Autárquicas 2025

Em Castelo Branco, pode o PS atual perder para o antigo PS?

01 out, 2025 - 06:15 • Fábio Monteiro

Castelo Branco prepara-se para uma das mais imprevisíveis eleições autárquicas dos últimos anos. O atual presidente, Leopoldo Rodrigues, tenta manter o PS no poder, mas o principal adversário é um ex-autarca socialista, agora apoiado por PSD e CDS. No meio, há promessas, acusações, casas devolutas e um hotel que ainda não saiu do papel.

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Reportagem Autárquicas CasteloBranco
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A vida política ao nível autárquico tem idiossincrasias muito próprias. Há 28 anos – sete mandatos distribuídos por quatro presidentes – que o Partido Socialista comanda os destinos da Câmara Municipal de Castelo Branco. E, no próximo dia 12 de outubro, quando os albicastrenses forem chamados às urnas e tiverem de optar por um de seis candidatos, pode dar-se algo peculiar: o atual autarca socialista perder… para um antigo autarca socialista.

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O cenário é possível porque o principal adversário de Leopoldo Rodrigues, edil desde 2021 e recandidato pelo PS, é José Augusto Alves, ex-vice-presidente do município, que também assumiu, entre julho de 2020 e agosto de 2021 o cargo de presidente, após a perda de mandato de Luís Correia.

Em 2021, o PS de António Costa afastou Luís Correia (que foi absolvido pelo Tribunal Administrativo, criou o Sempre - Movimento Independente e concorreu à mesma à câmara, sendo eleito vereador), e optou antes por lançar Leopoldo Rodrigues, então presidente da Junta de Freguesia de Castelo Branco.

Na época, José Augusto Alves não fez parte de nenhuma das listas: nem do PS nem do Sempre. Desta feita, contudo, está de volta – mas com outra cor política na retaguarda.

José Augusto Alves encabeça a coligação “Sempre por Todos”, que une o Sempre – Movimento Independente, o PSD e também o CDS-PP. À Renascença, o candidato descreve-se como “independente”, mesmo já tendo feito parte de um executivo socialista, e justifica a decisão de voltar a concorrer com o “projeto” que a coligação tem para a cidade.

“O concelho de Castelo Branco está um marasmo, está parado, não há uma obra”, atira.

Sem espanto, Leopoldo Rodrigues é crítico da transição para a oposição do antecessor. Acusa-o de ter “trocado as suas convicções por interesses”. E diz ainda: “É curioso que esse meu opositor, que teve a oportunidade de fazer, enquanto esteve na Câmara Municipal, diga hoje que nós não fizemos aquilo que ele devia ter feito.”

A troca de invetivas entre Leopoldo Rodrigues e José Augusto Alves tem algo de romanesco, de desentendimento familiar. José Henriques, candidato pela Iniciativa Liberal, não tem grandes dúvidas: “Estamos a falar de duas candidaturas parecidas, o PS atual e o PS antigo”.

Carlos Canhoto, candidato pela CDU, fala de uma “saudade de poder de algumas forças e figuras, os excluídos do PS nas últimas eleições”. E Mário Camões, candidato da coligação Esquerda Livre (Bloco de Esquerda e Livre), sinaliza uma “ausência de vitalidade democrática”.

“Estamos num meio pequeno, onde muitos cidadãos se sentem desencantados e despolitizados, e onde a confiança nas instituições está provavelmente em níveis históricos baixos”, lembra.

A realidade, porém, é que qualquer que seja a força partidária que conquiste a Câmara de Castelo Branco terá, durante o próximo mandato, vários desafios pela frente: a escassez de habitação, a reabilitação do centro histórico, a perceção de insegurança, a falta de emprego qualificado e a necessidade de reforçar a atratividade turística. Ou seja, os problemas do país à escala do concelho.

Tijolo contra tijolo: quem constrói melhor o futuro da habitação?

O problema da habitação não é novidade para os albicastrenses. Entre setembro de 2020 e agosto de 2025, o preço por metro quadrado na cidade aumentou perto de 45%, de acordo com dados do portal Idealista.

Ao mesmo tempo, no centro histórico da cidade, a autarquia tem perto de 130 casas devolutas, mas não tem meios financeiros para as reabilitar no curto prazo.

Leopoldo Rodrigues defende o trabalho feito no último mandato. “Quando chegámos à Câmara Municipal, tínhamos zero projeto e também não tínhamos Estratégia Local de Habitação.” E revela à Renascença que uma das ideias que tem para a reabilitação do centro histórico passa pela criação de um fundo de investimento imobiliário.

