Entrevista Renascença
"Tenho muita esperança que Carlos Moedas anuncie a sua candidatura", afirma vice da Câmara de Lisboa
27 jun, 2025 - 21:41 • Tomás Anjinho Chagas
Filipe Anacoreta Correia empurra Carlos Moedas para um segundo mandato e critica ferozmente Alexandra Leitão por mudar de posições rapidamente. Vice da maior autarquia do país assume que há mais carros a entrar em Lisboa, mas garante que a percentagem de pessoas a usar transportes públicos aumentou.
Filipe Anacoreta Correia é advogado de formação, foi deputado de 2015 a 2019, eleito pelo CDS. Desde 2021 que é vice presidente de Carlos Moedas na Câmara de Lisboa, eleito também pelo CDS, mas agora está de saída do partido e diz ser um independente.
Em entrevista à Renascença, empurra Carlos Moedas para um segundo mandato mas admite abandonar a vida política ativa. O número dois da maior autarquia do país critica Alexandra Leitão pela "inconsistência" e cita Sérgio Godinho para perguntar: "Pode alguém ser quem não é?"
Já se desfiliou do CDS oficialmente, já é um independente de forma oficial?
De alguma forma isso já ocorreu, fruto de uma alteração estatutária do partido que suspendeu a militância ativa de todos aqueles que não pagassem quotas, e eu na altura decidi não pagar. Não tem a ver com o valor, que até é bastante residual, mas com a leitura que faço política, de deixar de me reconhecer, de acreditar.
Não tenho nada contra o CDS, não são questões pessoais, mas uma pessoa para estar num partido, como diz a expressão do povo português, é tomar partido. Na avaliação que faço fui ganhando algum distanciamento. Ou seja, eu não me desfilei formalmente, mas estou com a militância suspensa já há cerca de tês anos e não pretendo retomá-la.
E não teve contactos com a direcção do CDS para as próximas autárquicas?
Não tive, nem para as próximas autárquicas, nem para estes três anos em que estive na Câmara, de facto, não fui procurado pela direcção do partido. Eu acho que também eles perceberam isso da minha parte e pronto, e portanto eu tive uma grande preocupação ao longo destes três anos de ser fiel ao eleitorado que me elegeu.
Desde que Nuno Melo foi eleito líder do CDS, em 2022, nunca procurou falar consigo sobre como é que estava a levar o seu mandato e ter uma perspectiva de futuro?
Não, é um facto que não o fez, mas eu também lhe digo, eu não estou muito centrado na questão do CDS. Isto é como as famílias, nós quando estamos em família criticamos a família porque queremos que ela seja melhor, só criticamos aquilo com que estamos comprometidos. Não critico as famílias dos outros, não critico o CDS, que fará o seu caminho. Tenho lá muitos amigos, respeito e, portanto, até por respeito a essas pessoas, acho que não move qualquer animosidade em relação ao CDS, para mim, isso é um assunto encerrado.
"Não me desfilei formalmente, mas estou com a militância suspensa já há cerca de tês anos e não pretendo retomá-la"
E volvidos estes quatro anos, sente que ainda tem caminho a fazer pela cidade de Lisboa?
Caminho a fazer há sempre. Nós ainda não acabamos o mandato...
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Carlos Moedas reúne 46,2% das respostas à pergunta(...)
Já se desfiliou do CDS oficialmente, já é um independente de forma oficial?
De alguma forma isso já ocorreu, fruto de uma alteração estatutária do partido que suspendeu a militância ativa de todos aqueles que não pagassem quotas, e eu na altura decidi não pagar. Não tem a ver com o valor, que até é bastante residual, mas com a leitura que faço política, de deixar de me reconhecer, de acreditar.
Não tenho nada contra o CDS, não são questões pessoais, mas uma pessoa para estar num partido, como diz a expressão do povo português, é tomar partido. Na avaliação que faço fui ganhando algum distanciamento. Ou seja, eu não me desfilei formalmente, mas estou com a militância suspensa já há cerca de tês anos e não pretendo retomá-la.
E não teve contactos com a direcção do CDS para as próximas autárquicas?
Não tive, nem para as próximas autárquicas, nem para estes três anos em que estive na Câmara, de facto, não fui procurado pela direcção do partido. Eu acho que também eles perceberam isso da minha parte e pronto, e portanto eu tive uma grande preocupação ao longo destes três anos de ser fiel ao eleitorado que me elegeu.
