29 dez, 2025 - 06:30 • Susana Madureira Martins
“Dei-lhe tanto na cabeça”. É desta maneira que um dirigente do PS lamenta à Renascença que Pedro Nuno Santos tenha aberto a porta à candidatura de António José Seguro à Presidência da República. Numa entrevista à CNN, em outubro de 2024, o então líder do PS colocava Seguro no lote dos socialistas presidenciáveis, entre Augusto Santos Silva, António Vitorino ou Mário Centeno.
A direção do PS sabia das movimentações de Seguro para uma eventual corrida a Belém e o ex-líder socialista agradeceu, admitindo também numa entrevista à CNN, em novembro do ano passado, que estava a “ponderar” a candidatura.
O “homem das Caldas” que, por acaso, é de Penamacor, encontrou assim uma janela de oportunidade que, de uma assentada, deu razão ao ditado certeiro: “A vingança serve-se fria”.
Contra a vontade de uma parte da elite do PS, Seguro apresentou a candidatura à Presidência da República a 15 de junho num Centro Cultural das Caldas da Rainha - onde vive - cheio que nem um ovo. Definiu-se como “livre” e “sem amarras”. Nessa tarde diria, também, algo que fez muitos sorrir: “Eu não venho da política tradicional”.
“Uma vida muito bonita cheia de carinho onde cuidávamos uns dos outros”. Recentemente, já como candidato a Belém, numa entrevista ao programa da tarde de Júlia Pinheiro, na SIC, António José Seguro descrevia assim como era a vida na vila de Penamacor, no distrito de Castelo Branco, onde o socialista nasceu e cresceu.
Em Penamacor, a mãe era doméstica e o pai era um pequeno comerciante, “tinha um café beirão”, segundo o próprio candidato e depois “passou para uma papelaria onde vendia botijas de gás”. Seguro tem dois irmãos - Alberto e Luís – e na vila centenária chegou a fundar com os primos um jornal “A verdade de Penamacor”, chegando mesmo a fazer uma manchete com António Ramalho Eanes, durante uma visita que o então Presidente da República fez à região.
Foi em Penamacor, garante, que aprendeu o valor da “honra” e que “um aperto de mão e a palavra dita valem mais do que uma assinatura”. É algo que Seguro tem, de resto, repetido em pré-campanha e surge mesmo na nota biográfica que a assessoria de imprensa forneceu a pedido da Renascença.
Nessa mesma nota, lê-se mesmo que “em Bruxelas”, Seguro é conhecido como “Mr. Compromise”, alcunha que terá ficado dos tempos em que foi eurodeputado e co-autor do relatório sobre o Tratado de Nice e o futuro da União Europeia. “Outra das suas características” lê-se ainda, “que alguns veem como defeito, é a sua inclinação para os compromissos e para a convergência”.
Deixa Penamacor no início dos anos 80 do século passado para rumar a Lisboa onde inicia o curso de gestão de empresas no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), mas a entrada na vida partidária e no Conselho Nacional da Juventude congelam a passagem pela universidade, a que só voltará mais tarde.
“Tó Zé”, como é conhecido pelos mais e menos próximos, assume-se como um “social-democrata”, embora, recentemente, tenha sido algo hesitante em assumir a sua costela partidária. Numa entrevista ao jornal Público, quando questionado pela jornalista Ana Sá Lopes se se assume de esquerda, o candidato presidencial devolveu a pergunta: “Por que me tentam arrumar em gavetas?”
Dias depois viria corrigir a mão e assumir que é da “esquerda moderada e moderna”. Assume-se ainda, na nota biográfica já referida, como “avesso às tricas e intrigas políticas”, que, de resto, viveu intensamente quando foi líder do PS.
É também conhecido o tempo que Seguro leva a amadurecer decisões. Há cerca de um ano, quando começou a dar sinais de que queria avançar para Belém, uma fonte próxima do antigo líder socialista admitia à Renascença que Seguro “está menos molengão” do que há dez anos quando era líder do PS.