“Queremos contar com o património da Câmara, com o capital de fundos de investimento interessados e também com o de locais que queiram participar neste projeto de recuperação da zona histórica”, diz. Mas também acrescenta: “Só com capitais da Câmara será impossível. Só na reabilitação de quatro imóveis investimos um milhão de euros. Se falamos de 130 casas devolutas, imaginem o que é necessário.”

José Augusto Alves disputa a tese de ter deixado “zero projeto” quando saiu em 2021. “Eu deixei na Câmara um projeto para que uma empresa fizesse a Estratégia Local de Habitação em seis meses. Usaram a mesma empresa, mas com outra postura, e demoraram dois anos. Isso significa incumprimento. Não sei que razões foram invocadas, mas perderam-se fundos”, acusa.

Para José Henriques, candidato da Iniciativa Liberal, a solução para o centro histórico passa por entregar a reabilitação aos privados. Como? Com um programa “Reabilitar para Reviver”, que prevê a cedência gratuita de imóveis devolutos a quem os quiser recuperar.

“A Câmara tem mais de 100 casas devolutas. O que queremos fazer é simples: se alguém quiser recuperar uma dessas casas, pode fazê-lo e, se ficar a viver nela como habitação permanente, fica com a casa. Se quiser arrendar ou vender, terá de pagar à Câmara o valor da casa no momento da cedência”, explica.

O candidato liberal defende também uma modernização e digitalização urgente dos serviços camarários: “A Câmara é demasiado burocrática, pouco ágil e muito opaca. Ninguém sabe quando entrou o licenciamento, nem por que razão demora seis ou 12 meses. Isso tem de acabar”.

Mário Camões, da coligação Esquerda Livre, coloca o foco no arrendamento acessível e no território rural. Propõe usar o património público para apoiar cooperativas de habitação e investir em casas modulares, que permitam responder de forma célere à procura habitacional.

“Queremos uma mobilização ambiciosa para recuperar o património camarário, sobretudo para arrendamento acessível. Sabemos que nem tudo pode ser usado para habitação, mas queremos também apoiar a constituição de cooperativas e apostar na bioconstrução e casas modulares, especialmente nas freguesias rurais”, conta.

Quanto ao centro histórico, o candidato defende uma abordagem alternativa: “Queremos torná-lo o centro da cultura popular da cidade, com habitação partilhada, co-living, espaços para artistas e associações. Precisamos de planeamento urbano que separe zonas de lazer das zonas residenciais, para evitar conflitos”.

Já Carlos Canhoto, da CDU, remete o problema para uma escala mais ampla: “O direito à habitação é um direito constitucional, e a sua crise resulta das políticas de sucessivos governos, que privilegiaram a especulação e o turismo de massa."

Ainda assim, o comunista reconhece que a autarquia tem um papel a desempenhar: “Pode intervir diretamente na reabilitação de imóveis devolutos e colocá-los no mercado de arrendamento acessível. Não vemos necessidade de envolver privados nesse processo, se os imóveis já são públicos”.

Entre a lente e a rua: videovigilância ou presença no terreno?

De que perceções é feita a realidade? Segundo dados da PSP e da GNR, em 2024 a criminalidade no concelho de Castelo Branco diminuiu 10,2 % em relação a 2023. E durante o primeiro semestre de 2025 a tendência também foi de queda relativamente ao período homólogo: menos 3,5%.

Ainda assim, a Câmara Municipal de Castelo Branco prepara-se para instalar 83 câmaras de videovigilância em toda a cidade, desde a zona histórica aos novos bairros, passando pelas entradas e saídas. A proposta do executivo liderado por Leopoldo Rodrigues (PS) está em fase de aprovação legal, mas é já um dos temas mais polémicos da campanha.

O atual autarca garante que se trata de uma resposta a uma nova leitura da realidade feita pelas forças de segurança. “Quando tomei posse, o comandante da PSP considerava que não se justificava a instalação de câmaras. Dois anos e meio depois, após reuniões com os comandos distritais e nacionais, voltou a reunir-se comigo e considerou que fazia sentido avançar com o sistema”, conta Leopoldo Rodrigues.

Apesar de afirmar que Castelo Branco “é um dos concelhos mais seguros do país”, o autarca defende que a videovigilância pode prevenir comportamentos menos cívicos.

