Três por Todos

Kristin ainda traz voluntários até Leiria. "Não é por ter passado dois meses que a situação está resolvida"

27 mar, 2026 - 20:01 • Alexandre Abrantes Neves

No Estádio de Leiria, a autarquia organiza a montagem e distribuição de cabazes alimentares, alguns até com mensagens de esperança para as pessoas ainda fragilizadas pelo mau tempo. Entre os voluntários, a vontade de ajudar não esmorece: "Ainda é muito surpreendente quando começamos a ver árvores completamente partidas".

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Em Leiria, continuam a chegar voluntários. "Não é por ter passado dois meses que a situação está resolvida"
Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

Os montes de telhas que antes se acumulavam junto à porta 10 do Estádio de Leiria no início de fevereiro cedem agora o lugar a grupos de voluntários que, logo de manhã, recebem o “briefing” dos funcionários municipais sobre a ronda a fazer pela autarquia.

“As pessoas, e aquilo que vocês vão perceber, é que mais do que o cabaz alimentar, as pessoas gostam muito de vos receber e sentir a companhia”, relata Filipa Soledad, diretora de coesão social da Câmara Municipal de Leiria.

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Hoje são cerca de 30 voluntários, ao abrigo de um programa de responsabilidade social de uma das maiores consultoras do país, com serviços jurídicos, tecnológicos e de estratégia. Vão montar e entregar cabazes alimentares e de produtos de higiene.

“O cabaz é personalizado, tendo em conta o número de crianças, a idade das crianças, se há idosos ou não… É uma forma de adequarmos aquilo que foi a solidariedade de quem doou os bens alimentares com as necessidades das pessoas”.

O Estádio de Leiria continua com toneladas de alimentos para distribuir pelas aldeias da autarquia. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
O Estádio de Leiria continua com toneladas de alimentos para distribuir pelas aldeias da autarquia. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
A recolha de alimentos e produtos de higiene terminou na semana passada, por questões de organização. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
A recolha de alimentos e produtos de higiene terminou na semana passada, por questões de organização. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Esta sexta-feira, um grupo de 30 voluntários da consultora Deloitte esteve responsável por organizar e entregar cabazes para Lagoa de Ervideira. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Esta sexta-feira, um grupo de 30 voluntários da consultora Deloitte esteve responsável por organizar e entregar cabazes para Lagoa de Ervideira. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
A autarquia garante continuar a operação "Reerguer Leiria" pelo tempo que for necessário. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
A autarquia garante continuar a operação "Reerguer Leiria" pelo tempo que for necessário. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

E, desta vez, os cabazes trazem um presente especial. “Essencialmente crianças e jovens, as pessoas que doavam deixavam-nos mensagens de força, de esperança. E guardámos todas numa caixinha especial que agora estamos a retribuir e a dar a quem vai receber os cabazes”.

Há praticamente dois meses, a 28 de janeiro, o país demorou a perceber o impacto da tempestade Kristin em Leiria, mas assim que as primeiras imagens circularam pelas redes sociais e pela imprensa, a onda de solidariedade encheu a cidade durante várias semanas.

De lá para cá, o número tem descido, mas os voluntários não desapareceram e, agora, a autarquia até acredita estar no ponto ideal para não cair em desorganização.

“Se em emergência tínhamos muito mais voluntários – porque tínhamos também muito mais bens para distribuir e tínhamos muito mais necessidades –, neste momento tentamos organizar, mas continuamos a ter esta solidariedade nacional e das empresas também para virem apoiar”, aponta Filipa Soledad.

A surpresa de ainda ver destruição

Acabada a reunião introdutória, é tempo de pôr as mãos à obra. A porta 10 do estádio (onde as lonas ainda esvoaçam, desde que foram rasgadas à força a 28 de janeiro) fica transformada num autêntico parque de estacionamento de carrinhas brancas. Em cada uma delas, dezenas de cabazes ficam encaixados num puzzle difícil de montar e ainda mais de desmontar: refrigerantes, águas, massas, arroz, enlatadas, leite em pó, papas e até comida de cão, encontra-se de tudo um pouco por aqui.

Tudo pronto para arrancar, o grupo é dividido ao meio: metade vão para a Lagoa da Ervideira, os outros ficam no Estádio a preparar mais cartazes. Seja de um lado ou de outro, a mesma vontade de ajudar.

“Todos motivados, com certeza. Desde a primeira hora todas as pessoas, a grande maioria inscreveu-se, quis vir”, conta à Renascença Afonso Arnaldo, do gabinete de responsabilidade social da Deloitte.

“Tentámos conciliar duas coisas. Passarmos um dia juntos e passar um dia com significado. E, no caso, esta foi uma área afetada pelas tempestades recentes e pensámos que poderia ser necessário mão de obra.”

"Este assunto não pode morrer". Sónia Tavares no Três por Todos
"Este assunto não pode morrer". Sónia Tavares no Três por Todos

Além deste grupo a trabalhar nos cabazes, outras 70 pessoas também se juntaram à iniciativa e ficaram a plantar pinheiros na Lagoa da Ervideira. Vieram de Lisboa e do Porto – e, ainda nem tinham chegado a Leiria, e já a visão a partir da autoestrada foi suficiente para os deixar impressionados.

Ainda é muito surpreendente quando começamos a ver árvores completamente partidas, um cenário completamente devastador. Aliás, nós vínhamos no autocarro a comentar isso mesmo – foi uma calamidade e nem parece que estamos em Portugal”, recorda Daniel Monteiro, outro dos voluntários.

Ao lado, Marta vai empacotando e desempacotando conservas, sem desanimar – a vontade de ajudar de Marta não desaparece à medida que o tempo passa. “Continuamos a saber que isto aconteceu e continuam a ter impacto. Não é por ter passado dois meses que, de repente, a situação está resolvida. É um trabalho contínuo e estamos a ajudar naquilo que conseguimos”.


A Renascença esteve na estrada com a iniciativa solidária Três por Todos, que vai passar por Alcácer do Sal, Coimbra e Leiria. O objetivo é ajudar as vítimas das tempestades que, em janeiro e fevereiro, devastaram várias regiões do país. Todos os donativos angariados revertem para a Cáritas Portuguesa.

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