Entrevista Renascença

"Não foi brilhante": Capucho não gostou de ouvir almirante dizer que tinha Mário Soares como modelo

12 nov, 2025 - 06:00 • Manuela Pires

António Capucho, que corre o risco de ser expulso do PSD pela segunda vez, deixa um aviso à direção do partido e lembra que, em 2013, vários “ilustres” militantes do Porto apoiaram Rui Moreira e nenhum deles foi sancionado com a cessação da militância.

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Capucho não gostou de ouvir almirante dizer que tinha Mário Soares como modelo
António Capucho entrevistado pela jornalista Manuela Pires

António Capucho, fundador do PSD e apoiante de Henrique Gouveia e Melo, reconhece que, às vezes, há "deslizes" e não gostou de ouvir o candidato escolher Mário Soares para modelo na Presidência da República.

Em entrevista à Renascença, o antigo autarca social-democrata desvaloriza as sondagens que colocam o almirante a descer nas intenções de voto e acredita que Gouveia e Melo vai passar à segunda volta das eleições presidenciais.

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António Capucho, que corre o risco de ser expulso do PSD pela segunda vez, deixa um aviso à direção do partido e lembra que, em 2013, vários “ilustres” militantes do Porto apoiaram Rui Moreira e nenhum deles foi sancionado com a cessação da militância do Partido Social-Democrata.


Doze anos depois, enfrenta um processo de expulsão do PSD. A decisão foi tomada a 22 de outubro. Já conhece os fundamentos?

Neste momento, ignoro quais são os fundamentos, mas o fundamento é óbvio, não é? O facto de eu ter participado como apoiante…

Em 2013, foi expulso porque integrou uma candidatura adversária ao PSD, em Sintra. Desta vez, qual foi o papel na candidatura de João Maria Jonet, candidato independente à Câmara de Cascais?

Fui subscritor e por isso apoiante. Mas faço notar que há três condições que podem permitir a aplicação da norma que faz cessar a inscrição no partido e abrange quem participa nas listas, quem é mandatário e quem subscreve. São estas três condições.

De facto, nesse ano de 2013, eu integrei a lista. Curiosamente, quatro anos depois, os mesmos que estiveram na origem da minha expulsão vieram ter com o Marco Almeida e comigo, num jantar ali em Cascais, certamente arrependidos, ou obviamente arrependidos, do que tinham feito quatro anos antes, para que nos candidatássemos novamente.

E, portanto, eu até admito que daqui a quatro anos, se vier, enfim, a ser afastado do partido, o que não me parece que seja lógico, não é razoável, neste momento.

Não acredita na segunda expulsão?

Penso que vai haver um arquivamento. Ou espero que haja um arquivamento. Mas pode ser que estes mesmos, que continuam a ser os mesmos que estão à frente do PSD de Cascais, formalmente ou informalmente, venham convidar o João Maria Jonet para encabeçar a lista do PSD.

Esta candidatura independente elegeu dois vereadores e retirou a maioria absoluta à coligação PSD- CDS. João Maria Jonet vai conseguir mostrar trabalho no executivo?

É muito difícil porque o próprio presidente da Câmara distribuiu pelouros ao Partido Socialista e, como já é habitual, o PS em Cascais tem sido muleta do PSD, se me é permitida a expressão, obviamente aceitando emprego, aceitando participar nos órgãos do município, neste caso os dois vereadores. Mas, para além disso, votaram favoravelmente uma coisa verdadeiramente extraordinária, que é a delegação no presidente da câmara de competências no domínio urbanístico, que eu critico.

Quer dizer, em vez de ser a Câmara a apreciar os grandes projetos de investimento no município de Cascais, o Partido Socialista e o Chega votaram favoravelmente a delegação de poderes no presidente para aprovar este tipo de projetos.

Voltamos ao seu processo de expulsão. Disse que não acredita na expulsão do PSD. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, é a presidente do Conselho de Jurisdição. Já teve algum contacto com ela?

Eu até espero que não chegue a ela, coitada, que tem mais o que fazer e mais com o que se preocupar, mas, antes de chegar lá, o processo passa, julgo eu, pela Comissão Política Nacional e aquilo que eu espero é que a CPN aplique ao António Capucho o mesmo que o Conselho de Jurisdição aplicou a militantes de grande gabarito como Valente Oliveira, Miguel Veiga, Arlindo Cunha e outros, que, no ano em que fui expulso, eles no Porto foram nada mais nada menos do que mandatário e membro da Comissão de Honra da candidatura do Rui Moreira. E, na altura, o processo deles foi, e muito bem, arquivado, o que aplaudi na altura.

