LEGISLATIVAS 2025
Rui Tavares pede "alternativa clara” de Governo e antecipa “pressão muito grande” para juntar PS e PSD
30 abr, 2025 - 06:30 • Susana Madureira Martins
O porta-voz do Livre diz que o partido tem pessoas “preparadas” para assumir responsabilidades de governo. Sobre investimento em Defesa, Rui Tavares considera que a discussão tem de andar à volta da garantia de segurança das pessoas e de saber, por exemplo, “onde devem estar armazenados víveres” em caso de emergência.
Rui Tavares pede "alternativa clara” de Governo e antecipa “pressão muito grande” para juntar PS e PSD
Em entrevista à Renascença, o porta-voz do Livre, Rui Tavares, antecipa uma “pressão muito grande” para “juntar” o PSD e o PS no Governo, se as alternativas entre os blocos de esquerda e de centro-direita não forem “claras”. Aí, diz, o país teria PS e PSD “a acobertarem-se um ao outro”.
Sobre o Livre, Rui Tavares garante que o partido tem pessoas “preparadas” para assumir responsabilidades de governo, mas um eventual acordo de incidência parlamentar no pós-eleições de 18 de maio “pode ser uma das soluções”.
O porta-voz do Livre define o Ambiente como uma área “forte” do partido, assim como o Ensino Superior e a investigação ou as áreas da Europa e dos direitos humanos. “Há pessoas que têm o sentido e responsabilidade necessários para servir o país, não só como legisladores, mas, se necessário, como executores”, diz Tavares.
Rui Tavares defende ainda que a Europa precisa de ser “menos vulnerável” em telecomunicações, em sistemas informáticos, cabos submarinos, cibersegurança e segurança de infraestruturas e a discussão sobre investimento em Defesa deve ter em conta a segurança das populações.
Há um ano, os temas de campanha andaram à volta da necessidade de repor o tempo integral de serviço dos professores, da equiparação do suplemento da Polícia Judiciária à GNR e à PSP, a valorização das carreiras da Administração Pública, medidas que, de uma maneira ou de outra, aconteceram com o Governo da AD. A AD tirou o discurso ao LIVRE e à esquerda em geral?
Não, de maneira nenhuma. Nós andávamos a dizer ao anterior Governo de António Costa que estas eram questões que urgia que fossem resolvidas e para as quais havia recursos, e de facto, como o PS, na sua autossuficiência enquanto Governo, mais ainda com uma maioria absoluta, tinha pouca vontade de dar ouvidos aos outros e de fazer as coisas, procurando antes moldar o calendário da resolução dos problemas ao seu próprio calendário político de uma maioria absoluta de quatro anos, que depois não aconteceu. Deixou esta fruta madura para a AD apanhar.
Luís Montenegro, a seguir, fez aquilo que qualquer primeiro-ministro acabado de entrar no cargo poderia fazer. Aproveitou. Os recursos estavam lá, a fruta estava madura, era possível apanhá-la e fê-lo, logo nos primeiros tempos. Acho que nem ninguém leva a mal por isso, nem ninguém pensa que teria feito de outra maneira se estivesse no mesmo lugar.
São frutos que podem fazer com que a esquerda, eleitoralmente, perca votos e a AD e o centro-direita sejam premiados por isso?
Não creio, porque, desde logo, o Governo da AD, se fosse só isso, era uma coisa, mas não foi só isso. O Luís Montenegro gastou a almofada que tinha, defendemos que uma parte devia servir para acorrer à emergência social, outra parte para guardar para investimento público quando as regras da União Europeia mudarem e Luís Montenegro não quis ouvir falar disso, acabou por ter mais olhos do que barriga, ou seja, não foi só apanhar a fruta madura, foi também aproveitar para gastar esse superávit, fruto do nosso sacrifício, em itens grandes de despesa que nos vão deixar, perante uma possível uma crise económica global, numa situação semelhante à que já tivemos no passado. Isso aí é que é gravoso.
Estamos sempre à beira de uma recessão global e Portugal pode não ter os recursos necessários para fazer uma política contra cíclica.
O LIVRE propõe a subida do Salário Mínimo Nacional (SMN) até aos 1250 euros em 2029. As empresas aguentam esta subida, tendo em conta a incerteza de que estivemos a falar ainda agora?
Sim, porque esta subida tem um critério, não é apenas um número.
Portugal tem SMN desde a democratização do país e a Espanha também tem SMN desde a democratização do país. Em todos estes anos o SMN português foi sempre no mínimo 80% do espanhol, exceto a partir de 2015 que com a geringonça se aproximou dos 70% do salário mínimo espanhol. Consideramos que isto é grave para a economia portuguesa, é um erro.
Devíamos aproximar mais o nosso SMN ao espanhol?
