"Precisam de psicólogos, mas não têm verba". Jovens denunciam falta de estágios, Governo admite constrangimentos
12 jun, 2026 - 06:00 • Beatriz Lopes
Concluir um mestrado já não basta para exercer algumas profissões reguladas em Portugal. Na Psicologia, o acesso à profissão depende da realização de um estágio profissional obrigatório de 12 meses. Apesar de a Ordem dos Psicólogos Portugueses garantir que mais de 1.500 psicólogos iniciaram este percurso em 2025, recém-formados denunciam dificuldades em encontrar entidades de acolhimento e apontam a falta de financiamento como um dos principais obstáculos.
Aos 24 anos, Inês Rodrigues concluiu uma licenciatura em Psicologia, um mestrado em Psicologia Forense, uma pós-graduação em Psicologia Policial e um estágio curricular de nove meses no Estabelecimento Prisional de Setúbal. Apesar do percurso académico, continua sem conseguir dar o último passo necessário para exercer autonomamente a profissão.
Há mais de oito meses que Inês procura uma entidade onde possa realizar o Ano Profissional Júnior, estágio obrigatório exigido para o acesso pleno à profissão de psicólogo. Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), este estágio tem a duração de 12 meses e um mínimo de 1.600 horas de prática supervisionada.
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"Existe um percurso obrigatório que somos obrigados a cumprir, mas depois não existem mecanismos que garantam a continuidade desse percurso. Exigem-nos um estágio profissional, mas não criam as condições necessárias para que ele aconteça", diz Inês Rodrigues à Renascença.
A legislação determina que este estágio seja remunerado. Em 2026, a remuneração mínima prevista corresponde a 1.150 euros brutos mensais, cabendo à entidade de acolhimento assegurar esse pagamento.
Há instituições interessadas, mas sem capacidade para receber estagiários
Inês Rodrigues rejeita a ideia de que a dificuldade esteja relacionada com ausência de necessidades no terreno.
Ao longo dos últimos meses contactou autarquias, IPSS, unidades de saúde e comissões de proteção de crianças e jovens.
"Todas as instituições com que entrei em contacto precisam de mais profissionais. Há necessidade de recursos humanos. O problema é que não têm financiamento para assegurar os estágios. É aí que todo o processo falha."
Segundo a jovem psicóloga, as respostas recebidas seguem frequentemente o mesmo padrão: reconhecimento da necessidade de profissionais, mas ausência de condições financeiras para acolher estagiários.
"Houve instituições que me disseram que valorizavam muito o meu percurso e as minhas qualificações, mas que simplesmente não tinham condições para me receber. É duro ouvir isso."
Segundo Inês Rodrigues, a situação não afeta apenas casos isolados. Entre os colegas que concluíram recentemente a formação, muitos continuam sem conseguir iniciar o estágio obrigatório.
"Da minha turma saíram cerca de 30 mestres e, tanto quanto sei, nenhum conseguiu ainda um estágio profissional."
E acrescenta: "Têm saído muitas notícias sobre pessoas com mestrado serem mais valorizadas, mas nós nem sequer temos a oportunidade de entrar no mercado de trabalho."
Além da falta de oportunidades, Inês critica o próprio processo de procura. Embora a Ordem disponibilize uma lista de entidades acreditadas para acolher estagiários, cabe aos candidatos contactar cada uma delas individualmente para confirmar se existem vagas abertas.
"Estamos a falar de mais de 500 instituições e temos de ir uma a uma perceber se estão disponíveis para receber estagiários."
Uma das críticas centra-se no modelo de financiamento disponível para muitas entidades. Atualmente, vários programas de estágios apoiados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) têm uma duração inferior ao período exigido pela Ordem dos Psicólogos para acesso pleno à profissão.
“Estamos a falar de um estágio de 12 meses, mas o apoio cobre apenas seis meses. Para muitas instituições, sobretudo IPSS e entidades públicas, é impossível suportar os restantes encargos.”
A dificuldade em encontrar estágio tem também um impacto pessoal.