A mesma fonte lamentava que, sendo “um nome forte” do PS para Belém, Seguro “não devia ter cortado tão radicalmente a vida pública e política”, tendo, por isso, perdido visibilidade.
Há 11 anos, António Costa tirou-lhe a cadeira no PS e António José Seguro refugiou-se nas Caldas da Rainha, onde vive. É casado com Margarida Maldonado Freitas, farmacêutica e proprietária de duas farmácias naquela cidade que chegou a concorrer aos órgãos de direção da Associação Nacional de Farmácias. Por causa disso, e enquanto era deputado, Seguro assinalou sempre uma declaração de interesses quando no Parlamento se discutiam temas relacionados com o setor farmacêutico. E consta do histórico da sua biografia parlamentar.
A família Maldonado Freitas, de resto, tem uma ligação estreita com o PS, tendo dado guarida na casa das Caldas da Rainha, durante um ano, ao fundador do partido, Mário Soares, quando este era criança e enquanto o seu pai, João Soares, estava preso nos Açores. O patriarca da família era um conhecido republicano das Caldas e tido como uma referência na oposição ao regime da ditadura.
Segundo escreve o antigo líder da federação socialista de Setúbal, Vítor Ramalho, no seu livro de memórias “As minhas causas”, vem daí, também, uma amizade pessoal de Soares com o ex-líder do PS, com quem, apesar disso, chocou politicamente nos anos da Troika.
Seguro conheceu Margarida num congresso da JS e foi-lhe apresentada por um amigo de longa data, o ex-deputado do PS António Galamba. Terá sido amor à primeira vista, segundo conta o jornalista Rui Gomes, no livro “Um de nós”, uma organização de testemunhos elogiosos que traçam o percurso político e pessoal do antigo líder socialista.
Em janeiro de 1983, são definidos os princípios fundadores do Conselho Nacional de Juventude (CNJ) e, em 1985 a organização é formalmente criada, com um regimento para a Assembleia Geral e a eleição dos primeiros órgãos dirigentes.
António José Seguro, membro da JS desde os 18 anos, fica com a presidência da direção e Carlos Coelho, da Juventude Social Democrata, na presidência da Assembleia Geral. Coelho é, atualmente, vice-presidente do PSD e esta ligação de Seguro a setores da direita será notada ao longo da carreira política e, sobretudo, quando chega à liderança do PS.
Na JS, em 1984, é o número dois da lista de José Apolinário para a liderança da organização. Apolinário vence e, seis anos depois, é a vez de Seguro ser eleito líder com a moção “Vamos Fazer os Dias Diferentes”.
É deste período e dos bastidores da JS que surgem rivalidades e questões mal resolvidas que permanecem ainda hoje entre António José Seguro e António Costa e respetivos apoiantes. Isso mesmo é confirmado à Renascença por antigos dirigentes de topo do partido.
Em 1991, Seguro é eleito deputado, é líder da JS e aproxima-se da cúpula do poder socialista quando, no início de 1992, António Guterres bateu Jorge Sampaio na corrida ao lugar de secretário-geral do PS.
Na campanha eleitoral para as legislativas de 1991, com Jorge Sampaio, os elementos da Jota surgem com bonés, t-shirts amarelas e suspensórios vermelhos. Fica célebre a campanha “Deixa-me seduzir-te”, a distribuir preservativos pelas camadas jovens.
Em 1995, termina o consulado do cavaquismo e Guterres vence as eleições legislativas. Seguro é chamado para o Governo para ser secretário de Estado da Juventude e, dois anos depois, é nomeado secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, substituindo Joaquim Pina Moura.
Nas europeias de 1999, o PS de Guterres dá o tudo por tudo para vencer as eleições e consegue. O partido mete a carne toda no assador e chama o fundador do partido Mário Soares para cabeça de lista e António José Seguro, então secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, sai do Governo para ser o número dois.
