Entrevista Renascença

Gouveia e Melo: "Há maçons candidatos às presidenciais"

12 dez, 2025 - 06:00 • Tomás Anjinho Chagas (entrevista) , Fábio Oliveira (vídeo e fotografia)

Almirante na reserva levanta suspeita sobre a pertença dos seus adversários à Maçonaria, mas recusa concretizar: "Não sou denunciante". Gouveia e Melo admite um referendo à eutanásia, pede transparência aos concorrentes e rejeita liminarmente as reparações históricas às antigas colónias: "Disparate autêntico".

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"Há maçons candidatos às presidenciais", diz Gouveia e Melo. Veja a entrevista
"Há maçons candidatos às presidenciais", diz Gouveia e Melo. Veja a entrevista

Henrique Gouveia e Melo, candidato à Presidência da República, afirma que "há muitos maçons no Governo e há maçons candidatos às presidenciais".

Em entrevista à Renascença, o almirante na reserva recusa-se a ser concreto e indicar qual dos seus adversários da corrida a Belém pertence à Maçonaria.

Gouveia e Melo reitera: "Não sou maçon" e critica quem quis "salpicar" a sua "farda branca", e defende que os políticos sejam obrigados a divulgar se pertencem a organizações secretas.

Nesta entrevista, a caminho das presidenciais de 18 de janeiro, o antigo coordenador da task force para a vacinação contra a Covid-19, não exclui a ideia de se realizar um referendo para a eutanásia e pede um maior investimento nos cuidados paliativos.

Henrique Gouveia e Melo rejeita o cenário de Portugal fazer "reparações históricas" às antigas colónias, admite nomear Rui Rio para o Conselho de Estado e responde a José Luís Carneiro, que avisou esta semana que só há um candidato do PS.


Oiça aqui a entrevista na íntegra a Henrique Gouveia e Melo, candidato às eleições presidenciais de 2026. Pode ver a versão com vídeo acima ou no Youtube da Renascença.

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Na semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa foi operado de urgência. Devia ser obrigatório os candidatos à Presidência da República apresentarem relatórios de saúde por uma questão de transparência?

Não, não acho que seja obrigatório, é uma devassa muito grande. Se o Presidente morrer, há mecanismos para o substituir, e ninguém tem a garantia que a sua saúde é boa, porque pode ter um cancro, uma doença súbita. Era meter mais um fator nas eleições que poderia ser usada de forma muito negativa, e poderia corromper a própria democracia.

Saí das Forças Armadas com a aptidão completa, portanto, só concorri tendo a certeza que estava perfeitamente bem.

Vejo algumas incongruências e algumas dúvidas sobre as relações entre a política e os negócios de candidatos que estão, neste momento, a concorrer à Presidência

Mas aí parte de uma decisão sua. Não acha que deve haver uma espécie de regra para os candidatos?

Não, acho que não. Há coisas que são muito mais importantes, em termos da transparência. Um exemplo, até que ponto é que negócios misturados com a política são permitidos. Às vezes, parece que há um certo apagão no escrutínio. Neste momento, há dúvidas que estão a circular, não tenho nenhum dado especial, mas vejo algumas incongruências e algumas dúvidas sobre as relações entre a política e os negócios de candidatos que estão, neste momento, a concorrer à Presidência.

Mas está a referir-se a quem, exatamente?

Que é conhecido, que é o problema do Angola Desk [envolve Marques Mendes], em que desapareceu, de repente, do site da firma de advogados. Esses problemas é que me preocupam, porque têm a ver com ética. Acho que deve ser totalmente esclarecido. Não estou a dizer que o candidato tenha feito qualquer coisa de mal, só que acho que o candidato tem de esclarecer totalmente essas questões. Aí sim, a transparência aplica-se.

Em 1996, Jorge Sampaio ocultou deliberadamente um problema cardíaco, que o levou mais tarde a suspender as funções presidenciais durante alguns meses. Considera legítima a ocultação desse tipo de problemas de saúde?

Não. Ocultar de propósito não. Não sei se quer referir-se à questão de eu ter um pacemaker.

Não me estou a referir a isso.

Está bem, mas pronto, para que fique claro, tenho um pacemaker há mais de 15 anos e fui considerado apto para todas as funções das Forças Armadas. Andei de submarino, fiz operações, fiz tudo o que tinha para fazer. Não tenho de esclarecer muito mais do que isso.

