Crime

“Olá, tio”: o pedido de socorro em código que permitiu salvar uma menina de 12 anos

11 jun, 2026 - 13:05 • Olímpia Mairos , com Isabel Pacheco

Pré-adolescente conseguiu pedir ajuda sem alertar o suspeito, namorado da mãe. A inteligência da jovem e a sensibilidade de um operador do 112 permitiram à PSP intercetar o homem e impedir o agravamento da situação.

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“Olá, tio.”

Foram estas as primeiras palavras ouvidas por um operador do 112 às 1h35 da madrugada de 2 de maio. Do outro lado da linha estava uma menina de 12 anos que, sem poder pedir ajuda de forma direta, encontrara uma forma engenhosa de denunciar o homem que seguia ao seu lado no carro e que estaria a ter comportamentos impróprios para consigo.

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O caso, agora conhecido publicamente, terminou com a intervenção da Polícia de Segurança Pública (PSP), a identificação do suspeito e a abertura de um processo que está atualmente sob investigação do Ministério Público.

Quando recebeu a chamada, o operador informou a jovem de que tinha ligado para o número nacional de emergência e não para o familiar que procurava. No entanto, a resposta da menor revelou que aquela não era uma chamada normal.

“Sim, eu sei tio, estou a ir para casa agora e estou com a minha mãe no carro”, respondeu a menina, insistindo em tratar o agente por "tio". A mãe estava, de facto, no carro, alegadamente a dormir.

Em declarações à Renascença, o diretor operacional do Serviço 112 da PSP, superintendente Carlos Martins, explica que foi precisamente essa insistência que despertou a atenção do operador.

“Ela insistiu que sabia e que queria falar com o tio”, recorda o responsável, acrescentando que o agente percebeu rapidamente que a jovem estava a tentar comunicar algo sem o poder dizer abertamente.

Perante a suspeita de que a menor se encontrava em perigo, o operador adaptou imediatamente a sua estratégia. Em vez de corrigir a jovem, entrou na narrativa que ela própria tinha criado, simulando uma conversa familiar para evitar qualquer suspeita por parte das pessoas que a acompanhavam.

“O próprio operador adaptou a sua conversa, criando ali um cenário fictício para que ninguém se apercebesse que ela estaria a falar com o 112”, explica Carlos Martins.

Conversa em código permitiu localizar a vítima

Durante cerca de 15 minutos, a chamada prosseguiu como se se tratasse de uma conversa entre familiares. Enquanto isso, a menor foi transmitindo informações fundamentais para a intervenção policial.

Segundo o diretor operacional do 112, a jovem conseguiu indicar “não só a localização onde estaria dentro de um veículo, a localização desse veículo e do seu local de destino, bem como que estaria alguém dentro do carro com comportamentos menos próprios para com ela”.

Ao mesmo tempo, o operador mantinha contacto com as estruturas policiais responsáveis pela intervenção.

“Foi contactado o Comando Metropolitano de Lisboa para que se dirigissem os meios mais adequados para o local de destino”, relata Carlos Martins.

A coordenação revelou-se eficaz. “Quando a viatura chegou ao local de destino, já lá estavam os meios policiais à sua espera”, acrescenta.

A intervenção permitiu identificar o suspeito, namorado da mãe da criança. Posteriormente, a mãe apresentou queixa por tentativa de abuso sexual e o caso passou para a esfera do Ministério Público.

PSP distingue atuação do operador

A forma como o operador geriu a situação levou a PSP a atribuir-lhe um louvor público.

No documento, a força de segurança destaca a sua capacidade de análise e a forma como conseguiu proteger uma potencial vítima numa situação de elevado risco.

“Pela sua perspicácia, astúcia, ponderação, elevado sentido de responsabilidade e de dever de proteção de uma potencial vítima em necessidade imediata de ajuda (...), é o trabalho do agente digno de ser agraciado por este público louvor.”

A PSP considera ainda que a atuação do profissional deve servir “de exemplo para os seus pares e futuras gerações de polícias”.

“A melhor solução é ligar para o 112”

Questionado pela Renascença sobre os conselhos que podem ser deixados a quem se encontre numa situação semelhante, o subintendente Carlos Martins é claro: pedir ajuda, mesmo sem poder falar livremente, continua a ser a melhor opção.

“Se a pessoa não puder falar, mas tiver necessidade imediata de ajuda, deve contactar o 112”, afirma.

Segundo o responsável, os operadores estão preparados para adaptar a comunicação às circunstâncias e procurar compreender o que está a acontecer através de perguntas discretas e respostas simples.

“As perguntas serão sempre feitas de uma maneira muito discreta, para que as respostas sejam o mais simples possível”, explica, acrescentando que o objetivo é obter informações essenciais sem alertar um eventual agressor.

Embora reconheça que não existe uma formação específica para todas as situações imagináveis, Carlos Martins destaca que a experiência e a sensibilidade dos profissionais desempenham um papel decisivo.

“É humanamente impossível estar a simular todas as situações que poderão acontecer”, afirma, sublinhando que muitas destas ocorrências exigem capacidade de adaptação e leitura rápida dos sinais transmitidos pela vítima.

Criança com “capacidade de raciocínio extraordinária”

Apesar de já terem ocorrido outros pedidos de ajuda disfarçados, o diretor operacional do 112 admite que este caso se destaca pela idade da vítima e pela forma como conseguiu sustentar toda a encenação.

“Não é inédito que alguém ligue para o 112 sem poder falar e crie uma história para que o operador perceba que precisa de ajuda. Contudo, numa criança desta idade é realmente muito raro.”

Depois de mais de duas décadas ligadas ao serviço de emergência, o subintendente não esconde a admiração pela maturidade demonstrada pela menor.

“Esta rapariga revelou ser uma pessoa extremamente inteligente e com uma capacidade de raciocínio extraordinária”, afirma.

O responsável confessa mesmo não se recordar de um caso semelhante ao longo da sua carreira.

“Não me lembro, nos mais de vinte anos que tenho de serviço, de um caso tão raro, em que a menor tinha um discurso completamente estruturado e se adaptou muito bem àquilo que o operador lhe estava a perguntar.”

Para Carlos Martins, foi precisamente essa combinação entre a inteligência da jovem e a sensibilidade do operador que permitiu evitar consequências potencialmente mais graves.

“Foi realmente a perspicácia daquela criança que mais me impressionou em toda esta história», conclui.

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