Com o ex-Presidente da República segue para Bruxelas uma autêntica guarda avançada. É o caso de António Campos, um antigo braço direito de Soares, Carlos Lage, dirigente do PS dos tempos da Assembleia Constituinte e um outro ex-líder da Juventude Socialista, Sérgio Sousa Pinto, com quem Soares irá manter uma relação muito próxima a partir daí, publicando mesmo um livro de conversas “Diálogo de Gerações”.
Seguro acaba por não cumprir o mandato europeu, sai em julho de 2001 para integrar o Governo como ministro Adjunto do primeiro-ministro, cargo que ocupa por pouco tempo, até abril de 2002, após a demissão de António Guterres, na sequência do “pântano” criado pelo resultado das eleições autárquicas de dezembro do ano anterior.
Com Eduardo Ferro Rodrigues a suceder a António Guterres como secretário-geral do PS, a partir de 2002, Seguro assume o seu lugar como deputado e, em 2004, a liderança parlamentar, em substituição de António Costa.
A escolha não é pacífica e o próprio secretário-geral, Ferro Rodrigues, enfrenta contestação interna pela estratégia política que vai desenhando, nomeadamente a indicação de António Sousa Franco para cabeça de lista às eleições europeias de junho de 2004, que o PS acabará por vencer, no meio de uma tragédia. Anos mais tarde, António Costa dirá dessas eleições que foram a “primeira maioria absoluta” do partido.
No seu livro de memórias, “Assim vejo a minha vida”, publicado em 2023, Ferro Rodrigues dedica alguns parágrafos a Seguro, dizendo dele que “dirigiu com sabedoria política e lealdade a minha campanha eleitoral em 2002”.
Sobre a escolha de Seguro para a liderança parlamentar, o ex-secretário-geral socialista revela que “várias vezes” o sentiu “intranquilo e infeliz com a forma como a comunicação social o tratava, sendo membro do secretariado nacional”. Ferro confirma ainda que “a tensão com António Costa já vinha de muito longe” e que “ambos conheciam muito bem e gostavam do PS”.
Com a demissão de Ferro Rodrigues da liderança do PS, em colisão com a decisão do Presidente da República, Jorge Sampaio, em aceitar Pedro Santana Lopes para primeiro-ministro, e com a eleição de José Sócrates para o cargo, Seguro assume um papel de segunda linha na Assembleia da República.
A partir de 2005, com a vitória por maioria absoluta do PS nas legislativas, Seguro é substituído por Alberto Martins na liderança da bancada e é visto como o eterno candidato a substituir Sócrates como secretário-geral do partido quando a altura chegar.
Cabeça de lista por Braga, em todas as três eleições de Sócrates - 2005, 2009 e 2011 – o beirão nunca escondeu as divergências em relação à governação do seu próprio partido e assumiu-as no Parlamento e fora dele.
Em 2008, defende que o Tratado da União Europeia, futuro Tratado de Lisboa, deve ser referendado, por ser um “compromisso” do PS e acaba por furar a disciplina de voto da bancada parlamentar ao votar alinhado com as propostas das oposições que defendem o mesmo, invocando “objeção de consciência”.
Seguro foi, ainda, o único deputado que, em 2009, votou contra as alterações à lei do financiamento partidário que aumentou para o dobro os limites de dinheiro que os partidos podiam receber em angariações de fundos (de 1500 para 3000 Indexantes de Apoios Sociais) e de 50 para 3000 o valor que os partidos podem receber em "dinheiro vivo" em quotas e contribuições.
O socialista considerou um “retrocesso” a aprovação da lei e uma cedência do PS ao PCP pelo aumento das receitas em “dinheiro vivo”. Era uma das queixas recorrentes dos comunistas por causa da “Festa do Avante!”.
