Entrevista | Um ano depois do apagão

"Temos de estar preparados para viver 15 dias sem energia". Apagão não deve ser encarado como "problema isolado"

28 abr, 2026 - 06:30 • João Carlos Malta

Investigadora na área da energia e segurança alerta que os sistemas elétricos são também alvos geopolíticos e que as ameaças estão a aumentar. E como as mudanças para robustecer a segurança da rede demoram décadas, Carla Fernandes defende: as pessoas têm de mudar comportamentos. "Isso é parte da educação energética, uma consciencialização da importância da energia."

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Há um ano, Portugal parou. Um apagão (foi palavra do ano para a Porto Editora) como nunca se tinha vivido deixou o país em suspenso. O colapso ibérico de 28 de abril de 2025 foi mesmo um acontecimento sem precedentes na história do sistema elétrico nacional.

À primeira reação de desorientação perante o desconhecido, sucederam-se, nos dias e meses seguintes, tentativas de dar uma resposta ao fenómeno — que expôs um conjunto alargado de vulnerabilidades do sistema elétrico e também da falta de preparação da população para viver sem acesso a energia.

Um ano depois, em entrevista à Renascença, Carla Fernandes, investigadora especialista em energia e segurança da Universidade Nova de Lisboa, fala das mudanças que este acontecimento disruptor gerou e reconhece que, se a mesma situação ocorresse hoje, poderíamos ter alguns dos mesmos problemas. Ressalva, no entanto, que a mudança que começou há um ano pode levar décadas a implementar.

Até lá, defende, há que consciencializar os portugueses: estes fenómenos podem não ser episódicos e devemos aprender a sobreviver algum tempo sem acesso a energia.

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O que é que aprendemos com o apagão de há um ano? A comunicação e coordenação entre as entidades funcionou ou poder-se-ia ter agido de forma diferente nas primeiras horas do apagão?

Um ano depois do apagão, e se eu fosse a avaliar o sistema energético português, que é para isso que é importante olharmos, nós até ao apagão olhávamos para ele em termos de aumento de renováveis, em termos de transição energética, mas este evento funcionou como um ponto de ruptura. Portanto, obrigou Portugal a deslocar o foco da segurança do sistema elétrico, baseado nesse crescimento de renováveis, para a estabilidade operacional e para a capacidade de resposta a perturbações na rede.

Isso mostra uma aprendizagem, mostra uma maturidade também em termos de medidas, mostra que Portugal, pelo menos no enquadramento conceptual de energia, percebeu que não basta produzir energia limpa ou cumprir metas climáticas. É necessário garantir que essa energia pode ser integrada, distribuída de forma segura para que não haja novamente situações como esta.

Em julho de 2025 foi lançado um pacote de medidas, e essas medidas mostram exatamente o que eu estava a referir, a necessidade de haver um sistema resiliente.

Esse pacote de medidas começou a ser implementado e obviamente quando olhamos para uma alteração do sistema, nós temos que pensar que são necessários, muitas vezes, meses e décadas para ser alterado. Ele começou a ser alterado, não o foi de uma forma homogénea, nem está concluído.

Nós sabemos que parte das intervenções na rede ainda está em curso, há investimentos, por exemplo, em relação à harmonização e flexibilidade do sistema, que embora iniciadas ainda não atingiram as metas.

Mas um ano depois, estamos mais preparados para responder a um apagão? O investimento, anunciado, é suficiente?

Há aqui uma questão que vou dividir em duas partes. Por um lado, Portugal olhou para este evento com preocupação e reforçou medidas para tentar evitar ou restringir o impacto de eventos similares.

Mas, paralelamente, o que acontece é que o nosso sistema elétrico se tornou cada vez mais renovável, praticamente dominado por fontes solares e eólicas em certos períodos, e embora esta evolução seja positiva, do ponto de vista climático e geopolítico, também aumentou a exigência técnica sobre a rede.

Ou seja, temos um sistema com alta penetração de renováveis, mas que depende da capacidade de equilíbrio em tempo real. E isso faz com que nós tenhamos um sistema mais limpo, mas também mais sensível a variações bruscas e falhas em cadeia.

Portanto, o nosso sistema não está totalmente resiliente como devia estar com estas medidas. Por outro lado, há várias dimensões que deviam ter sido apostas, há aqui um problema histórico nesta situação.

Nós não devemos olhar para o apagão como um problema isolado. Muitas vezes, foi comunicado como um problema técnico de Espanha, não como um problema do sistema ibérico no qual Portugal está integrado. E também um problema de falhas de interligação de Espanha com França, que também afeta Portugal.

