50 anos do 25 de novembro

A "traição" a Otelo, os "falcões" que queriam sangue e um coronel que diz saber 90% do que aconteceu. O resto são "pormenores"

25 nov, 2025 - 06:30 • Susana Madureira Martins

Vasco Lourenço critica o ministro da Defesa pela organização das comemorações do 25 de Novembro. “Deve ter feito uma promessa ao tio e quer à força comemorar”, argumenta o coronel. Data é assinalada esta terça-feira com uma parada militar, em Lisboa, e uma sessão solene no Parlamento.

A+ / A-
Entrevista a Vasco Lourenço pelos 50 anos do 25 de Novembro
Ouça a entrevista a Vasco Lourenço pelos 50 anos do 25 de Novembro

Veja também:


Entre as diversas fações envolvidas no rol de acontecimentos do 25 de Novembro de 1975, Vasco Lourenço define-se como um “moderado” inserido no Grupo dos Nove e diz que já se habituou a que lhe chamem “comunista” e "reacionário”. “Isto de um tipo se manter firme e coerente na sua posição, ora não agrada a gregos, ora não agrada a troianos”, desabafa o coronel.

Numa entrevista à Renascença, que decorreu no gabinete da Associação 25 de Abril, em Lisboa, Vasco Lourenço chama a atenção para o chão onde está um gigantesco tapete feito à mão que vem do tempo do Conselho de Revolução. Prometeu trazê-lo para este edifício e faz questão de o mostrar, 50 anos depois.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

O coronel, com 83 anos feitos, mantém a memória precisa daquele dia e admite que o 25 de Novembro podia ter acabado num banho de sangue e numa guerra civil, não fossem os “moderados”. Vasco Lourenço diz-se convicto que sabe 90% do que aconteceu há 50 anos e que os outros 10% são "pormenores". Por exemplo, diz saber agora que, a dada altura da quartelada ou do golpe militar, Otelo Saraiva de Carvalho foi “traído” pelo PCP, ao mesmo tempo que era acusado de traição pelos paraquedistas.

Vasco Lourenço acaba de lançar um livro sobre o 25 de Novembro – “Memórias de um Capitão de Abril” – e não poupa o ministro da Defesa Nacional por causa das comemorações em torno da data, que envolvem, por exemplo, uma parada militar em Lisboa e uma sessão solene no Parlamento. “Deve ter feito uma promessa ao tio e quer à força comemorar”, diz, sibilino, o coronel numa referência à ligação familiar de Nuno Melo ao malogrado cónego Melo. “Uma fantochada”, resume o antigo capitão de Abril.


Vamos começar pelas razões do 25 de Novembro. Tratou-se de um golpe de Estado ou foi uma tentativa do Partido Comunista Português de ganhar músculo entre os militares?

O processo vinha conturbado, desde há alguns meses a essa parte e acentuou-se. Houve vários antecedentes, tentativas de conciliação, que passaram pelo Plano de Ação Política, depois responderam-lhe com a criação da Troika, em que foi claramente um golpe em que concentraram os poderes do Conselho de Revolução só em três membros: o Presidente da República, Costa Gomes; o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves; e o Comandante do COPECON, Otelo Saraiva de Carvalho. O resto do Conselho de Revolução era verbo de encher. Isso não foi aceite, há uma assembleia do MFA, onde se tomam decisões muito importantes de alteração da composição do Conselho de Revolução e de não aceitação do Vasco Gonçalves para continuar como primeiro-ministro. Tudo apontava para, provavelmente, andarmos à bofetada uns aos outros e entrámos num período de provocações de parte a parte.

Nós agimos como se estivéssemos diante de uma tentativa de golpe de Estado e já estávamos preparados para responder a isso, se se verificasse essa necessidade

Estivemos ali à beira da guerra civil?

Na minha opinião, sim. E, no Norte, gerou-se um movimento terrorista de ataques a sedes de partidos, inclusive com alguns mortos, nomeadamente o padre Max e a sua companheira. Portanto, essa situação complicou-se muito e as provocações intensificaram-se em novembro. Há a greve do Governo, depois a decisão do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, o Morais e Silva, de extinção da força paraquedista, na sequência da contestação que os paraquedistas fizeram por terem sido usados na destruição dos emissores da Rádio Renascença. Portanto, aquilo a que chamei na altura e continuo a chamar, um ato de terrorismo de Estado.

A situação degrada-se, radicaliza-se e nós depois tomámos a decisão de propor no Conselho de Revolução a substituição do Otelo no comando da Região Militar Lisboa por mim. Há, então, uma ação de força, não é um golpe de Estado, para alterarem a correlação de forças dentro do Conselho de Revolução. E nós agimos como se estivéssemos diante de uma tentativa de golpe de Estado e já estávamos preparados para responder a isso, se se verificasse essa necessidade.

[Álvaro Cunhal] Mandou recuar e tudo foi resolvido politicamente

Mas houve um recuo, entretanto.