Entretanto, com a crise financeira de 2008 e que se alastra aos anos seguintes, Sócrates vai fazendo aprovar medidas de austeridade com as quais Seguro vai discordando dentro e fora das reuniões do partido.
Em Penamacor, sua terra Natal, chega a dizer que "os portugueses estão fartos de fazer sacrifícios sem ver resultados". "Não podemos ver como fatalidade os planos de austeridade" porque "o projeto de Portugal tem de ser de esperança", diz António José Seguro.
É, também, neste período, que o ex-líder da JS é chamado a coordenar o grupo de trabalho que, em 2007, levou à produção da reforma do Parlamento.
O pacote levou a profundas alterações no modo de funcionamento dos trabalhos dos deputados, nomeadamente, sobre matérias como o exercício do direito de petição ou as audições dos ministros nas comissões e os debates quinzenais com o primeiro-ministro, reforçando a fiscalização da ação do Governo.
Mais tarde, em 2016, António José Seguro haveria de publicar um livro precisamente dedicado aos efeitos destas mudanças. “A Reforma do Parlamento Português – O controlo político do Governo” seria, de resto, a adaptação da investigação que apresentou para o mestrado em Ciência Política.
Com o chumbo de um novo pacote de austeridade, o PEC IV, em 2011, que levou ao resgate financeiro de Portugal pela Troika, em abril desse ano e com a derrota do PS nas legislativas de junho, Sócrates acaba por afastar-se da liderança do partido e António José Seguro entra em cena.
Nas eleições internas do PS, o antigo líder da JS tem como adversário Francisco Assis e tem o apoio, por exemplo, de Pedro Nuno Santos. A maior parte dos dirigentes do consulado de Sócrates apoiam Assis, incluindo António Costa.
Seguro vence as eleições para secretário-geral do PS com o país acabado de entrar num pedido de resgate financeiro. O novo líder socialista compromete-se a cumprir o que consta do Memorando de Entendimento assinado com a União Europeia, mesmo estando na oposição ao Governo da AD, liderado por Pedro Passos Coelho.
Muitos no PS, sobretudo, os dirigentes do consulado de Sócrates, não perdoam a Seguro a distância que tentou sempre manter em relação ao legado do ex-primeiro-ministro que deu a primeira maioria absoluta, em legislativas, ao partido e o acordo que, depois, foi dando a novas medidas de austeridade impostas pela Troika.
Desde a primeira hora, Seguro vê dificuldades em lidar com o próprio grupo parlamentar do PS, inicialmente liderado por Carlos Zorrinho. A decisão de abster-se na votação da proposta de Orçamento para 2012, anunciando, em novembro de 2011 uma “abstenção violenta, mas construtiva”, é contestada por diversos deputados socialistas.
A proposta de Orçamento do Estado para 2012 é aprovada com a abstenção do PS e com críticas de um ex-líder da JS, Sérgio Sousa Pinto, de André Figueiredo, um dos homens de mão de Sócrates ou ainda de Renato Sampaio, à altura um influente dirigente socialista do Porto.
A deputada do PS Isabel Moreira, que entrou no partido pela mão de Mário Soares e durante o consulado de Sócrates, contesta mesmo um diploma que “encerra medidas inconstitucionais” como o corte nos subsídios. Muitos desses contestatários usam a figura da declaração de voto para explicar a sua posição no Parlamento. Na votação final global, Seguro dá mesmo orientações à direção da bancada para que apresente uma declaração de voto conjunta, tentando evitar uma chuva de declarações de voto individuais.
A dada altura, a direção de Seguro e alguns deputados do PS entram num braço de ferro braço de ferro por causa dos cortes nos subsídios de Natal previstos pelo Governo da AD no Orçamento de 2012. Um grupo de parlamentares socialistas junta-se ao Bloco de Esquerda, ao PCP e aos Verdes para apresentarem um pedido de fiscalização da constitucionalidade de algumas normas do diploma contra a vontade da direção da bancada. Os juízes do Tribunal Constitucional, mais à frente, acabam por dar razão a esta frente de esquerda e desalinhada com o PS oficial.
