Autárquicas 2025
PCP reconhece que tem tido menos votos, mas acredita que vai "consolidar e crescer"
03 out, 2025 - 06:30 • Cristina Nascimento
CDU conseguiu, em 2021, a presidência de 19 câmaras. João Frazão, da Comissão Política do Comité Central, confia que obra feita vai ajudar nas contas de 12 de outubro.
O dirigente comunista João Frazão garante que o PCP vai às eleições autárquicas de 2025 apostado na proximidade com as populações.
“Temos obra feita onde somos maioria; temos trabalho realizado onde estamos em minoria; e mesmo onde não temos eleitos, temos iniciativa em torno dos problemas concretos das populações”, exemplifica o dirigente comunista, em entrevista à Renascença.
Apesar da importância crescente das redes sociais, Frazão, membro da Comissão Política do Comité Central do PCP, sublinha que “esse trabalho não substitui o contacto da conversa”, defendendo que ouvir críticas e problemas é essencial.
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Quanto à gestão municipal, reforça que o partido não está arrependido de privilegiar o serviço público: “Às empresas privadas interessa o lucro. No momento em que isso colidir com o serviço público, não temos dúvidas de que vão pôr em causa esse serviço.”
Sobre objetivos eleitorais, Frazão reitera o “objetivo de consolidar as 19 autarquias e centenas de freguesias” que têm atualmente e querem “crescer em vereadores e assembleias municipais”.
Questionado sobre a sucessiva perda de votos que o PCP tem vindo a acumular, Frazão garante que o partido reconhece “as dificuldades”, mas mostra-se confiante num bom resultado.
Com que estratégia é que o PCP se apresenta para estas eleições?
Eu tenho de lembrar que o PCP fez, há dois anos, uma conferência nacional e, no ano passado, um congresso em que apontámos uma linha de trabalho que agora nos vai ser de toda a utilidade nas eleições autárquicas. A linha de trabalho é tomar a iniciativa e agir em proximidade com as populações.
Realizámos já este ano um grande abaixo-assinado nacional, que entregámos ao primeiro-ministro, pelo aumento dos salários, em que recolhemos quase 150 mil assinaturas. Isso implicou um trabalho de contacto, esclarecimento, conversa. Para recolher 150 mil assinaturas, é preciso fazer 300 mil, 400 mil conversas.
Nós também temos uma vantagem: temos obra feita, onde somos maioria, temos trabalho realizado onde estamos em minoria e, mesmo onde não estamos nas autarquias, em muitas autarquias não temos nenhum eleito, temos iniciativa em torno dos problemas concretos das populações.
Se virmos os orçamentos de cada partido, sabemos que não somos, nem de longe nem de perto, aquele que tem orçamento maior. Mas isso não nos preocupa, porque aquilo que nos possa faltar em grandes cartazes, compensamos nesse contacto direto, nessa conversa, nesse esclarecimento, que vai ao bairro, que vai à localidade, que vai à aldeia mais recôndita, numa linha de grande contacto e proximidade.
Uma campanha em 2025, o partido tem alguma orientação específica para, por exemplo, existir uma aposta nas redes sociais?
Nós temos uma realidade de redes sociais que é hoje de uma dimensão muito grande. São centenas de páginas, páginas de concelhos, páginas de freguesia, as páginas pessoais dos candidatos. Muitos candidatos usam e fazem, aliás, um uso muito intenso disso.
Mas esse trabalho, que é indispensável, que nós não dispensaremos e que estamos a fazer um pouco por todo lado, não substitui o contacto da conversa. O contacto nas redes é unidirecional. O outro contacto, o contacto no esclarecimento, na conversa, permite não apenas falar, mas fazer uma coisa que talvez seja ainda mais importante nestas eleições, que é ouvir. Ouvir os problemas e ouvir as críticas, porque é natural que quem tem poder seja sujeito a críticas, que não faça tudo bem.
Este contacto permite ainda esclarecer, por exemplo, que, em muitos casos nas autarquias em que temos a gestão, temos uma prática diferente de todos os partidos: assentamos a nossa ação na gestão pública. Ora, na resolução dos problemas temos por vezes mais dificuldades do que outros, porque para contratar trabalhadores os processos são muito morosos e, em alguns casos, ficam vazios os concursos; porque os salários são pouco atrativos; porque em alguns casos há uma certa desertificação.
