Porto

Americanos contra Trump nos Aliados. "Nunca pensei um dia ver a América assim"

28 mar, 2026 - 18:05 • André Rodrigues

Manifestação “No Kings” juntou cerca de 200 norte-americanos na Avenida dos Aliados, para contestar políticas da administração Trump. Desde o ICE à guerra no Irão.

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Quando Trump voltou à Casa Branca, nós saímos”. A confissão é de Leslie Adler, natural de Minneapolis, a cidade do Minnesota que, no início do ano, virou notícia por causa da morte de Renee Good e Alex Pretti, ambos baleados por agentes federais de imigração (ICE).

Leslie viveu 40 anos da sua vida em Minneapolis. Foi lá que nasceu, casou e criou os filhos.

“Adoramos a nossa comunidade, mas não conseguia ficar num país governado por Donald Trump”, diz, lembrando o momento em que percebeu que tinha de fazer as malas e partir: “Quando ele ganhou naquele dia, soube que tinha de sair dos Estados Unidos.”

A mesma urgência sentiu Michael Pivovar, também natural de Minneapolis. Vive em Braga há cerca de um ano e ainda está a aprender português.

Por isso, preferiu manter a conversação em inglês. Explica que ele e a mulher tinham o plano de emigrar “quando os filhos fossem mais velhos”.

Mas a reeleição de Trump acelerou tudo. “Logo após as eleições disse: ‘Não consigo passar por isto outra vez.’ Já tínhamos passado por isto em 2016.

Dias depois, a pergunta da mulher: “E Portugal?” A resposta tornou‑se destino. “Ela pesquisou, decidiu‑se por Braga. Tomámos a decisão em novembro de 2024.”

Aliados contra ICE e guerra no Irão

Robert Glassburner, um dos organizadores da manifestação “No Kings” descreve o alcance do protesto: “Vemos cartazes que contestam a administração como um todo, não apenas na política externa, mas também internamente.”

No plano interno, este músico da Orquestra Sinfónico do Porto aponta o ICE como símbolo de abuso: “Não estão identificados, estão a sequestrar pessoas. Têm quotas. Não posso aceitar isso nos Estados Unidos.”

Para além da imigração, Robert fala de recuos em direitos civis e de medidas estatais que, diz, “atingem minorias, como as pessoas trans”, citando exemplos do Arkansas, de onde chegou a Portugal em 1993.

No plano externo, Robert aponta o conflito no Médio Oriente: “O que me preocupa é que agora a Ucrânia já está esquecida” e teme “uma operação sem fim” no Irão, com custos globais.

Na Avenida dos Aliados, mesmo de frente para a Câmara do Porto, a mensagem é clara: “A maioria dos norte‑americanos não quer mais uma guerra.

“As sondagens indicam que pelo menos 60% das pessoas nos Estados Unidos estão contra as políticas atuais do governo”, afirma Glassburner, defendendo que o protesto quer “enviar essa mensagem”.

Apesar de não resignado, Robert reconhece: "Nunca pensei um dia ver a América assim!"

Há, ainda, quem prefira sublinhar o tom de preocupação mais do que de raiva contra a administração.

“Não é uma república perfeita, mas é ambiciosa”, diz John Hagen, natural do Vermont e a viver em Portugal há sete meses.

John centra a crítica no princípio do Estado de direito.

“O nosso país foi fundado como uma república representativa, regida pelo Estado de direito e pela democracia, e o que vemos com a administração Trump — do ICE e da imigração à guerra no Irão — é um desrespeito pela Constituição.

Para este norte-americano, o que está em causa é muito mais do que disputa política: “A nível moral e ético, ele é um indivíduo fundamentalmente imoral e antiético.

No entanto, John reconhece a legitimidade eleitoral de 2024 e aponta outra fragilidade: a abstenção. “Havia três grupos: quem votou em Trump, quem votou no adversário e quem simplesmente não votou — quase tão grande como os outros dois.

E isso, diz, revela “cansaço e afastamento”. Por isso, conclui, “precisamos de eventos como este, para que as pessoas sintam que não estão sozinhas.

“O maior produto dos EUA são as armas”

Nascida em Washington, Laura Curry foi professora no Oregon, na Califórnia e em Nova Iorque. E resume o seu diagnóstico em duas linhas: “O governo tem vindo a crescer. As despesas com a guerra significam menos direitos para nós, menos serviços sociais para nós.

As desigualdades completam o quadro: “Ganhamos cada vez menos em comparação com o 1% mais rico dos Estados Unidos”.

Questionada sobre se está surpreendida com o facto de os Estados Unidos estarem diretamente envolvidos em mais uma guerra, desta vez no Médio Oriente, Laura desvaloriza o discurso do Presidente norte-americano que, ora critica Biden por não ter travado a Rússia na Ucrânia, ora insiste ter acabado com oito guerras, ora lança ataques ao Irão.

Contradição? “O maior produto dos Estados Unidos são as armas”. E isso empurra o país para a guerra: “Se ganhamos quase tudo com armas, faz sentido que continuemos a provocar a guerra”.

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