Presidenciais 2026

Do André que foi ao Ventura que é. O que resta de Mem Martins no candidato a Belém

02 jan, 2026 - 07:00 • João Carlos Malta (texto), Ricardo Fortunato (imagem)

Passaram quase 30 anos desde que André Ventura deixou de ser visto com regularidade naquele "dormitório" de Lisboa. Agora vive no bem localizado Parque das Nações. Ele não mudou só de morada, há muitas coisas que se alteraram no homem que luta hoje para ser Presidente da República. Mas há muitas outras que se mantêm bem vivas. Desde cedo mostrou querer ser líder e juntar outros à sua volta para lhes guiar o pensamento. Esta é uma descida às raízes de Ventura, com paragem obrigatória nos anos em que entrou na paróquia de Algueirão-Mem Martins.

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“Tem a mesma assertividade com a política que tinha com a religião. Era líder e gostava de o ser”, conta à Renascença o padre António Teixeira, sobre o André Ventura que lhe entrou pela paróquia de Algueirão-Mem Martins adentro, no final da década de 1990, onde o líder do Chega e candidato presidencial começou a sua caminhada espiritual. Queria muito saber mais e pertencer. Era o que se chamava um convertido tardio.

Esta é uma descrição de um André Ventura antes da política. Agora, passados mais de 25 anos, há ainda alguns traços que permanecem. Mas há também um mundo de diferenças entre esse André adolescente e o Ventura político.

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“A forma como tenta agregar à sua volta. Tem um vocabulário, um discurso muito agressivo, que não tinha de todo. [Agora] às vezes até baixo”, critica o padre António, pároco naquele subúrbio de Lisboa até o início dos anos 2000.

Era mais um sedutor? “Atraía sem hostilizar. E sem ofender. Porque, às vezes, eu creio que ele chega à ofensa. A mais, chega a magoar”, lamenta.

Em resumo, ao padre António Teixeira a figura que mais de duas décadas depois lhe aparece na televisão não “é estranha”. Reconhece o homem de “convicções e que não desiste”. “Um lutador”, elogia.

No entanto, isso diz respeito à forma, mas há o conteúdo. E aí, Ventura reprova na avaliação. “Eu penso é que os fins não justificam os meios”, determina o ex-líder espiritual do candidato a Belém que também foi padre na igreja frequentada pelo ainda Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e que posteriormente foi afastado da paróquia de Santo Condestável, em Lisboa, devido a um processo judicial em que foi condenado.

Sobre os tempos de juventude, Ventura disse há quase dois anos a Cristina Ferreira, na TVI, que foi já na Igreja que percebeu que tinha “um dom de comunicar, de falar”. “Sentia que tinha mais facilidade que os outros”. Lembrou também o fascínio pela comunicação do padre que o acompanhava, precisamente António Teixeira.

"Tem a mesma assertividade com a política que tinha com a religião. Era líder e gostava de o ser. [Agora] tem um vocabulário, um discurso muito agressivo, que não tinha de todo. [Agora] às vezes até baixo”, padre António Teixeira, pároco que iniciou Ventura na Igreja.

“Eram centenas de pessoas numa igreja e o padre falava para elas, mudava-lhes a vida, conseguia chegar-lhes ao coração”, acrescentou.

A família de classe média na moradia branca e verde

Mas recuemos um pouco ao André pré-religião. Aquele que aos sete, oito anos, depois de morar num apartamento, chega a uma moradia perto do cruzeiro da estrada de Mem Martins, no concelho de Sintra.

João, o pai, comprava peças de bicicleta e vendia-as em lojas, andando para trás e para a frente na carrinha Citröen branca, como André já recordou em várias entrevistas. Atribui a isso a paixão pelo ciclismo que se mantém até hoje e que chegou a transformar em personagens da mais tardia incursão pela escrita de livros.

À mesma Cristina Ferreira contou, em 2024, que o gosto da política chegou pelo pai, ex-combatente no Ultramar: “Era uma pessoa que acompanhava muito política sem ter grande formação académica. Acompanhava tudo o que era política, todos os debates”.

"Penso é que os fins não justificam os meios", padre António Pedro.

