25 nov, 2025 - 17:38 • José Pedro Frazão
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Antes do politólogo, há o homem. E a história deste homem liga-se ao objeto estudado. A Revolução bateu (quase) de frente com a família de Paul Christopher Manuel, neto de portugueses de Xartinho-Mata do Rei, próximo de Alcanede. O quase relaciona-se com o dia 26 de agosto de 1975 quando o seu pai, de visita à aldeia natal, foi procurar uma aspirina a Rio Maior para debelar uma dor de cabeça. Quando chegou à praça principal, viu uma multidão de pessoas a virar um carro que tinham destruído e a pegar em armas e a destruí-las.
Decidiu tirar fotografias, incluindo ao homem que em cima do carro estava munido da célebre “moca de Rio Maior”. Este detetou-o e ordenou à multidão que o apanhassem: “é um jornalista comunista, vai entregar-lhes as nossas fotos e eles virão buscar-nos”. A multidão começou a agarrá-lo pelo ar. “Parem, parem. Estou de visita, sou americano descendente de portugueses”, exclamou, pensando que ia morrer. Foi salvo por três primos que o reconheceram entre a turba furiosa.
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Por aqueles dias fazia-se ali, em Rio Maior, a interceção de militantes do PCP que vinham da aldeia do Couço em direção a Leiria onde se registavam ataques a sedes do PCP.
Ao colher os relatos familiares, Paul Manuel começou a estudar a Revolução de que ouvia falar como causa de medo. Sobrinho-neto de uma testemunha ocular do "milagre do Sol” de 13 de outubro de 1917, Paul Manuel escutava a avó a pedir que rezassem o terço durante aqueles meses conturbados.
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Quinze anos depois, com o Muro de Berlim acabado de derrubar, aterrou em Portugal para entrevistar a maioria dos Capitães de Abril, entre 1990 e 1991 e ainda os generais António de Spínola e Costa Gomes. Queria saber o que fizeram na Revolução, porque o fizeram, quais os seus pensamentos, medos, esperanças e aspirações.
Em 2024, ano em que foi emitido um excerto desta entrevista, Paul Manuel reeditou o livro "Vozes da Revolução - revisitando o 25 de Abril de 1974". Os testemunhos sobre o processo revolucionário português foram registados durante uma das épocas mundiais mais agitadas do último século e relembrados pelo autor numa longa conversa com a Renascença parcialmente emitida no ano passado. Leia aqui a primeira parte da entrevista, onde Paul Manuel destaca a importância do chamado "Documento dos Nove" para a revolução portuguesa.
Considera que a Revolução portuguesa é tão importante, em termos de mudança global, como o período denominado das “Descobertas”. Samuel Huntington celebrizou este período como o início da terceira vaga de democratizações. É esse o ponto de partida?
Correto. A primeira vaga que Huntington observa aconteceu por volta de 1820 com a expansão da democracia na América e depois com uma onda inversa, no final do século XIX. Houve uma segunda onda pelo fim da Segunda Guerra Mundial e talvez uma onda inversa quando algumas colónias recém-independentes regressaram ao regime autoritário. E, de seguida, Portugal, a 25 de abril de 1974, iniciou o processo. Mas, sinceramente, temos de datar a democracia em Portugal não a 25 de Abril de 1974, mas a 25 de Abril de 1976, quando se realizaram as eleições. Foi uma eleição verdadeiramente democrática, não uma assembleia constituinte.
A transição espanhola foi realmente influenciada pelos acontecimentos em Portugal?
Os dois países têm uma relação difícil e complexa. Mas passaram muito tempo a observar-se mutuamente e a aprender um com o outro. Não há dúvida de que, quando Franco viu o que se passava em Portugal, ficou horrorizado ao pensar no que iria acontecer quando morresse. Estava no fim da vida, sabia que estava mais fraco e assim desesperado por encontrar uma solução pacífica.