Nunca ocultei isso, tornei isso público e há atletas de triatlo que também têm dispositivos desses. A questão aqui é que a transparência deve ser uma transparência global. Muito mais do que saber se o Presidente vai ter saúde ou não, é muito mais importante saber qual é a saúde ética do Presidente, porque isso, sim, tem a ver com as decisões do dia-a-dia.

Não vou fazer grande fé nas sondagens porque não tenho a certeza absoluta que sejam assim tão isentas

As sondagens, que têm mostrado uma ligeira queda para si, preocupam-no? Ou desvaloriza, como também não valorizou tanto quando estava no topo das sondagens?

Nunca valorizei quando estava no topo das sondagens, também não me vão ouvir a falar agora que as sondagens parecem dar menos. Dependem muito da técnica da amostra, não vou discutir matematicamente como é que as sondagens podem ser manipuladas. A maior parte das sondagens tem errado na previsão dos resultados eleitorais. Não vou fazer grande fé nas sondagens porque não tenho a certeza absoluta que sejam assim tão isentas e não estejam a servir como um instrumento político neste momento. Sondagem só há uma: nas urnas, no dia 18 de janeiro de 2026.

E está preocupado que esta tendência de descida se prenda com a sua prestação em alguns debates ou não faz essa relação?

Não faço essa relação. As pessoas ficam muito eufóricas quando há uma pessoa que entra num registo quase que histriónico, que faz, que esbraceja, que parece muito ativo e as pessoas dizem: “Pronto, teve a vitória. O gladiador teve a vitória”. Não é o meu registo.

O meu registo é calmo, sereno, porque sempre fui assim e acho que é a postura de um concorrente à Presidência da República. Não me vou avaliar a mim pela necessidade de dar espetáculo mediático. Os eleitores são muito mais inteligentes do que nós podemos pensar, veem muito mais para lá do folclore, conseguem ver a substância.

Esta semana, José Luís Carneiro veio avisar que o PS só tem um candidato e é António José Seguro. Interpreta isto como uma espécie de apropriação dos votos das pessoas que tradicionalmente votam à esquerda?

Essa declaração é muito interessante, porque o Dr. António José Seguro dizia que não era socialista, que não era candidato do Partido Socialista e que era um candidato independente. E o secretário-geral do PS vem dizer: “Não, não, ele é o nosso candidato”. Pois, eu nunca pedi o apoio do Partido Socialista, eu tenho o apoio de muitos socialistas, que não se reveem nesse candidato.

Há um centro-esquerda e um centro-direita, e eu represento essa grande fatia de eleitores. O que o secretário-geral do PS veio dizer, basicamente, é o que todos nós suspeitávamos, é que há um candidato partidário, o António José Seguro, mas mesmo assim não consegue fazer o pleno.

Pacote laboral? Quando entramos num processo de negociação, temos de fazer cedências e de perceber a outra parte

Vamos avançar para a greve geral. Compreende este pé de vento da UGT e da CGTP? Houve aqui alguma motivação política, como sugeriu Luís Montenegro, que esta é uma greve política?

Tudo na vida é política, as negociações também são políticas. Há um direito, que é o direito da greve, e não tem sido usado de forma frequente no nosso país. O que o Governo tem de fazer é perceber quais são os motivos que levaram a uma greve geral. Têm a ver com o processo de negociação. Quando entramos num processo de negociação, temos de fazer cedências e de perceber a outra parte.

Não está provado que a produtividade da nossa economia esteja relacionada com menos direitos dos trabalhadores. Não há nada que prove isso.

Não vê que seja por aí que se vai resolver?

Não, há coisas muito mais importantes para se resolver que não estão a ser remexidas.

Como?

Como, por exemplo, a burocracia excessiva do Estado, quando os empresários precisam de fazer qualquer negócio, têm de lidar com 10, 15 centros de decisão dentro do Estado, exigem quase uma proximidade, essa sim perigosa. Depois uma justiça lenta.

Vou dar um exemplo típico de uma flexibilização que não faz sentido nenhum. Estamos a discutir contratos a termos certo e incerto. Foram feitos para dar às empresas alguma flexibilidade quando o mercado tem flutuações sazonais. Agora querem aumentar esses contratos para três e para cinco anos, respetivamente. Mas há flutuações sazonais de três anos?

Querem mudar a forma de contratação para tornar essa contratação mais frequente, só que isso precariza os direitos dos trabalhadores sem dar nenhuma, sem acrescentar verdadeiramente nenhum fator de produtividade.

Se este anteprojeto do Governo não tiver acordo com nenhuma central sindical, mas for aprovada no Parlamento e o senhor for Presidente da República, veta?

