Legislativas 2025

Quer duplicar e quer governar. Tavares parece outro, mas ainda tem “arestas a limar”

16 mai, 2025 - 05:30 • Alexandre Abrantes Neves

Quer crescer 100 mil votos e chegar a oito deputados, para ajudar a construir uma nova geringonça. A IL foi o alvo principal, mas também houve críticas à postura da esquerda. O Livre - mais popular e mais reconhecido - diz estar pronto para passar para a piscina dos grandes, apesar de assumir ter pontos a melhorar na campanha

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Reportagem Alexandre Abrantes Neves - comício Livre - 16 maio 2025
Ouça aqui a reportagem do jornalista Alexandre Abrantes Neves. Foto: António Cotrim/Lusa

O tema andou a marinar durante as duas semanas de campanha e o tabu só acabou desfeito na última ação de campanha em Lisboa.

“O país não precisa de um Livre com um grupo parlamentar diminuído, o país precisa de um Livre que tenha um grupo parlamentar duplicado”, assumiu Rui Tavares, num comício que praticamente encheu o Teatro Thalia em Lisboa.

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A meta explícita só chegou esta quinta-feira à noite, mas Tavares espalhou as pistas durante toda a campanha, ao dizer várias vezes “quanto mais vierem, melhor” e a pedir aos jornalistas para “fazerem as contas”.

Braga, Aveiro, Leiria (e até Santarém) são distritos prioritários para eleger, a par do reforço da votação em Lisboa, Porto e Setúbal. Mas, seja qual for a origem dos eleitos, Tavares deixa uma garantia: “Cada um, cada uma que vão entrar vão lá para elevar o debate. Bota acima e não abaixo.

O porta-voz do partido está confiante de que o “partido se vai tornar relevante”, com um “resultado que se veja e que os outros vejam” e que vai obrigar a restante esquerda a mudar a perceção e a chamá-lo em caso de negociações para uma nova geringonça: “Por que raio é que não haveríamos de estar prontos para governar? Este país também é nosso”, referiu Tavares, no discurso mais aguerrido e duro desta campanha.

Aliás, o penúltimo serão de campanha foi o reflexo da estratégia “sanduíche” da campanha do Livre: começar a primeira semana lançado nas críticas e nos desejos pós-eleitorais, abrandar a meio e voltar a ganhar força no final da campanha.

Diferentes, mas a querer falar à esquerda

A resposta ficou por dar – se os socialistas não quiserem dialogar e avançarem sozinhos para um governo minoritário, o Livre viabiliza esse executivo? Tavares escudou-se sempre na narrativa de que “o que importa é reforçar a votação”, mas o líder do partido sabe que, para entrar num executivo à esquerda, estará sempre dependente de um convite de Pedro Nuno Santos.

Por isso, as pressões para que o PS deixasse o “diálogo com todos” em prol de uma nova geringonça foram muitas e constantes, em quase todas as declarações aos jornalistas. Ao início, Rui Tavares caracterizava a estratégia socialista de voto útil como “derrotista”, incapaz de “mobilizar eleitorado” e longe do “pragmatismo que a direita estava a mostrar”. Mas os apelos foram ignorados e isso parece ter feito o líder do Livre endurecer o discurso.

“Se o Livre perdesse um quarto dos votos que teve da última vez, isso é que lhes dava jeito, porque ficavam à frente da AD. Não precisam de tanto – basta irem buscar metade disso à própria AD. (…) Concentrem-se na vossa tarefa, que a gente concentra-se na nossa”, desafiou Tavares, num recado enviado diretamente para o Largo do Rato.

A frase serviu para Tavares subir o tom na relação não correspondida com Pedro Nuno Santos, mas revela também outra das linhas do Livre na campanha eleitoral – pedir encarecidamente aos partidos de esquerda não se virarem uns contra os outros e para se focarem em roubar votos à direita. E, apesar de o porta-voz do Livre insistir que jamais se viraria contra os possíveis parceiros de coligação, as entrelinhas parecem mostrar que caiu na tentação várias vezes.

No jantar de Braga, ainda no início da campanha, traçou linhas de diferença, ao dizer que vem de uma esquerda “radicalmente moderada e moderadamente radical, quando necessário”. Já esta quinta-feira, no Teatro Thalia, o historiador puxou a fita atrás para cavar ainda mais fundo estas diferenças.

“É exatamente o contrário do que aconteceu em 2015. Por causa do medo e do tabu de discutir a Europa, a Europa ficou de fora das questões da geringonça. E, depois, não havia razões para pressionar um governo do PS a fazer aquilo que até uma Assembleia da República tinha dito: o reconhecimento da independência da Palestina”, recordou.

Sobre a IL, destronar, destronar, destronar

A estrada até ao destino de esquerda sonhado por Tavares só se faz a driblar a direita. Nesta campanha, a Iniciativa Liberal foi o principal alvo escolhido pelo porta-voz do Livre, que assumiu querer ultrapassar os liberais e tornar-se na quarta força política nacional.

“De Rui para Rui, mesmo quando estamos com uma décima de distância, não leves a mal, porque nós precisamos de estar à vossa frente porque, a seguir, precisamos de ir esvaziar a extrema-direita em Portugal”, atirou, naquilo que pareceu ser o início do desenho de um sonho para umas próximas eleições.

Além disso, o líder do Livre não se cansou de criticar a “liberdade poucachinha”, a revisão constitucional pedida pela IL que quer mandar “direitos afuera” e a “simples conversinha sobre a Spinumviva que basta para Rocha entrar num governo da AD” e concretizar a dupla do “chico esperto e do acelera”.

Naturalmente, também a empresa familiar de Luís Montenegro foi o principal pretexto para colocar a mira na AD, que “não dará estabilidade ao país” e que está a fazer mal “à democracia”. A este lote de críticas, juntou-se outro na reta final da campanha – as políticas para os pensionistas.

Mais um trimestre assim e teremos uma recessão com o nome de Luís Montenegro. E sem o dinheiro poupado por toda esta gente”, referiu, aproveitando a visita ao mercado de Benfica e as queixas que ouviu de reformados para se juntar ao piscar de olhos a um dos eleitorados mais falados durante a campanha.

Rui atrevido, mas com percalços

A comparação com anos anteriores é inevitável – Rui Tavares estava outro nas ruas. Mais atrevido, extrovertido e empático com as pessoas, entrar numa multidão tornou-se em sucesso certeiro para o líder do Livre. O próprio porta-voz parece saber que este é o principal ponto positivo desta campanha (“Fazer campanha também se aprende”, assumiu esta quinta-feira) e o povo também o nota.

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Você fala melhor aqui do que na televisão, precisa de ter mais garra”, apontou Lina da Fruta, na feira de Carvalhos, em Gaia, uma das várias onde o reconhecimento de Rui Tavares foi tanto que obrigou a atrasos nas restantes ações de campanha.

Mas se houve tiros certeiros numas coisas, noutras nem tanto. Apesar de assumir continuamente que quer eleger em Aveiro e Leiria, estes distritos saíram preteridos na campanha eleitoral do Livre – Leiria nem teve direito a uma visita e Aveiro só mereceu um “toca e foge” de Tavares, numa tarde passada entre o hospital e uma rápida ação de rua junto à universidade.

Apesar de o porta-voz ter referido que “nunca se sabe até ao final da campanha”, a agenda não mudou (o último dia é dedicado ao Porto) e o roteiro fechou sem uma passagem por estes distritos. Ao todo, foram mais de 2500 quilómetros percorridos, num vaivém entre a área metropolitana de Lisboa e o norte do país – no sul, a caravana só estacionou meio dia em Sines.

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