Esta tem sido, de resto, uma das armas de arremesso dos candidatos presidenciais apoiados pelo Bloco de Esquerda e do Livre contra a candidatura de António José Seguro à Presidência da República. Nos debates que tiveram nas televisões com o ex-líder do PS, Catarina Martins, Jorge Pinto e, também, António Filipe tentaram colar Seguro às políticas de austeridade do governo de Pedro Passos Coelho, recusando mesmo que o adversário possa ser considerado de esquerda.
É, talvez, a frase mais conhecida de António José Seguro e foi proferida num contexto de crise interna do PS, em 2013. A 23 de janeiro desse ano, no corredor do Parlamento, em frente à porta do grupo parlamentar, o então líder socialista repetiu a frase “qual é a pressa?” aos jornalistas que o questionavam sobre a marcação da data do congresso do partido.
Seguro foi confrontado com declarações à Renascença de Pedro Silva Pereira, ex-ministro da Presidência de Sócrates, que defendeu a realização do congresso antes das autárquicas do outono desse ano.
Seguro optou por não responder à provocação de Silva Pereira que o acusou, inclusivamente, de não estar preparado para governar. O então líder socialista preferiu contrapor que “o adversário é o primeiro-ministro” Pedro Passos Coelho.
Dias depois, o líder do partido convoca uma reunião da comissão política em que é dado como certo pela maior parte da comunicação social que António Costa iria avançar para uma candidatura a secretário-geral, os seus mais próximos tinham também essa convicção, maso então presidente da câmara de Lisboa acaba por recuar. O verdadeiro mano a mano aconteceu já em 2014, dias após as eleições europeias de maio de 2014.
Entretanto, o PS acaba por ganhar as autárquicas de setembro de 2013, com um resultado considerado histórico ao conquistar 149 câmaras. A hipótese de a oposição interna aproveitar uma eventual derrota nestas eleições como pretexto para disputar a liderança a Seguro cai por terra.
A 1 de julho de 2013, o ministro das Finanças Vítor Gaspar demite-se do cargo e cria um problema ao Governo da AD. Passos Coelho escolhe a secretária de Estado Maria Luís Albuquerque para o lugar, o que incomoda o líder do CDS-PP e parceiro de coligação, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas que anuncia a sua demissão do executivo e garante que a decisão é “irrevogável”.
Passos Coelho recusa demitir-se e fazer com que o Governo da AD caia e o Presidente da República entra em cena propondo ao PSD, ao CDS e ao PS negociações que possam servir para uma governação a partir do verão de 2014.
Segue-se mais de uma semana de negociações, com idas e vindas de delegações do PS e do PSD às respetivas sedes, mas Seguro, muito pressionado por diversas personalidades do PS, incluindo Mário Soares, que são contra um entendimento deste género, acaba por recusar qualquer acordo, afirmando que os dois partidos da maioria inviabilizaram o “compromisso de salvação nacional”.
Cavaco Silva decide manter o Governo da AD em funções e Paulo Portas acaba por subir na escala hierárquica e é nomeado vice-primeiro-ministro.
Em 2010, José Sócrates aumentou os impostos, depois de ter garantido que não o faria e Pedro Passos Coelho, líder do PSD e da oposição, viabilizou as medidas de austeridade que o governo do PS foi tomando, até ter batido o pé com o PEC IV. Essa decisão do presidente social-democrata de ir viabilizando a política do primeiro-ministro, valeu, à altura, os elogios do fundador do partido, Mário Soares.
“Conheço Pedro Passos Coelho e considero-o um homem muito sensato, lúcido e com um grande sentido de Estado. E o que os políticos precisam de ter nesta altura é um grande sentido de Estado”, disse Soares em maio desse ano, em que considerava as medidas de austeridade de Sócrates “imprescindíveis”.
