A Voz das Cidades
Autárquicas em Lisboa: Recolha de lixo, setor privado na habitação e transportes gratuitos
26 set, 2025 - 07:00 • Filipa Ribeiro (moderação) , Ricardo Fortunato (vídeo) , Fábio Oliveira (vídeo e fotos), José Ferreira (som)
Alexandra Leitão e Bruno Mascarenhas querem construir 4.500 novas casas, mas de maneiras diferentes, enquanto João Ferreira defende investimento no património municipal. Candidata do PS critica a falta de articulação entre Carris e Carris Metropolitana, Chega quer inteligência artificial na recolha do lixo e erradicação das "ciclovazias", CDU diz que "redução do preço" dos transportes "não é o principal obstáculo à utilização do transporte público".
Os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa mostraram visões diferentes sobre os transportes públicos na capital: enquanto Alexandra Leitão, cabeça de lista da coligação Viver Lisboa (PS, Livre, BE e PAN), defendeu a gratuitidade dos passes para residentes, João Ferreira da CDU contestou a medida e defende como prioritário investir em mais autocarros, motoristas e Bruno Mascarenhas, do Chega, criticou a construção de ciclovias no centro da cidade, alegando que retiram fluidez ao trânsito.
No debate promovido pela Renascença, integrado no ciclo A Voz das Cidades, não marcou presença Carlos Moedas, o atual presidente e candidato da coligação "Por Ti, Lisboa" de PSD, CDS e IL, que recusou participar. Assim, a oposição a Alexandra Leitão veio sobretudo da sua esquerda, por parte de João Ferreira, numa conversa tensa e com trocas de acusações no final.
Na habitação, tanto a socialista como o candidato do Chega comprometeram-se com o mesmo número de novas casas - 4.500 imóveis -, mas através de meios diferentes: enquanto Alexandra Leitão fala em programas de renda acessível, parcerias com o setor privado e cooperativas, Bruno Mascarenhas quer construir com a ajuda de promotores privados. O candidato comunista propõe maior investimento no património municipal e rejeita os projetos para mais unidades hoteleiras.
Os candidatos falaram ainda da limpeza urbana, com Alexandra Leitão a defender um reforço de meios na recolha do lixo e a rejeitar que a Câmara se escude na descentralização para justificar falhas. A CDU propôs rever o atual modelo que entrega competências às freguesias, enquanto o candidato do Chega avançou com a ideia de recorrer a inteligência artificial para melhorar o serviço.
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A candidata socialista defende que, durante o mandato de Moedas, se perdeu a "dimensão metropolitana da mobilidade" e que o melhor exemplo é o da Carris Metropolitana, que tem um contrato diferente do da Carris, algo que considera "completamente absurdo".
"Uma pessoa que esteja à espera de um autocarro no início da Avenida Gago Coutinho, por exemplo, se passar um autocarro da Carris Metropolitana, só pode largar, não pode receber pessoas. Porque são dois contratos de consumo diferentes. Ninguém percebe isto, nem tem que perceber. As pessoas têm que poder entrar no autocarro", disse, defendendo "atratividade e acessibilidade" para a rede de transportes, que considera estar "desequilibrada para o carro".
O comunista João Ferreira discordou de Alexandra Leitão, contestando que é necessário primeiro "concentrar recursos em pôr o sistema a funcionar bem".
"Podíamos garantir a gratuidade amanhã em Lisboa, com o dinheiro da Câmara Municipal, os tais 30 milhões de euros, segundo as estimativas do PS. Ora, isso não ia trazer ao sistema de transportes públicos o número de passageiros que precisamos. Temos que pegar em todos os recursos disponíveis agora para investir, para aí sim termos mais carreiras, mais autocarros, mais motoristas"; afirmou, considerando que a "redução do preço" dos transportes "não é o principal obstáculo à utilização do transporte público".
Bruno Mascarenhas, candidato do Chega, discordou de ambos e aproveitou para criticar a construção de "ciclovias em demasia".
"O que é que acontece? Temos supressão de faixas de rodagem e com isso, com o mesmo número de veículos, temos o trânsito completamente entupido. Temos que erradicar um conjunto de ciclovias na cidade de Lisboa e permitir a fluidez do tráfego. Relativamente às faixas BUS, com certeza que temos que rever o plano de rede, permitindo exatamente que os autocarros possam circular e aumentar a sua velocidade comercial", afirmou o candidato de direita no debate.
