Entrevista Renascença
Ventura elogia presidencialismo francês e garante: "Não vou ser o PR que dissolve a AR até o Chega ganhar eleições"
03 dez, 2025 - 06:39 • Tomás Anjinho Chagas
Candidato a Belém lembra que em França as pessoas escolhem "quem querem a mandar" e defende mais poder para o Presidente. Considera que ir à segunda volta é "uma obrigação" e garante que abandona liderança do Chega se for eleito. Deputado acredita que Portugal deve "evitar" enviar tropas para a Ucrânia. Serviço Militar Obrigatório descartado.
O candidato presidencial André Ventura defende mais poderes e mais responsabilização do Presidente da República.
Em entrevista à Renascença, a caminho das eleições presidenciais, o líder do Chega argumenta que em França o sistema é "mais claro" e considera que é mais eficaz a chegada ao poder através do Palácio de Belém: "Chega pode nunca conseguir formar Governo" pelos "bloqueios" do PS e do PSD.
O candidato à Presidência da República assume que a sua obrigação é passar à segunda volta e promete que vai respeitar a vontade dos portugueses. Ventura revela a razão de ter estado ausente em dois dias da campanha das autárquicas e hesita quando é questionado se atribuiria uma condecoração a Marcelo Rebelo de Sousa.
Sobre o setor da Defesa, pede que seja evitado um cenário de envio de tropas portuguesas para a Ucrânia e afasta o Serviço Militar Obrigatório.
Oiça aqui a entrevista na íntegra a André Ventura, candidato às eleições presidenciais. Ou leia em texto abaixo.



No momento em que gravamos esta entrevista, o Presidente da República está hospitalizado, teve de ser sujeito a uma operação de urgência a uma hérnia encarcerada. Tem havido alguns episódios hospitalares. Acha que devia ser obrigatório que os candidatos à Presidência da República apresentem relatórios de saúde?
É uma questão interessante, não tenho uma resposta para lhe dar de forma direta. Eu também já passei por problemas de saúde em campanha. Por outro lado, e é uma coisa muito pessoal, muito invasiva, quando o país todo, ou uma parte do país, começa a discutir qual é o nosso problema de saúde. Por outro lado, há de facto um interesse público na saúde de quem lidera a nação, ou de quem lidera a oposição, ou de quem lidera o Governo. Se eu tiver um problema de pele, ou um problema no pulmão que não é inabilitante, se calhar eu não tenho que o transformar em público, não é?
Mas se for uma coisa que pode colocar em causa as funções presidenciais?
Se tiver uma questão, digamos assim, evolutiva, que pode ir deteriorando à medida que o mandato avança, se calhar os portugueses aí têm que saber. Mas isso acho que é mais do bom senso do que da lei. Não seria contra também, reconheço que aqui e ali poderia ser uma coisa um pouco invasiva.
Não gostaria de ver a lei a obrigar a fazer isso, se tivesse que fazer, fazia, como as declarações de interesses. Mas uma coisa é declarar que património se tem, e isso acho bem, outra coisa é dizer, tenho diabetes, tenho um problema na mão esquerda, tenho um problema no pulmão direito, não sei se isso é o caminho, não sei se é isso que as pessoas querem. Reconheço que, em alguns casos, pode ser importante. De qualquer forma, acho que também há aqui o bom senso de quem se candidata. Se eu estivesse numa condição inabilitante, ou se sentisse que isso me afetava o juízo, a cabeça, a mobilidade, não me candidataria.
Já disse que não passar à segunda volta seria uma derrota pessoal para si. Também disse que é um líder que assume as suas responsabilidades. Demite-se da liderança do Chega se não passar à segunda volta?
Eu acho que essa questão não se coloca agora como se colocou em 2021. Em 2021, o Chega estava numa fase de afirmação do seu crescimento, da sua mensagem. Hoje não faz muito sentido eu dizer assim: “se não tiver 10%, demito-me”. Isso não faz hoje sentido, é evidente que eu vou ter mais de 10%.
O Chega pode ganhar com 24%, 25%, 26%, 27%, e pode não conseguir formar Governo porque PS e PSD vão bloquear isso
Mas se não passar à segunda volta, não assume essa responsabilidade de forma mais afirmativa?