Já a mãe, Ana, era administrativa num escritório em Lisboa. A família com dois filhos — André tem em Sérgio o irmão mais velho — é descrita como “pacata”, “reservada”, “discreta” e “respeitadora”.

É o que recorda um vizinho de sempre da moradia de dois andares, branca e verde, em que André e a família moravam. “A nossa relação era de bom dia e de boa tarde e pouco mais. Eram pessoas muito reservadas. Lembro-me do André e o irmão brincarem aqui na praça, mas não tínhamos grande interação”, lembra à Renascença, junto à porta de casa num local tranquilo, que contrasta com o lufa-lufa daquela zona de subúrbio.

Mas há uma outra vizinha que também tem gravada na memória recordações dos Ventura. Esta, que pede não ser identificada, morava perto da avó do agora líder do Chega e lembra-se de mais detalhes do pequeno André. Ela era mais velha e o miúdo que brincava ali nas ruas não era do grupo de amigos, mas as famílias conheciam-se bem.

André mantinha também outros traços de personalidade dos progenitores Recorda-o como “tímido”, uma “pessoa muito respeitadora, muito educada e muito discreto”. Quase tem dificuldade em o reconhecer agora. Por isso, especula: “É um boneco que ele criou e em que diz as coisas que as pessoas querem ouvir”.

Se o filho mais novo mudou, a família não. Por isso, fogem quanto podem dos holofotes das câmaras. Tanto que há dois ou três anos, quando se tornou público que Ventura tinha crescido naquela zona de Sintra, os pais mudaram para um condomínio fechado. Mas mantiveram-se em Mem Martins.

Pelo menos parte do ano, porque passam longas temporadas numa casa no Algarve. O irmão Sérgio também não aparece publicamente ao lado do candidato presidencial.

Ventura, por seu lado, já disse que é a eles que volta quando quer sair da bolha e saber o que “os portugueses comuns pensam”.

A mesma vizinha do avô de Ventura lembra aquela família como pertencendo à “classe média”, o pai de André chegou a ter “um Volvo”. Já a memória que tem da zona em que viviam não bate com a que Ventura fala recorrentemente quando se refere aos tempos em que andou por Mem Martins.

Caldeirão étnico e de multiculturalidade que moldou o Ventura de hoje?

Em 2023, no podcast “Entre Deus e o Diabo”, da autoria do jornalista Vítor Matos do Expresso, André Ventura refere-se ao local onde cresceu como “o maior dormitório de Lisboa”.

E que isso, segundo Ventura, tem sempre consequências, porque “não há dormitórios sem confusão social, étnica, e racial também, no caso, porque havia uma mistura de etnias e de raças muito grandes”.

“Era um ambiente que, se eu tivesse que caracterizar algo, assim, à luz desta distância, não era de pobreza extrema, mas era um ambiente genérico de uma classe média baixa”, descreveu.

Passados três anos, numa arruada na terra-natal para a segunda volta das presidenciais, o candidato apoiado pelo Chega voltou a falar das raízes. Agora para dizer que aquele local é a “expressão da pessoa que sou e da vida política que acabei por ter”.

Definiu Mem Martins como a raiz de “muitas das opiniões políticas e do caminho que fiz”.

“É uma terra que sente muitos dos problemas que temos falado, a imigração descontrolada, a criminalidade, a insegurança, os salários baixos. Muitas das pessoas que aqui vivem sabem porque querem um país diferente. Acho que Mem Martins é um pouco a expressão dos problemas que estamos a viver”, descreve.

A vizinha de Ventura discorda. Descreve a zona em que ela e André se fizeram adultos como “pacata, calma, sem grande registo de criminalidade”.

Ainda assim, ela reconhece que em algumas coisas “ele tem razão” e que “coloca as questões e os problemas de uma forma correta”.

Mas a forma como faz política, afasta-a dele, e, portanto, “não vota” em André Ventura. Depois de nas legislativas de 2025, em que rompeu com bipartidarismo no país, ter ganho na freguesia em que nasceu, na primeira volta desta eleição presidencial, perdeu ali para António José Seguro.

