Autárquicas 2025

Em Beja, as barracas e a autoestrada marcam a batalha autárquica

29 set, 2025 - 07:00 • Alexandre Abrantes Neves

A A26 que ainda está por acabar, as construções precárias que "precisam da intervenção do governo", a falta de médicos de família, o hospital incompleto e a segurança "que exige uma polícia municipal". Beja chega às autárquicas com uma mão cheia de assuntos por resolver - e uma batalha diferente, devido ao crescimento do Chega, e assumida como "díficil" para o atual autarca do PS.

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Em Beja, as barracas e a autoestrada marcam a batalha autárquica
Ouça aqui a reportagem da Renascença em Beja. Foto: Alexandre Abrantes Neves/Ariana Cruz/RR

Em 2021, o PS fez o inédito em Beja: conseguiu, pela primeira vez, uma segunda vitória seguida para o partido. Agora, o recandidato Paulo Arsénio admite à Renascença que as contas não estão “nada fáceis” – em parte, devido ao “desgaste natural de um atual presidente”, mas também por causa do “populismo”, numa referência clara ao Chega, que ali venceu as legislativas de 10 de maio.

Por isso, a estratégia socialista passa por encarar a realidade e garantir estar a trabalhar na resolução dos problemas que persistem no concelho. É o caso da mobilidade, com a A26 que nunca foi acabada e que atualmente deixa ainda um caminho de cerca de uma hora entre o fim da autoestrada e a cidade.

Paulo Arsénio reconhece que a autoestrada seria uma mais-valia para o concelho, mas também não esconde que o projeto interrompido não deve recomeçar em breve. Por isso, foca-se nas soluções “gratuitas” que teriam sempre de existir como alternativa a uma A26 portajada.

“Estamos a falar das Estradas Nacionais 121 e 259. Haverá duas variantes à localidade de Figueira de Cavaleiros, no concelho de Ferreira do Alentejo, e à localidade de Beringel, à vila de Beringel, em Beja. Está a ser recuperado, o traçado que seria o da A26. Portanto, aí ficamos com a chamada via dupla em cada sentido”, assinala como principal medida em termos de mobilidade.

Do lado da coligação “Beja Consegue” (composta por PSD, CDS e Iniciativa Liberal), Nuno Palma Ferro também não esconde que a A26 é um dos maiores problemas que “preocupa e inquieta” os habitantes. O social-democrata lamenta a falta de pressão por parte do executivo municipal do PS e, por isso, diz querer ter a obra feita em menos de cinco anos: “Ontem era bom”, ironiza.

Já para a CDU, a prioridade em termos de mobilidade passa pelo aeroporto de Beja, onde atualmente a maioria da atividade diz respeito a voos privados e a transporte de mercadorias. Vítor Picado considera que o equipamento está desaproveitado e promete criar um polo empresarial e industrial que torne o aeroporto mais útil e rentável.

“O estudo que deu início ao projeto preconizava, nesta altura, cerca de 1.000 postos de trabalho. Falta tudo, criámos algumas dezenas só. Temos 70 hectares para que as empresas se possam fixar. Queremos criar um gabinete de apoio ao empresário na zona de expansão empresarial e no parque industrial”, propõe.

O Chega também quer incentivar à industrialização nas imediações do aeroporto – nomeadamente, na área da defesa –, mas olha com especial urgência para a eletrificação e expansão da linha férrea.

Atualmente, todos os comboios a partir de Lisboa têm de parar e fazer um transbordo em Casa Branca para conseguirem chegar até Beja. David Catita defende, por isso, que a linha seja melhorada e passe pelo limite da cidade e não pelo centro – para conseguir melhorar o transporte de mercadorias, mas também para que os comboios que venham de Évora consigam seguir sem transbordo até ao Algarve. “É o mínimo”, assinala.

Barracas "só pioram" e precisam do Estado central

Outro tema a marcar a campanha em Beja é a habitação, num concelho onde, segundo dados da plataforma Idealista, a oferta de casas desceu 27,5% no primeiro trimestre deste ano.

A crise faz-se sentir na classe média, mas principalmente nos bairros da Canifa e das Pedreiras, ambos compostos essencialmente por barracas. O autarca do PS, Paulo Arsénio, não tenta encobrir a “situação complicada”, mas também desvia a responsabilidade e culpa o Estado central.

“Tem havido um fluxo a Beja significativo, a população de etnia sobretudo no pós-Covid. Independentemente de nós termos já prevista a demolição de um conjunto de habitações pré-fabricadas, tem de haver ali um olhar global. [É preciso] que haja uma articulação depois com os municípios e uma intervenção central do Governo para a resolução do problema”, considera.

Ontem era bom para concluir a A26 até Beja

Nuno Palma Ferro (PSD/CDS/IL) alinha nesta perspetiva, mas lamenta que, desde 2021, “o problema só tenha piorado”. Já o Chega promete, pela voz de David Catita, um plano de “erradicação” destas construções precárias e sugere medidas para reintegrar estas pessoas, ainda que admita que merecem ser melhor desenvolvidas depois das eleições.