Com a mudança de governo em 2011, em que a coligação PSD-CDS-PP ganha as eleições, os elogios de Soares a Pedro Passos Coelho vão-se diluindo e, perante o acordo que Seguro vai dando às medidas de austeridade impostas pela Troika, o fundador do PS torna-se uma espécie de timoneiro da esquerda contra o Governo e contra a própria estratégia da direção socialista.
Em maio e novembro de 2013, Seguro enfrenta os dramas dentro do seu próprio grupo parlamentar e vê Soares, em conjunto com a esquerda à esquerda do PS, organizar, na Aula Magna, em Lisboa, dois gigantescos comícios.
Primeiro, sob o lema “Dois Anos de Troika: Libertar Portugal da Austeridade” e, já no fim do ano, organiza um outro: “Em defesa da Constituição, da Democracia e do Estado Social”, ao arrepio da mão que o secretário-geral socialista ia dando ao governo de Passos Coelho.
Soares chega mesmo a pedir a demissão, não só do Governo de Passos Coelho, que acusa de ser “ilegítimo” por ter “ignorado” a Constituição, mas pede a saída do próprio Presidente da República. Em causa está Aníbal Cavaco Silva, a Némesis do fundador do PS.
Sobre Seguro, Mário Soares há de dizer mais tarde, já com o PS dividido em fações e com as eleições primárias de 2014 marcadas, que o líder socialista “é muito inseguro”, colando-o à direita e ao governo de Passos Coelho. "Nunca quis" unir a esquerda e derrubar a direita porque "ao seu diálogo foi sempre com a direita", disse, em entrevista ao jornal i. O apoio a António Costa estava, assim, claro.
"O PS teve hoje uma grande vitória. Uma grande vitória eleitoral" disse António José Seguro na noite das eleições europeias de 2014, com o então líder socialista a salientar que "esta é a segunda vitória consecutiva do PS", depois das autárquicas do ano anterior.
"Duas eleições, duas vitórias", lembrou Seguro, que falava cerca das 22H30 no Hotel Altis, em Lisboa, onde o PS, como habitual, seguiu a noite eleitoral. Os socialistas, com Francisco Assis como cabeça de lista, venceram por 31,46%. Seguro tinha dado o tudo por tudo na campanha, aparecendo praticamente todos os dias ao lado do candidato.
Nos meses anteriores, a oposição interna foi mordendo os calcanhares à direção nacional, com António Costa um ano antes a ameaçar avançar para a liderança e a recuar no final de uma comissão nacional turbulenta e com a formalização de uma paz podre que resultou do “Documento de Coimbra”, em que Seguro definia a estratégia do partido para os próximos anos incorporando propostas do presidente da câmara de Lisboa.
Na noite eleitoral das europeias a 25 de maio, António Costa tem uma intervenção sibilina numa edição especial do programa “Quadratura do Círculo”, na SIC, em que que avisa que “há que refletir” para que nas legislativas o PS “a vitória não volte a saber a pouco", acrescentando que “para isso todos temos de estar disponíveis para fazer o que for necessário fazer”.
Era uma espécie de tiro de partida para o que viria a acontecer dois dias depois. Costa, durante uma homenagem à malograda dirigente e autarca do CDS-PP Maria José Nogueira Pinto, avança mesmo para a liderança do PS. "Sinto que é meu dever corresponder àquilo que eu lancei e que eu sinto ser aquilo que os socialistas e muitos cidadãos que, não sendo socialistas, acham que eu posso e tenho o dever de dar ao país."
Começava aí um período negro para o PS, com a divisão do partido em fações que se estendiam ao grupo parlamentar. Seguro recusa demitir-se de secretário-geral e uma semana depois das europeias, numa caótica comissão nacional num hotel do Vimeiro, Costa propõe um congresso extraordinário e Seguro avança com a proposta de realizar eleições primárias, avisando: “Habituem-se, que isto mudou”.