“Temos casos recorrentes de vandalismo urbano: flores arrancadas no dia em que são plantadas, sinais de trânsito destruídos, grafites em edifícios públicos. Não são crimes violentos, mas são sinais de desrespeito pelo espaço público”, justifica.

José Augusto Alves vê com bons olhos o investimento na videovigilância. Mas critica a morosidade da iniciativa. “Mais um anúncio, mais uma publicidade do candidato Leopoldo Rodrigues, que demorou estes anos todos a concretizar. Só recentemente os documentos chegaram ao Ministério da Administração Interna”, diz.

Na mesma linha, o liberal considera que a videovigilância “peca por tardia”, defendendo-a como ferramenta dissuasora. “Não serve apenas para identificar crimes, serve para os evitar. Havendo câmaras, há prevenção: as pessoas pensam duas vezes antes de cometer um delito”, afirma. Embora admita que não sente insegurança pessoalmente, diz compreender o sentimento de quem a manifesta: “Castelo Branco ainda é seguro, mas a tendência nacional pode vir a refletir-se cá.”

Já Mário Camões, da coligação Esquerda Livre, defende que a aposta na videovigilância ignora as causas profundas da insegurança. “Gostamos de olhar para os problemas pela raiz. E uma das principais causas da insegurança é o aumento da desigualdade económica. A vigilância é uma resposta superficial”, sustenta.

Carlos Canhoto, da CDU, vai ainda mais longe nas críticas. Acusa a direita e a extrema-direita de alimentarem a “perceção de insegurança”, amplificada por determinados meios de comunicação. “Castelo Branco não vive um clima de insegurança. O crime violento que mais cresce é a violência doméstica, como em todo o país. Fora isso, são furtos pontuais e algum tráfico, que são transversais a todo o território”, afirma.

Para Canhoto, a videovigilância “não deve ser uma prioridade” e considera preocupante que o PS a tenha assumido como tal. “É uma cedência ao discurso da direita. O caminho deve ser outro: intervenção social, combate à desigualdade e reforço de serviços públicos”, defende.

O hotel de todas as questões: entre promessas, polémicas e tribunais

O turismo não é apenas o motor da economia no litoral – desempenha também um papel cada vez mais relevante no centro do país. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de ocupação de camas no concelho tem vindo a crescer de forma sustentada: de 33% em 2021 subiu para 42,5% em 2023.

Isso explica que a construção de um hotel em pleno centro de Castelo Branco, numa operação promovida pela Câmara Municipal, seja um dos pontos de disputa na campanha. (O processo, iniciado em maio deste ano com a aprovação da alienação do terreno em hasta pública, foi, entretanto, suspenso por decisão judicial, após entrada de duas providências cautelares.)

Segundo Leopoldo Rodrigues, o investimento é essencial para dar resposta à procura turística: “O número de dormidas tem diminuído, mas o número de turistas tem aumentado. Isso pode significar que a oferta hoteleira não está à altura da procura.” O socialista menciona eventos como o Rally de Castelo Branco ou a Volta a Portugal, cujos participantes são obrigados a “dormir no Fundão, na Covilhã ou até em Espanha”, por falta de camas disponíveis.

José Augusto Alves, seu principal adversário, também entende que é preciso um novo hotel na cidade. Mas contesta o local escolhido. “Aquele espaço não é ideal para fazer um hotel. O centro da cidade é pequeno, é atrofiado, e retira lugares de estacionamento”, critica. Considera que o turismo é importante, mas a prioridade deve ser criar condições e políticas para atrair visitantes de forma estruturada. “Eu não quero um hotel. Quero três, quatro, cinco hotéis — os que forem necessários. Mas não podemos fazer infraestruturas que depois ficam às moscas”, afirma.

Alves aponta ainda o timing do processo, que considera eleitoralista: “Só agora, a dois meses do fim do mandato, é que se volta a falar do hotel. Foi promessa em 2021, mas durante anos não se fez nada. E agora, tudo aparece”, acusa.

A coligação Esquerda Livre, através de Mário Camões, assume posição intermédia. “Concordamos com o diagnóstico: há falta de oferta hoteleira. Mas temos uma perspetiva diferente sobre a solução”, começa por dizer.

Camões propõe um modelo de hotel público ou cooperativo, com gestão comunitária. “A riqueza gerada deve ficar na comunidade, não ser extraída em forma de mais-valias por fundos de investimento que não vivem cá e que não reinvestem localmente”, defende.

O candidato da Esquerda Livre quer ainda repensar o turismo local com base em princípios de desenvolvimento sustentável e cooperativo. “Não se trata apenas de crescer, mas de desenvolver. Um hotel, sim, mas dentro de uma estratégia mais ampla e integrada”, sustenta.

