante identificarmos as zonas de maior risco, ao nível dos terrenos, neste instante. Foi algo que nunca foi feito antes. Esta situação permite que o possamos fazer”, defende.

Quem constrói tem de ser mais exigente

Também a palmilhar o concelho tem andado o engenheiro Ricardo Duarte, professor do Instituto Politécnico de Leiria e que pertence igualmente à bolsa de cerca de 500 arquitetos e engenheiros que tem dado apoio à autarquia local. Os olhos do engenheiro identificaram muito automaticamente uma diferença. “Os edifícios que tenham tido um projeto de engenharia civil robusto, bem pensado, que tenham tido um acompanhamento da obra também, os danos são menores e já estão por vezes até resolvidos”, ilustra.

“No nosso país existe muita construção feita sem um controlo administrativo e sem licenciamento adequado. Essas sim apresentam muitos danos e, mais grave, não apresentam só muitos danos como os seus elementos construtivos foram destruir os outros edifícios que não teriam tantos danos se essas peças não fossem cair em cima deles”, descreve o engenheiro.

E que alterações têm de ser feitas para que mais construções tenham maior nível de segurança? Ricardo Duarte diz que os donos de obra “têm de ser exigentes com aquilo que estão a pedir”.

“Quando estamos a construir um ativo, como é a nossa casa ou como é a nossa indústria, nós temos de ser exigentes com aquilo que estamos a colocar”, reforça.

E concretiza: “Não podemos ter máquinas que custam 500 ou 600 mil euros num edifício que tem uma cobertura em chapa simples. Isto acontece, isto não pode acontecer. Ou seja, eu não estou a proteger o meu ativo imobiliário, não estou a proteger a minha indústria”.

Ricardo Duarte defende que “este fenómeno veio gritar que se nós não tivermos qualidade nas nossas construções, a nossa qualidade de vida vai ser muito pior”.

Por isso, mesmo tendo em conta o aperto financeiro de algumas famílias e empresários, o engenheiro, acredita que se, por exemplo, um proprietário quer fazer uma garagem e se tem dinheiro para a fazer, “também deverá pensar em investir numa solução para que fique bem feita”.

Falta de mão-de-obra e a consequência: “Vai sair mais caro”

Na Câmara Municipal de Leiria, o presidente Gonçalo Lopes revela que a autarquia, mais de um mês depois, ainda está a braços com a resolução dos problemas imediatos. Continuam a haver pedidos, em menor número é certo, “mas desesperantes” de pessoas idosas “que não têm luz”.

Em relação à capacidade para meter mãos à obra e reerguer a cidade, Gonçalo Lopes descreve a realidade atual em que “há pessoas que não conseguem arranjar ninguém para reparar as casas”, desesperam para “encontrar um pedreiro”, ou simplesmente alguém que “coloque uma lona, umas telhas”.

Tudo numa região em que a oferta na construção civil está saturada, mesmo para os que têm capacidade de pagar já. Por isso, resta procurar fora dos limites da região. Mas isso tem uma consequência: inflação.

Terá de haver aqui um esforço extra, que vai custar mais dinheiro. Ninguém vai sair de uma zona de Lisboa ou do Norte do país para vir a Leiria, deixar a construção de moradias, aquilo que são os negócios normais, para deslocar mão de obra para vir resolver isto”, assume o autarca.

Haverá uma “fricção” entre o “país normal e o país afetado [pelas tempestades]”. “Vai haver inflação dos preços, não há dúvida nenhuma, vai haver as pessoas para fazerem a retirada de uma chaminé ou a construção de um telhado, com tanta necessidade, vão cobrar mais”, identifica.

Para melhor compreender a dimensão dos estragos nas casas de Leiria, o presidente da Câmara contabiliza até agora seis mil pedidos de apoio para a reconstrução de casas, mas o problema pode ser muito maior. Gonçalo Lopes garante que há 51 mil fogos no concelho, dos quais metade sofreram danos.

Tempestade destapou muita da precariedade habitacional

Um outro problema que a tragédia expôs é a das condições de habitabilidade das pessoas, já antes da depressão Kristin, sublinha a arquiteta Liliana Moniz. Encontrou muitas situações de precariedade total. A mesma opinião tem o engenheiro Ricardo Duarte.

“Foi das coisas que mais me impressionou. Houve sítios que entrei que não deixava a minha cadela a dormir lá”, verbaliza.

Temos que nos questionar como é que as pessoas viviam e de que modo é que nós estamos a pensar a habitação”, defende a arquiteta.