Sem maioria absoluta, é muito difícil introduzir no país aquilo pelo qual em me bato há muito tempo, que são as reformas estruturais

Falou no Governo e tem mostrado apoio a Luís Montenegro. O primeiro-ministro está no cargo há um ano e meio. Considera que já se nota no país a marca Governo do PSD?

Não tanto como seria desejável, porque de facto, sem maioria absoluta, é muito difícil introduzir no país aquilo pelo qual em me bato há muito tempo, que são as reformas estruturais. Há pontos onde de facto caminhamos num bom sentido, mas há áreas em que, por exemplo a reforma do sistema eleitoral, que eu considero que é uma verdadeira vergonha e que não se consegue alterar.

O Rui Rio apresentou um projeto e o PSD deveria avançar com o projeto e confrontar o Partido Socialista. Até podia fazer uma malandrice, que era apresentar a proposta assinada pelo António Costa em 2002, se não estou em erro, porque na altura não houve reforma do sistema eleitoral, porque o PSD estupidamente votou contra a proposta do PS e o PS votou contra a nossa proposta na generalidade. A única questão polémica era a diminuição do número de deputados, porque no resto havia um grande consenso.

Mas agora serão necessários também os votos do Chega. E considera que essas reformas, por exemplo, leis eleitorais, deveriam ser feitas com o apoio do Chega?

Repare, eu abomino esse partido como deve calcular. Mas julgo que o Chega está interessadíssimo, penso eu, como aliás devem estar todos os partidos em rever a lei eleitoral, desde que essa lei não altere a proporcionalidade, mas vai resolver o problema do aproveitamento dos votos “desperdiçados”.

“Se Gouveia e Melo passar à segunda volta com Mendes ou com Seguro, vai ser mais difícil”

Daqui a dois meses há eleições presidenciais. Decidiu apoiar o almirante Gouveia Melo. Porquê?

Evidentemente que eu apoio, porque já no tempo do Marcelo, de quem sou amigo, deixei claro que não o apoiava porque não apoiava candidaturas que eu entendo que vão ter, mais tarde ou mais cedo, uma ligação partidária que vai determinar as suas posições.

E agora que está a terminar o mandato, isso aconteceu, essa ligação partidária?

Bom, pode não ter acontecido com a intensidade que eu supunha, mas não é isso que eu critico na gestão do Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República, foi o excesso de protagonismo político.

Agora, em relação ao almirante, eu apoio fundamentalmente porque é independente, porque eu conversei com ele durante duas horas e tive a oportunidade de constatar que, de facto, ele tem esta característica para mim fundamental, além de ser patriota, de ser um homem com ideias e que está muito próximo das minhas ideias, no centro de espectro político porventura um bocadinho mais inclinado ao centro-esquerda, mas abarca de facto todo o centro de espectro político, do centro direto ao centro-esquerda, é total e absolutamente independente de qualquer influência partidária. Isso para mim é determinante.

Não me parece que seja brilhante comparar-se ao Mário Soares

Mas quando Gouveia e Melo disse que tinha como modelo de presidente Mário Soares, escutaram-se críticas, houve quem o acusasse de andar aos ziguezagues, como é que viu esta declaração?

Vi mal. Confesso que vi mal e ele não levará a mal, mas isso, enfim, nas mil declarações que os candidatos vão fazer daqui até às eleições, vários vão, não direi espetar-se porque é excessivo da minha parte de utilizar esta expressão, mas vários vão ter um deslize em termos de linguagem que não é conveniente aos seus interesses e que não corresponde a um modelo que eu defendo. Embora o meu respeito para o Mário Soares seja incomensurável, porque a ele e a outros se deve, de facto, o regime de liberdade e democracia que nós vivemos desde o 25 de Abril, com todos os seus defeitos, mas com fundamentalmente todas as suas virtudes, mas não me parece que seja brilhante comparar-se ao Mário Soares, pese embora tenha dado um contributo enorme à democracia portuguesa que eu não esqueço.