Desde que Nuno Melo foi eleito líder do CDS, em 2022, nunca procurou falar consigo sobre como é que estava a levar o seu mandato e ter uma perspectiva de futuro?
Não, é um facto que não o fez, mas eu também lhe digo, eu não estou muito centrado na questão do CDS. Isto é como as famílias, nós quando estamos em família criticamos a família porque queremos que ela seja melhor, só criticamos aquilo com que estamos comprometidos. Não critico as famílias dos outros, não critico o CDS, que fará o seu caminho. Tenho lá muitos amigos, respeito e, portanto, até por respeito a essas pessoas, acho que não move qualquer animosidade em relação ao CDS, para mim, isso é um assunto encerrado.
E volvidos estes quatro anos, sente que ainda tem caminho a fazer pela cidade de Lisboa?
Caminho a fazer há sempre. Nós ainda não acabamos o mandato...
Mas além do atual mandato?
Estou com uma sensação muito livre em relação a isso, estes quatro anos foi um ciclo importante, é um ciclo que se encerra, tenho muita expectativa, muita esperança que o engenheiro Carlos Moedas anuncie a sua candidatura, coisa que não o fez, e em função desse anúncio terão que ser tomadas decisões.
Pela minha parte, embora tenha sido uma grande honra servir a cidade de Lisboa, também não escondo que a vida é larga e teria também muito gosto em abraçar outros projetos. Estou de coração completamente livre em relação ao futuro.
Mas se o convidarem, se o Engenheiro de Carros e Moedas voltar a convidá-lo para integrar a sua equipa?
O engenheiro de Carlos Moedas, na sua ponderação se vai continuar, também me tem feito essa pergunta e tenho a certeza que também gostaria de contar comigo no futuro. Eu tenho que fazer uma ponderação, não é só política e é também familiar. Sou pai de quatro filhos, ainda muito novos,profissionalmente sempre fui independente da política e isso é uma coisa que me deu sempre grande gozo, olho para o futuro de uma forma também muito independente e muito livre.
"Tenho muita expectativa, muita esperança que o engenheiro Carlos Moedas anuncie a sua candidatura"
Mas quando diz novos desafios está a referir-se fora da política ou dentro?
Até fora da política, ou seja, não excluo nada à possibilidade - e esse é o desejo que eu ouço mais lá em casa, da parte da minha mulher e dos meus filhos - de agarrar outros projetos, portanto, em relação a isso estou muito tranquilo e sereno, com uma grande proximidade em relação Carlos Moedas, muito convicto da importância deste projeto e, sobretudo, esperando que ele concretize esta candidatura que, independentemente da minha circunstância pessoal, terá sempre o meu empenho e o meu apoio.
O CDS estar a fazer resistência para a Iniciativa Liberal não entrar na coligação é uma luta pela sobrevivência?
Não gostaria de comentar isso. O CDS é um partido que tem uma tradição na cidade, acho que é uma mais-valia, mas também me parece óbvio que a Iniciativa Liberal também seria uma mais-valia. Nós tivemos sempre uma grande preocupação de que o projeto não tivesse também prisioneiro dos partidos, pusesse sempre o interesse da cidade e dos lisboetas, acima de perspectivas meramente partidárias. É um projeto que procura somar, agregar, dentro de um espaço de moderação, mas vincado politicamente.
Carlos Moedas tem falado constantemente num bloqueio por parte da oposição e usou isso como justificação para muitas coisas que não andaram mais depressa, e se as pessoas não compreenderem isso, não forem sensíveis a esse argumento?
Acho que as pessoas têm a consciência disso, isso não foi fabricado, isso é uma evidência em vários momentos da vida da cidade nestes últimos quatro anos. Percebeu-se que a oposição, que perdeu as eleições, mas que é maioritária, procurou muitas vezes condicionar o ritmo das medidas e muitas vezes não só o ritmo, mas as próprias medidas, portanto, isso foi uma circunstância com que nós tivemos que conviver. Desde o primeiro orçamento que a oposição quis dizer que quem impunha o ritmo era a oposição. Nós conseguimos cumprir as promessas, investir, e o engenheiro Carlos Moedas imprime muito isso às equipas: fazer, e isso a oposição não conseguiu travar.
Sobre uma promessa que foi feita durante a campanha de 2021: a Coligação Novos Tempos disse várias vezes que queria acabar com a ciclovia na Almirante Reis. Não vos incomoda que a caminho de novas eleições não tenha sido feito o que foi prometido com tanta veemência e que foi uma das bandeiras da campanha?
