Autárquicas 2025

Para derrotar a direita em Lisboa, PS luta por roubar votos à CDU

07 out, 2025 - 02:03 • Alexandre Abrantes Neves

No comício desta segunda-feira, os partidos da coligação "Viver Lisboa" apontaram o dedo à CDU por não se juntar - António Vitorino afirmou que isso pode abrir a porta à "direita radical". A menos de uma semana das eleições, e com as sondagens favoráveis, Alexandra Leitão anunciou as prioridades: em 30 dias, criar um fundo para as vítimas do Elevador da Glória e limpar as ruas da cidade.

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Para ganhar Lisboa à direita, PS luta por roubar votos à CDU
Ouça aqui a reportagem da Renascença no comício do PS. Foto: Tiago Petinga/Lusa

Longe da vista, mas perto do coração e ainda mais da razão. Os provérbios populares (ou as adulterações) nunca são criados a pensar em campanhas eleitorais, mas facilitam a explicação dos cenários políticos.

Aqueles que aqui não estão foi porque não quiseram estar”, afirmou José Luís Carneiro, que não precisou de apontar diretamente o dedo à CDU para mostrar que não esquece que os comunistas recusaram participar na coligação 'Viver Lisboa', com Partido Socialista (PS), Livre (L), Bloco de Esquerda (BE) e Pessoas-Animais-Natureza (PAN).

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Não se podem desperdiçar votos”, continuou, numa tentativa de agregar todo o eleitorado de esquerda que possa estar a ponderar votar em João Ferreira (CDU). “O voto consequente é o voto no Partido Socialista e na coligação ‘Viver Lisboa’. É o voto na Alexandra Leitão”, frisou.

Mas os alertas não vieram só do líder socialista. Em todas as intervenções, a posição da CDU em avançar com uma candidatura autónoma apareceu de forma mais ou menos explicita, fosse com a candidata Alexandra Leitão a insinuar que os comunistas “não puseram Lisboa acima de todos os interesses” ou com Rui Tavares (L) a lamentar que o PCP não tenha entrado no “elétrico da responsabilidade”.

As palavras mais duras vieram, no entanto, de António Vitorino, mandatário da candidatura de Alexandra Leitão à Câmara de Lisboa. Perante assondagens que mostram Leitão e Carlos Moedas (PSD/CDS/IL) taco-a-taco, todo e qualquer voto roubado ao experiente João Ferreira, da CDU (vereador desde 2013), pode ser decisivo para colocar a coligação na frente.

Ciente disso, o antigo ministro não poupa nas palavras: perante uma “cidade que precisa de cuidados intensivos” e que sofre de uma “paralisia”, o ex-deputado perguntou à CDU se vai dormir descansada se a dispersão de votos à esquerda facilitar um segundo mandato de Carlos Moedas e a ascensão do Chega.

“Aqui hoje pergunto àqueles que não quiseram juntar-se. Como é que se sentiriam, na noite de domingo, se a dispersão de votos abrisse a porta à apagada e vil tristeza da continuidade? Se acabasse por abrir a porta a uma influência desmedida nos destinos de Lisboa da direita radical, que faz campanha contra a democracia, contra a liberdade e contra o poder local?”, questionou.

Numa sala com mais de 1.000 pessoas (das comitivas dos quatro partidos da coligação), o próprio líder do PS chegou-se à frente para fazer um périplo pela história da autarquia lisboeta e recordar o trabalho dos presidentes socialistas, desde a “erradicação das barracas” com João Soares (1995-2002) até ao “reencontro com o rio” promovido por António Costa (2007-2015).

Mas na aula de história que os diferentes representantes partidários foram dando à vez, o troféu de ouro vai para Marisa Matias (BE) que levantou a sala ao relembrar as coligações de esquerda de Jorge Sampaio, primeiro em 1989 (com PCP) e depois em 1993 (PS/PCP/PEV/PSR/UDP).

“Jorge Sampaio liderou uma coligação para derrotar a direita de Marcelo Rebelo de Sousa. Nós somos, com muita honra, herdeiros de Jorge Sampaio. Em 1989, foi necessário juntar forças para lutar pela habitação, pelos transportes, por melhor higiene urbana. Agora é ainda mais necessário virar a página do desastre que foi o mandato de Carlos Moedas “, afirmou.

