Três por Todos
Na "ilha" do Mondego, pedem-se soluções contra novas cheias. “A população da Ereira já não pode fazer nada”
26 mar, 2026 - 19:52 • Alexandre Abrantes Neves
A limpeza das cheias já terminou, mas o medo de catástrofes semelhantes no futuro é muito e a população diz não ver respostas a longo prazo para os problemas do Mondego. Na Ereira, os acessos estiveram cortados durante 15 dias – comida e medicamentos só chegavam através de barco.
O caminho que Mauro faz de carro é uma vitória, se puxar a fita atrás cerca de dois meses. “Tudo isto era água”, enquanto conduz a Renascença por mais de meia dúzia de ruas, junto à praia fluvial do Mondego da Ereira. No início de fevereiro, estes 600 habitantes ficaram isolados quando a água do rio transbordou e cortou todas as vias para entrar e sair. Viveram numa ilha durante duas semanas.
“Entrávamos e saíamos no camião do Exército. Depois, o camião deixou de conseguir circular, foi na lancha híbrida dos fuzileiros. Ou então, como alternativa, os botes dos fuzileiros do outro lado da aldeia, junto à ponte antiga”, recorda, enquanto aponta para um descampado que já serviu de “marina” e onde hoje se vê apenas vegetação fustigada pela lama.
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Naqueles dias, a Ereira ficou transformada numa “aldeia em estado de emergência”. Tudo era estranho – o silêncio nas ruas, os carros amontoados nas zonas mais altas da freguesia e até os boletins de voto da segunda volta das presidenciais tiveram de vir e voltar de barco (e com uma das maiores afluências de sempre na freguesia).
Nas primeiras horas das cheias, o principal medo foi a possibilidade de faltar luz, água canalizada e telecomunicações, bem como comida e medicamentos. Felizmente, nada disso aconteceu – em grande parte, também devido ao exército e aos voluntários da Cruz Vermelha Portuguesa.
“Tivemos a ajuda dos meus fornecedores, que traziam a mercadoria até à Ponte de Verride. E depois o Exército, os bombeiros, dois jovens da Ereira, com barcos e que foram incansáveis. Bastava eu ligar e, em cinco minutos, estavam lá para trazer a mercadoria para a loja”, relembra Paula, a proprietária do único minimercado da Ereira.
As chuvas do início deste ano empurraram-na quase automaticamente para cheias de 2001. Há 25 anos, a água ultrapassou a barreira dos 1,80 metros na loja e perdeu quase tudo. Desta feita, foi diferente: o rio chegou apenas aos 40 centímetros de altura e, nessa altura, já Paula tinha retirado tudo do estabelecimento.
“A Junta de Freguesia avisou-nos com tempo. Assim que a água começou a entrar ali pertinho da minha loja, tirei tudo para uma garagem que tenho na parte de trás. E foi aí que eu estive a atender as minhas clientes”.
E, naqueles dias, “atender” foi sinónimo de ajudar e ser ajudado.
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“O povo da Ereira é muito unido. Os vizinhos todos a perguntar se era preciso alguma coisa, está sempre tudo disponível a ajudar uns aos outros”, elogia, com os braços à volta do tronco e a completar o sorriso na cara.
Os problemas nos diques e a falta de bombas no rio
Junto à praia fluvial da Ereira, os vestígios das cheias já são poucos. As galochas já não são precisas para andar junto ao Mondego e até os muros já têm poucos vestígios de lama.
“Assim que a água desceu, tivemos logo voluntários da Cruz Vermelha, voluntários de escuteiros do município. E, dois dias depois da água ter baixado, já tínhamos as estradas limpas, já estávamos praticamente na normalidade”.
Mauro Coelho, presidente da Assembleia de Freguesia, lamenta, no entanto, que a solidariedade não venha acompanhada de responsabilidade, principalmente da administração central.
“Quando as coisas passam, parece que cai tudo num esquecimento. Continua sem se falar na manutenção dos diques, no desassoreamento do rio, na estação elevatória do Foja – deveria ter seis bombas, tem só uma e, durante a maior parte do tempo da cheia, não funcionou. E esta é a parte que nos preocupa.”
A nível de culturas, não houve volumes elevados destruídos, mas os solos ficaram deteriorados e os próximos meses podem ser difíceis. “As próximas culturas do arroz, do milho e de outras culturas também, vão atrasar e isso vai afetar certamente na produção.”
Também aí o Estado pode ajudar, mas pouco ou nada tem chegado a nível de apoios. E, para Mauro, a culpa não é nem da autarquia, nem da junta de freguesia – e, muito menos, da população.
“O que nós podemos deixar limpo, temos vindo a limpar. Não há nada que a população da Ereira possa fazer agora”. Só resta esperar.
Até sexta-feira, a Renascença está na estrada com a iniciativa solidária Três por Todos, que vai passar por Alcácer do Sal, Coimbra e Leiria. O objetivo é ajudar as vítimas das tempestades que, em janeiro e fevereiro, devastaram várias regiões do país. Todos os donativos angariados revertem para a Cáritas Portuguesa.

