Sucede-se uma guerra de estatutos, as primárias acabam por ficar marcadas para 28 de setembro de 2014, com debates televisivos, no mínimo intensos, em que Seguro, no frente a frente da RTP chega a acusar Costa e apoiantes seus – Nuno Godinho de Matos – de “promiscuidade total entre o sistema financeiro, os negócios e a política”, levando como resposta: “Achas que tens o direito de diabolizar os milhares de militantes que me apoiam?”
Seguro acaba por perder as eleições primárias. Uma semana antes ainda propõe, em plena campanha interna, uma revisão da lei eleitoral para a Assembleia da República, com redução de 230 para 181 deputados e introdução do voto preferencial do eleitor em relação ao deputado.
É algo que faz inflamar António Costa que avisa que a proposta é uma “declaração de guerra” aos partidos à esquerda do PS. “Pode ser muito popular, mas eu sou contra. Afeta muito a proporcionalidade e é uma declaração de guerra aos partidos à nossa esquerda e um favor ao PSD, porque desvaloriza claramente o CDS-PP», afirmou o adversário.
Daí a dias decorriam as primárias e António Costa tornava-se secretário-geral do PS. Seguro sai de cena e, como tem dito nos debates para as presidenciais de janeiro, “foi à sua vida”.
Nos últimos dez anos, António José Seguro dedicou-se a dar aulas de Teoria do Estado e Pensamento Político e Social, na Universidade Autónoma de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP), esta última, precisamente a mesma instituição onde é professor o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.
Seguro dedicou-se a duas micro-empresas de que é sócio-gerente, a Amarcor, que, segundo, o próprio site da candidatura a Belém, se dedica a atividades de alojamento turístico e rural, restauração, bares e cafetarias e de comércio de retalho de produtos regionais.
A empresa dedica-se ainda a atividades de animação turística, administração de imóveis, atividades de consultoria, orientação e assistência operacional para os negócios e para a gestão.
Seguro detém 60% da Amarcor e cada um dos seus dois filhos detém uma quota de 20%. Segundo o Correio da Manhã, Seguro tem como sócio nesta empresa o amigo que lhe apresentou a mulher. Trata-se de António Galamba, que tem sido uma das pessoas mais próximas de Seguro, na política e fora dela, desde os tempos de direção da JS.
Galamba, foi deputado do PS, governador civil de Lisboa e, atualmente, é diretor-geral na WL Partners, a empresa onde trabalha com o consultor de comunicação Luís Bernardo, amigo de Seguro e responsável pela assessoria de campanha de outro candidato a Belém, Henrique Gouveia e Melo.
Para além da Amarcor, Seguro é sócio-gerente da Mimos da Beira, que se dedica, segundo explica o site da candidatura, à "exploração agrícola e produção e comércio por grosso e a retalho de produtos alimentares".
Ainda segundo o site da candidatura, em 2024, os rendimentos individuais de Seguro totalizaram 54 647,35€. Segundo o Correio da Manhã, as empresas terão faturado 1,8 milhões de euros desde que o antigo secretário-geral do PS deixou a vida política ativa, em 2014.
O corte de António José Seguro com a vida política ativa foi sendo salpicado com intervenções públicas promovidas, por exemplo, pela fundação “Nossa Europa”, que o ex-líder ajudou a criar a par com o atual vice-presidente do PSD Carlos Coelho. Trataram-se de posições públicas, sobretudo, sobre questões europeias e que tinham nas entrelinhas farpas a líderes europeus, onde o então primeiro-ministro António Costa se incluía.
No dia da Europa, a 9 de maio de 2021, Seguro deixava a crítica sobre as "divergências profundas sempre que a Europa precisa de decidir e de responder prontamente aos problemas concretos das pessoas", acrescentando que essas "divisões paralisam a Europa, enfraquecem a Europa e fazem com que a Europa esteja sempre a correr atrás do prejuízo".