Mais crítico quanto ao papel do turismo na economia está José Henriques, da Iniciativa Liberal. Embora reconheça o potencial turístico da região, não vê no turismo “o principal foco de crescimento económico”. Considera que a concorrência é elevada e que Castelo Branco perdeu tempo. E sobre o hotel, é claro: “Não concordamos com a localização. Vai trazer entropia ao centro da cidade e eliminar estacionamento gratuito. Há alternativas, como o edifício do antigo Governo Civil, a 60 metros dali”, propõe.

Carlos Canhoto, candidato da CDU, rejeita transformar Castelo Branco num destino turístico massificado. “Há quem queira transformar o concelho num parque de diversões. Nós defendemos o turismo como atividade complementar, com impacto positivo nos pequenos empresários, cafés e restauração local”, afirma.

Sobre o hotel, não levanta objeções à construção ou localização, mas critica a sua centralidade no debate político: “Não somos contra o aumento da oferta hoteleira, mas não pode ser o eixo principal do desenvolvimento. Isso seria um erro”, alerta.

Atrair empresas, qualificar jovens e combater a precariedade

Atrair empresas, criar condições para fixar jovens qualificados, revitalizar fábricas paradas e desenvolver novas formas de trabalho no meio rural. Quem não quer?

O presidente da Câmara e recandidato pelo PS, Leopoldo Rodrigues, aponta resultados concretos no terreno e garante que a autarquia “criou condições reais para fixar empresas” no concelho. Cita como exemplo a instalação da Aptiv, empresa da área da mobilidade elétrica, que irá construir uma nova fábrica. “É um investimento de 70 milhões de euros, com previsão de 70 postos de trabalho altamente qualificados e uma faturação anual de 70 milhões. Isto representa valor acrescentado real”, afirma.

Mesmo assim, este exemplo não enche os olhos de José Augusto Alves. O candidato acusa o atual executivo de abandonar o investimento local. “Há projetos completamente parados, como a Fábrica da Criatividade e a Fábrica do Jovem Empreendedor. Vamos recuperar esses espaços e criar um centro incubador de empresas nas antigas instalações industriais”, afirma.

José Henriques, da Iniciativa Liberal, considera que Castelo Branco ficou para trás, comparando com concelhos vizinhos: “A Covilhã criou um cluster na área da saúde e da investigação. O Fundão apostou na tecnologia e hoje tem startups e empresas de inteligência artificial. Nós apostámos em call centers com salários baixos. Fomos conhecidos como a capital dos call centers”, critica.

Para inverter o cenário, propõe a criação de uma equipa especializada em captação de investimento: “Temos de estar presentes em feiras de indústria, em Portugal e no estrangeiro. A Câmara tem de se mexer, mostrar que Castelo Branco é competitivo”, defende. Aponta ainda a necessidade de transformar o CEI — Centro de Empresas Inovadoras — num verdadeiro motor de renovação: “Tem empresas há anos no mesmo espaço, sem rotatividade. Precisamos de um Taguspark do interior, com escritórios e serviços que gerem emprego qualificado”.

Henriques quer também garantir 500 postos de trabalho qualificado para jovens do concelho, o que representa “um sétimo da população em idade de ensino superior e 1% da população total. É um objetivo concreto e atingível”, afirma.

A Esquerda Livre, por sua vez, pretende apostar numa estratégia de transição ecológica e economia cooperativa. “Queremos atrair empresas ligadas às energias renováveis, instalar painéis solares, aerogeradores, testar microturbinas. Mas também queremos criar uma unidade industrial para produção de cânhamo industrial aplicado à construção”, detalha.

Camões propõe ainda expandir a incubadora municipal para apoiar também a economia social e cooperativa, não apenas startups tecnológicas: “Precisamos de diversidade no tecido económico. Não basta criar empresas, é preciso que elas gerem riqueza redistribuída localmente”.

Já Carlos Canhoto, da CDU, tem como prioridade combater a precariedade laboral dentro do próprio município. Aponta casos concretos: “Temos uma empresa municipal, a Albigec, que gere piscinas, equipamentos culturais, entre outros, onde persistem situações precárias. Queremos integrar estes trabalhadores nos quadros da Câmara, dentro dos limites legais."

(A Renascença tentou também ouvir o candidato do Chega e deputado na Assembleia da República João Ribeiro, mas não obteve resposta.)

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