Na minha entrevista com Otelo, ele partilhou-me os seus planos de batalha para 25 de abril. Além de desligar os centros de comunicação, de transporte e todos os pontos de contacto, ele fechou a fronteira com Espanha, temendo uma invasão espanhola. Perguntei-lhe: não estava a responder a algo que teria acontecido há 500 anos? Ele respondeu: não, estamos sempre de olho em Espanha e eles estão sempre de olho em nós.
Franco observou o que se passou em Portugal, a tomada do poder pelos militares e o radicalismo do "Verão Quente", e temeu que isso pudesse acontecer em Espanha. Era também assombrado pela memória da Guerra Civil de Espanha e não queria deixar isso como legado.
Posso ter muitos problemas com Franco como líder político, mas a transição para a monarquia em Espanha funcionou bem para o povo espanhol.
Uma coisa que percebemos ao ler estas entrevistas aos Capitães de Abril é a ligação entre todos estes militares. Há quem diga nestes testemunhos que a amizade entre eles quase salvou o país. E que na parte mais difícil da revolução, não disparariam uns sobre os outros.
É exatamente isso. Uma das perguntas que fiz a cada um deles — tinha um padrão de perguntas que trouxe comigo — foi ‘como é que vocês evitaram uma guerra civil, especialmente no dia 25 de novembro?’
Mas não foi apenas no dia 25 de novembro. Podia ter acontecido em qualquer altura, principalmente durante ‘Verão Quente’. Quando organizaram o golpe de 25 de Abril de 1974, fizeram-no com um motivo específico: sair de África. Não que estivessem realmente preocupados com a geopolítica da guerra colonial - isso fazia parte dela -mas estavam sobretudo preocupados com as suas próprias vidas.
Estavam cansados. Passaram a maior parte de uma década a trabalhar e a combater em África sem qualquer motivo específico. Sentiam que as suas vidas, os seus casamentos, as suas carreiras estavam a desmoronar-se. Foi isso que os motivou e uniu numa amizade, pois, obviamente, estavam juntos a combater nas guerras.
Descobrimos em pesquisas posteriores que os soldados portugueses aprenderam muito com os prisioneiros revolucionários em África, sobre o absurdo da política colonial portuguesa.
Depois veio a revolução, e a maioria dos homens que assumiram o poder não tinha realmente uma visão de como seria Portugal. Falavam dos três D: descolonização, democratização e desenvolvimento. Mas não sabiam o que aquilo significava, era um slogan.
A patente militar era respeitada, pelo que todos se voltavam para Spínola, sob cujas ordens trabalhavam. Otelo serviu sob comando de Spínola na Guiné. A hierarquia militar serviu de princípio organizador em Portugal de 25 de Abril de 1974 a 11 de março de 1975. Quando o elemento revolucionário, mais radical, quis mudanças mais rápidas e Spínola não estava disposto a isso, foi então que ele teve de ir para o Brasil, e tudo se desmoronou. Perderam completamente o controlo, e foi aí que as coisas ficaram loucas. Foi aí que vimos os atentados, a violência. Foi quando o meu pai teve problemas em Rio Maior. Muitas coisas aconteceram, e foi aí que tememos uma guerra civil.
Quando conversei com os capitães sobre o porquê de não ter havido uma guerra civil, todos, a começar por Otelo, disseram: "Estes eram os meus irmãos. Não entrámos nesta revolução por outra razão que não fosse a de trazer a paz e a estabilidade a Portugal. Certamente não queríamos matar-nos uns aos outros, e esse era o nosso princípio orientador”.
Nas minhas entrevistas e posteriormente, claro, talvez tenham mudado de ideias. Temos o FP25. Houve outros movimentos posteriores, mas naquele momento, naquele preciso instante, a 25 de novembro de 1975, quando uma guerra civil era possível, Otelo e outros recuaram, porque ele não conseguia imaginar matar os seus irmãos com quem tinha trabalhado tanto em África, e depois, a 25 de abril.
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A amizade salvou o país?
Poderíamos dizer que sim. Naquele momento, sim.