Não vou dizer o que vou fazer, porque ao dizer isso estou a afetar o processo negocial. Se eu disser que veto, os trabalhadores naturalmente vão exigir tudo o que puderem. Se eu disser que não veto, os empregadores e o Estado podem achar que têm as mãos livres durante o processo negocial. Quem anda a dizer qual é a sua posição, neste momento, está a interferir num processo negocial que deve ter consenso.

Vamos falar sobre a eutanásia. Já disse que é contra a despenalização da morte medicamente assistida por princípio. A lei deve voltar ao Parlamento com a mudança do quadro parlamentar?

Não, eu acho que a lei não tem de voltar ao Parlamento. A questão da eutanásia é muito difícil para todos nós, para qualquer cidadão. Sou adepto fervoroso que a vida deve ser vivida com dignidade até ao último minuto e acredito que nós devemos fazer tudo, tudo, tudo para que isso aconteça. Sem sofrimento e com dignidade. No entanto, também não posso ficar imune à ideia que a ciência pode não conseguir fazer isso em determinados casos e que essas pessoas podem ficar numa verdadeira tortura em vida.É muito difícil decidir onde é que está essa linha.

Devemos ter comissões de ética para decidir bem sobre isso e pôr a linha o mais possível onde a nossa tecnologia permita preservar a vida com dignidade. Porque é isso que todos queremos.

Num tema tão sensível, faria sentido ouvir as pessoas e pedir um referendo sobre o tema?

Eu não sou muito adepto dos referendos sobre um determinado tema, porque é uma democracia demasiado direta que, historicamente, não deu resultados. Temos o exemplo do Brexit, que foi um erro de percurso que o Reino Unido já se arrependeu.

A parte psicológica da população pode estar condicionada por uma coisa conjuntural e, no referendo, decidir uma coisa com uma importância gigantesca para o país fora dessa conjuntura.

Neste caso, não é uma coisa conjuntural, não sei se não poderia ser uma hipótese. No entanto, não consigo ter soluções hoje para tudo o que me perguntam. Não porque seja indeciso, mas porque requerem uma forte reflexão e informação.

Tem defendido que o país deve investir nos cuidados paliativos, para garantir que as pessoas em situação de extrema fragilidade têm acesso aos cuidados que precisam. Faria sentido, para si, exigir isso como uma espécie de moeda de troca para promulgar a lei da eutanásia?

Para mim faria sentido. A pior coisa que podemos ter é uma sociedade cuja sua ética e sua moral se torna utilitarista. Tenho um receio tremendo, que a certa altura, em determinadas situações, nós achemos que é mais fácil a pessoa morrer porque dá menos problemas do que a manter viva. Isso é que não pode acontecer. A resposta que a sociedade tem de dar é conseguir preservar a vida com dignidade até o fim.

Se vencer as eleições, será Comandante Supremo das Forças Armadas. Portugal deve preparar-se para a guerra, no estado em que estamos?

Portugal deve preparar-se para não entrar em guerra. Não pode pensar que isso vai acontecer porque os outros são bonzinhos, temos de fazer isso através da dissuasão.

A melhor estratégia para evitar a guerra é investirmos o suficiente para ninguém pensar que pode vir fazer-nos uma guerra e sair incólume disso, sair com proveito dessa guerra. Se investirmos o suficiente, é a melhor forma de evitarmos essa guerra, e isso foi o que não fizemos nos últimos 50 anos na Europa.

E agora estamos a fazer?

Agora acordámos, porque o nosso amigo americano [Donald Trump] disse que já chega da boleia: “Vocês têm de fazer a vossa quota-parte na defesa no mundo ocidental, no flanco leste europeu”.

Estão a exigir que façamos os investimentos necessários para ganhar o tal efeito dissuasor sob a Federação Russa. Eu não tenho nenhum pessimismo, nós temos toda a capacidade para o fazer, é só uma questão de vontade.

A melhor estratégia para evitar a guerra é investirmos o suficiente para ninguém pensar que pode vir fazer-nos uma guerra e sair incólume

Agora temos um empréstimo de 5.8 mil milhões de euros para investir em defesa. Do seu lado mais técnico, considera que as escolhas estão a ser bem feitas?

Eu acredito que os militares que vão tratar disso, são pessoas com elevada qualidade e capacidade. No entanto, acho que o processo político está inquinado, porque não se pode só perguntar aos militares o que é que eles desejam. Tem de haver um aspecto mais geral, político. Temos um conceito estratégico de defesa nacional de 2013, teve umas pequenas atualizações, mas ainda considera a Rússia um parceiro, mesmo depois de 2022. Está desatualizado. As nossas missões estão desatualizadas.