"Mem Martins uma terra que sente muitos dos problemas que temos falado, a imigração descontrolada, a criminalidade, a insegurança, os salários baixos. Muitas das pessoas que aqui vivem sabem porque querem um país diferente. Acho que Mem Martins é um pouco a expressão dos problemas que estamos a viver", André Ventura sobre a terra onde cresceu.

Algo que diz querer reverter a 8 de fevereiro, até porque é muito o que o junta àquelas pessoas. Em comum, lembra, tem o “sentir que um conjunto de pessoas são tratadas como cidadãos de segunda”.

E se o sistema, que Ventura critica e quer derrubar, diz que são os ressentidos que lhe engrossam as fileiras de seguidores, ele neste caso acolhe a descrição e assume: “[Quero ser] a voz desse ressentimento contra o poder central”.

O comentador de café com o futebol na mente

Mas voltemos atrás, ao André anterior à religião e muito antes da política. Ainda criança, há uma caraterística que os que se lembram dele não esquecem. O amor pelo futebol e a paixão pelo Benfica. Mais tarde será a chave para entrar no circo mediático. A porta de entrada até foi a BTV, mas é na CMTV que se torna conhecido do grande público.

Carlos Rocha, proprietário do Café Paris, a meia dezena de metros da casa onde o líder do Chega cresceu, recorda um miúdo de oito, nove anos, que ali parava com frequência.

Passaram mais de 30 anos, mas Carlos mantém viva a imagem de um “um miúdo com uma inteligência acima da média para a idade dele”.

Discreto e educado, a “única coisa que falava era sobre o futebol”. “Na altura tinha aqui o meu antigo patrão que era do Sporting e que se metia com ele”, lembra.

O sucesso que o miúdo que adorava falar sobre bola teve, não o surpreende. “Via-se no André que, fosse no que fosse, ia ser um rapaz com sucesso”, descreve Carlos.

O dono do Café Paris não esconde o orgulho de assistir à ascensão do pequeno André. Primeiro nos palcos da televisão, depois nas bancadas do Parlamento. “A gente vê o miúdo praticamente crescer, e ele [agora] chegar quase a um Presidente da República, é um bocado um orgulho nosso sermos vizinhos dele.”

Gostava de o ver como Presidente da República? “Se calhar não. Acho que as ideias do André Aventura também não são para ser Presidente da República, acho que é mais para primeiro-ministro”, resume.

O Ventura sedutor que vencia pelo saber na Igreja de Algueirão-Mem Martins

Avancemos uns anos até à adolescência de Ventura para regressar até ao padre António Teixeira que nos apresentará em detalhe o André Ventura que, aos 14 anos, lhe chegou à paróquia de Algueirão-Mem Martins. Na altura, os grupos de jovens tinham centenas de rapazes e raparigas. Mas ele destacou-se e o padre António identificou-se com ele.

"Um miúdo com uma inteligência acima da média para a idade dele.Via-se no André que, fosse no que fosse, ia ser um rapaz com sucesso", Carlos Rocha, proprietário do Café Paris, perto da casa onde Ventura cresceu.

“Aparece lá um adolescente, um jovem, que não era batizado, não tinha formação cristã, e queria saber mais destas coisas. E eu fiz uma viagem no tempo, porque eu também fui assim. Eu tinha 17 anos, quando apareci um dia numa igreja a procurar respostas para tanta coisa”, desvenda.

Era “um rapaz inquieto, a querer saber mais sobre a fé” e aquela uma paróquia muito dinâmica. Todos os domingos, à tarde, havia encontros para a discussão de temas religiosos que acabava depois com a celebração da missa. Primeiro, André entrou tímido, mas foi por pouco tempo.

“Começou a evidenciar-se por questionar mais do que os outros. Querer ir mais fundo. ‘Porquê?’ era o denominador comum da presença dele”, descreve.

Estava ávido de conhecimento e passava horas a ler sobre Teologia, algo incomum num jovem daquela idade. “Mais do que coração, sentimento, adesão, era muito racional”, sublinha o pároco.