E embora haja um aumento de coordenação entre Portugal e Espanha, ainda continuam muito aquém do que deviam estar.

Mas voltando à questão, estamos mais preparados? Se acontecesse hoje um evento igual ao de 28 de abril de 2025, as consequências seriam semelhantes?

Eu diria que, se fizesse um balanço, ele é ambivalente. Por um lado, nós estamos mais preparados do que estávamos na altura. Pelo menos, temos uma consciência política do risco. Temos mais investimento na rede.

Mas, por outro lado, toda a transformação ainda está em curso, ainda está incompleta. Portanto, a estabilidade da rede ainda não está completa. Por isso, poderia haver, novamente, alguns desafios.

Nós quando pensamos nos desafios é para o país inteiro. E há aqui outra questão também importante, no início deste ano tivemos uma cascata de tempestades, que teve impacto ao nível regional. E esse impacto a nível regional mostrou também que o sistema ainda não está preparado.

Basicamente, depois de vários meses no apagão, nós tivemos um evento, neste caso não foi técnico, foi uma questão natural, que veio mostrar que esse sistema ainda não está preparado.

Há portanto dificuldades de resposta, muitas vezes regionais, mas também vejo aqui um problema ainda mais estrutural. É a questão da preparação da população. Portanto, o apagão prolongado não é apenas um problema técnico, é também um problema de resiliência social.

E essa não existe? Não estamos, enquanto povo ou sociedade, preparados para responder?

Deu-se mais atenção a essa questão, com planos de contingência, comunicação de emergência, aumento da capacidade de proteção civil em cenários de falha energética. A questão aqui parte da população olhar para este problema como um problema isolado, olhar para este problema como algo que não volta a acontecer.

Não haver uma consciencialização de que o nosso sistema não é totalmente resiliente, e de que nós podemos voltar a ter falhas. E se tivermos falhas, nós não estamos preparados. Portanto, é uma questão também de educação energética de que eu falo há anos.

Há a necessidade de nos prepararmos para viver sem eletricidade, e acho importante haver orientações para serviços essenciais, os hospitais, os transportes e infraestrututuras críticas.

Em relação a infraestruturas críticas e setores-chave para o funcionamento da sociedade estariam preparados para continuar abertos se um apagão se prolongasse por mais de 12 horas?

Foram tomadas várias medidas em alguns hospitais, por exemplo, o São José [em Lisboa] foi um deles. O Hospital de Coimbra também. Eu sei que alguns esforços foram feitos, de forma a tentar que serviços básicos, como é o caso dos hospitais, dos transportes e estruturas críticas, se tornassem mais resilientes.

O que eu acho é que tem de haver mais medidas para tentar perceber se, de facto, essas infraestruturas estão mesmo resilientes.

Mais fiscalização?

Mais fiscalização, fazer mais exercícios para tentar perceber se realmente estamos preparados para um apagão que dure mais que um dia.

Tem que começar a haver uma preparação para que as sociedades e instituições consigam gerir falhas temporárias em efeito de cascata, mas a longo termo, e não apenas de umas horas.

O sistema para que estamos preparados com o aumento dos renováveis, e todas as pessoas querem a transição, torna-o mais resiliente, mas torna-o também mais suscetível e mais vulnerável. Portanto, é preciso prepararmos e preparar essas infraestruturas críticas para essa vulnerabilidade.

A dependência do nosso sistema elétrico de Espanha é uma debilidade ou não? E há forma de contornar?

Esta é uma questão central. Não podemos olhar para Portugal de uma forma isolada. Portugal e Espanha funcionam como uma ilha energética.

É uma debilidade, é uma vulnerabilidade. Ambos têm uma produção baseada em renováveis, mas têm uma interligação com o resto do continente europeu muito limitada. E foi evidente no apagão de 2025.

Quando se fala em ligações, nós estamos a falar com França. Estamos a referir-nos a interligações elétricas de alta tensão entre Espanha e França. Não é diretamente Portugal.

Mas, nós portugueses, dependemos de que essas ligações sejam feitas com o resto da Europa e, primeiramente, passam por Espanha. O que é que devia ser feito, que está em discussão e que não foi feito? Aumentar os projetos entre Espanha e França nos Pirenéus e mais ligações submarinas.