Podemos estar a investir sobre pressupostos errados?

Estamos a investir com pressupostos que nos são enviados de fora para dentro. Estamos a ir um bocado à portuguesa, de forma improvisada, com uma urgência que nos foi criada. A urgência é três anos, porque se a Federação Russa tentar qualquer coisa, é agora enquanto a administração de Trump existe.

Nós em três anos não vamos adquirir nada. Sabe porquê? Porque qualquer coisa que a gente encomenda vai demorar mais de três anos a chegar. Até isso é uma irracionalidade.

Em vez de andar a comprar imediatamente coisas novas, a primeira coisa que temos que fazer é pôr tudo o que temos a funcionar, e isso também custa dinheiro. E depois sim, pensar daqui a cinco ou dez anos, que coisas é que devemos adquirir para outro tipo de ameaças que possam aparecer nessa altura. Isso deve ser discutido publicamente, é um instrumento essencialmente político.

Já defendeu que preferia tropas portuguesas na zona do Atlântico do que enviar portugueses para a Ucrânia. Defende isso mesmo que signifique falhar aos compromissos com a Nato?

Não. Nunca defendo falhar aos compromissos da NATO. A defesa coletiva não é ir só para a linha da frente, porque o Atlântico também é uma linha da frente. Se a Federação Russa conseguisse paralisar as linhas de comunicação, produtos, matérias-primas, dados, no Atlântico, partia a NATO a meio. E sabe qual é a rotunda da Nato? É um arquipélago que é português, chamam-se os Açores.

No leste europeu – onde há muitos países que pertencem à NATO - também não vão concentrar as suas forças e as suas capacidades aqui. Cada um faz o trabalho que pode fazer na geografia que pode fazer, em vez de ir para outras geografias. Aqui, na nossa fronteira, somos mais úteis no contexto da NATO.

Se a Europa entrar em guerra e Portugal estiver sob ameaça, defende o serviço militar obrigatório?

Se a Europa entrar em guerra e estivermos sob ameaça, não é serviço militar obrigatório.

É lei marcial..

É lei marcial. Isso não faz sentido. Quando falei sobre o serviço militar obrigatório há um ano e meio, e o que eu fiz foi um alerta ao Governo. Disse que estamos a perder efetivos e que se continuarmos neste caminho, os senhores [Governo] ainda vão ter que recuperar o serviço militar obrigatório, mas há outras coisas mais inteligentes a fazer. Eu sempre defendi as outras coisas mais inteligentes. Há gente que me quer colar ao serviço militar obrigatório, como se eu quisesse levar os jovens obrigados para dentro das Forças Armadas. Não foi isso que eu disse.

Há uma coisa mais inteligente que se pode fazer: criar uma reserva com as pessoas que entram e saem do contrato das Forças Armadas. Essa reserva só funciona para o momento de crise, se for uma crise muito prolongada, somos todos nós que temos de defender o país, não são a meia-dúzia de militares que nós temos. Temos um efetivo muito baixo, temos entre 23 e 24 mil militares. A GNR e a PSP são o dobro dos efetivos militares, para as pessoas perceberem do que estamos a falar.

Vamos avançar para o exercício da presidência, se fosse eleito Presidente da República, qual é que seria a sua primeira viagem oficial?

Não vou revelar isso aqui. Eu sou um europeísta e um atlantista.

Dito isso..

Dito isto, os países mais importantes na área do Atlântico são aqueles que podem definir o nosso grau de liberdade ou não.

Está a falar dos Estados Unidos, Brasil…

... Brasil, Angola... um conjunto de países que são importantes para nós em termos do nosso grau de liberdade. Se vou primeiro a um país da Europa ou a um destes países, é uma coisa que eu vou ter de decidir.

Se for eleito, já tem na cabeça os nomes das pessoas que quer chamar para o Conselho de Estado? O seu mandatário nacional, Rui Rio, seria uma opção?

Seria uma opção, como outras. Eu terei direito a chamar cinco pessoas, vou escolher pessoas que me podem abrir o leque de conselho. Não vou é chamar pessoas para marketing político, pessoas que me dá jeito dizer que vou chamar durante a campanha.

Não prometeu nenhum favor?

Não prometi favores a ninguém. Nunca prometi e nunca prometo favores a ninguém.