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E não estão arrependidos de ter essa prática?
Não, não estamos nada arrependidos. Os privados até podem dizer que resolvem já, uma empresa que vai limpar uma rua, uma empresa que tira o lixo, num primeiro momento até pode entrar com uma grande dinâmica. Mas, no final da linha, às empresas privadas o que interessa é o lucro. Isso é compreensível, para isso é que elas existem. Mas, no momento em que a necessidade de terem mais lucro começar a ter que pôr em causa o serviço público, não temos dúvidas que vão pôr em causa o serviço público. Portanto, a curto ou médio prazo, as populações vão sempre perder.
Voltando às eleições… Em 2021 garantiram 19 câmaras. Para este ano, têm objetivos concretos?
Eu não lhe vou dar nenhum caso em particular, vou-lhe dizer que nós temos o objetivo de consolidar todas as posições que temos: 19 autarquias, centenas de freguesias que temos hoje no plano nacional. Queremos crescer, queremos ter mais vereadores, queremos ter mais eleitos nas assembleias municipais, queremos ter mais eleitos nas assembleias de freguesia e creio que podemos dizer que é legítimo esperar conquistar autarquias, designadamente autarquias onde, nas últimas eleições, ficámos à beira de ganhar. Há um conjunto de autarquias onde o descontentamento com a obra, neste caso particularmente do PS, é muito significativo. Estamos a disputar em cada uma das freguesias, em cada um dos concelhos.
Por exemplo?
Em freguesias e em concelhos onde estamos com muita iniciativa… Como lhe disse não lhe vou especificar nenhum caso em concreto.
Nas últimas autárquicas, em 2021, a CDU teve cerca de 410 mil votos, era a quarta força mais votada. Depois, houve legislativas em 2022, em 2024, em 2025 e os resultados foram para menos de metade, a sexta força mais votada. É certo que são tipos de eleições diferentes, mas que contas é que fazem aqui, na sede do PCP?
Há comparações que se podem fazer, mas as comparações que têm de ser feitas é: o que é que aconteceu em eleições autárquicas anteriores com eleições legislativas anteriores. Nós temos uma força nas autarquias e um número de votos nas autarquias que é sempre muito superior. Em alguns casos, em algumas autarquias, designadamente nas autarquias onde temos maioria, onde somos poder, nós passamos de votações [nas legislativas] na ordem de um dígito, para ganhar a Câmara. Isso acontece, já aconteceu em eleições anteriores, em eleições que foram próximas. Aquilo que lhe posso dizer é que estamos confiantes, confiantes num bom resultado.
Os prognósticos do desaparecimento do PCP são recorrentes a cada eleição. O partido, de uma forma geral, responde aludindo que já houve outras alturas de ciclos de perdas e que depois vieram ciclos de vitórias. Neste momento, o PCP tem vindo a ter um ciclo de perdas que já ronda cerca de 20 anos. Até quando é que vão estar razoavelmente tranquilos que é um ciclo de perdas e não algo mais grave? Quando é que vão disparar os alarmes na Soeiro Pereira Gomes?
Não há congresso nenhum e até fizemos uma conferência de propósito para verificar as dificuldades, os problemas. Não sei se há outros partidos que sejam tão transparentes nas dificuldades que temos e nas medidas para resolver as dificuldades que temos. Nós somos mesmo um partido com paredes de vidro e, portanto, basta ler o documento do último congresso e dizemos logo o que é preciso fazer.
Estamos a trabalhar nisso, portanto, não estamos à espera de alarme nenhum, de soar nenhuma campainha. Nós olhamos para a realidade e vemos que, de facto, nas últimas eleições legislativas tivemos menos votos do que nas anteriores. Tivemos mais votos do que alguns esperariam e do que outros vaticinaram, aguentámos melhor do que nos anunciaram, mas tivemos menos votos.
No imediato, nestas eleições autárquicas, olhamos para cada uma das situações - estamos a falar de milhares de eleições, em freguesias, para as assembleias municipais e para as câmaras municipais, onde, aliás, temos votações significativamente diversas - avaliamos o que é que é preciso fazer e estamos a intervir para ter o melhor resultado possível.