Exato. Do ponto de vista do investidor internacional, que olha para a economia ibérica como uma economia muito integrada, o que é que vai parecer quando vê um país que tem um SMN mais alto, como a Espanha, que tem aumentado de forma robusta e outro que se tem deixado ficar para trás numa armadilha de salários baixos? Esse investidor vai pensando que para uma produção com mais complexidade, com mais valor acrescentado, mais sofisticada, com uma força de trabalho mais educada, vou para a Espanha e para salários baixos, para uma produção mais simplificada e que não traz tanto valor acrescentado e que não é tão intensiva em termos de produtividade, tenho aqui o país dos salários baixos ao lado. É esse erro de mensagem, até internacional, que nós não queremos que a economia portuguesa cometa. Por isso é importante aproximarmo-nos do SMN espanhol. Respondendo à sua pergunta inicial, porque é que a economia aguenta um SMN português que é 80% do espanhol? Porque aguentou nos anos 70, aguentou nos anos 80, aguentou nos anos 90.
O Governo da AD já iniciou mecanismos para poder passar o limite do défice para a despesa na Defesa. Este investimento é inevitável e é possível, de alguma forma, acelerar também a economia, enquanto há uma incerteza tão grande na política e economia mundiais?
O Livre não defende a saída da NATO, mas defende que estejamos prontos para a eventualidade de a própria NATO ser esvaziada por dentro e que temos uma alternativa, que é a construção de uma comunidade europeia de defesa, que sempre achámos que é a alternativa preferível se a Europa quer levar a sério a sua defesa perante os autocratas de todos os lados, sejam os do Kremlin, seja o da Casa Branca.
E acha que as pessoas compreendem, o cidadão comum compreende essa necessidade de a despesa do país ser canalizada para aí?
O cidadão comum sabe em que mundo estamos, segue as notícias e tem um sentido prático muito grande. E às vezes, tanto políticos como jornalistas, fazemos um mau serviço ao cidadão comum se achamos que as pessoas veem as coisas só pela rama.
As pessoas percebem o suficiente para perceber que a discussão não se coloca em saber se se investe 2% de PIB na defesa, sim ou não. É muito diferente nós estarmos a gastar mais dinheiro em defesa apenas porque Donald Trump o exige. E Donald Trump o exige em armas americanas.
E não o faz porque queira que a Europa esteja mais defendida, pelo contrário. Portanto, ele não está interessado na defesa da Europa, ele está interessado em que paguem e paguem em armas americanas. Aí, o Livre diz, muito claramente, não. Os investimentos em defesa devem ser feitos na autonomia estratégica europeia.
Uma corrida ao armamento?
Não é uma corrida ao armamento, significa uma substituição das compras que se fazem aos Estados Unidos fomentando a indústria europeia. Não é só armas, a Europa precisa de ser menos vulnerável em telecomunicações, em sistemas informáticos, cabos submarinos, cibersegurança, segurança de infraestruturas.
O que acontece se determinadas infraestruturas básicas da nossa administração e da nossa democracia forem atingidas? Se houver um ataque híbrido ou ciber ao Parlamento Europeu, à Comissão Europeia, existe outro edifício disponível? O comando das operações passa para onde? E nós aqui em Portugal também não o fazemos.
As questões da segurança e da defesa na Europa, não são questões puramente militares, são questões de envolvimento e de reforço da sociedade civil. Em Portugal, se dissermos às pessoas para armazenarem o suficiente para 15 dias, muitas pessoas, no mês seguinte precisam de ir a esse armazenamento porque o que sobra às pessoas no fim do mês é muito pouco.
Temos de pensar em coisas do tipo: qual é que é o papel da Junta de Freguesia, qual é que é o papel da Cruz Vermelha, qual é que é o papel dos bombeiros voluntários, onde é que devem estar armazenados víveres para serem distribuídos pelo bairro, pela aldeia, pela vila, pela freguesia? Falar de investimentos em defesa e em segurança na Europa é uma coisa muito mais ampla, que tem a ver com a nossa população sentir-se segura.
Livre diz que país vai para eleições por irresponsabilidade de Montenegro
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Já disse nesta pré-campanha eleitoral que se os eleitores quiserem que o Livre seja capaz de desempenhar funções executivas, o partido estará preparado. Um eventual acordo de incidência parlamentar não chega para o Livre?
Pode ser uma das soluções. O que é muito importante é que as pessoas, quando nos aproximamos das eleições, saibam que há alternativas de governação, porque para as pessoas não baixarem os braços e não aceitarem esta aparente normalidade de baixarmos a fasquia da exigência ética no governo. Um primeiro-ministro que tem uma empresa deste tipo tem que a por numa gestão profissional independente, no mínimo.