Sim, na altura foram ditas duas coisas, uma, que iria-se encontrar uma alternativa para essa ciclovia. A verdade é que depois de muitos estudos e muitas avaliações - e nós estamos com uma obra impactante na Avenida Almirante Reis que é o Plano Geral de Drenagem - percebeu-se que o nível de investimento para encontrar uma alternativa, primeira, a alternativa não era plenamente satisfatória. Fizemos uma reavaliação muito profunda da Avenida Almirante Reis, apresentamos um novo desenho para a Avenida no seu conjunto, conseguimos no redesenho da cidade, da Avenida, construir uma nova ciclovia que vai ser muito mais segura e com melhor compatibilidade entre a acessibilidade pedonal e a circulação rodoviária. Não foi feita neste mandato, mas não se consegue fazer tudo num mandato, esperamos num próximo mandato poder ter essa concretização.
Falou do túnel de drenagem, que já sofreu algum atraso em relação ao prazo previsto, vai ser inaugurado antes do fim do mandato?
O plano geral de drenagem, os túneis, são uma obra bastante complexa, uma obra subterrânea, e muitas vezes somos confrontados com surpresas...
Factos arqueológicos...
Exatamente, realmente tem havido alguns acertos em termos de calendário, mas de forma geral está bastante alinhado com aquilo que é a nossa expectativa, temos a esperança que este primeiro túnel termine ainda neste mandato, que é o maior, é um túnel de grande dimensão, de cinco quilómetros.
Ou seja, no próximo inverno, se houver chuvas intensas, é menos provável que a cidade fique inundada, porque os efeitos da obra já se vão sentir?
Todos nós estamos ansiosos que isso se verifique. Eu queria sublinhar a coragem deste Executivo de ter avançado com uma obra de grande dimensão, de grande investimento, porque esta é uma obra que muitas vezes os políticos fogem dela porque não se vê e só traz incómodos.
Quando tiverem os dois túneis totalmente concluídos, julgo que sim, nós temos expectativas que o problema das cheias seja ultrapassado em grande medida e, não sei se será já no próximo inverno, será, sem dúvida, um grande ganho também deste mandato, fundamental para os lisboetas e para a sua segurança.
A oposição, nomeadamente a próxima candidata do PS à Câmara de Lisboa, Alexandra Leitão, tem feito várias críticas ao executivo de Carlos Moedas sobre a recolha do lixo e a limpeza da cidade. A cidade está mais suja do que estava quando o Fernando Medina era presidente?
Isso é altamente questionável. Os grandes problemas do lixo começaram em muitas soluções que foram abraçadas pelo anterior executivo e que nós temos vindo a gerir. Nós temos vindo a fazer um grande investimento e acho, sinceramente, que também já teve fases piores, há alturas em que o lixo está pior, por exemplo, se há uma greve na Valor Sul, isso tem logo impacto na cadeia de todo o trabalho. Há zonas que são particularmente problemáticas e isso muitas vezes tem a ver com aspectos que nós temos que avaliar. Acho que isso é uma crítica fácil, acho que o lixo é um problema grande de todas as cidades e se nós viajarmos pela Europa e pelos capitais europeus percebemos que Lisboa diferencia-se. Quem nos visita diz que um dos aspetos que mais distingue Lisboa enquanto cidade visitada por terceiros é precisamente a limpeza. Isso não significa que não tenha que ser gerido e não tenha que ser resolvido, esse é um empenho nosso.
No tema da habitação, a falta de respostas do Estado Central penaliza as autarquias eleitoralmente?
Sim, não é apenas na habitação. Se quiser pensar nos sem-abrigo, ou em áreas de resposta social. A habitação também é um bom exemplo, porque, na verdade, nós em Lisboa temos conseguido concretizar muitos projetos e muitas entregas de casas, são mais de 2.600 casas. O problema da habitação não é exclusivo de Lisboa, em Nova Iorque, o grande desafio é a habitação.
"Acho, sinceramente, que já teve fases piores, há alturas em que o lixo está pior. Há zonas que são particularmente problemáticas e isso muitas vezes tem a ver com aspectos que nós temos que avaliar"
Enquanto vice-presidente da Câmara sobre o tema da habitação, sentiu que as medidas do Governo da isenção do IMT para jovens não fizeram disparar os preços?
