Precariedade, stress e violência. "As condições dos jornalistas são bastante más" em Portugal
05 mar, 2026 - 18:07 • Liliana Carona
O livro "Rolo Compressor do Jornalismo – Retratos de uma profissão em esforço" resulta da investigação conduzida por Rita Araújo sobre as condições de trabalho dos jornalistas em Portugal e o seu bem-estar físico e emocional. A investigadora realizou 50 entrevistas e conclui que uma parte significativa destes profissionais recorre ao apoio familiar para conseguir continuar a exercer a profissão. Quase todos relataram ter sido alvo de violência em contexto laboral. Um em cada cinco admite ter vivido situações que constituíram ameaça à sua segurança ou mesmo episódios de agressão efetiva.
Como é que os e as jornalistas lidam com as questões emocionais? Esta era a pergunta que estava sempre na cabeça de Rita Araújo, de 37 anos, investigadora auxiliar no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Depois da pandemia, decidiu, em 2023, realizar 50 entrevistas a jornalistas, que dão agora origem ao livro "Rolo Compressor do Jornalismo – Retratos de uma profissão em esforço".
A obra agora prestes a ser publicada reúne as entrevistas conduzidas a 50 jornalistas portugueses no final de 2023, no contexto de um estudo sobre o esforço emocional no jornalismo. A amostra integra profissionais oriundos de vários pontos do país, equilibrada em termos de género e representativa de diferentes percursos, quer no que respeita aos anos de experiência, quer à formação e aos cargos ocupados.
A obra será editada pela UMinho Editora e, embora resulte de investigação académica, não pretende constituir-se como livro estritamente científico. “Não pretende ser um livro académico, mas sim um apoio para pessoas que estudam jornalismo e para estudantes de jornalismo. No fundo, é um livro que faz um mapeamento daquilo que são as condições de trabalho da profissão”, esclarece a autora.
As condições são bastante más e aquilo de que os jornalistas se queixam não é tanto do jornalismo em si, mas das condições em que o exercem
As conclusões traçam um quadro inquietante. “As condições são bastante más e aquilo de que os jornalistas se queixam não é tanto do jornalismo em si, mas das condições em que o exercem”, conclui a autora. A precariedade não se manifesta sobretudo ao nível do vínculo laboral, uma vez que a maioria dos entrevistados detém contratos estáveis com as respetivas redações. Ainda assim, o sentimento dominante é de insegurança. Muitos referem sentir-se “apenas um número”, tendo assistido a despedimentos coletivos que alimentam um receio permanente de instabilidade.
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A investigadora identificou, igualmente, salários baixos e condições frágeis para o exercício da profissão. A média remuneratória da amostra situa-se nos 1.400 euros mensais, valor que, embora não seja dos mais reduzidos no panorama nacional, reflete as características específicas do grupo estudado, que inclui profissionais em fase avançada de carreira.
O salário mais elevado registado atinge os três mil euros mensais, realidade que não é representativa do conjunto da profissão. Em contraste, vários jornalistas auferem entre 700 e 900 euros, relatando que o rendimento não chega para cobrir as despesas mensais.
Há jornalistas que trabalham há 20 anos, 25 anos e que ainda assim continuam a recorrer à ajuda de familiares para poder fazer face às despesas
Há casos de profissionais com duas décadas ou mais de experiência que continuam a depender do apoio familiar para sobreviver. “Há vários casos de pessoas que tendo uma profissão já há muito tempo, jornalistas que trabalham há 20 anos, 25 anos e que ainda assim continuam a recorrer à ajuda de familiares para poder fazer face às despesas. Muitos deles vivem em Lisboa, trabalham para redações nacionais, não são aumentados há 20 anos e, portanto, não conseguem fazer face às despesas e ao aumento do custo de vida”, destaca Rita Araújo.
“A maior parte deles diz que o salário não era um salário mau há 15 anos, mas agora, face ao valor das coisas, precisaria de ser aumentado.” A ausência de progressão na carreira surge, assim, como uma das queixas mais recorrentes.