Mas facilmente, conta António Teixeira, “deu o passo para a fé”. Os convertidos tardiamente, como ele e como Ventura, segundo o padre que dá agora aulas de História num bairro pobre da freguesia de Santo António da Charneca, no Barreiro, têm dois grandes caminhos: ou se tornam radicais, no sentido de ir à raiz, neste caso ao exemplo da vida de Jesus, ou radicais no sentido de serem muito literais na absorção e vivência da palavra de Deus.

“Começou a evidenciar-se por questionar mais do que os outros. Querer ir mais fundo. ‘Porquê?’ era o denominador comum da presença dele”, padre António Teixeira.

Para ele é claro: André escolheu a segunda via. Algo que, logo naquela altura, provocou choque entre ambos. “Tínhamos grandes conversas, e grandes confrontos até, porque desde o início ele começou a ler a palavra [de Deus] de forma muito literalista”, explica.

Por isso, as acaloradas trocas de ideias eram com o padre António a “tentar explicar, e ele muitas vezes a não aceitar, que o que está escrito nos Evangelhos, na Escritura, não é propriamente assim [como ele lia]”.

“Aquilo é uma catequese, é uma teologia, é uma parábola, é uma história. E ele era muito, hoje usa-se muito essa palavra, fundamentalista, muito literalista”, carateriza.

A mesma imagem tem João Gonçalves, que partilhou centenas de horas com André Ventura nos grupos de jovens da paróquia daquela freguesia de Sintra. Lembra a “garra e paixão” do amigo daquela altura, como típico de alguém que chega mais tarde à fé.

André cativava. Tinha um “sentido crítico aprofundado”, “de raciocínio muito rápido”, “inteligente”, “sempre muito motivado naquilo que o fazia, naquilo que procurava”.

Ventura era, segundo João, naquele final de século e de milénio “o típico diamante em bruto”. “Alguém com excelentes qualidades, que, bem lapidadas e bem direcionadas, podia ser, de facto, um indivíduo líder e muito agregador”, rotula.

O padre António concorda que já na época ele era “um líder”. Na paróquia de Algueirão-Mem Martins conseguiu-o porque começou a ser ele a direcionar as conversas e os temas que se discutiam. “Atraia com as posições extremadas que tinha”, sublinha.

Passaram três décadas, mas já nessa altura o agora candidato a Belém tinha uma linguagem e um estar “muito diferente dos outros”. “Muito mais adulto”, afirma.

"Era alguém com excelentes qualidades, que, bem lapidadas e bem direcionadas, pode ser, de facto, um indivíduo líder e muito agregador", conta João Gonçalves, que entrou no seminário no mesmo ano que Ventura.

Aquele pároco percorria antes da missa todos os grupos, mas no de Ventura tinha de parar mais tempo. Ele semeava a discussão e agitava as águas. António Teixeira apreciava e, por isso, foi o único não adulto que convidou para ir a Israel, numa das várias peregrinações à Terra Santa que organizou.

Tinha de desconstruir muitas das coisas que, às vezes, ele ia construindo no seu grupo. Isto nunca me pareceu anormal, pelo contrário. Mas que ele tinha esta capacidade de dirigir os temas, dirigir a abordagem e chegar à sua conclusão”, conta de memória.

João Gonçalves lembra-se do mesmo quadro quando recorda as discussões teológicas daquela época. “Ele talvez numa perspetiva mais ortodoxa, eu numa perspetiva um bocadinho mais liberal, mas enfim, nunca chegámos a ficar chateados de todo, era sempre muito construtiva a discussão”. Mas Ventura era um agitador.

“Sim, posso dizê-lo que sim, quem é convicto defende aquilo que são as suas ideias, e ele sempre as defendeu, e sempre as defendeu de uma forma construtiva”, diz o homem que, dois anos depois depois de ser ordenado padre, abandonou a vocação e hoje trabalha com material médico, atividade que o faz percorrer o país de uma ponta à outra.

Em relação a esse papel de agitar as águas, João defende que “há muitas maneiras de o fazer. E prossegue na metáfora: “Eu posso agarrar num copo cheio e atirá-lo para o chão. Agitei as águas. Outra coisa é de forma mais precisa, com uma colher ou com outro utensílio, continuar a agitar”.