Inês Rodrigues trabalha desde os 18 anos. Ao longo da formação conciliou os estudos com vários empregos temporários, como assistente de loja, operadora de caixa e promotora de eventos, procurando garantir alguma independência financeira enquanto concluía o percurso académico.
“Cumprimos todas as etapas que nos são exigidas. No meu caso, tentei sempre fazer mais, investir mais na minha formação e melhorar o meu currículo. Fiz uma pós-graduação precisamente por isso. Depois acabamos e sentimos que ninguém nos ajuda a dar o passo seguinte. Parece que é cada um por si.”
"Estive quase dois anos à procura de estágio"
As dificuldades relatadas por Inês Rodrigues não são inéditas. Ana Félix, psicóloga clínica, de 33 anos, viveu uma situação semelhante quando terminou a formação, em 2017.
"Foi uma luta. Estive cerca de dois anos à procura de estágio profissional para a Ordem dos Psicólogos. Isto não é uma coisa recente. Há muitos anos nos vimos a queixar."
Durante esse período nunca deixou de trabalhar. Enquanto procurava uma oportunidade para iniciar o estágio obrigatório, empregou-se num pub em Aveiro para garantir rendimentos e manter alguma estabilidade financeira.
“Nunca parei. Estava a trabalhar num pub porque não podia não trabalhar, mas nunca desisti da área. Mandei centenas de currículos. Sou de Aveiro, mas mandei currículos para o Porto, para Coimbra (…) Não interessava. Eu queria era arranjar estágio.”
O que mais a surpreendeu não foi a existência do estágio obrigatório, mas a dificuldade em encontrar uma oportunidade para o realizar.
"Eu sabia que podia ser um pouco difícil, mas não a esta dimensão. Acho que é uma coisa para a qual não nos orientam. Saímos da faculdade sem perceber muito bem como é que vai ser o futuro."
Sem conseguir uma colocação tradicional, acabou por optar por uma solução menos comum: realizar o estágio como trabalhadora independente. “Decidi desistir da procura de estágio, mas não da área, e decidi fazer o meu estágio como trabalhadora independente.”
A alternativa permitiu-lhe concluir o percurso, mas trouxe dificuldades acrescidas.
“Quando comecei, em formato independente, o primeiro mês dei uma consulta apenas. No mês seguinte dei duas consultas. Eu ganhei o ordenado de duas consultas.”
Apesar de considerar o estágio supervisionado essencial para o exercício da profissão, Ana admite que o processo cria obstáculos significativos para muitos recém-formados.
"É extremamente frustrante e uma sensação de injustiça. Por muito que o estágio seja essencial, esta dificuldade impõe-se e priva muitos colegas de continuarem com o seu percurso."
Hoje, olhando para trás, acredita que “valeu a pena insistir”. A psicóloga lidera uma equipa, participa em congressos científicos, dá formação e já publicou um livro. Mas continua a defender que o acesso ao estágio profissional continua a ser uma das principais barreiras à entrada dos jovens na profissão.
Ordem reconhece dificuldades, mas rejeita uma crise generalizada
Confrontada com os relatos dos recém-formados, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) reconhece que existem dificuldades associadas ao financiamento, às assimetrias territoriais e à disponibilidade das entidades para contratar.
Contudo, rejeita a ideia de uma falta estrutural e generalizada de entidades recetoras: "A OPP não dispõe de evidência que permita afirmar a existência de uma falta estrutural e generalizada de entidades recetoras."
Os números divulgados pela Ordem mostram que, em 2025, iniciaram o Ano Profissional Júnior 1.530 psicólogos, o valor mais elevado dos últimos cinco anos. Entre 2021 e 2025 foram iniciados 6.121 estágios profissionais.
A OPP sublinha ainda que a existência de protocolo entre uma entidade e a Ordem não significa que existam vagas abertas em permanência. "A decisão de abertura de vaga, seleção e contratação cabe às entidades."
Apesar disso, a Ordem admite que as exigências de acesso à profissão podem tornar-se mais difíceis em determinados contextos.
"Essas exigências podem tornar-se mais difíceis quando existem limitações de financiamento, assimetrias regionais ou menor disponibilidade de entidades para contratar."