Há duas figuras importantes na hierarquia militar, Spínola e Costa Gomes. Spínola foi o general a quem Marcelo Caetano entregou o poder, mas não era propriamente o preferido entre os capitães. Com base no que sabemos ao longo destes 50 anos, como define António de Spínola?
No meu encontro com Spínola, encontrei um homem muito digno, de porte militar, imponente e poderoso. Encontrei-o no quartel-general do exército em Lisboa. Quando chegou, todos os homens que estavam muito ocupados ficaram em posição de sentido. Eu não. Eu estava lá simplesmente com a minha pasta.
Aproximou-se de mim usando um monóculo, alto, imponente e disse: "Sr. Manuel, siga-me". Depois segui-o num elevador privativo. Fomos até ao escritório dele. Foi muito gentil e atencioso, e durante a minha entrevista, tinha o mesmo conjunto de perguntas para cada pessoa. Mas era simplesmente como se estivesse a receber ordens. A cada pergunta, ele dava-me instruções.
Diria que era um indivíduo de grande prestígio, com grande capacidade de liderança, mas não com a imaginação necessária para recriar um Estado. Tinha um grande pensamento militar e era uma pessoa carismática, sem dúvida. Mas na verdade não tinha uma ideia clara de um programa político, para além do que escreveu em ‘Portugal e no Futuro’.
O livro era uma reforma, e ele descreveu-me o que imaginava: copiar os britânicos, ter uma ‘Comunidade Portuguesa’ como a Commonwealth britânica. Era isso que ele imaginava. Portanto, tinha uma ideia do que gostaria de fazer, mas com a desestruturação das patentes militares, não tinha respostas.
Na sua opinião, o livro de Spínola não apresentava nenhuma visão para o país?
Era uma visão, mas controlada, imposta de cima para baixo. Uma visão em que os que estavam no poder podiam reformar a sociedade, como vimos acontecer em Espanha. Não era uma visão que contasse com a explosão de atividade no Alentejo e noutros locais, que tomasse em atenção a complexidade da democracia.
Era uma visão ordenada, lógica e com coerência interna, mas não adaptável.
A tensão entre os capitães e Spínola surgiu desde os primeiros momentos, desde a primeira noite em que tiveram de redigir o primeiro comunicado e assim sucessivamente. Diria que Spínola tentou dar ordens aos capitães, mas que estes precisaram de muita coragem para enfrentar o general?
Houve tensão desde o primeiro momento, mas respeitaram Spínola. Quando foi destituído do cargo, os capitães perceberam que não tinham outra opção e surgiu o dia 16 de março com o levantamento militar das Caldas da Rainha. Perceberam que Spínola e o seu pacote de reformas bastante moderado não eram suficientes para aquelas pessoas, para aquele regime.
Lembre-se que estes homens tomaram o destino de Portugal nas mãos. E uma vez que o fizeram, e tiveram sucesso, aquilo deixou de ser apenas uma questão de palavras; eram muito bons na organização, muito bons no planeamento de batalha.
Mas a ‘enormidade’ que tinham feito era demais. Como diz o velho ditado, querer algo é melhor do que tê-lo. E eles queriam aquele poder, queriam ver-se livres do Caetano e queriam ver-se livres da ditadura.
Mas, uma vez no poder, foram realmente esmagados por sentimentos extraordinários de medo, apreensão, incerteza e ansiedade entre cada um destes capitães. Tinham determinação, eram intrépidos, mas não sabiam ao certo o que fazer.
E eram jovens.
Portanto, a posição padrão, de acordo com o treino que receberam, era a seguinte: como militares, homens treinados para obedecer a ordens, a hierarquia militar estabeleceu desde o início um princípio organizador. Não gostaram disso, mas aceitaram-no porque se sentiam confortáveis com a situação. E foi assim que Spínola conseguiu governar ou tentar uma reforma durante os primeiros seis ou sete meses.
Uma das perguntas que lhes colocou foi se achavam que Marcelo Caetano se poderia ter empenhado em liberalizar Portugal de forma a evitar uma revolução. A maioria dos capitães respondeu que sim, que foram dados alguns passos nesse sentido, mas não se encontrou uma figura, por exemplo, para substituir Caetano. Spínola não seria essa pessoa?