“Acho que é possível veicular-me a mensagens agitadoras, profundamente transformadoras, com firmeza, com convicção, de forma apaixonada, mas sem ferir o outro”, ressalva.

No entanto, certo é que o companheiro do grupo de jovens consolidou a imagem de André daquela época assim: “Uma pessoa positiva, um defensor da verdade, em busca da verdade, a procurar as razões da sua fé e a procurar o sentido para a vida”.

Por isso, tem dificuldade em crer que este Ventura que lhe entra pela televisão seja o real, mesmo que não ache que ele esteja de forma alguma a encenar.

Ainda assim, “não me parece que ele seja tão radical”. Porquê? “Se o André se diz cristão, se se diz católico, e faz questão de que o vejamos a sair da Eucaristia todos os domingos na igreja que habitualmente frequenta, nós conhecemos os valores cristãos. E esse radicalismo, que tantas vezes lhe é apontado, não se coaduna com os valores cristãos”.

"Eu posso agarrar num copo cheio e atirá-lo para o chão. Agitei as águas. Outra coisa é de forma mais precisa, com uma colher ou com outro utensílio, continuar a agitar", João Gonçalves, amigo de Ventura na adolescência.

“Portanto, há aqui alguma coisa que não bate certo. Ou são os valores em que acredita, ou é a imagem que ele passa”, resume o amigo de adolescência, que confessa que lhe custa ler algumas paragens do programa do Chega.

Vê-o hoje com “um comportamento mais radical”, “menos 'polite'”, na forma como debate, e que, quando convivia com ele, “não era assim”.

O messianismo de André visto por dentro

A religião não é um pormenor da vida do presidente do Chega. As declarações públicas são recorrentes sobre o tema. A Renascença tentou falar com aquele que André Ventura nomeou várias vezes como o seu líder espiritual, o padre Mário Rui Pedras, da paróquia de São Nicolau, em Lisboa, mas a entrevista foi declinada. "Tal como já disse a muitos seus colegas não falo sobre qualquer paroquiano, nem sobre André Ventura".

Mas regressando às afirmações de Ventura sobre este tema, algumas delas tornaram-se emblemáticas. Uma delas quando disse que se não fosse a Igreja e a fé seria taxista em Algueirão-Mem Martins, ou quando afirmou que sentia que foi Deus que fez dele político e lhe deu a missão de mudar Portugal.

Em relação a esta última ideia, o sacerdote que o guiou nos primeiros passos na Igreja acha-a “um perfeito disparate”.

Um cristão deve estar na política, como deve estar em qualquer outro lado. Agora, ser um Dom Sebastião religioso, não faz sentido. Acho que ele usa e abusa da sua condição de cristão, de ser católico, até porque o seu catolicismo, a sua prática religiosa, não é necessariamente o denominador comum do que a Igreja propõe”, explica.

"Há aqui alguma coisa que não bate certo. Ou são os valores em que acredita, ou é a imagem que ele passa", João Gonçalves.

E mostra desagrado com o rumo que o antigo discípulo tomou. “Se quer ser revolucionário, se querer mudar o sistema, que é uma coisa que ele tem no seu vocabulário quotidiano, não é dividindo. Se ele diz que acredita em Jesus Cristo, Jesus Cristo veio congregar, veio unir, veio chamar irmãos àqueles que eram marginalizados, àqueles que eram segregados”, lembra.

“E por isso é que Jesus foi grande. Quando se tenta dividir para reinar, está-se a fazer o oposto do que está no Evangelho. Para mim é claro”, prossegue.

E de rajada remata: “Acho que ainda se aprende na catequese que um dos mandamentos é não usar o nome de Deus em vão. E ele faz isso como beber um café. Mas o nosso Cristianismo tem de ser vivido na vida e não nas palavras”.

E claro há a questão das minorias cujas opiniões do candidato a Belém foram sendo espalhadas em letras garrafais nos cartazes erguidos por todo o país. O padre António Teixeira diz que está nos antípodas do antigo discípulo.

Ele saiu de uma vivenda onde vivia com os três cães na Charneca da Caparica para um apartamento pequeno num bairro social do Barreiro. A justificação é que só percebe os que o rodeiam, como vivem, quando está no meio deles. Ali os ciganos e os africanos e descendentes de pessoas vindas dos PALOP são maioria.