A instituição defende, contudo, a manutenção da prática supervisionada, considerando-a essencial para garantir competências técnicas, responsabilidade ética e proteção dos cidadãos.
"O desafio é garantir que o modelo é exigente, mas acessível. Supervisionado, mas não burocrático. Remunerado, mas viável para as entidades."
Da carta aberta de Inês Rodrigues às perguntas ao Governo
Perante meses de procura sem sucesso, Inês Rodrigues decidiu levar o problema para a esfera política. No início deste ano, enviou uma carta aberta a partidos com representação parlamentar, na qual também descreve as dificuldades que muitos recém-formados enfrentam na transição entre a universidade e o mercado de trabalho.
"É difícil pedir aos jovens que invistam na sua qualificação, permaneçam no país e acreditem no futuro, quando muitas vezes sentem que lhes são constantemente fechadas as portas precisamente no momento em que tentam começar", escreve.
A situação levou o Bloco de Esquerda a apresentar uma pergunta ao Governo através do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
No requerimento a que a Renascença teve acesso, o deputado Fabian Figueiredo considera que o caso de Inês Rodrigues é "ilustrativo de um problema estrutural". O partido argumenta que o atual mecanismo de apoio aos estágios profissionais financia apenas metade da duração exigida para acesso à profissão.
"O Estado exige um estágio de 12 meses, mas comparticipa apenas metade da sua duração, transferindo a fatura para instituições sem capacidade orçamental e, em última instância, para os próprios jovens", refere o documento.
Entre as questões colocadas ao Governo estão a eventual revisão do regime de financiamento dos estágios obrigatórios, a existência de dados sobre diplomados impedidos de exercer a profissão por falta de estágio e a articulação entre ministérios e ordens profissionais para garantir uma transição efetiva entre a formação académica e o exercício profissional.
Para Inês Rodrigues, o facto de o tema ter chegado à Assembleia da República já representa um primeiro passo.
"Pelo menos senti que alguém ouviu a minha preocupação. Independentemente das respostas, foi importante perceber que o problema chegou a um espaço de discussão política."
Oito meses depois de concluir a formação e após dezenas de contactos enviados para instituições públicas e privadas, Inês Rodrigues continua sem encontrar a entidade que lhe permita cumprir o último requisito exigido para exercer autonomamente a profissão.
"Estamos a formar profissionais altamente qualificados e depois não lhes damos condições para entrar no mercado de trabalho”, lamenta.
Governo admite que remuneração obrigatória condiciona oferta de estágios, mas não se compromete com alterações
Nas respostas enviadas à Renascença, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social reconhece que a obrigatoriedade de remunerar os estágios de acesso às profissões reguladas tem tido impacto na disponibilidade das entidades para acolher estagiários.
Segundo o Ministério, trata-se de uma obrigação financeira que foi introduzida pela Lei n.º 12/2023 e que "condiciona negativamente a disponibilidade de oferta dos referidos estágios obrigatórios por parte das entidades promotoras".
Questionado sobre as dificuldades relatadas por recém-formados, o Governo afirma que tem acompanhado as preocupações manifestadas pelas ordens profissionais relativamente "às condições de realização dos estágios obrigatórios de acesso e exercício da profissão e ao impacto dos respetivos encargos financeiros nas entidades que os promovem".
Ainda assim, o Ministério não assume que os apoios atualmente existentes sejam insuficientes. Na resposta enviada à Renascença, refere que "a avaliação da suficiência desses apoios depende das especificidades de cada regime profissional e das condições definidas pelas entidades competentes para o acesso às respetivas profissões".
O Governo destaca a medida Estágios +Talento como o principal instrumento de apoio financeiro disponível através do IEFP. De acordo com os dados fornecidos, até maio de 2026 foram registadas 1.378 candidaturas de estágio para a profissão de psicólogo, das quais 875 receberam aprovação.
Sobre uma eventual revisão do modelo de financiamento, o Executivo não avança medidas concretas, limitando-se a afirmar que "continuará a acompanhar esta matéria" e que pretende promover "uma transição mais eficiente entre a conclusão da formação superior e o acesso ao exercício profissional".