Com certeza, acho que não se coloca agora a questão do partido, até porque há um congresso marcado para este próximo ano. Face a um partido que se tornou líder da oposição com 23%, a sua obrigação é passar à segunda volta quando há uma eleição presidencial. E eu, quando me candidatei ,sabia que isto tinha um risco político, que é não conseguir acompanhar o eleitorado que nas legislativas votou no Chega. Segundo as sondagens que temos, isso não está a acontecer, está a haver uma espécie de fidelização do eleitorado. Mas até o dia 18 [de janeiro] muita coisa pode acontecer, se isso não acontecer eu falhei nesse sentido.
Falhar significa que temos de refletir politicamente porque é que falhámos, e também compreender a mensagem do povo português. Esta semana estive com jovens em Carcavelos e muitos deles perguntavam-me por que me candidato a Presidente da República quando tenho todo este apoio para ser candidato a primeiro-ministro. Tentei explicar-lhes que o Chega pode ganhar com 24%, 25%, 26%, 27%, e pode não conseguir formar Governo porque PS e PSD vão bloquear isso, como aconteceu nos Países Baixos ou na Áustria.
Isto quer dizer que deixou de querer ser primeiro-ministro?
Não, quer dizer sobretudo que percebemos que neste sistema talvez a transformação tenha que começar a partir da eleição presidencial. Porque o sistema português é muito particular, em que pode haver verdadeiros bloqueios. O Chega pode nunca conseguir formar Governo e eu pergunto às pessoas: “Querem que o Chega transforme o país? Então a melhor forma é votar no André Ventura nestas eleições presidenciais”. Se eu ganhar as presidenciais, ninguém pode bloquear o papel do Presidente. Se ganhar as legislativas, podem bloquear esse papel.
Já defendeu uma revisão constitucional para dar mais importância ao Presidente da República. O que é que defende exatamente? Poderes legislativos para o Presidente?
Não necessariamente. Eu uso a expressão: um Presidente, um Governo, uma maioria. Pela legitimidade que tem, temos de ter um Presidente da República que não tenha medo de intervir.
A questão que temos que colocar é esta: um órgão com mais de 50% de legitimidade, deve ser uma jarra de enfeitar? Deve ser um corta-fitas? Eu acho que não. Portanto, que poderes é que me estou a referir? Não só os poderes que já tem, de veto, de promulgação, mas de ser um veto e uma promulgação interventivos.
Se eu recebesse a lei de extinção do SEF, eu vetava-a, não permitiria que ela entrasse em vigor. Foi um erro político tremendo
Mas consegue concretizar? O que é um veto interventivo?
Vou-lhe dar um exemplo. Há dois níveis de intervenção. O primeiro, a nível político-institucional. Se eu recebesse a lei de extinção do SEF, eu vetava-a, não permitiria que ela entrasse em vigor. Foi um erro político tremendo. Eu não ficaria passivamente à espera que a Assembleia da República estivesse de acordo, vetaria.
Mas sabe melhor do que eu que a Assembleia da República pode confirmar a lei. Nesse caso, o que é que faz?
Há um momento em que já não há mais nada a fazer. Mas eu acho que isso não vai acontecer, porque os partidos também têm a sensibilidade de perceber que quando o Presidente da República transmite uma mensagem ao Parlamento, é um órgão com muita legitimidade que deve ser atendido. Este poder de ativo, de influência, é aquele que Marcelo não usou e devia ter utilizado. Eu estou convencido que se vetasse a lei que extinguisse o SEF e transmitisse ao Parlamento as minhas razões, o Parlamento não ia insistir na extinção do SEF.
Quem quiser um Presidente menos interventivo, sabe que não pode votar em mim
Mas pode sempre insistir.
Pode, mas pagará um preço político perante o país também. Porque assumirá isso e assumirá esse confronto. E os líderes políticos pensam no preço político que se paga quando se enfrenta, digamos assim, o representante mais legítimo da nação. É esse poder de representação que eu quero exercer, com determinação.
O Jorge Sampaio, por exemplo, que é um Presidente em que eu não me revejo do ponto de vista político, exigiu a saída de ministros, como era o caso do Armando Vara, e eu também teria exigido. Nós depois perdemos um bocadinho esse hábito.
Quem quiser um Presidente menos interventivo, sabe que não pode votar em mim, porque isso não vai acontecer. Quem quiser um Presidente mais interventivo, com mais capacidade de intervenção, então eu acho que pode confiar em mim. É este tipo de intervenção que eu quero ter.
Defende um sistema parecido com o sistema francês, onde o Presidente é que nomeia o primeiro-ministro? Seria do Palácio de Belém que sairia o Governo.
