10 out, 2025 - 01:06 • Isabel Pacheco
“Cuidado com as carteiras que os políticos andam aí outra vez”. É o que ouve quem se aproxima da banca do Sr. Dinis na feira de Viana do Castelo.
O feirante explica que, só naquela manhã de sexta-feira, passaram pelo Campo da Agonia, o recinto da feira, uns quantos candidatos à câmara municipal.
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“Mas, não se zangue, minha senhora. É uma brincadeira”, atira para uma das clientes que se abeira da banca, sem disfarçar o riso da ironia do que acaba de ouvir.
Carla é uma dessas clientes. Vive na freguesia de Santa Marta e veio até à cidade de autocarro e, desta vez, “de graça”, conta.
“Durante dois meses não se paga”, atirou a vianense sem saber explicar exatamente porquê. “É até acabar os partidos, depois a gente paga”. Ainda assim, “para vir para Viana é um castigo”, lamentou. ”Nunca há autocarros”.
A “borla” nos transportes públicos é justificada pelo recandidato Luís Nobre com a “questão operacional” na implementação a 23 de setembro do novo sistema de transportes urbanos 100% elétrico. “Para nos focarmos na implementação dos serviços e não estarmos preocupados com questões de bilhete e de cobrança”, explica o socialista garantindo que é uma prioridade alargar a rede de transportes a todo o concelho.
O candidato, que venceu as eleições há quatro anos com 45% dos votos, elege como prioridade do seu programa eleitoral o “desenvolvimento económico” que, diz, terá de passar pela “economia azul e pela economia verde”.
“Somos uma cidade litoral e, nesse sentido, queremos aprofundar claramente a economia azul. A economia do mar é estrutural, mas também na economia verde, porque o futuro passa por aí”, ressalva Luís Nobre.
E têm sido positivos os sinais de dinamismo económico no concelho. Desde logo, o desemprego que regista uma taxa de 3,7%, abaixo da média nacional. No entanto, o concelho não tem conseguido atrair e fixar pessoas. Com quase 87 mil habitantes, a capital do Alto Minho tem crescido, mas a passo lento: 1.1% nos último quatro anos.
A falta de gente e de dinamismo na cidade é uma das queixas de Maria Conceição. Encontramos “Sãozinha”, como lhe chamam as vizinhas, à soleira da porta de casa junto ao Campo da Agonia a vender peixe disfarçadamente. Explica-nos que só o faz às sextas-feiras, dia de feira, porque no resto da semana “não há movimento”.
“Isto é uma tristeza. Há por aí aldeiazinhas onde não faltam festas, aqui é uma tristeza. Ao domingo, acredite, que às vezes não se vê uma pessoa à tarde a passar”, lamenta Sãozinha, com as mãos nas duas caixas de sargos e de fanecas.
Deixamos Sãozinha e o seu pregão para trás. Seguimos até ao largo de São Domingos. É aqui, na zona histórica de Viana, por onde o candidato da CDU, a terceira força política em 2021 com 10% dos votos, anda em ação de campanha.
José Flores, que trocou o Alentejo por Viana há 22 anos, contacta com os comerciantes. No topo do discurso há uma prioridade: resgatar a gestão da água, a cargo das Águas Do Alto Minho- ADAM, para as mãos da autarquia.
É uma questão “fulcral”, prioriza. Porque, desde logo, o serviço é “muito mau” e desde que passou a ser concessionada “os preços subiram”. “É uma exorbitância”, critica o técnico industrial, lembrando que também é preciso mexer no sistema de recolha de resíduos.
“Ainda há pouco chegámos a ter um único camião de recolha de resíduos para o concelho inteiro. É assim que se resolvem as coisas?", questiona o candidato. “Depois queixam-se que as ruas estão todas sujas”.
O tema da higiene urbana também está no topo das prioridades da candidatura da coligação “Novo Rumo” do PSD/CDS.
“Viana tem um problema de lixo insuportável”, atira o cabeça de lista, Paulo de Morais adiantando que a sua candidatura tem um “plano de emergência para resolver o problema do lixo”. “Em 100 dias tem de estar resolvido”, garante.