30 dias – higiene, alojamento local, voos e Elevador da Glória

Numa sala cheia de pesos pesados socialistas – antigos ministros, como Pedro Siza Vieira e Mariana Vieira da Silva, o eurodeputado Bruno Gonçalves ou a histórica Isabel Soares –, a noite foi recheada de elogios e palavras de incentivo a Alexandra Leitão, nomeadamente puxando pela estreia que a socialista pode protagonizar na história da autarquia.

“Nós temos oportunidade de fazer história. De fazer história, elegendo, pela primeira vez, uma mulher para a Câmara Municipal de Lisboa – a Alexandra Leitão”, apelou a porta-voz do PAN, Inês de Sousa Real.

O maior elogio viria, ainda assim, do secretário-geral do PS que destacou a “sensibilidade” e a capacidade para ser “intransigente” da antiga líder parlamentar do partido. Qualidades que, para José Luís Carneiro, lhe vão ser úteis na liderança da autarquia lisboeta e ajudá-la a servir os cidadãos. “Isso é ser radical nos valores e nos princípios. Eu também sou radical nos valores e nos princípios”, comparou.

A imagem de união na coligação e também dentro do PS (Alexandra Leitão era aliada de Pedro Nuno Santos, opositor interno de Carneiro nas primárias de 2024) estava criada, mas a candidata do “Viver Lisboa” sabia que a perceção não chegava e precisava de ter ideias concretas – para resolver o “fosso da desigualdade” com medidas que “defendam os interesses da cidade acima de tudo”.

“Nos primeiros 30 dias, criar um fundo de apoio às vítimas do Elevador da Glória, intentar uma providência cautelar contra o aumento dos voos no Aeroporto de Lisboa, aprovar o Regulamento do Alojamento Local e promover uma grande operação de higiene urbana na cidade”, prometeu, como o primeiro caderno de encargos se ganhar as chaves para os Paços do Concelho em Lisboa. “Imaginem acordar para ‘ Viver Lisboa”’’, rematou.

Montenegro, o “pouco humilde” num cavalo “com altivez”

Depois de um domingo em que praticamente não falou com os jornalistas, José Luís Carneiro começou o dia de segunda-feira por apontar o dedo ao governo. Primeiro em Ovar, com as críticas à ministra do Trabalho e Segurança Social que, para o líder socialista, está a “errar duas vezes” ao insistir com a reforma laboral e depois, já em Espinho, com ataques a Luís Montenegro.

“As pessoas têm de ter humildade no desempenho de funções políticas, no sentido de serviço, no sentido de proximidade, e procurar evitar pensar que estão montadas em cima de um cavalo e que o cavalo as leva com altivez a algum porto seguro. Devia "ouvir mais o PS, o partido moderado, em vez do extremista", defendeu, de visita à terra onde o primeiro-ministro tem casa e que escolheu para a sede da empresa familiar Spinumviva. “A justiça que faça o seu trabalho”, comentou apenas Carneio sobre este tema.

Noutros tópicos, Carneiro chutou para canto o tema da Palestina e da flotilha humanitária (disse apenas que a “vida e dignidade” dos portugueses detidos foram garantidas pelo Estado Português) para se dedicar à vida autárquica e às “preocupações muito profundas”.

Neste âmbito local, Carneiro voltou a insistir que a responsabilidade dos resultados de dias 12 “é de todos”, mas primeiro dos “candidatos locais” – que, numa altura em que o voto se divide entre “racional e afetivo”, devem manter contacto com os eleitores, principalmente os indecisos, “até à última hora”.

Sem falar diretamente no Chega, mas deixando nas entrelinhas o recado para as estruturas do partido de algum receio em perder câmaras para o partido de André Ventura –, José Luís Carneiro lançou um desafio para o eleitorado refletir.

“A quem é que se devem as grandes conquistas na melhoria das nossas condições de vida?”, questionou. “Os que têm provas dadas são uma garantia de confiança para o futuro. Mas o que é que fizeram aqueles que hoje aparecem com estes discursos fáceis?”, afirmou, em Nazaré, onde a câmara é do PS, mas que contou com uma vitória do Chega nas legislativas de maio.

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