Legislativas 2025

Livre põe a mira nos liberais para enfraquecer coligação à direita

06 mai, 2025 - 23:09 • Alexandre Abrantes Neves

Os liberais querem "reescrever a história" com uma revisão constitucional, um governo AD-IL "vai para além da Troika" e há "forças" que provocam "microciclos políticos". Rui Tavares joga as fichas todas para minar uma alternativa à direita - ao mesmo tempo que pede uma geringonça 2.0, com um grupo parlamentar do Livre reforçado.

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Livre põe a mira nos liberais para enfraquecer coligação à direita
Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Rui Minderico/Lusa

As sondagens continuam a mostrar uma alternativa à esquerda como improvável, mas o Livre não chuta essa hipótese para fora de jogo e já parece ter definido a tática para tentar entrar em campo – danificar uma possível coligação à direita, a começar não pelo ponta-de-lança, mas por quem ainda não decidiu se vai sair do banco.

“A Iniciativa Liberal (IL) mordeu o isco de nos mostrar que, se tiver esse poder, quer mesmo ir alterar a Constituição”. As palavras de Rui Tavares surgem depois do aviso feito na segunda-feira – os partidos à direita estão cada vez mais próximos de uma maioria de dois terços que permite fazer alterações constitucionais.

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O presidente liberal, Rui Rocha, ainda recusou essa hipótese inicialmente – e acusou o Livre de estar inutilmente a “acenar com o papão” –, mas rapidamente mudou o discurso. Pelos liberais, a constituição tem de ser alterada para criminalizar e apertar a legislação sobre os “ocupas” e também para retirar todas as referências ao socialismo do texto.

Para Rui Tavares, esta é uma forma de “falsificar, reescrever a história”, que o líder do Livre compara ao ato de “irmos aos documentos da primeira dinastia e tirarmos [as referências] ‘por graça de Deus, el-rei D. Afonso Henriques’”.

Mas as críticas à direita não ficam por aqui. No dia em que Pedro Passos Coelho apareceu na campanha da AD, Tavares puxa da Troika para tentar afastar o eleitorado que, em prol da estabilidade, possa estar a ficar atraído por uma solução à direita.

A AD e a IL próximo da maioria absoluta é para ir mais longe do que a Troika. Mas se a isso acrescentarmos uma extrema-direita – e ouvimos André Ventura dizer que está lá para chumbar qualquer governo da esquerda, mesmo que a esquerda tenha mais deputados do que a direita democrática – nós percebemos que, afinal, o ‘não é não’ e o ‘nunca é nunca’ é uma verdadeira farsa”, apontou, à porta de um centro de negócios em Sines, após uma reunião sobre energias renováveis.

Mais tarde, e já na segunda ação do dia, a estratégia de acenar com a estabilidade regressou. De forma mais suave, Rui Tavares utilizou a conversa com o elenco de uma adaptação da peça de teatro “As 1001 noites” para falar da polarização na sociedade atual, que muitas vezes “dá vontade de dizer calma”. Minutos mais tarde, em conversa com os jornalistas, o recado foi mais explícito.

“Agora já temos microciclos políticos. (…) Nós saímos dessa crise voltando a um parlamentarismo mais responsável, mais original e genuíno, onde as soluções se procuram no parlamento. Nós saímos dessa crise combatendo estes discursos que são discursos, enfim, de habituação às más manhas da política, dizer que temos de baixar os braços e aceitar que os políticos são todos assim. Ou do medo e do preconceito. Ou de deitar para trás o nosso Estado Social”, apontou.

Cultura, com certeza

Os pormenores e as condições para um governo à esquerda ficaram tal e qual as que foram definidas na segunda-feira – Rui Tavares não se descoseu com mais detalhes, nem quando a presença numa companhia de teatro motivou questões sobre a possibilidade de o Livre assumir a pasta da Cultura num eventual governo chefiado pelo PS.

Isso só o futuro e os eleitores o dirão, mas o que Tavares garante é que o Livre não quebra no compromisso já antigo e que é evidente, por exemplo, nas propostas de encaminhar 1% do PIB para a cultura ou de construir casas de criação, para evitar que as companhias artísticas sejam afetadas pela crise na habitação.

A luta por estas medidas está garantida, segundo Rui Tavares, mesmo que os adversários políticos chutem o tema para debaixo do tapete.

Quantas vezes ouvimos nos últimos meses os imigrantes têm de respeitar a nossa cultura? Bem, e os nossos políticos? Respeitam a nossa cultura? Falam da nossa cultura? Põem dinheiro e investem na nossa cultura? Cuidam do nosso património, dos nossos monumentos – onde está a criatividade, que ainda por cima gera emprego, traz gente?”, criticou, após assistir ao ensaio da peça “1001 noites, Irmã Mapuche”, encenada ao ar livre pela companhia “Teatro O Bando” na Serra da Arrábida, em Palmela.

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Setúbal também é para crescer

Rui Tavares prefere não desenhar metas e, por isso, as próximas semanas adivinham-se de muitas contas para perceber quais são as expectativas do partido para 18 de maio - até porque, entre as respostas aos jornalistas, o porta-voz do Livre vai deixando pistas.

É vontade, no caso, de conseguir mais uma deputada – a Geizy Fernandes”, afirmou o porta-voz do Livre, no final da ação de campanha em Palmela. No distrito de Setúbal, o partido elegeu no ano passado um deputado e quase quadruplicou a votação. Este ano, Rui Tavares antecipa um trabalho mais fácil. “Agora, nem sequer chegaria a ser necessário duplicar [para eleger o segundo deputado]”, previu.

Mas Tavares não ficou por aqui e quase assumiu que o partido está confiante em chegar a novos distritos, nomeadamente Braga, Aveiro e Leiria – “[são] os que estão em jogo, com as sondagens que já saíram”, admitiu.

Assim, e somando três deputados por cada um destes distritos e juntando mais um em Lisboa (assumindo esta segunda-feira) e outro em Setúbal, o grupo parlamentar do Livre passaria de quatro para nove cadeiras no hemiciclo. Para já, Rui Tavares não assume o objetivo, mas mostra-se empenhado em cumpri-lo – esta quarta e quinta-feira, a caravana ruma ao Porto, Braga e Aveiro e depois volta a descer, para terminar a semana em Lisboa e Setúbal.

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  • Duma ponta a outra
    07 mai, 2025 Nada de jeito 08:42
    Ressuscitar fantasmas de outros tempos, e apelos ao medo é tudo o que o Livre tem para "oferecer". O mesmo que a Esquerda Radical, aliás. Duma ponta à outra, não se vê nada de jeito nas esquerdas...

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