Não saberíamos se os preços não disparariam sem essas medidas, quando estamos contra as medidas, apontamos essas medidas para o aumento dos preços. Nós estamos confrontados em Portugal com um grande desafio de uma saída em massa de jovens do nosso país, o que o Executivo fez, de resto a Câmara tem tentado fazer, mas pela oposição foi chumbado três vezes, foi encontrar respostas para esses jovens. Nós precisamos que os jovens fiquem no nosso país e, no nosso caso, em Lisboa.
Tem o pelouro da Mobilidade em Lisboa, existe a sensação de que o trânsito está pior. Há mais carros a entrar em Lisboa do que havia antes da pandemia?
Acabámos de falar do lixo e o trânsito é a mesma coisa. Se viajarmos pelas capitais europeias, nós temos a consciência de que o trânsito é um grande desafio das cidades. A mobilidade é, de resto, talvez o maior desafio das cidades.
Apesar de tudo, há dados que mostram que nós temos percorrido o caminho certo em Lisboa. Há cada vez mais pessoas a utilizar transportes públicos, e só podemos resolver o problema do trânsito se as pessoas tiverem a alternativa, não é encurtando as estradas ou infernizando a vida aos carros, como a esquerda radical quer fazer.
Um inquérito que foi feito pela DECO e que foi divulgado há cerca de um mês aponta para um crescimento muito significativo da utilização dos transportes públicos. Há dois anos as respostas apontavam para a utilização de 29% dos inquiridos de transporte público, e este ano cresceu para 42%, ou seja, houve um aumento significativo da utilização dos transportes públicos.
Os dados da área metropolitana de Lisboa (AML) também evidenciam isso, no conjunto de movimentos, em todos os transportes públicos, a única componente que baixou percentualmente, foi a utilização do carro individual. No pré-Covid correspondia a cerca de 67% dos movimentos na área metropolitana de Lisboa e hoje representa-se 61%. Apesar de haver um aumento de movimentos, o peso percentual dos carros tem vindo a diminuir.
Como é que vai funcionar a medida da utilização das trotinetes de forma gratuita para quem tem o passe navegante?
Do ponto de vista tecnológico está a ser trabalhada. Tal como acontece com a Gira, uma pessoa que tem o passe navegante terá acesso, presumo eu, a uma forma na plataforma de se poder inscrever e passará a ter 200 minutos gratuitos por mês, em cada viagem até a 10 minutos. A nossa visão é que o transporte público deve ser uma solução integrada e nós devemos oferecer o maior número de soluções para quem adotar o transporte público.
"[Alexandra Leitão] foi a primeira a dizer que não havia problemas de segurança em Lisboa e agora vem tentar ensaiar um discurso de segurança."
Quanto é que isto vai custar aos cofres da Câmara?
Não vai custar nada, foi uma uma contrapartida que foi negociada com os operadores pela disponibilização do espaço público que nós fazemos para o estacionamento das trotinetes e, portanto, é um ganho para a cidade.
O passe navegante acaba por ser uma solução global e uma alternativa ao carro. Com a candidata Alexandra Leitão tem sido o caos, pugnou por uma solução que retirava jovens ao transporte público, dizendo que ia ter um cheque para os jovens andarem de táxi, depois voltou atrás, afinal, já quer é o alargamento dos passes gratuitos. Nota-se uma indecisão grande, portanto "Lisboa Indecisa", é o mantra desta candidatura.
O facto de Alexandra Leitão ser uma ex-ministra do PS que está conotada com um PS mais à esquerda, facilita a vida, à coligação Novos Tempos?
Não vejo as coisas assim, no ato eleitoral, nós devemos ser transparentes e a Alexandra Leitão é conhecida pelas posições que tomou ao longo da sua vida, o que nós verificamos agora é que ela procura ensaiar um discurso diferente, e isso é inconsistente. Presidiu a uma manifestação contra os polícias em Lisboa porque fizeram ações de vigilância numa zona considerada perigosa, na rua do Benformoso, e agora vem a advogar mais polícias. Foi a primeira a dizer que não havia problemas de segurança em Lisboa e agora vem tentar ensaiar um discurso de segurança.
Alexandra Leitão advogou ao longo do tempo posições de grande radicalismo, extremismo, de convocar uma esquerda ativista contra a moderação, e agora quer ensaiar um posicionamento contrário. A única coisa que me ocorre é uma música do Sérgio Godinho que perguntava: "Pode alguém ser quem não é?".