Temos de ter um sistema claro, e o sistema francês às vezes é mais claro do que o nosso. No nosso, como aconteceu com o Dr. Pedro Passos Coelho, nós temos casos em que quem ganha não governa. Ganhou um, juntam-se os outros todos, formam uma geringonça e sai outro. Isto não é um sistema muito transparente.
O Presidente da República é eleito, meses e meses de campanhas, há todo um país que pára, para depois elegermos um representante, que muitas vezes não é mais do que um símbolo. Nesse sentido, o sistema francês, às vezes, é mais claro do que o nosso porque permite que as pessoas escolham quem querem mesmo a mandar.
Então gostava de um sistema mais semelhante em Portugal?
Não é gostar mais ou menos. Este é o sistema que temos e eu vou ter que lidar com este sistema, mas tenho a minha posição sobre a Constituição Portuguesa, criou um sistema, propositadamente complicado, de confusão burocrática, institucional, em que às vezes parece que ninguém manda. Há pessoas que dizem assim: “Ninguém mandar é bom porque não há acumulação de poder”. Mas é o contrário. Quando ninguém manda, todos mandam, sem transparência e sem escrutínio. Quando o Presidente é eleito as pessoas sabem que é ele, é ele que responde e tem de ser escrutinado por ter tomado essas decisões.
Portugal é hoje uma democracia madura, temos imprensa livre, temos um sistema de justiça que nem sempre é independente, mas que está a caminhar para isso. Acho que está na altura também de termos um sistema institucional, que não tenha medo de eleger alguém e dizer a esse alguém: “Tu vais ser responsável, pelas decisões que tomas, e nós daqui a cinco anos avaliaremos as decisões que tomaste”. É isto, e não esta confusão, nós tornámos o Presidente da República um bocadinho um cargo simbólico.
As pessoas têm esta sensação de que o cargo de Presidente é para reformados, pessoas que já não querem fazer nada, e que se querem estar 10 anos ali, só ao mandar tipo uns bitaites. E o Presidente não serve para isso.
Eu acho que seria até muito mais interventivo do que o Ramalho Eanes, mas seria de todos aquele modelo em que eu me revejo
Tem dito constantemente que não quer ser uma jarra de enfeitar, que quer ser diferente dos Presidentes da República que a democracia teve até agora. Está a referir-se a quem exatamente?
De todos os Presidentes que tivemos, na minha perspetiva, ou melhor foi o Ramalho Eanes, tão interventivo que fizeram uma revisão constitucional para limitar os poderes e os poderes que tinha. Interventivo, capaz de passar mensagens ao país, capaz de ser ativo, proativo, não comentador, mas proativo, um homem capaz de ir. Quando houve incêndios, foi o primeiro a chegar ao terreno para ajudar as pessoas. Eu acho que seria até muito mais interventivo do que o Ramalho Eanes, mas seria de todos aquele modelo em que eu me revejo.
Cavaco Silva, francamente, apesar de ter vindo do partido que eu também vim, do PSD, foi um pouco um Presidente institucional, de corta-fitas. Não acho que Cavaco Silva tenha sido muito diferente do que foi também Jorge Sampaio. E houve este estilo porque os Presidentes intuíram que o melhor para serem reeleitos é não fazerem nada.
Mas ainda esta semana o ouvi a chamar de “golpe de Estado” ao que Jorge Sampaio fez a Santana Lopes.
E acho que foi.
Isso é um estilo interventivo. Em que é que ficamos?
É verdade, aí houve uma certa intervenção, mas no sentido de agradar aos seus amigos do partido, isso é verdade. Acho que o Jorge Sampaio foi também um Presidente "Melhoral", não fez bem, nem fez mal, deixou-nos mais ou menos igual. Mas de facto teve uma decisão importante, e pagámos um preço por ela. Foi por causa dela que houve a maioria absoluta de José Sócrates, com tudo o que isso significou, de condicionamento da imprensa e da justiça. Ser interventivo e ser fator de instabilidade são coisas diferentes. Eu não quero ser o Presidente que está sempre a provocar eleições.
Não quero ser um Presidente que dissolve a Assembleia da República até o meu partido ganhar eleições
Mas a linha é um bocado ténue, ou não?
É, cabe ao bom senso também de quem é eleito. Não quero ser um Presidente que dissolve a Assembleia da República até o meu partido ganhar eleições.
Está a dizer que o Presidente de Marcelo Rebelo de Sousa fez isso?