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Mascarenhas criticou ainda as "taxas altíssimas" cobradas pela Emel, a empresa responsável pela concessão do estacionamento público em Lisboa, e refere que a empresa "se devia dedicar exclusivamente a fazer a regulação do estacionamento".
" No centro da cidade, as ciclovias entopem completamente [o trânsito], são 'ciclovazias' que entopem o trânsito, que prejudicam a vida aos portugueses"; afirmou, defendendo uma nova travessia do Tejo em túnel, numa ligação entre Algés e Trafaria e uma ponte rodoferroviária entre Chelas e o Montijo.
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Recolha do lixo: reforço de meios ou ajuda de inteligência artificial?
Na questão da higiene urbana, Alexandra Leitão rejeitou que a descentralização seja a causa dos problemas de limpeza da cidade e prometeu um reforço de meios no serviço de recolha de lixo e defende a manutenção da responsabilidade de limpeza nas juntas de freguesia.
A candidata socialista quer mais meios humanos e materiais no terreno e uma revisão aos circuitos de recolha, além da intensificação da limpeza em freguesias do centro de Lisboa, como Santa Maria Maior, Santo António e Arroios.
João Ferreira, por seu lado, criticou o atual modelo e contrapôs, referindo que a descentralização representa uma transferência de encargos para as juntas sem meios suficientes que estão a gerar ineficiências e mais doenças profissionais entre trabalhadores do setor. O comunista propôs ainda um plano plurianual de contratação e maior gestão integrada pela Câmara Municipal.
Na sua intervenção, Bruno Mascarenhas, do Chega, apontou a responsabilidade à “ineficácia de várias juntas de freguesia” e acusou a atual gestão camarária de falta de liderança. Defendeu que a recolha seja otimizada com inteligência artificial e sensores nos circuitos, apostando nos trabalhadores já no terreno e ligou ainda o aumento do lixo à “imigração ilegal” e à falta de fiscalização.
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Habitação: o mesmo número de casas, mas por caminhos diferentes
Na habitação, as soluções também dividiram os candidatos. Alexandra Leitão comprometeu-se com a construção de 4.500 casas a preços acessíveis até final do mandato, defendendo maior rapidez no licenciamento, taxas mais baixas para projetos de renda acessível e o reforço das parcerias com o setor privado.
A candidata da coligação de PS, Livre, Bloco de Esquerda e PAN defendeu ainda a suspensão da construção de novos hotéis e a imposição de mais restrições ao alojamento local.
Bruno Mascarenhas também prometeu 4.500 casas novas, mas por uma via diferente, a dos promotores privados. Segundo o candidato, estes poderiam construir a 1.600 euros por metro quadrado com terrenos cedidos pela Câmara em direito de superfície.
O candidato considerou ainda as casas de renda acessível devem destinar-se a “famílias portuguesas” e não a estrangeiros.
João Ferreira criticou o que considera uma “desresponsabilização do Estado central” e sublinha que a Câmara, como maior proprietária da cidade, deve investir diretamente no seu património.
O candidato comunista defendeu a utilização dos terrenos municipais, criticando tal como Alexandra Leitão, a construção de novos hotéis na cidade.
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Quem rouba votos a Carlos Moedas?
No final do debate, embora não estivesse presente, o autarca Carlos Moedas foi tema de conversa. Enquanto Bruno Mascarenhas falava, Alexandra Leitão e João Ferreira começaram a trocar acusações.
"Era importante acabar com quatro anos de mandato de Carlos Moedas e não vejo a CDU a contribuir para isso. Pelo contrário", atirou a candidata socialista.
A candidata da coligação de PS, L, BE e PAN acusou o comunista de ser uma "muleta objetiva" do atual presidente do município, enquanto João Ferreira questionou o que é preciso para Alexandra Leitão vencer a eleição: "Para ganhar a Câmara, é preciso ir buscar votantes a Carlos Moedas, não é à CDU."
No meio da troca de galhardetes, o candidato do Chega rematou: "No fim, quem vai buscar votos à CDU sou eu".
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