Havia um projeto que era no Golfo de Biscaia, interpenetrador, e esse é fundamental. Evita a questão da dependência entre os Pirenéus e aumenta a capacidade. Mas também há aqui uma questão que é a própria necessidade da França e do governo francês trabalhar juntamente com Portugal e Espanha para que estes projetos existam. Têm havido uma oposição histórica por parte da França a essas ligações, não vendo [os franceses] a necessidade.

Mas há necessidade, sim. É a necessidade de haver maior interligação. Porque a troca de eletricidade que nós temos com o resto do continente é muito limitada. Isso ficou evidente no apagão.

Há especialistas que afastam a ideia de que foi a entrada das renováveis no sistema que levou a este colapso e outros que dizem que criam maior instabilidade no sistema. As vozes dividem-se. Há também quem ache que esta questão se centra apenas no controlo da tensão. Entre todas estas vozes, onde é que se posiciona?

No meio. Eu diria que a questão do apagão não é uma questão de um único fator. Há um conjunto de fatores interligados. A questão das renováveis não pode ser vista isoladamente.

Obviamente que somos pela transição [energética] e temos de aumentar as renováveis no mix energético da Península Ibérica e no caso português. Outra questão é estabilizar a rede com o aumento da expansão das energias renováveis.

É isso que mostra que este é um problema estrutural. É um problema técnico. É um problema que é necessário, obviamente, aumentar. E daí todas as medidas que foram feitas têm a ver com esta questão da intervenção do transporte, do sistema, mas que ainda não atingiram a escala necessária para alterar estruturalmente o perfil do risco.

Uma das medidas que foi tomada logo após o apagão de há um ano foi o aumento do número de barragens com o sistema de “blackstart” [arranque autónomo de centrais sem apoio externo da rede]. Na sua opinião, esse aumento, que passou de duas para quatro barragens, faria com que numa situação análoga à que vivemos há um ano não passemos automaticamente 12 horas?

Acho que o debate não devia ser mais centrais, mas mais capacidade firme e flexível.

Ou seja, como eu tenho explicado, há uma penetração da energia solar e da eólica. Nós sabemos que com mais centrais o sistema pode responder mais rapidamente quando há queda em recursos de produção, mas é necessário também outras soluções. Não é só temos mais centrais.

É preciso mais baterias, mais bombagem hidroelétrica, mais reforço das hídricas existentes e, obviamente, conjugado com mais centrais térmicas de reserva ao backup.

Portugal ainda tem um trabalho a fazer, porque o crescimento das renováveis é mais rápido que o crescimento da capacidade de backup e de harmonização.

E o investimento está a ser suficiente, a esse nível, por parte do Governo?

Eu considero que estamos no bom caminho, porque, obviamente, nós pensamos em estratégias.

Estas são estratégias reativas perante um problema que é um problema crítico do nosso sistema elétrico e do nosso sistema energético. São medidas que têm de ser pensadas sempre a longo prazo e que vão sendo reforçadas. Como qualquer alteração do sistema, ele demora. Nós não podemos pensar que num ano essas medidas podem estar implementadas, porque qualquer alteração do sistema demora muitas vezes até décadas.

Mas estamos num bom caminho, podemos dizer isso.

Há quem diga que a região de Lisboa, pela distância dessas barragens, continua a estar desprotegida?

Obviamente, quando estamos a alterar um sistema, existem partes que podem estar ainda mais vulneráveis, que é o caso de Lisboa. Mas para reforçar esse sistema, é preciso a construção de grandes hídricas.

E como é que nós vamos construir uma grande hídrica perto de Lisboa? É um pouco difícil, não é? Portanto, acabamos por ter zonas mais vulneráveis dentro de Portugal. O que é que se pode fazer para reforçar Lisboa?

Se calhar, haver uma maior articulação entre as centrais, e mais operadores de rede, e garantir que, por exemplo, que as existentes podem ser testadas e integradas para um plano de reparação mais robusto, e reforçar as interligações com Lisboa, por exemplo.

Quais é que foram os maiores problemas que esta situação expôs do nosso sistema elétrico?

Mostrou que nós precisamos de investir mais em processos de segurança, melhorar mais a monitorização do sistema elétrico.

Mostrou que nós devemos olhar para a questão das interligações, sobretudo com a Peninsula ibérica e o resto da Europa, que devemos implementar também mais medidas de consciencialização por parte da população.

Não olharmos só para a questão da energia ou da segurança energética numa ótica de produzir energia mais limpa ou cumprir metas climáticas, mas olhar e garantir que essa energia pode ser integrada, distribuída, de uma forma altamente interdependente.

Isso faz com que nós olhemos para esta questão do apagão como uma questão sistémica, não estamos isolados entre o resto da Europa, daí estas interligações.