Muitos comentadores disseram no início, quando o almirante Gouveia Melo liderava as sondagens, ainda antes até de ser candidato, que, assim que ele começasse a falar e a debater, que iria cair nas sondagens. Acha que a campanha tem corrido bem, a estratégia, até aqui está a funcionar?

Eu acho que não tem nada a ver com isso. O que aconteceu é que, quando teve essas intenções de voto hiperbólicas, não havia outros candidatos. O Partido Socialista não tinha candidato, o PSD não se sabia se avançava o candidato que avançou, o Luís Marques Mendes, e os pequenos partidos não tinham avançado, designadamente o Ventura não tinha avançado. Portanto, é normal que ele arrebanhasse, com uma intenção de voto primária, digamos assim, eleitores de toda esta zona política. Depois à medida que foram aparecendo, e André Ventura terá os votos de uma parte dos eleitores do Chega, julgo isso.

E depois, a partir do momento em que desde ex-presidentes da República, como Cavaco Silva, o próprio Partido Social-Democrata, formalmente apoiaram o Luís Marques Mendes, evidentemente que isso muda de figura. E, portanto, eu acho que há quatro candidatos que poderão ir à segunda volta, espero que vão o almirante, não sei contra quem será, mas todos eles estão nos 20% das intenções devoto e a partir de agora veremos quem é que vai.

Mas acredita mesmo que Gouveia e Melo consegue passar à segunda volta?

Acho que consegue passar à segunda volta e que na segunda volta tem grande probabilidade de ganhar, especialmente se for contra o André Ventura. Se disputa for contra o candidato apoiado pelo PS ou o candidato apoiado pelo PSD, aí as coisas serão eventualmente mais difíceis, mas julgo que ele terá, enfim, possibilidade de fazer o pleno dos votos à sua esquerda e muitos dos eleitores da direita não deixarão de votar nele. Porque reconhecem nele aquelas virtudes que nós costumamos identificar nos militares.

E a campanha está a correr bem?

Eu estou num grupo dos apoiantes dele e, portanto, recebo diariamente a sua agenda e, de facto, ele vai a todas. Ele tem sido incansável na campanha eleitoral presencial que tem desenvolvido em todo o país a população, desde as empresas às instituições de solidariedade, aos bombeiros, às instituições de cariz social ou cultural, etc.

O antigo líder do PSD Rui Rio é mandatário nacional de Gouveia e Melo. Há muitas figuras próximas de Rio que estão nesta candidatura ou o almirante consegue ir buscar apoios a outros tendências do partido?

Eu acho que ele consegue ir buscar votos a todo lado, embora não possa ignorar que aqueles que estiveram com o Rui Rio e que foram afastados, digamos assim, pela candidatura que atualmente presida os destinos do PSD e do governo, esses militantes mais próximos do Rui Rio podem mais facilmente ter a propensão de votar no almirante, acho que sim.

Eu não é por ser próximo do Rui Rio e muito amigo dele e o ter acompanhado nos mandatos dele que apoio o almirante. Nem sabia que ele era mandatário, nem sabia que ele ia ser escolhido.

Quando almocei com o almirante e lhe declarei o apoio, uns dias depois, ainda o Rui Rio não era mandatário. Portanto, eu fui independente da assunção das funções de mandatário pelo Rui Rio, embora me regozije, porque é um ótimo mandatário.

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  • EU
    12 nov, 2025 PORTUGAL 11:03
    Concluindo, Dr. António Capucho, TODOS mas TODOS os Militantes e que Militaram no PPD/PSD, que se SERVIRAM do Partido e AGORA são contrários a Marques Mendes, POLITICAMENTE são TRAIDORES e COVARDES, pois a minha MEMÓRIA não esquece o que DISSE e OUVI dentro do Partido em relação aos CARGOS que cada Um iria assumir. Há 50 Anos em Angola foram DOIS os Cobardes, agora são uma PORRADA DELES. Dizerem que um Militar é INDEPENDENTE é INSULTAREM as Mães dos Antigos COMBATENTES.
  • Maria
    12 nov, 2025 Palmela 10:20
    Este pessoal do psd que anda atraz gouveia e melo nao tem vergonha cara" sao iguaizinhos a antonio costa que nao apoiava ninguem" sao finos que nem papeis seda!

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