Não.
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Como poderia ser essa transição?
Tinha de ser o próprio Caetano. E um dos meus colegas, um grande professor nos Estados Unidos, Douglas Wheeler, que trouxe o estudo de Portugal para a América, disse que Spínola era um ‘bom condutor português’: ao conduzir, sinalizava para virar à esquerda, mas em vez disso virava à direita. E isso era muito, muito confuso.
Portanto, ele precisava da Primavera de 1968 -1969, de demonstrar força e reformas. Isso tê-los-ia satisfeito [aos capitães] antes que a situação se desenvolvesse no que se desenvolveu. Foram precisos quatro, cinco anos para que isso acontecesse de facto. Era isso que estavam a prever.
Com a publicação de ‘Portugal e o Futuro’, surgiu a última oportunidade para o regime. Mas Caetano era um governante fraco.
Era um académico muito respeitado.
Muito respeitado, muito inteligente, mas talvez lhe faltasse a capacidade de liderança necessária - não tenho a certeza se ele queria, mas se quisesse, poderia fazê-lo – para lidar com os militares e os outros conservadores no poder.
Não tinha controlo sobre as forças armadas.
Não, não tinha controlo nenhum. E talvez por isso lhe faltasse algo. A revolução ocorreu em 1974, por isso houve um momento em que isso poderia ter acontecido. Tenho em mente o que aconteceu com o Franco, que iniciou o processo de reforma. O Rei Juan Carlos tornou isso possível, mas foi Franco quem estendeu a sua legitimidade, transferindo-a para este processo.
Acha que isso não seria possível em Portugal com Caetano?
Aparentemente não, teria de ser Salazar que não estava interessado em tal coisa. E, claro, não sabemos ao certo, pois caiu e ficou incapacitado. Depois, como o regime não estava disposto ou não tinha interesse em qualquer tipo de reforma, os militares não tiveram outra opção senão derrubá-lo, e foi o que aconteceu. Queriam uma mudança, trabalharam por ela e concretizaram-na. E ficaram com medo quando tiveram sucesso.
A seguir falaremos de Costa Gomes.Mas dividiu os capitães em quatro grupos. Cinquenta anos depois, encontraria um quinto ou um sexto grupo?
Dividi-os dessa forma para dar sentido ao que me diziam como investigador e entrevistador em 1990 e 1991. Eu estava a escrever a minha dissertação na Universidade de Georgetown. Por isso, estavam interessados em conversar comigo enquanto académico, mas também enquanto descendente de portugueses, para quem o dia 25 de abril teve um impacto profundo na minha própria família. Ficaram satisfeitos por eu ter um grande interesse por tudo o que é português. Ao ouvi-los, descobri que havia quatro ângulos que estavam ali a desenvolver-se.
Havia aqueles, como Spínola, que eram reformadores de uma forma moderada, que certamente queriam uma mudança. Havia aqueles, a que chamo os moderados do MFA, que se interessavam mais pelo programa político do Partido Socialista. Havia os radicais do MFA que se interessavam muito mais pelo programa do Partido Comunista, de Cunhal. Havia aquilo a que eu chamo os populistas do MFA, entre os quais talvez encontrássemos os inspirados por Castro ou Che Guevara. E havia alguns que eu não conseguia encaixar em nada disto-os independentes, como eu lhes chamo - e o Carlos Fabião era um deles, que parecia transitar da esquerda para a direita no centro, porque tinha uma mente muito ativa e criativa. E depois, Costa Gomes estava mais ou menos no meio. Sim.
Diria que a revolução comprova que os portugueses são um povo moderado?
Todos pensam assim. Acreditam que o carácter português é marcado pela gentileza e pela amabilidade. Não gostam de mudanças bruscas. Gostam de estabilidade. Preferem a família e a bondade ao conflito.