Durante o último mandato, Marcelo Rebelo de Sousa, admitiu que Portugal poderia ter de fazer uma reparação histórica às ex-colónias. Como é que olha para este tema?

Isso acho um disparate autêntico. Não estou a dizer que o senhor Presidente tenha sido disparatado. Mas acho que a ideia, em si, é uma má ideia. Não faz sentido nenhum. Reparações históricas? Então e há mil anos? E há dois mil anos?

Afasta a ideia completamente se for a chefe de Estado?

Afasto essa ideia.

E dirá isso aos chefes de Estado homólogos, brasileiros, angolanos?

Claro que direi. A pergunta que se punha ao contrário seria: “os senhores também nos pagam o desenvolvimento que foi feito?”. Em termos históricos não faz sentido e o chefe de Estado angolano disse que não queria.

Mas Lula da Silva já sugeriu a ideia.

Francamente… Vou contar um pequeno episódio, fui o comandante de uma força europeia durante dois anos. Estava num quartel da Marinha em França e à entrada estavam dois canhões de cerca de dois metros de altura a fazer de colunas. Voltei para trás e aqueles canhões tinham as armas de Portugal. Eram dois canhões portugueses. Agora imagine que eu vou lá pedir para nos devolverem os canhões porque isto é português.

Isso acho um disparate autêntico. Reparações históricas? Então e há mil anos? E há dois mil anos?

Admitiu, em entrevista ao Observador, que poderá fazer um único mandato presidencial se for eleito. Agrada-lhe a ideia que foi lançada por Marcelo Rebelo de Sousa de haver apenas um mandato para o Presidente da República de sete anos?

Não gosto de ideias de pessoas que gozam um determinado período e depois vão induzir para os outros períodos. Eu acho que dois mandatos fazem sentido. Fazer dois mandatos ou um mandato é algo que só poderei decidir na altura.

Gostava de falar também sobre os abusos sexuais no seio da Igreja. O processo de uma tentativa de reparação começou em 2019, o modelo de compensações deve surgir no primeiro trimestre de 2026. Como é que olha para este processo? Está atrasado ou foi um passo com coragem?

Foi um passo com coragem. É preciso olhar para as vítimas e tentar ajudar as vítimas, muito mais do que o dinheiro. É importante colocar os travões e as seguranças necessárias para que isso não volte a acontecer.

Há duas coisas que têm de acontecer: reparar o que se fez de errado sobre as vítimas e criar sistemas e mecanismos para que isto não volte a acontecer.

Isto descredibilizou a Igreja e criou insegurança sobre o papel da Igreja. Isso foi a pior coisa que aconteceu, para além das vítimas.

Já disse várias vezes e reiterou que não é maçom. Há uns anos esteve em debate a ideia de os políticos serem obrigados a declarar se fazem parte de associações como a Maçonaria. Está de acordo com isso, a bem da transparência?

Aí estou de acordo totalmente. É bom que toda a gente saiba quais são os nossos interesses porque nós vamos estar numa função pública. Se somos obrigados a dizer quais são as nossas contas bancárias, dizer tudo e mais alguma coisa, depois não somos obrigados a dizer quais são os nossos interesses ao participar num grupo? Acho que devemos dizer. Aliás, a maçonaria está de tal maneira espalhada em Portugal que me parece que até para os próprios maçons isso não seria um problema.

Eu não sou maçom. Já me tentaram colar essa, como tentaram colar que era amigo de Sócrates. Essas tentativas são verdadeiramente baixa política. É tentar atirar lodo para cima de pessoas e eu, como fardava de branco, não gosto de ter lodo na minha farda branca.

Transparência total. Negócios, relações de negócios com a política, lobby que estava proibido, é transparência total, incluindo, se pertence, ou não, a organizações secretas.

Não tenho nada contra os maçons. Os maçons até podem fazer coisas fantásticas, desde que assumam. A própria maçonaria não vai ter problemas nisso, porque a maçonaria também fez coisas muito positivas pela sociedade. Foi uma força revolucionária, no sentido político do termo, a certa altura.

Vou dizer-lhe: há muitos maçons no Governo e há maçons candidatos.

Às presidenciais?

Às presidenciais. Eu que não sou maçom, andam a tentar salpicar a minha farda branca.

Mas não quer dizer a quem é que se está a referir?

Não, porque as pessoas é que têm de assumir. Eu não sou um denunciante.

Mas acabou de lançar a suspeita de que há alguém.

Mas os senhores [jornalistas] também não fazem o vosso trabalho. Façam o vosso trabalho.

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