Em Lisboa, a CDU preferiu ficar de fora da chamada coligação de esquerda. Neste momento têm dois vereadores eleitos. Qual é a vossa ambição em Lisboa?
Não lhe vou dizer que o céu é o limite, mas Lisboa é o exemplo talvez mais evidente de que, quem tem princípios resolve facilmente, toma facilmente decisões. Em Lisboa, a vida obrigava-nos a ficar de fora, porque nós não podíamos estar ao lado de uma força que sustentou a política da Câmara Municipal de Lisboa ao longo destes quatro anos. Se não fosse o PS, uma parte muito significativa das decisões que Carlos Moedas tomou, não podiam ter sido tomadas. Foi o PS que lhe aprovou os orçamentos, foi o PS que lhe aprovou imensas medidas que criaram problemas à vida da cidade. Portanto, era uma decisão que era fácil de ser tomada, não podíamos estar com aqueles que são responsáveis por esta situação.
Se o PS não estivesse na coligação de esquerda, alinhavam com os restantes?
Nós temos uma coligação, em Lisboa e em todo o país. Também seria difícil estar aqui [em Lisboa] com alguém que está com a CDU e depois estar no concelho ao lado com alguém que se alinha com o Partido A, estar no concelho ao lado com alguém que se alinha com o Partido B… Isso é uma mixórdia em que os comunistas e os democratas que nos acompanham na CDU não gostam de serem envolvidos.
Nós temos as maiores ambições em Lisboa - porque a pergunta foi essa, não quero fugir.
Em primeiro lugar, porque obviamente temos o melhor candidato, mas principalmente porque o povo de Lisboa sabe que nós temos um trabalho de defesa da cidade, um conhecimento da cidade ao pormenor, rua a rua, bairro a bairro.
Depois porque temos uma proposta para a cidade de Lisboa que é aquela que responderá aos problemas da capital do país, da capital da área metropolitana, deste grande pólo que atrai centenas de milhares de pessoas por dia, com os problemas que isso implica. Lisboa tem problemas que outras cidades não têm no país, tem exigências de intervenção que outras autarquias não têm e nós temos, também em Lisboa, a perspetiva de consolidar e crescer.
No Porto têm uma vereadora eleita. O que é que seria considerado um bom resultado?
Consolidar e crescer, essa é a expressão fácil, mas é essa a realidade. Há um grande trabalho realizado na Câmara Municipal do Porto, onde já tivemos pelouros na Câmara Municipal. O Porto precisa que a CDU cresça, o Porto precisa que na Câmara Municipal existam mais vozes, como a que temos tido da CDU, a assumir a defesa dos interesses da população.
Setúbal e Évora são duas autarquias que são tradicionalmente de gestão CDU. Não é certo que consigam manter estas autarquias. Qual é a vossa expectativa?
Eu conheço particularmente Setúbal, tenho responsabilidades na região. Sei que é realista. Há trabalho realizado, há obra feita, há satisfação das populações. Todas as sondagens que conhecemos, independentemente do resultado eleitoral que apontem, apontam satisfação das pessoas relativamente à sua cidade. Não conheço nenhuma que não dê este resultado, a maioria das pessoas considera que a situação está igual ou está melhor do que estava antes. Portanto, sente-se, em Setúbal, o gosto de viver em Setúbal.
Em Évora… Évora sabe que só tem a ganhar com um Presidente de Câmara como João Oliveira, que é filho da terra, que tem uma experiência política enorme em vários espaços. Temos obra feita, que levou a que Évora seja património da humanidade, que levou a que Évora vá ser capital europeia da cultura, que dá resposta ao conjunto dos problemas, mesmo numa circunstância peculiar como é a deste mandato, uma vez que, apesar de termos a Presidência da Câmara, só tínhamos dois eleitos em sete.
Portanto, reconhece que não são favas contadas?
Não, sabe que favas contadas não há em lado nenhum, não cantamos vitória em sítio nenhum antes dos votos contados. As pessoas decidirão, não são as sondagens que decidem, são as pessoas. Confiança não nos falta, nem num caso, nem no outro.