Liliana diz que este é um momento em que se pode repensar as condições de vida dos mais fragilizados, porque “não podemos voltar a ter pessoas nestas condições de risco”.

“Estamos a falar de condições insalubres, que naturalmente com esta situação tornou-se insuportável. As pessoas não vão poder regressar àquelas habitações, não estavam protegidas”, lamenta.

A arquiteta fala da necessidade de, nestes casos, haver uma intervenção social e, “se calhar, de maior construção de habitação social para albergar estes casos”, ou de casas com rendas controladas.

O levantamento das situações feito no terreno, no pós-tempestade, “permite-nos identificar as pessoas que se encontram em maior risco”.

Em conclusão, “não vamos refazer ou reabilitar tal como estava. Vamos ter de melhorar comparativamente àquilo que estava a ser feito”.

Para que se possa alterar o que tem de ser mudado, reforçando a segurança, a montante, segundo o engenheiro Ricardo Duarte, têm de se rever os processos de licenciamento.

“As autarquias têm um papel importante para garantir que as zonas de risco não são ocupadas, as zonas de leite de cheia, as zonas de deslocamento de vertentes não são ocupadas de forma indevida”, assinala.

Repensar rede elétrica e telecomunicações

O presidente da Câmara de Leiria afasta a hipótese de a cidade ter sido particularmente afetada pelo mau tempo por alguma debilidade de construção particular.

“Se não entrasse aqui, e entrasse no Porto ou em Lisboa, estejam descansados, porque o problema era exatamente igual. Não sobrava um único telhado na Baixa de Lisboa nem no Porto”, compara.

Gonçalo Lopes diz que estamos a falar de uma nova realidade, em que eventos como as tempestades do final de janeiro e início de fevereiro se vão repetir.

Por isso, “vamos ter de tornar os nossos territórios mais preparados para inundações e para vendavais. Isso não se faz de um dia para o outro. Mas quem não fizer esse investimento, pode correr riscos, daqui a um tempo, de lhe voltar a acontecer”, explica.

Para que a cidade, mas também o país possa estar mais preparado, porque o que aconteceu na cidade do Lis pode acontecer noutro sítio qualquer, o “sistema de transporte e distribuição de energia em Portugal não pode estar sujeito a este tipo de acontecimento”.

É por isso que outros países, mais ricos que Portugal, segundo o autarca, têm um volume de investimento anual de cinco mil milhões de euros no reforço destas linhas de transporte, como é o caso da França. “Nós gastámos, nos últimos anos, por ano, nem 100 milhões de euros”, assinala.

As comunicações também não responderam às exigências do momento, muitos habitantes da região Centro estão há mais de um mês sem acesso a telefones, televisão e internet. Por isso, Gonçalo Lopes pede “mais resiliência”.

Para o conseguir, o autarca tomou a iniciativa de pedir às principais operadoras “que em Leiria fique sediado um centro de investigação, uma unidade que pense a resiliência das comunicações em caso de tempestades”. “Isto para que se estude e se invista, e não haja o efeito cascata e um efeito tão devastador da ausência de energia e comunicação”, acrescenta.

Por fim, no edificado, o autarca garante que há construções que são prioritárias e têm de “ser reforçadas com esta situação”. São os casos de sedes de bombeiros e de esquadras de polícia, infraestruturas que não podem ficar inutilizadas numa catástrofe, porque são centrais para que a vida em sociedade num cenário pós-catástrofe possa ter um mínimo de normalidade.

Mas para isso, Gonçalo Lopes fala da necessidade de uma mudança de mentalidade. Não pode ser “a carolice” ou a “boa vontade” de privados a erguer estes espaços, como no passado, tem de haver investimento público. Isto para que haja edifícios bem pensados e robustos.

Não vai ser um processo rápido e vai custar muito dinheiro”, anuncia.

E por falar em financiamento, vem à conversa o tão falado PTRR. O autarca leiriense diz que o documento “está em período de auscultação e as autarquias não fazem parte dele”, no entanto, tem a expectativa de que os concelhos mais atacados pelo mau tempo “possam ter uma palavra específica sobre as necessidades que têm”.

E para que tudo seja transparente, argumenta, os concelhos “devem ser classificados por graus de urgência, por graus de devastação, para se perceber onde é que é necessário reforçar investimentos”.

Em Portugal, são inúmeros os casos em que depois de grandes tragédias em que se criam grandes planos de recuperação que depois têm dificuldade em sair do papel.

Por que é que Leiria vai ser diferente? “Vai ser diferente, porque à partida já está a fazer diferente”, responde.

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