O antigo vice-presidente da Câmara Municipal do Porto e candidato presidencial em 2016 promete “transparência total” dos serviços municipais. Diz que o combate à corrupção é a sua “bandeira de vida” e “de campanha”.
“Todos têm de ser tratados por igual, seja para comprar um bilhete num teatro municipal, seja para construir um prédio de seis andares. E isto não acontece porque o compadrio instalou-se”, acusa o independente, fundador da Frente Cívica – associação de defesa de causas de interesse publico.
O independente, que se desfiliou do PSD, foi a escolha de Luís Montenegro para concorrer à autarquia vianense. Quanto a um regresso ao partido, Paulo de Morais não fecha portas. “Neste momento, essa questão não se coloca”.
Junto ao largo João Tomás da Costa as máquinas de construção civil já mexem. A obra para a construção do mercado municipal que vai nascer no espaço do antigo prédio Coutinho, demolido em 2022, arrancou na véspera da campanha eleitoral.
O timing não passa despercebido aos vianenses.
“Arrancou na segunda-feira”, confirma Leandro Matos enquanto observa as escavadoras a arrancaram terra do chão. [A obra] “tem servido um bocadinho de campanha. É para os candidatos dizerem que as obras vão agora começar”, acrescenta o reformado de 82 anos, feitos “há dias”.
“Vamos acreditar que foi o que tinha de ser”, atira Laura, proprietária de um café/restaurante a paredes meias com a obra.
Seja como for, é a esperança dos comerciantes em dinamizarem a cidade. É, pelo menos, a expectativa de Laura que também culpa o estacionamento, ou a falta dele, pela estagnação do comércio de rua.
“Não ajuda ninguém”, garante a jovem empresária que compara ao concelho vizinho de Ponte de Lima, com “estacionamento gratuito e aos fins de semana está sempre cheio". "Enquanto aqui…”, lamenta.
O deputado pelo Chega e vereador independente na autarquia vianense depois de se ter desfilado do PSD em 2024, garante ter a solução: a gratuitidade parcial do custo dos parques de estacionamento.
“Quem vier a Viana para ir ao médico que tenha isenção de pagamento durante três ou quatro horas. Quem vem tomar um café não pode pagar mais de parque de estacionamento do que pelo café”, defende Eduardo Teixeira, garantindo que se trata de uma proposta exequível financeiramente, desde que haja “empenho e negociação dura” com as concessionárias dos parques de estacionamento.
O candidato do partido de André Ventura, segundo mais votado nas legislativas de maio, diz querer “salvar Viana” da “carga de impostos “e da “falta de habitação” e propõe o reforço da segurança com a criação de uma polícia municipal [proposta também defendida pelo PS], videovigilância e guardas noturnos.
“A polícia municipal é para que a Câmara não deixe a sua competência de segurança e crie uma figura dos guardas-noturnos nos sítios de maior sensibilidade e de maior com fluxo de pessoas”, justifica Eduardo Teixeira defendendo a instalação de câmaras de videovigilância “no centro, nas entradas e saídas da cidade”.
No café/restaurante de Laura, junto ao futuro mercado municipal, o marido Jefferson lamenta a “falta de vida” de Viana. A aposta, diz, tem de ser no turismo. A mulher, Laura, discorda.
“Como é que não se consegue captar turismo, seja gastronómico ou cultural, para cá?”, pergunta o empresário lembrando que a alternativa “é voltar à indústria”. “O que não é solução”, ressalva.
Laura interrompe. “ É muito mais importante criar as condições para as pessoas de Viana gastarem o dinheiro em Viana do que criar as condições para os turistas virem”, atira a jovem que, virada para o marido, dá o exemplo do dia a dia do casal. “Se queres ir ao cinema vais ao Porto ou a Braga, porque Viana não tem”.
Mas numa coisa Jeferson e Laura concordam. “Viana desistiu um bocadinho”.
Nas eleições de 12 de outubro concorrem, ainda, à Câmara de Viana do Castelo o Bloco de Esquerda (BE), que apresenta Carlos Torre como candidato, Duarte de Brito Antunes, que encabeça a lista da Iniciativa Liberal (IL), e Luís Arezes, o candidato da Alternativa Democrática Nacional (ADN).