O processo [de integração] tem de ser gerido de uma forma integrada e, na verdade, nós temos pessoas que estão legais, outras que são ilegais, ocupações de terrenos que até são particulares. A obrigação do Estado é pôr ordem neste processo e nós não podemos deixar que este peso da erradicação de barracas fique só para a autarquia” defende.

Para a classe média, o PS defende a requalificação de casas no centro histórico para arrendamento acessível, já David Catita do Chega quer desafetar terrenos agrícolas que não estão utilizados e disponibilizá-los para a habitação.

A CDU, por seu turno, diz querer acabar com todas as “condições indignas”, nomeadamente junto dos imigrantes, que asseguram funções essenciais, como no setor da agricultura.

“A Câmara não tem fiscalizado convenientemente nem denunciado. Até no centro histórico temos uma série de lojas, que alojam pessoas em condições indignas. E o combate a essas redes de escravidão e de receção de pessoas nessas condições é fundamental. O trabalho em rede é importante para a fiscalização e para que estas situações não se verifiquem, porque estas pessoas são fundamentais para o comércio e para os serviços”, sublinha.

Médicos que vêm para Beja "por causa de bons jardins"

Na saúde, Beja é reflexo do resto do país: dos cerca de 33 mil habitantes, praticamente um em cada quatro (24%, perto de oito mil pessoas) não tem médico de família atribuído.

Para a coligação Beja Consegue (PSD/CDS/IL), a solução para este problema pode ir para lá das medidas habituais e basear-se num reforço da oferta – numa equação onde os privados e o setor social também entram.

“Pretendemos criar um seguro para idosos com mais de 65 anos que estejam ao abrigo do complemento solidário para idosos (CSI). Esse seguro serviria para suprir algumas necessidades e para dar acesso a consultas de algumas especialidades ou de generalidade, em que as pessoas não tenham de estar oito e dez meses à espera. Vamos trabalhar com todos [para isto]”, sugere Nuno Palma Ferro.

Pedimos uma intervenção central do Governo para a resolução do problema das barracas

Para o PS, esta é uma ideia “muito mal explicada, nem sequer quantificada” e que não deve aparecer para substituir a necessidade de o governo central acelerar a construção da segunda fase do hospital de Beja.

Já sobre incentivos para atrair mais profissionais de saúde, Paulo Arsénio é perentório – a resposta é “não”, porque seria “uma grande injustiça” para outras classes profissionais.

“Queremos que Beja ofereça boas condições para os médicos cá se estabelecerem, não necessariamente com benefícios oferecidos pela Câmara Municipal, mas através de uma cidade com uma vida cultural ativa e diversificada, com bons jardins e boa rede pré-escolar e escolar e que encontrem aqui acessibilidades para chegar ao Algarve, ao Lisboa, ao Litoral e a Espanha”, defende.

Noutros temas, o Chega puxa para o topo das prioridades da campanha a defesa da segurança na cidade, nomeadamente com a criação de uma polícia municipal. Apesar de não poder fazer detenções, o órgão vai ser “útil”, acredita David Catita.

Paulo Arsénio do PS pede ao governo para coordenar a intervenção para a demolição de barracas na região de Beja. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Paulo Arsénio do PS pede ao governo para coordenar a intervenção para a demolição de barracas na região de Beja. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Vítor Picado, candidato da CDU, aponta como uma das principais proposta a recuperação do centro histórico de Beja. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Vítor Picado, candidato da CDU, aponta como uma das principais proposta a recuperação do centro histórico de Beja. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Nuno Palma Ferro representa a coligação Beja Consegue (PSD/CDS/IL) e quer criar um seguro de saúde municipal para os idosos mais pobres. Foto: D.R.
Nuno Palma Ferro representa a coligação Beja Consegue (PSD/CDS/IL) e quer criar um seguro de saúde municipal para os idosos mais pobres. Foto: D.R.
David Catita do Chega considera que Beja precisa de uma polícia municipal para "aumentar a segurança nas ruas". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
David Catita do Chega considera que Beja precisa de uma polícia municipal para "aumentar a segurança nas ruas". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

“Nós chamamos a PSP e a GNR para uma diversidade de assuntos e, na verdade, se nós tivermos uma Polícia Municipal, vamos conseguir aliviar as forças de segurança de alguns trabalhos. Dou-lhe um exemplo. Há um programa de Escola Segura que tem a presença da polícia junto às escolas, mas só está de vez em quando. Não tem uma grande presença”, exemplifica.

Já a CDU, se reconquistar a câmara que lhe foge desde 2013, assume como um dos temas mais prioritários a recuperação do centro histórico – para habitação, mas principalmente para comércio e cultura.

“Com o Museu de Sítio, o Castelo de Beja, as Ruínas Romanas de Pisões, e as ofertas nas freguesias, podíamos catapultar Beja para um nível turístico invejável. É isso que traz as pessoas e nós queremos trazer iniciativas para a cidade, reforçando essa coesão social. Nós queremos um centro histórico ligado à vida. Só assim conseguimos trabalhar ao nível do enriquecimento do comércio local”, vincou.

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