Portugal é bem conhecido nos meios diplomáticos como o país que mais diplomatas forma. Os diplomatas portugueses têm um excelente desempenho. Recorde-se que o presidente da ONU, o secretário-geral, é um antigo primeiro-ministro português de grande sucesso. Em Washington, a embaixada portuguesa e o corpo diplomático português são muito respeitados.
Não quero ir muito longe porque é algo delicado, mas digamos que os portugueses gozam certamente dessa reputação de serem bondosos, cordiais e dispostos a procurar a cooperação em vez do conflito. E nem todas as pessoas, em todos os países, podem dizer isso.
E isto aplica-se à figura de Costa Gomes?
A 100%.
A personalidade de Costa Gomes tem vindo a ser redescoberta. Mesmo historiograficamente falando, década após década, têm-lhe atribuído cada vez mais importância neste processo. Alguns capitães diziam-no no seu livro, em 1990, mas atualmente há mais consenso sobre essa figura, concorda?
Costa Gomes é uma figura histórica extraordinária. E se houve alguma figura que podemos dizer que ajudou Portugal a tornar-se democrático, fora da sociedade política como Mário Soares e à exceção talvez de Vítor Alves e Melo Antunes, que apresentaram uma visão para o futuro, foi Costa Gomes.
Não apresentou essa visão, mas forneceu liderança. Ele era bondoso. Os capitães disseram-me, sem exceção, que adoravam e respeitavam Costa Gomes como seu líder, mas também era o que se quisesse que ele fosse quando estava convosco. Ele transformava-se no que você quisesse que ele fosse.
Ele refletiria as suas esperanças, os seus sonhos e as suas aspirações. E sairia a sentir-se bem. E depois ele poderia ainda fazer algo mais que não esperávamos. Era alguém gentil e com quem era fácil conversar.
Mas ele tinha uma visão, de uma sociedade pacífica e democrática na qual o povo votaria. E estava a tentar gerir uma situação muito complicada. Tinha grande experiência como comandante militar no campo de batalha. Sabia lidar com o stress, com conflitos, com o caos, com a derrota. E assim, ao chegar a Portugal e enfrentar os mesmos desafios que tinha enfrentado em África, conseguiu trazer consigo este conjunto de competências.
Mencionei a patente militar como um princípio organizador até 11 de março com Spínola. Ao longo de todo o processo, Costa Gomes continuou a utilizar este princípio organizador, mas acrescentando empatia, escuta e coragem.
E porque é que não foi a primeira escolha após o golpe?
Ele não queria, disse-me. Pediram-lhe para ser o chefe, mas ele não quis. E Spínola foi o escolhido. Ele não estava preparado.
Foi uma decisão pragmática ou demasiado emotiva?
Tudo isso. Foi um momento de grande tensão. Não era uma pessoa presunçosa. Não sei porque tomou esta decisão. Encontrei-me com Costa Gomes em frente ao seu apartamento. O seu motorista tinha acabado de o trazer do supermercado. Depois pediu-me para ajudá-lo a levar as compras para o seu apartamento. E eu ajudei. E sentámo-nos na cozinha dele. E tratou-me como se eu fosse o seu próprio filho. Ficámos sentados à mesa a conversar sobre a revolução durante duas ou três horas. E pude ter uma ideia sobre o que todos os outros capitães me disseram. Era uma pessoa muito acessível.
É uma figura histórica importante que desempenhou um papel fundamental em salvar Portugal do desastre e em impulsioná-lo para o que é hoje. E tratou-me com bondade, amor e respeito, tanto em relação à minha origem portuguesa, como simplesmente como ser humano.
A sua personalidade tornou-se mais relevante com o passar do tempo?
Absolutamente. Mais uma vez, não era alguém que chamasse a atenção sobre si ou que se autopromovia. E isto leva-nos de volta à sua pergunta sobre a noite de 25 de Abril de 1974. Ele não faria isso. Ele sentou-se sozinho, estava ali para servir.
Posso acrescentar que descobri algo sobre Costa Gomes, que considero uma história extraordinária. Descobri, conversando com alguns dos outros capitães, incluindo Sanches Osório, que ele tinha uma fé católica particular, devota e profunda.