Fez um bocadinho, procurou. E vê-se a atitude diferente que teve, até nos incêndios no caso de um e de outro, no caso da saúde, quando era um Governo e outro.
Eu procurarei não o fazer e ser independente e imparcial. Há um outro adversário que é o menos independente de todos face ao Governo, que é o Marques Mendes. Pode ir à segunda volta comigo e pode ganhar, e isto é um risco, porque é o candidato alinhado completamente com o Governo e com o Luís Montenegro. Nós devemos ter um Presidente que fiscalize o Governo e não que esteja alinhado com o Governo.
Se for eleito Presidente da República, entrega o seu cartão de militante do Chega?
Não, não entrego porque isso é para inglês ver. Eu vou continuar a ser do Chega.
Acumulava os cargos, de Presidente da República e líder do Chega?
Não, os cargos não. O partido terá de seguir o seu caminho, mas não deixaria de ser militante, acho que é um direito que eu tenho. Como não deixaria de ser sócio num clube de futebol que sou, como não deixaria de ser membro de uma associação a que pertenço de defesa dos animais. Não acho que deva fazer isso. Como não deixaria de ser católico, só por ser Presidente da República.
Em relação à religião é diferente.
É evidente, percebo o que é que está a dizer. Acho que se pode ser um Presidente interventivo e não ser um fator de instabilidade. Posso dizer ao primeiro-ministro que não vou aceitar um ministro da Cultura, envolvido num caso de corrupção, que tem de se livrar dele.
Se fosse Presidente da República agora, já teria feito pressão para demitir a ministra da Saúde?
Já teria feito, sim. Como teria feito pressão para que Miguel Albuquerque não fosse recandidato na Madeira, por ser suspeito de corrupção.
Imagine que era eleito Presidente da República, demitiria imediatamente o Governo de Miguel Albuquerque?
Houve um momento para isso. Os partidos tomaram uma ação e o Chega apresentou uma moção de censura, o PS acabou por viabilizar essa moção de censura, caiu o Governo, as pessoas entenderam que Miguel Albuquerque devia continuar. Eu aceito, como sempre aceitarei, a vontade dos portugueses, mas não deixaria dizer que discordo disso e que acho errado que alguém suspeito de enriquecer em exercícios de funções e suspeito de corrupção continue com essas funções.
Aproveito para perguntar se tem confiança no nosso sistema eleitoral, ou admite um dia contestar resultados como já fez Jair Bolsonaro ou Donald Trump?
Eu acho que nós devemos evitar que isso aconteça. Todos conhecemos situações em que, muitas vezes, houve situações de voto pouco claras. Não estou a dizer que não possa haver fraude, aqui e ali, em mesas de voto e em circunstâncias particulares, mas acho a responsabilidade de um líder da oposição e de um candidato a Presidente da República não é passar uma mensagem massivamente que há fraude eleitoral. Se sentisse que haveria, a nível nacional, indícios de fraude di-lo-ia. Mas acho que devemos evitar, quando não temos provas, nem suspeitas fundadas. Não interessa a ninguém, nem à esquerda nem à direita, estar a pôr em causa o sistema eleitoral e arranjar desculpas para os votos que temos.
Acho que nós temos que evitar ao máximo enviar tropas para a Ucrânia
Se fosse eleito Presidente da República, seria Comandante Supremo das Forças Armadas. Daria luz verde à presença de militares portugueses como força de paz na Ucrânia?
Acho que nós temos que evitar ao máximo enviar tropas para a Ucrânia. É uma guerra onde a Rússia tem que ser derrotada, em que devemos estar ao lado da Ucrânia, e devemos procurar apoiar a Ucrânia de outras formas, a nível médico, profissional, tecnológico. Ao enviar tropas para o terreno porque arriscamos a enviar para a morte os nossos jovens, acho que isso era evitável.
Então o país falhava com os seus compromissos da NATO?
Nós somos orgulhosamente da NATO, é a nossa aliança, com falhas, mas é o melhor modelo defensivo que existe hoje. Porém, há outras formas, mesmo no quadro jurídico da NATO, de assegurar a participação solidária que não enviar tropas para o terreno. Participação médica, formação e treino militar e até apoio tecnológico, de drones. Acho que Portugal pode participar de muitas formas não enviando tropas para o terreno, devemos evitar isso.
Oiço muito o Presidente francês dizer que temos que enviar tropas e resolver o problema. Francamente, os franceses são sempre bons em enviar os filhos dos outros para a guerra. Já na I Guerra Mundial aconteceu o mesmo connosco. Aquela geração foi trucidada, não quero que volte a acontecer o mesmo em Portugal.