E por outro lado, é necessário aprofundar, por exemplo, o harmonização da energia.

Há um ano falou-se da questão de o Estado não controlar a rede elétrica como um fator crítico. A detenção pública é fundamental para a soberania energética? Iria mudar algo neste caso em concreto?

Não. A questão central é a de haver mais reforço e cooperação entre a REN, por exemplo, e a rede elétrica espanhola.

Tem de haver mais partilha de dados em tempo real, tem que haver mais revisão dos protocolos conjuntos e incidentes, porque estamos a falar de um sistema.

Mais importante do que pensarmos na privatização da rede é pensar nessa cooperação entre as duas entidades.

Em 20 anos, este foi considerado o episódio mais grave em termos de falha do sistema na Europa.Este tipo de situação pode tornar-se recorrente ou devemos encarar como um fenómeno raro?

Apesar de ter sido o maior evento em termos da Europa, há alguns países na Europa que já têm apagões sucessivos. Isso tem a ver com a fragilidade do próprio sistema.

Este tipo de eventos ocorre mais frequentemente do que as pessoas podem ocorrer. Podem pensar, ao que pelo menos temos consciência, do que ocorre. Neste caso, foi uma questão técnica.

Eles podem ocorrer por ciberataques, por exemplo, por aumento do calor, por sucessivos fatores. Se nós pensarmos que estamos num processo de transição para as linhas renováveis e o nosso sistema não é resiliente, este tipo de eventos pode ocorrer com mais frequência.

Falou da questão dos ciberataques. Há indícios de que o sistema elétrico esteja a ser encarado cada vez mais como um alvo estratégico em contextos de tensão internacional?

Sim. Nós temos de olhar para a energia, por um lado, como um elemento principal de segurança nacional, da segurança dos cidadãos, da própria economia. E, por outro lado, a energia é um elemento de poder, é um elemento de geopolítica.

E obviamente que um ataque a uma infraestrutura crítica, a um sistema crítico de uma empresa ou de um outro país, é uma forma de destabilizar o próprio país. E, portanto, mostra a importância da energia como um elemento de poder, ou como arma geopolítica contra outro país.

O que é evidente, ao longo dos anos, são vários exemplos de ciberataques, fundamentalmente à Ucrânia.

A União Europeia atualizou a página em relação à segurança energética e destacou a questão da vulnerabilidade dos sistemas, não só os geopolíticos, como o caso do Irão, mas também aos ciberataques. E há a questão também da vulnerabilidade em termos de fenómenos meteorológicos extremos, como tempestades, ou incêndios, ou secas.

Portanto, há uma conciliação por parte da Europa de que os riscos e as ameaças são cada vez maiores para o sistema elétrico.

Disse que o cidadão comum não está preparado e que deve aprender a viver sem acesso à rede elétrica. Mas como é que isso se faz em termos concretos, estando a nossa vida, e isso ficou bastante visível há um ano, tão dependente da energia que temos?

Vou-lhe dar um exemplo (eu falo disso com alunos meus): em 2021, ainda não tínhamos o início de uma crise energética e a Áustria fez campanhas à população com outdoors, com vídeos, com dinâmicas de conscienciliazação por parte dos media, para as pessoas se prepararem para terem um plano B. Se houver um apagão, as pessoas têm um plano B? Se fizerem essa pergunta às pessoas, são raras as que o tenham.

Um plano B não significa que elas estejam preparadas para um mês. Mas que estejam preparadas pelo menos para, imaginemos, 15 dias de interrupção de energia.

E o que é que a Áustria também lançou? Lançou guias de auto-preparação em caso de interrupção de energia, explicando o que é que as pessoas têm de ter em casa, que tipos de alimentos têm de ter, os que duram duas semanas.

Muitas vezes, não se tem a consciencialização, mas se existe uma interrupção de energia, se os serviços básicos, por exemplo, como as farmácias, deixam de funcionar e não há dinheiro, se as pessoas necessitarem de medicamentos, onde é que eles os vão buscar?

É uma pergunta que as pessoas deviam fazer, e se calhar nessa auto-preparação, ter também alguns medicamentos básicos, essenciais para duas semanas, ou mesmo primeiros-socorros.

Pais com crianças também deviam preparar-se para uma possível interrupção de energia. Isso é parte da educação energética, uma consciencialização da importância da energia.

Se as pessoas não pensarem que sem energia não há agricultura, não há economia, não há transporte, não há educação, se não derem essa importância, também não vão dar importância à auto-preparação.

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