Para podermos implementar este tipo de regras é preciso que o Livre tenha força. Não vamos lá com o PS e com o PSD, de certeza, porque eles arrastam os pés neste tipo de temas, e é preciso nós sermos francos perante as pessoas e dizer há uma alternativa de governação. O Livre está capaz de assumir responsabilidades, se for necessário. Significa que, pensando nos quadros que temos, que já têm experiência em executivos de um tipo diferente, executivos camarários, na academia, seremos capazes, à nossa escala, de contribuir para a governação do país.
Depende da configuração que sair das eleições do dia 18 de maio. Se acharmos que aquilo que é melhor para o país e para o LIVRE é um acordo de incidência parlamentar e não uma presença governativa, isso não é uma condição sine qua non para a estabilidade, não fazemos depender disso a estabilidade do país.
E de que pastas ou áreas é que estaríamos a falar e que seriam mais próximas do Livre?
Seria ofensivo para as pessoas que os partidos estivessem a escolher como quem escolhe pastas numa loja de malas ou numa papelaria. Em termos das capacidades que nós temos acumuladas e das pessoas que vou observando, também daquilo que eu conheço do meu próprio partido, evidentemente que o Ambiente é uma área forte para o Livre. Há, na Câmara Municipal de Lisboa, o Carlos Teixeira que tem muita apetência nessa área do ambiente, da conservação da natureza, a Patrícia Gonçalves, que também tem estado muito ativa na Câmara Municipal de Lisboa, na área do ensino superior e da investigação. As áreas da Europa, as áreas internacionais dos direitos humanos. Vejo a Isabel Mendes Lopes que tem sido muito ativa nas questões do trabalho, ou a maneira como, por exemplo, o Jorge Pinto apresentou planos para começarmos a investir em baterias de sódio, que são mais interessantes para Portugal do que as famosas baterias de lítio. Há capacidade e há pessoas que têm o sentido e responsabilidade necessário para servir o país, não só como legisladores, mas se necessário como executores.
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Há muitos protagonistas políticos que têm defendido a solução do Bloco Central, então pode ser preciso lá chegar, de alguma forma? Ou o Livre acha que seria a pior solução?
É precisamente para não termos de ir para essa solução que é muito importante que se digam claramente que alternativas de governação é que há. Temos um bloco governativo que é composto pela AD e pela IL, mas com menos clareza agora do que no passado. À esquerda, e eu não posso falar pelos outros partidos à esquerda, e, portanto, é preciso que exista essa clareza, mas a parte do Livre é muito claro, seremos parte de uma solução de progresso e de ecologia à esquerda, incluindo com uma solução de governo. E é preciso ver qual deste bloco de votos tem mais mandatos e consegue oferecer uma maioria mais coesa que responda à pergunta do Sr. Presidente da República, que não é quem é que tem mais um voto, quem é que tem mais um deputado, a questão é qual é que é o partido que consegue ter um programa de governo que não seja rejeitado na Assembleia da República.
Que garanta condições de estabilidade?
Sim, porque senão o Sr. Presidente da República pode ficar com o governo em gestão durante todo o resto do seu mandato e o novo Presidente da República, também no início do seu mandato, tem um governo em gestão. Se vamos com esta história com que o PS e o PSD gostam de nos entreter, que é que quem fica em primeiro vai para o governo, o que pode acontecer é então que quem fica em primeiro é indigitado, vai a primeiro-ministro, o seu programa de governo é rejeitado, fica em gestão a fazer muito menos coisas. É isso que o Sr. Presidente da República, e bem, quer evitar. Neste momento, temos duas alternativas de governação em confronto. A aliança entre o montenegrismo e o motosserrismo da Iniciativa Liberal, ou uma alternativa de progresso e ecologia, em que estão os partidos de esquerda, em que o Livre está, claramente.
Se estas alternativas não forem claras, aí ficamos numa situação de confusão, em que vai começar a haver uma pressão muito grande para pôr PS e PSD juntos no governo, sob alguma forma, ou mesmo juntos no governo, com ministros de uns e outros. Seria péssimo, todas as dificuldades que nós tivemos com conflitos de interesse, que minaram a maioria absoluta do PS e que minaram também esta minoria absoluta do PSD, aí íamos ter, mas com PS e PSD, no fundo, a acobertarem-se um ao outro. Vejo alguns políticos séniores acharem que a solução está no Bloco Central, e acho que isso nos poderia atirar para uma situação de uma grande irresponsabilidade.
Há, à esquerda, alternativa para essa governação e essa alternativa converte-se em pontos muito claros. Em relação ao primeiro-ministro, aos ministros, defendemos as audições prévias no Parlamento, é a nossa preferência forte e será uma discussão dura em termos de negociações, porque imagino que os outros parceiros não o queiram. Nada de privatizações no SNS, reforço no investimento público em Educação e Habitação. Não ao abandono da Ucrânia, sim ao reconhecimento da independência da Palestina. E isto, é para começarmos a conversar.