Se a Europa entrar em guerra e Portugal estiver sob ameaça, defende o serviço militar obrigatório para termos efetivos suficientes no terreno?
Não gosto da ideia, podemos ter um outro modelo de participação e defesa que não seja o serviço militar obrigatório. É evidente que a Europa e o mundo estão em mudança e nós temos de ter uma ligação maior às instituições militares. Desprezámos durante muitos anos o investimento na defesa, na tecnologia de defesa, tanto Portugal como a Europa. A Europa desleixou a sua defesa e hoje estamos dependentes basicamente dos Estados Unidos da América…
Mas assim vamos continuar a estar, ou não?
Agora, países como a Alemanha e a França estão a tentar recuperar o tempo perdido, mas isto demora. No caso de Portugal, especificamente, tenho ouvido pessoas muito bem posicionadas nas forças armadas e especialistas dizer que não é o serviço militar obrigatório que vai resolver o problema. Não estou a dizer que fizesse mal.
Há vários países que têm o serviço militar obrigatório: Áustria, Dinamarca, Finlândia, Suécia. Não acha que neste momento o ambiente que se vive no cenário geopolítico se justifica?
Compreendo a questão perfeitamente. Eu acho que Portugal não está na mesma situação em que está a Áustria, ou a Finlândia, que estão mais próximos da zona de conflito. Não digo que não nos devamos preparar para uma situação de eventual conflito na Europa. Porém, tudo farei para evitar que haja serviço militar obrigatório, porque acho que é mau para a geração. Em ultimíssimo caso, se chegamos à mesma situação em que estávamos, na I Guerra Mundial, por exemplo, se não tivermos outra opção, Portugal terá que fazer como todos os outros países. Mas eu acho que o serviço militar obrigatório era de evitar.
Marcelo Rebelo de Sousa vai a Espanha para a sua última viagem oficial a um país estrangeiro. O André Ventura esteve em Madrid recentemente, defendeu a prisão do Presidente do Governo Espanhol. Se fosse Presidente da República, dizia isso a Pedro Sanchéz?
Como diria ao Presidente brasileiro. Ainda há dias publiquei nas minhas redes sociais que me custaria estar com o Presidente brasileiro porque não gosto de estar com ladrões. Temos de perder o complexo de dizer as coisas como elas são. Há uma coisa que é a relação interpessoal, outra é a relação entre Estados…
Mas uma coisa não influencia a outra? Se chegasse ao Presidente do Governo Espanhol e lhe dissesse que devia ser preso, se calhar piorava as relações entre os países, ou não?
Há uns dias um antigo ministro do Governo de Sánchez disse que ele lhe fez ofertas para ficar calado em torno de favores. Isto está a ser um grande escândalo em Espanha e, aparentemente, vai haver uma moção de censura ao Governo, precisamente para pedir consequências. Percebo, porém, o que me está a dizer. Isto vai ou não afetar as relações de Portugal com outros países se eu for eleito? É evidente que o Presidente do Brasil não vai ficar contente se eu for eleito. Isso é uma evidência. E o Presidente do Governo Espanhol também não vai ficar contente. Porém, eu sei distinguir as relações entre Estados e entre pessoas, isso é uma coisa importante, e também sei que nós elegemos um Presidente para os portugueses, não é para os angolanos, nem para os brasileiros, nem para os espanhóis, é para os portugueses.
Mas também para as pessoas que estão lá fora.
Com certeza.
Se, por exemplo, se hostilizasse o Presidente do Governo Espanhol se calhar podia estar a expor os portugueses que estão em Espanha.
Só se não houver o mínimo de sentido democrático. Temos de saber distinguir entre uma coisa e outra. Não podemos continuar a ter esta atitude de cabeça baixa que tivemos a vida toda, a a ideia que temos que pedir desculpa a toda a gente, eu não gosto disso. Eu quando oiço o Presidente de Angola chamar-nos esclavagistas, ladrões, etc. Devemos levantar-nos e defender o nosso país.
Não aceitaria ir à Angola ou ao Brasil no seu mandato?
Eu aceitaria, mas diria o que tinha que dizer. Nunca sairia de Luanda em silêncio como Marcelo Rebelo de Sousa.
Em Angola há problemas de defesa dos direitos humanos. Não podia colocar em causa o bem-estar dos portugueses em Angola?