O jornalista super-herói e a normalização da violência
O título do livro nasce de uma expressão utilizada por vários entrevistados, que descrevem o jornalismo como um “rolo compressor”. Alguns comparam-se a um hamster a correr incessantemente na roda. A metáfora ilustra o esforço emocional permanente que carregam, resultante não apenas das condições laborais marcadas pela precariedade, mas também da natureza dos temas abordados, das fontes com quem interagem e de uma cultura profissional que ainda sustenta a ideia de que o jornalista deve vestir uma capa de resistência e enfrentar as adversidades com impermeabilidade emocional.
A violência constituiu uma das dimensões centrais da investigação. “Quase todos os jornalistas da amostra referiram já ter sido vítimas de violência física ou verbal. A violência verbal, em particular, tende a ser menosprezada e normalizada no interior das redações, associada a determinados contextos como a cobertura de eventos desportivos ou campanhas políticas”, revela a investigadora.
Quase todos os jornalistas da amostra referiram já ter sido vítimas de violência física ou verbal
Um dado particularmente inquietante emerge dos testemunhos: “parte significativa dos jornalistas identifica o interior da própria redação como o espaço onde mais se sente violência, sobretudo de natureza psicológica”, observa Rita Araújo, acrescentando que “relatam ameaças e pressões exercidas por chefias, frequentemente motivadas por interesses comerciais, designadamente quando recusam publicar conteúdos que não consideram possuir valor noticioso”.
Em alguns casos, essas pressões aproximam-se do assédio. Um em cada cinco jornalistas admite ter enfrentado situações que constituíram ameaça concreta à sua segurança ou que culminaram em agressões, conclui o estudo.
Investigadora quis perceber como jornalistas lidam com as questões emocionais
A motivação da investigadora tem também um traço biográfico. Tendo tido uma breve experiência como jornalista estagiária, considera essencial compreender as condições em que a profissão é exercida para melhor interpretar o produto informativo que chega aos leitores. No espaço público, analisa, “é frequente a crítica ao trabalho jornalístico sem que se conheçam os bastidores e as circunstâncias que moldam a prática diária”, recorda Rita Araújo.
“É importante perceber que os jornalistas são pessoas como as outras, também têm as suas dinâmicas familiares, têm as suas obrigações, e muitas vezes, quando estão a prestar ajuda às populações, eles próprios estão a lidar com as suas questões pessoais.” A profissão, sublinha, “vive sob múltiplas ameaças, sejam comerciais ou políticas, sendo que a precariedade amplia a exposição a pressões externas”.
O estudo procurou ainda compreender, em particular no período pós-pandemia, de que modo os jornalistas gerem as suas emoções no exercício profissional. Muitos dos entrevistados revelaram surpresa perante o conceito de esforço emocional. Embora já estudado internacionalmente, nunca havia sido aplicado, tanto quanto é do conhecimento da autora, num estudo em Portugal. A investigação demonstra que a ideia de imparcialidade absoluta e de neutralidade emocional ensinada na formação jornalística não corresponde à realidade vivida nas redações. O jornalista transporta uma carga emocional que precisa de saber gerir.
Contudo, essa gestão é, na maioria das vezes, solitária. Falta apoio institucional estruturado. Durante a pandemia, apenas uma redação privada, entre as representadas na amostra, disponibilizou apoio psicológico aos seus profissionais.
Vinte dos 50 jornalistas entrevistados assumem já ter ponderado, ou ponderar frequentemente, abandonar a profissão.
A maioria dos jornalistas entrevistados trabalha na imprensa escrita, num total de 30 profissionais, seguindo-se a rádio com oito, a televisão com cinco, os meios alternativos com cinco e a agência Lusa com dois. O jornalista mais jovem tem 21 anos e o mais velho 61. A experiência profissional varia entre um e 42 anos de carreira. Quanto ao vínculo laboral, 43 detêm posições permanentes, quatro são freelancers, dois têm contratos temporários e uma jornalista exerce funções com contrato de prestação de serviços.
O retrato que emerge é o de uma profissão em esforço permanente, esmagada entre exigências crescentes, recursos limitados e uma cultura que ainda glorifica a resistência individual. O rolo compressor não é apenas metáfora: é a imagem de um quotidiano que corrói silenciosamente aqueles que sustentam o direito coletivo à informação.