Nessa sessão acrescentava ainda que os líderes dos 27 "seguem a lógica de que é preferível ignorar o problema do que criar ainda mais problemas" e referindo que "estão enganados, os maiores problemas que surgem na Europa são fruto da sua ambiguidade e da sua falta de coragem política".
Noutra intervenção, no mesmo mês e no mesmo ano, a propósito da apresentação da biografia autorizada de António Guterres, "O mundo não tem de ser assim", o ex-líder do PS falou da “erosão dos partidos da esquerda democrática europeia nos últimos anos".
Para Seguro, há uma "dupla erosão, uma erosão específica dos partidos do socialismo democrático, da social-democracia e há uma erosão geral dos ditos partidos tradicionais", onde obviamente cabe o PS.
Seguro defendeu que "infelizmente, o que acontece é o recuo que as democracias estão a ter e quando se julgava que o regime democrático era a organização última a que almejavam todas as comunidades humanas, verificamos, de facto, que há um recuo, a quarta vaga democrática não se verificou, mesmo com a expectativa da primavera árabe".
Mais tarde, em 2023, Seguro já admitia voltar à política. Falando, de novo, num evento da plataforma “Nossa Europa”, o ex-líder do PS declarou não ter no horizonte qualquer regresso”, mas dizia que não ser “hipócrita ao ponto de dizer ‘nunca, jamais, em tempo algum”. Dois anos depois, acabou por acontecer.
Francisco Assis foi dos primeiros socialistas de peso a declarar apoio ao ex-líder do PS. O ex-ministro João Soares, também. Álvaro Beleza idem. Mas há feridas criadas pelo embate interno de 2014 que, com a reentrada em cena de Seguro, foram reabertas.
A divisão foi tão clara que o atual líder do PS, José Luís Carneiro, fez questão de fazer com que a posição oficial do partido acontecesse apenas depois das autárquicas de outubro, com receio que o partido se deslaçasse todo antes dessas eleições.
A ala costista encontra-se numa certa resignação em relação a Seguro. Mariana Vieira da Silva, em declarações ao programa “Casa Comum” da Renascença, nunca escondeu a pouca vontade em apoiar a candidatura a Belém do ex-líder, por comparação, por exemplo, com António Vitorino, um dos preferidos para a corrida a Belém. A ex-ministra da Presidência do Conselho de Ministros referia mesmo que não se conhece “nenhuma ideia ou nenhuma posição a António José Seguro nos últimos dez anos”.
Mais contundente, o ex-presidente do Parlamento, Augusto Santos Silva, incluiu Seguro no lote das candidaturas presidenciais que “não cumprem os requisitos” para serem candidatos à Presidência. Entretanto, já mudou de opinião e, em declarações recentes ao Observador, o socialista já admite que o ex-líder do PS “cumpre mais requisitos” do que os adversários.
Seguro agradece o apoio do PS, mas tem tido sempre uma posição algo ambígua em relação ao partido que liderou, referindo que a candidatura a Belém é “apartidária”. Segundo a Renascença apurou, o ex-líder socialista terá aceitado com reticências usar os painéis do PS espalhados pelo país para colar os cartazes com a sua cara e com o slogan “Futuro Seguro”.
No site da candidatura, na parte dedicada à “Transparência", são divulgados pormenores sobre o orçamento de campanha. O orçamento dedicado às estruturas, cartazes e telas da campanha é de 250 000, 00 euros, a conceção da campanha, agências de comunicação e estudos de mercado tem um valor de 100.000 euros.
A candidatura beneficia de uma subvenção estatal de 1 092 720,00 euros e de zero contribuições de partidos políticos. Os donativos já chegaram aos 170 000,00 euros. O total das receitas é de 1 487 720,00 euros, o das despesas é de 1 130 000,00. O saldo, para já, é positivo e representa menos uma preocupação para Seguro e também para o PS.