Legislativas 2025

A campanha do Chega. Indisposições de Ventura, protestos de ciganos e o sonho de vencer

16 mai, 2025 - 06:00 • Tomás Anjinho Chagas

André Ventura esticou a corda e o corpo deu de si, duas vezes. Chega procura mostrar que não é partido de um homem só e teve uma campanha marcada por percalços. Objetivo de vencer mantém-se e os efeitos que a campanha atribulada vai ter no eleitorado é uma incógnita.

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A campanha do Chega para as legislativas de domingo deu a volta ao país, mas foi marcada por uma série de eventos não planeados que ditaram o ritmo do partido. Com André Ventura fora, esta sexta-feira o Chega procura mostrar que não é o "partido de um homem só".

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Indisposições de Ventura

O episódio de terça-feira, em que André Ventura se sentiu mal durante um discurso em Tavira, marcou a campanha do Chega e os efeitos foram além do esperado. O líder do partido passou a noite no Hospital de Faro e prometeu voltar mais forte, mas muita água mata a planta, e o regresso foi precipitado.

Quarta-feira ficou em repouso, sem participar na campanha, e contra os conselhos de Marcelo Rebelo de Sousa, André Ventura insistiu em voltar à atividade frenética, e correu mal.

Esta quinta-feira voltou a sentir-se mal, poucos minutos depois de regressar à caravana, em Odemira, perdeu as forças e foi retirado do local pela equipa de seguranças. De INEM foi para o centro de saúde mais próximo, daí foi de ambulância para Santiago do Cacém, para o Hospital do Litoral Alentejano, e mais tarde para o Hospital de Setúbal, de onde saiu já perto das 23h00.

Os episódios expõem a fragilidade humana que toca a todos, e também a André Ventura. O líder do Chega, que se apresenta sempre com vigor, enérgico e impetuoso, foi visto a fraquejar fisicamente pela primeira vez, e duas vezes na mesma semana. O efeito que terá no eleitorado e na opinião pública é uma verdadeira incógnita.

Protestos da comunidade cigana

Se a segunda semana da campanha foi feita a reboque das indisposições de André Ventura, a primeira semana foi também marcada por um fator extra-partido: as constantes manifestações de membros das comunidades ciganas, de norte a sul do país.

Começou em Aveiro e apanhou a comitiva de surpresa. Mas a exceção passou a ser regra. O pico foi atingido em Braga, onde os ânimos ficaram acesos e André Ventura chegou a ser atingido com cuspidelas.

Também em Viana do Castelo, Vila Real, Castelo Branco e Vila Real de Santo António foram palco de protestos contra o partido que sempre comprou a guerra contra esta comunidade. No Chega acreditam que o partido vai sair beneficiado, resta saber se o país concorda com os dirigentes do partido.

O sonho de vencer e reconfigurar a direita

A estratégia não é nova, é repetida do ano passado: André Ventura pede a vitória nas eleições legislativas do próximo domingo, para "reconfigurar" a direita portuguesa.

O líder do Chega surfa as sondagens que vão dando o partido com tendência de crescimento, junta-lhe os incentivos que vai recebendo nas ruas e diz-se convicto de que vai ficar à frente da AD - mesmo que nem a mais otimista das projeções o coloque perto disso.

O que é a "reconfiguração" da direita?

O termo encontrado por André Ventura, nos últimos dias desta campanha eleitoral, é um plano cenarizado pelo próprio. Se ficar - como diz que quer ficar - à frente da AD nas eleições, o líder do Chega está convicto de que isso culminaria numa saída de Luís Montenegro da liderança do PSD. Com essa demissão, julga Ventura, desaparece também o "não é não" imposto pelo atual primeiro-ministro, que tem afastado AD e Chega de um possível acordo.

André Ventura repetiu o mantra, esta terça-feira, durante uma arruada em Vila Real de Santo António: "é ganharmos as eleições, obrigarmos a uma reconfiguração da direita e criarmos uma maioria contra a corrupção", afirmou aos jornalistas.

Mais cedo, noutra arruada, em Tavira, tinha dito que a conduta de Luís Montenegro "é fatal" para uma eventual maioria entre AD e Chega (tal como a que já existe neste momento).

"Luís Montenegro tem mostrado que não consegue ter a integridade, nem capacidade de lutar contra a corrupção e isso para nós é fatal para uma maioria política", dizia, enquanto os apoiantes gritavam por ele.

André Ventura insiste que a "única" forma de dar estabilidade ao país é o Chega ser o partido mais votado. E a estratégia é não sair dessa narrativa.

E se isso não acontecer?

A matemática de Ventura não admite outras equações. O líder do Chega vai sendo inundado com perguntas sobre o que fará em caso de vitória da AD sem maioria, mas permanece imperturbável e diz que só trabalha com o cenário de uma surpresa no próximo domingo.

Além da habitual confiança de André Ventura, também ela uma parte da sua tática política, o líder do Chega aproveita o facto de estar em terreno confortável para o partido: Algarve.

No distrito de Faro, já no ano passado, o Chega foi o partido mais votado num círculo, pela primeira vez na sua história. O passado fertiliza o presente: "A questão já não é se vamos ganhar o Algarve, é com que maioria vamos ganhar o Algarve", antevê.

"De todas as hipóteses, em abstrato, que podem acontecer, eu só estou a trabalhar numa: ganhar, ganhar, ganhar", repete o líder do Chega.

Por lapso, André Ventura acabou por admitir um cenário em que a AD vencia as eleições: "“Se Luís Montenegro vencer, que é uma possibilidade que está em cima da mesa, se Luís Montenegro vencer, nós não teremos estabilidade nos próximos meses em Portugal", alertou.

Mas poucas horas depois, perante as perguntas dos jornalistas sobre o que o tinha levado a admitir tal cenário, recuou: "Não mudou nada. A nossa convicção é a mesma, a de que vamos vencer".

2.550 quilómetros

A campanha do Chega percorreu, até esta sexta-feira, 2.550 quilómetros. Começou por Beja, e depois começou a volta: Santarém, Porto, Aveiro, Braga, Guimarães, Viana do Castelo, Bragança, Vila Real, Viseu, Castelo Branco, Elvas, Évora, Portimão, Tavira, Vila Real de Santo António, Milfontes e Odemira. Pelo meio, André Ventura conheceu vários hospitais.

Esta sexta-feira, o Chega vai ter uma arruada em Setúbal e fecha a campanha com a descida do Chiado, em Lisboa, que termina com um concerto na Praça do Município.

Comentários
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  • José Geraldes
    16 mai, 2025 Leiria 14:43
    Lamentávelmente os Media não pouparam o FAKE NEWS, em relação ás supostas indisposições de Ventura, porque ? Qualquer cidadão pode ter uma INDISPOSIÇÃO, quando participa em eventos que exigem , serenidade , transparencia, e estomago grande para ouvir e calar, é ou não verdade ? Assim sendo porque os MEDIA, se comportaram como Vandalos invadindo a Privacidade do Candidato ?? Cresçam, e aprendam a respeitar, para ser RESPEITADOS !!!! Não é aceitável que desde o 1º momento tenham DUVIDADO, do estado de saúde de Ventura porque ? Será que Ventura ão tem direito à privacidade, e a sentir-se mal, como qualquer mortal ???

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