Era um homem de fortes convicções religiosas. E não era algo que ele fizesse para evangelizar ou falar sobre o assunto, mas sim o seu princípio orientador. Descobri através das minhas entrevistas que havia um padre jesuíta do Porto que o visitava no palácio presidencial durante o verão, assim que ele assumiu a presidência. E celebravam missas privadas, inclusive no dia 25 de novembro. O seu nome era Padre João Abranches.
Ele contou-me a história. E eu perguntei-lhe: " Porque é que era tão importante para si?”. Ele respondeu: “Escolho demonstrar o meu amor ao próximo através das minhas ações”.
E mesmo no dia 25 de novembro, quando celebraram uma missa privada no meio do caos, isso trouxe-lhe paz interior. Talvez isso revele um aspeto da sua personalidade que desconhecíamos.
É interessante porque estávamos a falar precisamente da amizade que provavelmente salvou o país. Mas a maioria deles, quando questionados se diriam que estivemos perto de uma guerra civil, reflete bastante sobre isso e responde que provavelmente sim.
Com certeza. Cada um deles disse à sua maneira: "Estamos muito perto disto. Podia ter acontecido." Nenhum deles disse: "Essa foi uma observação muito pertinente."
Nenhum deles me disse imediatamente, em resposta à minha pergunta, "Não, absolutamente não. Não, isso não era possível". Cada um deles disse: "Ah, sim, sim, estávamos nesse ponto, estávamos fartos uns dos outros, prontos para lutar por uma ideia.
Provavelmente, não controlavam todas as peças da revolução, como os comunistas e assim por diante.
A situação descontrolou-se. Entrou numa loucura. Eles perderam o controlo. Não entendiam as próprias emoções. Eram homens que sabiam controlar o stress através da disciplina militar. Mas a disciplina tinha desaparecido e a única coisa que restava eram todas as esperanças e aspirações deste futuro utópico perfeito para o qual não tinham resposta. Recorde-se Otelo, que eu considerava um ser humano encantador, fascinante e cativante.
Carismático também.
Carismático e simpático. Mesmo 20 anos depois, quando voltei a contactá-lo, ele lembrou-se da nossa conversa. Quando regressou de uma viagem a Cuba, sugeriu que a revolução tivesse um tribunal no Campo Pequeno, querendo que todos os contrarrevolucionários fossem julgados ali, na arena das touradas. Ele horrorizou as pessoas. Era visível que a loucura generalizada se tinha apoderado dele. Mas não era essa a imagem que eu tinha dele, pelo menos não na minha interpretação. Quando o entrevistei, estava fora da prisão. No entanto, quando falei com ele, não enfatizou isso. Ele enfatizou a ideia de ‘os meus irmãos’.
E quem merece o mérito de ter evitado a guerra civil?
Creio que teria de ser o Presidente Costa Gomes. Nessa manhã, telefonou a Otelo para casa e ordenou-lhe que comparecesse no palácio presidencial de Belém. Passou o dia com Costa Gomes. Não queria que Otelo fizesse nenhuma loucura. E acho que isso teve um papel importante.
E depois, na minha entrevista com o Presidente Eanes, que infelizmente não foi transcrita, e também com Jaime Neves, mostraram a liderança militar, o know-how, a estratégia, que impediram os paraquedistas de se tornarem demasiado poderosos.
Não sabia que gostava tanto de Star Trek, o “ Caminho das Estrelas”.
Sim, gosto da versão clássica.
Escontra alguma personagem de Star Trek que possamos aplicar à história portuguesa, à revolução portuguesa, à política portuguesa?
Bem, cada um deles, de certa forma. Então, Capitão Kirk poderia ser Costa Gomes. Melo Antunes poderia ser a personagem Spock. Porquê? Por causa do seu discernimento, da sua análise cuidadosa dos factos e da ciência, da sua liderança e da sua visão. O Dr. McCoy seria difícil. Deixe-me ver…Scotty, o engenheiro, talvez pudesse ser alguém como Vitor Alves. Temos de pensar nisso.