Greve geral num gigante call-center. "Não nos podemos dar ao luxo de faltar. Há contas para pagar"

03 jun, 2026 - 16:00 • João Carlos Malta

À porta de uma multinacional que atua em 100 países, muitos concordam com as razões da greve, apesar de o pragmatismo falar mais alto: o dia de salário faz falta no fim do mês. Mas há também quem pense que faz falta mais flexibilidade para despedir, porque "só assim as empresas vão oferecer contratos de maior duração". Os relatos são de equipas com menos 20% a 50% de trabalhadores.

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Passava pouco das 8h30, nesta quarta-feira, quando Artur fez uma pausa no lufa-lufa do atender e fazer chamadas num dos maiores call-centers a operar em Portugal. Em dia de greve geral não faltou. Não porque não concorde com as razões da paralisação, mas porque valores mais altos, neste caso financeiros, se levantaram.

A associação dos call-centers à precariedade, muitas vezes, é direta, mas este jovem de 28 anos rejeita qualquer tipo de pressão para não fazer greve. “Não, foi uma questão de opção. No meu caso, eu não quis perder o dia [de salário], só isso”, explica.

Ainda assim, afirma que concorda com a ideia dos sindicatos de que este pacote laboral aumenta a precariedade. Aliás, acha que está instalada no país.

Em Portugal, são só trabalhos precários os que estão [disponíveis] no mercado. Ainda há dias vi umas notícias a dizer que a taxa de desemprego está a baixar, mas normalmente são sempre trabalhos precários”, lamenta.

Por isso, olha à volta e reflete: “Os trabalhos precários são uma coisa que é rápida, ou seja, uma pessoa trabalha, fica cá pouco tempo e sai. Não retêm talento e as pessoas não ficam cá em Portugal. É um dos grandes problemas do país”, sustenta.

Artur queixa-se da exigência de um trabalho absorvente. “A pressão que nos põem aqui é um bocado absurda. Temos de trabalhar, trabalhar, trabalhar e depois recebemos pouco, também em parte por causa da precariedade”, repete.

O jovem, que está também a fazer uma licenciatura na área da gestão e planeamento do território, afirma que naquela empresa fala-se “muito pouco” do protesto dos trabalhadores. “Eles tentam abafar sempre as greves nestas empresas. Não querem que os funcionários façam greve.”

Um neerlandês que defende despedimentos mais fáceis

No entra e sai à porta desta multinacional — presente em cerca de 100 países, em cinco continentes —, o ambiente é completamente internacional. Em Lisboa, à entrada, numa paragem para um cigarro, está o neerlandês Jochem, de 39 anos, há uma década em Portugal.

Vestido de forma descontraída com calções, t-shirt e sandálias, explica porque é que não faz greve e porque não percebe bem as queixas dos trabalhadores portugueses. Acredita que o mercado nacional necessita de mais flexibilidade.

“Para ser sincero, acho que, neste momento, a legislação portuguesa é uma das mais complicadas no que diz respeito ao despedimento de pessoas. O facto de quererem facilitar o processo não significa que isso seja mau para a economia”, começa por dizer.

O neerlandês crê que quanto mais fácil for o despedimento, mais “as empresas terão facilidade em oferecer contratos de longo prazo”.

“Neste momento, vejo muitas empresas, inclusive aquelas em que trabalham os meus amigos portugueses, que só oferecem contratos de um mês. As empresas estão realmente relutantes em oferecer contratos mais longos porque não se pode ser despedido”, argumenta.

Jochem compara a realidade portuguesa com a dos Países Baixos e diz que naquele país do centro da Europa “é mais fácil despedir”, e que, por isso, “as empresas oferecem mais rapidamente contratos de longa duração ou a longo prazo”.

“Vejo que, especialmente agora, [em Portugal] nós os expatriados continuamos a receber contratos de longa duração. Mas os portugueses e, em particular, nos call-centers — não num call-center específico, mas em todos os call-centers — deviam aceitar o facto de serem despedidos facilmente, porque assim as empresas ofereceriam mais rapidamente contratos de longa duração”, insiste.

E remata: para ele, a segurança laboral chega quando “se faz um bom trabalho”, porque só assim se “consegue manter o emprego".

"Desilusão" com efeitos das greves

Numa empresa com as caraterísticas desta multinacional, que presta serviços de atendimento, suporte técnico, cobrança, soluções digitais ou de "back-office", e em que funcionam várias equipas com funções muito diferentes, em vários turnos — muitas vezes sem relação entre si —, não é fácil perceber e ter dados sobre a adesão a esta greve geral.

Ainda assim, os relatos que a Renascença ouviu referem que as equipas estiveram a trabalhar com menos 20% a 50% das pessoas que as compõem. As justificações são bastante dispares: há quem não tenha dúvidas de que alguns fizeram greve por decisão própria, mas também há quem diga que muitos não conseguiram chegar ao trabalho por falta de transportes.

Isto apesar de a empresa ter dado a possibilidade de os funcionários poderem arranjar meios alternativos para chegar ao posto de trabalho. Depois teriam a possibilidade de imputar o custo à empresa.

Quem foi trabalhar foi Marisa, de 60 anos, italiana e coordenadora da equipa de controlo de qualidade. Razão para não fazer greve? “Desilusão. É este o motivo”.

Há quase 10 anos em Portugal, Marisa diz “perceber o motivo da greve” e está “de acordo”, mas, neste momento, acha que “não vamos ter resultados concretos”.

Diz que ao longo da longa carreira profissional em Itália e em Portugal já viveu várias greves gerais e que perdeu a crença de que podem ter algum efeito. “Já viu como as coisas estão? Não resulta”, lamenta.

Os sindicatos em Portugal falam de um aumento da precariedade e de piores condições para os trabalhadores, como resultado das novas leis laborais, o que para Marisa é colocar precariedade em cima da que já existe.

“Eu vejo a precariedade [que existe] como bastante preocupante. Eu não sei como o Governo não percebe que pessoas jovens, e pessoas de uma certa idade, precisam de estabilidade”, lamenta.

As contas para pagar são quem mais ordena

Uma hora depois, também numa pausa, sai a portuguesa Ana, de 35 anos. Recupera o argumento que o colega Artur usara antes como justificação para ter ido trabalhar.

Há contas para pagar, embora eu esteja solidária com tudo o que está a passar, e esta greve faz todo o sentido”, sublinha.

Mas há sempre um mas. “Há situações em que não nos podemos dar ao luxo de faltar, que é mesmo assim. As contas aparecem ao final do mês e têm de ser pagas. E, parecendo que não, faltando um dia ao trabalho, faz moça ao final do mês. Portanto, é vir e pronto”, explica.

Ainda assim, e sobre o que já leu da reforma no mercado de trabalho prometida pelo Governo, tem uma opinião. “Dá mais liberdade às empresas em si do que, propriamente, segurança aos trabalhadores. Ou seja, nós estamos a regredir muito.”

E o que está a acontecer, para Ana, é simples de definir: “[Estão a] dar mais abertura às empresas de fazerem o que querem e dispensarem as pessoas com mais facilidade”.

“Acho que não faz muito sentido”, remata.

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