Nós soubemos quem é que estaria por trás disso, informámos o general Costa Gomes, que era o Presidente da República, ele chamou primeiro o major Costa Martins, que era o major da Força Aérea, que estava ligado ao PCP e que terá dito que, efetivamente, era o PCP que estava por trás. Ele chamou o Álvaro Cunhal e convenceu-o. E o Álvaro Cunhal recua, na minha opinião, por duas razões. A primeira, porque tinha feito uma leitura errada da correlação de forças, estava convencido que os fuzileiros iam entrar no golpe dele e os fuzileiros mantiveram-se leais ao Presidente da República, como eu esperava e apostei nisso. E a segunda razão é que, confrontado pelo Costa Gomes, não terá querido ser um dos autores da declaração de uma guerra civil e, portanto, mandou recuar e tudo foi resolvido politicamente. Quando as forças de comando chegaram a Monsanto, já não encontraram resistência nenhuma.

Quando o PCP recua, os paraquedistas, a seguir, chamam “traidor” ao Otelo porque os mandou e depois largou-os

No seu livro, fala de uma traição do Partido Comunista Português a Otelo Saraiva de Carvalho. A que é que atribui essa traição?

A certa altura, alguém ligado ao Partido Comunista, mas sem dar conhecimento à direção do Partido Comunista, entre os militares, ocuparam a base do Montijo, numa demonstração de força. Estava lá uma força paraquedista e ocuparam a base do Montijo. Mas, depois, ficaram naquela situação, “como é que nós vamos justificar isto? Não há nada que justifique isto”.

Então, conseguiram, sem dar conhecimento ao Otelo sobre o que estava a passar, convenceram o Otelo a dar luz verde ao comando dos paraquedistas para mandar equipas de esclarecimento às unidades para dizer qual era a luta que estavam a desenvolver. E o Otelo manda e diz “oxalá isso não seja interpretado como tentativa de golpe, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar para não se meterem em aventuras”. Mas, o PCP transforma essas equipas de esclarecimento, através dos agentes paraquedistas, em equipas de ação de força, sem o Otelo saber.

Resultado, quando o PCP recua, os paraquedistas, a seguir, chamam “traidor” ao Otelo porque os mandou e depois largou-os. No entanto, o que é que aconteceu? Essas equipas deixaram de ser de esclarecimento, foram de demonstração de força, e, portanto, o Otelo é que está a ser traído.

Para si, todos os contornos do 25 de Novembro estão esclarecidos ou ainda há algumas sombras que ainda são difíceis de explicar?

Eu tinha feito uma primeira reflexão nos 40 anos do 25 de Novembro, depois tomei conhecimento de outros factos, averiguei para confirmar esses factos, confirmei e estou convencido que saberei 90% do que se passou. Há acontecimentos que as pessoas não querem assumir, para escapar a eventuais adjetivos, como de traidor e tal. Eu conto aquilo que penso que aconteceu.

Os outros 10% desconfia que sejam o quê?

Pormenores. O essencial não tenho quaisquer dúvidas. Por exemplo, aquilo que eu tenho vindo a afirmar sobre a ação da extrema-direita, que está coberta pelo chapéu do Grupo dos Nove, que tenta um novo 28 de maio e não consegue, porque nós evitámos, foi confirmado o ano passado na discussão dos 49 anos pelo Pacheco de Amorim, que era o homem do MDLP e que hoje é um dos vice-presidentes da Assembleia.

Ele confirma, numa entrevista que deu o ano passado, que no dia 29 de novembro teve um telefonema com o Jaime Neves em que este lhe diz: “conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo, mas já conseguimos alguma coisa”. Portanto, a tentativa clara do golpe do novo 28 de maio esteve no terreno, nós evitámos. Por isso é que eu me revolto contra a ideia desses, que não conseguiram atingir o que queriam e quererem comemorar o 25 de Novembro como se tivessem sido os vencedores.

Há a leitura de que houve uma vitória dos moderados. Quem eram esses moderados?

Os chamados moderados eram o Grupo dos Nove, nós éramos conhecidos pelos moderados. Havia três fações dentro do MFA. Os Gonçalvistas, que eram um núcleo ligado ou influenciado pelo PCP, eram os Otelistas, ligados ao Otelo, mais extremo à esquerda e depois eram os moderados que tinham essencialmente o Grupo dos Nove e que tinham o núcleo legítimo e mais puro do MFA, que defendiam o programa do MFA, tal como ele tinha sido apresentado, mas que tinham, debaixo do seu guarda-chuva todos os reacionários, todos os tipos que estavam contra o 25 de abril, mas que não tinham força nem condições para o manifestarem.

Estavam lá todos. Os moderados éramos nós, o Grupo dos Nove, que, hoje, naturalmente, chamam-nos outra vez comunistas. Ao longo dos anos tenho levado o rótulo ou de comunista ou de reacionário. Isto de um tipo se manter firme e coerente na sua posição, ora não agrada a gregos, ora não agrada a troianos.