"Um cristão deve estar na política, como deve estar em qualquer outro lado. Agora, ser um Dom Sebastião religioso, não faz sentido", padre António Teixeira.

O padre António Teixeira vê o Cristianismo e a fé como algo que vai ao encontro dos outros por mais diferentes que sejam. “Acima de tudo são pessoas. Não são ciganos, não são negros, não são do Bangladesh, são pessoas. E quando não se vê isso é porque ainda estamos muito enviesados”, diz.

Os vizinhos que agora tem e os alunos da escola onde ensina falam de Ventura. “Não o podem ver nem pintado. É evidente que é uma ‘persona non grata’ neste tipo de bairro”, resume.

Não fala com André Ventura há muitos anos mas, se o pudesse fazer sobre este tema, dir-lhe-ia olhos nos olhos que “não se pode confundir a floresta com a árvore”.

“Naturalmente, há gente que vive de subsídios. Mas não são só ciganos. Também há brancos, também há amarelos, também há azuis. E há ciganos que são trabalhadores, há ciganos que são honestos e há negros, que são minorias, e que são muito verticais. Ao contrário de muitos outros a quem ele não aponta e deveria apontar”, protesta.

O colega do grupo de jovens da paróquia de Algueirão-Mem Martins e que entrou no mesmo ano que ele no seminário, João Gonçalves, partilha a perceção com Ventura de que “há muita coisa que está mal”.

Os sentimentos que lhe chegam da rua são “a polarização e comportamentos de extremismos”. Mas, para João, “o único extremo a que devemos chegar é o extremo do amar mais”, “de perdoar mais” e de “viver mais a caridade”. “Eu acho que é nisso em que podemos ser extremistas”, sintetiza.

Apesar de todas as divergências de pensamento, e já com 30 anos de hiato na relação próxima que tinham, João Gonçalves e André Ventura continuam, cordialmente, a manter contatos telefónicos esporádicos. Pelo menos nos aniversários.

“Tenho um profundo respeito pelo André, admiro algumas características dele. São notáveis, claramente notáveis”, reconhece.

“Devemos todos escolher a busca da verdade, lutar pelos nossos ideais, cada vez mais temos de o fazer todos, sem exceção. E nisso acho que é um bom exemplo, [ele é] alguém que procurou sempre defender aquilo em que acreditava e trazer algo de melhor para o país”, acrescenta.

O padre António Teixeira também não se diz desiludido com André. Afirma que se estiver a ser fiel à sua consciência, esse é o santuário último de cada pessoa.

Em Ventura vê “uma pessoa que se quer comprometer com a história, com a sociedade”. No entanto, a forma como o faz “é diferente daquela que eu idealizaria se fosse eu a estar no lugar dele”.

“Mas esta decisão de intervenção em mudar a história, de a transformar, acho que é pena não haver mais gente assim”, defende.

Mas, se o vir, se se encontrar com ele, não tem dúvidas. “Dava-lhe um abraço e diria força”.

João também anseia um reencontro com o amigo da adolescência para o poder confrontar com as suas ideias e perceber melhor o novo Ventura que agora todos conhecem. Queria fazê-lo sem filtros. Cara a cara.

Até lá continuará a tentar agarrar-se à imagem da juventude. “Talvez sonhe um André mais parecido com aquilo que é o André que conheci, com essa ânsia de mudança, ânsia de um mundo melhor. Talvez ainda tenha este olhar mais inocente, de olhar ainda o André do tempo da adolescência”, conclui.

[Reportagem atualizada às 20h45 de 02/02/2026, com a informação da condenação judicial do padre António Teixeira]

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  • Teresa Basto.
    03 fev, 2026 Estoril. 17:13
    Não concordo que a Renascença que tanto ouvi pois já tenho 79 anos apoie um partido Como o do Seguro que é um PS e ainda por cima da maçonaria. Deixei de ouvir e como eu muitos mais por a Renascença ter virado acintosamente um partido de esquerda. Como católica praticamente não aceito.

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