O país teria de ser capaz de defender os seus nacionais caso isso chegasse a esse ponto. Há portugueses na Venezuela, em Angola, Cabo Verde, Moçambique, há portugueses no mundo inteiro. Isto não significa que nós alinhemos com as ditaduras e as tiranias do mundo inteiro. O João Lourenço é verdadeiramente um corrupto e um ladrão. Todos os que lá vivem sabem isso.
Toda a gente que lida com a elite angolana sabe isso. Eu prefiro dizer.
Mas o que ganha com isso?
É dizer a verdade. Tivemos muito tempo de um Presidente a dizer “nhã-nhã-nhã-nhã-nhã-nhã”. Chegou o momento de dizer a verdade. É esse espírito que eu discordo, a nossa tendência de nos rebaixarmos.
Qual seria a sua primeira viagem oficial no caso de ser eleito Presidente da República?
Não é por estarmos na Renascença, mas acho que o Vaticano fazia sentido. Acho que nós devemos reforçar, a nossa matriz cristã.
Nos primeiros dois dias das autárquicas, não estive presente na campanha porque tinha feito uma promessa de ir ao Santuário de Međugorje, na Bósnia-Herzegovina
Mas se for para agradecer simplesmente o facto de ser eleito, é uma viagem pessoal.
Mas nunca seria. Eu, se for eleito, farei uma viagem pessoal minha, mas será paga por mim, não será pelos contribuintes. Eu irei onde tenho de ir e farei o agradecimento que tiver de fazer. Vou-lhe confessar uma coisa que nunca disse a ninguém e vou dizer hoje aqui. Nos primeiros dois dias das autárquicas, não estive presente na campanha, não estive porque tinha feito uma promessa comigo próprio e com Deus, de ir ao Santuário de Međugorje, na Bósnia-Herzegovina. Fiz a promessa quando tive um problema de saúde.
Na altura não sabia que ia calhar numa campanha eleitoral. Fui sozinho agradecer aquilo que era devido agradecer. Essa viagem foi minha, foi paga por mim.
André Ventura ausentou-se numa campanha eleitoral. Havia dirigentes do Chega a criticar Mariana Mortágua por ter feito o mesmo.
A diferença é que a Mariana Mortágua fez daquilo um momento político e um ativismo político e eu cumpri uma promessa religiosa. Sei que alguns vão criticar, vão dizer que foi errado e que não devia ter feito. Eu, porém, tinha a minha consciência.
Se for eleito, vai condecorar Marcelo Rebelo de Sousa? Há uma tradição de condecorar os Presidentes da República anteriores.
Tenho de pensar, francamente, tenho de pensar. Marcelo de Sousa teve momentos bastante maus, na minha perspectiva. A questão de Angola, para mim, é marcante, a questão do Brasil, a questão das gémeas também não foi. Foi um Presidente muito parcial e acho que falhou muito aos portugueses. Porém, tudo ponderado e numa lógica de continuidade institucional… tenho de pensar, não consigo dar uma resposta neste momento.
Há alguém que deva ser condecorado e que injustamente não tenha sido até agora?
Muitos dos nossos antigos combatentes, não são pessoas conhecidas.
Mas figuras públicas?
Nem sempre são figuras públicas, mas muitos que eu tenho conhecido, o Germano, o António, o Carlos, antigos combatentes que nunca foram condecorados, que deram o melhor da sua juventude para defender o país e nunca foram reconhecidos pelo Estado. Talvez este fosse um bom sinal de reconhecimento.
Se fizemos um referendo sobre o aborto devemos fazê-lo sobre a eutanásia
Já defendeu o referendo à eutanásia. Neste momento o Governo tem a lei na gaveta, está por regulamentar. O Governo devia revogar a lei e deixar um referendo decidir ou regulamentar uma lei que já foi aprovada no Parlamento várias vezes?
Eu sou contra a eutanásia, acho que devemos fazer o possível para termos mais cuidados paliativos e menos morte. Acho que a eutanásia é má. Porém reconheço que há muita gente que pensa o contrário e que é uma questão divisiva.
Se o Parlamento decidir avançar com a eutanásia, eu procurarei que a lei nunca entre em vigor sem um referendo. É uma questão que eu acho que deve eticamente ser colocada à consciência dos portugueses, não acho que seja o Parlamento que deva decidir sobre a eutanásia, devem ser as pessoas. Se fizemos um referendo sobre o aborto devemos fazê-lo sobre a eutanásia. Se a lei não avançar, também não sou o que eu vou incentivar.