Eles fizeram força para fazer sangue, queriam sangue, mas nós conseguimos evitar isso, e por isso é que eu digo, não aconteceu o pior

Pelo que está a dizer, houve ali uma altura em que houve o perigo de se voltar ao 24 de abril de 74?

Se não nos tivéssemos mantido firmes. E o Eanes foi um instrumento importante, ligado a mim, mas foi um instrumento importante para evitar isso, porque tinha algum prestígio junto desses indivíduos. Se nós não o tivéssemos evitado, provavelmente, era esse o caminho que se seguia e a Guerra Civil. Se os “falcões”, como eu lhes chamei, tivessem conseguido aquilo que tentaram, que era usar a Força Aérea para bombardear o Ralis, o Forte de Almada e Tancos, era a guerra civil. Eles fizeram força para fazer sangue, queriam sangue, mas nós conseguimos evitar isso, e por isso é que eu digo, não aconteceu o pior.

Como é que vê estas comemorações do 25 de Novembro que estão a ser promovidas pelo Governo da AD?

Já classifiquei como uma fantochada, uma palhaçada, porque foi instituída uma organização para comemorar os 50 anos do 25 de Abril. Tem o Presidente da República, tem o presidente da Assembleia, tem o primeiro-ministro, tem os presidentes dos quatro tribunais superiores e tem-me a mim como presidente da direção da Associação 25 de abril, que é a Comissão Nacional. Definiu um programa, há uma comissão executiva que depende do Governo, que está a cumprir esse programa, que inclui a evocação do 25 de Novembro e que vai até 12 de dezembro de 2026.

Tudo isso está a ser organizado e, de repente, aparece um tipo do CDS, que quer à força comemorar o 25 de Novembro dele, como sobrinho do cónego Melo, que era do MDLP. Deve ter feito uma promessa ao tio e quer à força comemorar. E depois, tem a lata de dizer que vai nomear uma comissão apartidária e independente. Então, e a comissão executiva que está a executar não é apartidária e independente?

O 25 de Novembro, a única característica que tem de diferente é ser a última. Eles não comemoram o 28 de setembro, não comemoram o 11 de março, porque são tentativas onde a direita é derrotada e querem comemorar o 25 de Novembro porque, teoricamente, é só a esquerda que é derrotada. Portanto, isto é uma palhaçada para mim, não justifica nada.

A direita está a agarrar-se ao Chega com medo de perder o comboio

Considera que, neste momento, a sociedade está outra vez dividida em fações? Direita, esquerda, extrema-esquerda, extrema-direita?

A sociedade sempre esteve dividida. Hoje tem mais visibilidade a extrema-direita através do Chega. A direita está a agarrar-se ao Chega com medo de perder o comboio e estão a tentar levar-nos para uma nova situação de ditadura, na minha opinião. Tenho a certeza absoluta que, se o Ventura chegar ao poder, vai fazer exatamente o contrário daquilo que está a apregoar e vai fazer exatamente pior do que aquilo que ele está a criticar. Mas, o populismo leva-nos a isto. A sociedade estará dividida como sempre esteve, mas hoje a extrema-direita consegue fazer mais barulho e fazer-se ouvir muito mais do que se tem feito ouvir até agora. A minha esperança é que os valores de abril continuem a ser defendidos no sentido de mantermos uma democracia liberal como é aquela que existe no mundo em que nós estamos inseridos. Uma democracia que já leva 50 anos.

A Europa não está a caminhar para isso.

Dizem que a história tem ciclos. E depois do ciclo da vitória contra o nazismo e contra o fascismo, o neonazismo ou o neofascismo, com novas roupagens, estão a reaparecer. Nós vemos o que se passa na América, vemos o fantoche, um tonto que tem audiência e poder, o Trump. Vemos o que se passa na América Latina. Ele injetou milhões na Argentina e o Milei acabou por ganhar. A minha esperança é que o mundo consiga não entrar em novas ditaduras. Continuo a pensar que uma má democracia é sempre preferível a uma boa, entre aspas, ditadura.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • EU
    25 nov, 2025 PORTUGAL 12:50
    Sou ex. Combatente, pois cumpri Serviço Militar em Silva Porto/Angola entre Março de 1973 e Dezembro de 1974. Fui o TERCEIRO FILHO que Minha Mãe viu estar fora Dela por Coronéis e Generais nos terem mandado para Moçambique e Angola. Este Senhor ERA Capitão (?) em Abril de 1974 e hoje é CORONEL. Como ELES progrediram nos GALÕES. Este Senhor ajudou (?) a derrubar uma DITADURA e desde AÍ até agora mantém-se numa Presidência, sem ELEIÇÕES. Por causa deste Senhor e de MUITOS OUTROS é que me leva a dizer que NÃO GOSTO de Coronéis e Generais, mas não gosto mesmo.

Destaques V+