Autárquicas 2025

Convicto de que vai vencer, Carneiro afasta demissão e quer estabilidade para reerguer o PS

30 set, 2025 - 02:15 • Alexandre Abrantes Neves

O líder do PS "está convicto" na vitória, mas se perder as autárquicas lembra que a "apreciação local" das candidaturas vai valer mais na hora de apurar responsabilidades. Em Évora e em Beja, José Luís Carneiro não se coibiu de mostrar que o principal objetivo é "recolocar o PS onde ele merece estar".

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A primeira semana a bordo da caravana do PS começou a pensar no “after party”. Ainda na manhã desta segunda-feira, o líder socialista dizia ao jornal online Eco que, se o partido perder as eleições autárquicas de 12 de outubro, essa “não será uma derrota do secretário-geral”. Rejeitava, assim nas entrelinhas, qualquer demissão, admitindo apenas que mais um desastre eleitoral seria negativo para as “comunidades locais" e para os “valores e princípios” defendidos pelos socialistas.

Mais tarde, já em Lisboa, depois de se reunir com a Confederação dos Agricultores de Portugal, José Luís Carneiro tentou corrigir o tiro. Vincou que “não foge às suas responsabilidades”, mas lembrou que os primeiros responsáveis serão sempre os candidatos locais.

Cada candidatura tem uma apreciação local como, aliás, o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos há dias demonstrou. Os cidadãos em cada comunidade local avaliam, em primeiro lugar, o perfil do candidato à Câmara. Em segundo lugar, valorizam muito as questões éticas e a dimensão programática. E, só em terceiro lugar, é que aparece o partido”, afirmou.

A pergunta tornou-se, por isso, inevitável: a culpa seria então de Pedro Nuno Santos, ex-líder socialista que, ainda antes da hecatombe eleitoral do PS nas legislativas de maio, escolheu a maioria dos candidatos? “De forma alguma. Assumo as minhas responsabilidades”, garantiu Carneiro, que logo se apressou a tentar encerrar o tema.

Primeiro, fê-lo ao dizer, uma vez mais, que “está convencido” que o PS vai ganhar de novo as autárquicas e renovar a liderança da associação de municípios e de freguesias. E, depois, também ao driblar o assunto e chutá-lo para o líder do PSD.

Já perguntaram ao Dr. Luís Montenegro, se perder as eleições autárquicas, se se demite das funções governativas?”, desafiou os jornalistas. A resposta não tardou – ainda Carneiro não tinha chegado a Évora para a ação de campanha seguinte e já o primeiro-ministro dizia que “seguramente” não se demite perante uma derrota no próximo dia 12.

Foco no reerguer

O futuro no pós-autárquicas não fazia parte dos assuntos confortáveis para Carneiro, que foi ao Alentejo mostrar que “aspira a ser primeiro-ministro” e que, por isso, está interessado em manter a estabilidade interna no partido para o reerguer como o “baluarte da democracia portuguesa”.

Nós queremos que o Partido Socialista volte a estar onde ele tem de estar, porque só ele é capaz de garantir a liberdade, a igualdade e a justiça social, porque é o Partido Socialista que constitui o grande baluarte da democracia portuguesa. (…) A democracia está a carecer de cidadãos que baluartes dos valores fundamentais da elevação cívica, da ética republicana”, apelou em Évora, num comício de apoio ao antigo secretário de Estado e eurodeputado, Carlos Zorrinho.

Duas horas mais tarde, já em Beja – onde o PS tenta o terceiro mandato para Paulo Arsénio –, o assunto voltou a aparecer.

Desde logo, o próprio recandidato assumiu que esta é a “batalha mais difícil de sempre” no concelho, depois do Chega ali ter vencido as legislativas em maio com uma vantagem de cerca de 500 votos para o PS. Depois, juntou-se o líder do partido que virou o tom, diminuindo a preocupação e juntando motivação.

A democracia não está para brincadeiras. Está para escolhas muito responsáveis. As portuguesas e os portugueses sabem bem quem é o Partido Socialista, desde antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril. Sabem que o Partido Socialista foi sempre e será sempre um esteio da liberdade, da igualdade e da justiça social”, afirmou, para depois afastar eventuais críticas a uma redução da força autárquica do partido.

“Nesta candidatura, e em muitas outras, há muitos cidadãos que já votaram noutros partidos, mas que hoje fazem dos nossos projetos um espaço da pluralidade democrática”, sublinhou.

Prioridades: hospital em Évora e aeroporto em Beja

Há quatro anos, o então líder socialista, António Costa, admitia querer um “jackpot” no Alentejo e conquistar as três capitais de distrito: Portalegre, Évora e Beja. Agora, José Luís Carneiro ainda não definiu nenhuma meta (também ainda não foi a Portalegre), mas está empenhado em apanhar todas as oportunidades.

Exemplo disso é a tentativa de travar o crescimento do Chega ao enfatizar a “responsabilidade” de “defender a democracia”, mas também os ataques à CDU, que ainda mantém câmaras na região, nomeadamente em Évora, onde está em limite de mandatos.

“Quando os outros andam para a frente e nós estagnamos significa, verdadeiramente, que estamos a andar para trás”, afirmou em Évora, para horas depois ouvir em Beja da boca do recandidato Paulo Arsénio que aqueles que “falharam redondamente” (o PS conquistou a câmara à CDU em 2017) “não voltarão” à liderança da autarquia.

Nesta estratégia, o próprio José Luís Carneiro destacou algumas das medidas mais urgentes dos programas autárquicos locais. Em Évora – perante um Giraldo ocupado a metade por um comício que pouco perturbou a restante atividade naquela praça –, o líder do PS falou do ainda bloqueado novo hospital da cidade e pediu a Luís Montenegro para resolver os problemas com a infraestrutura o mais rapidamente possível.

“Quero daqui interpelar o Governo e o primeiro-ministro que não podemos ficar bloqueados numa pequenina guerra de alecrim e manjerona entre disputas de competências e que, finalmente, coloque esse hospital ao serviço do país e desta importante região”, apelou, referindo-se aos desentendimentos entre executivo e autarquia da CDU sobre os problemas de acessibilidade ao novo hospital.

Já em Beja (e depois de aproveitar o emprego jovem para dizer que critica a reforma laboral por “defender direitos” e não por “teimosia”), o tema primordial foi o aeroporto, hoje maioritariamente dedicado a voos privados e de transporte de mercadorias. Carneiro quer torná-lo num ponto de ligação a meio caminho entre Lisboa e Faro para a aviação comercial.

“Esse compromisso é o de que tudo faremos na Assembleia da República, como fizemos quando estávamos no Governo. Nós bateremos para que o aeroporto de Beja tenha uma função complementar aos principais aeroportos nacionais e seja um importante fator estratégico, uma âncora de desenvolvimento de toda esta região”, prometeu.

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