05 jan, 2026 - 06:30 • Tomás Anjinho Chagas
Uma vida passada como militar, milhares de horas submerso, um homem que recusou sempre ter a política no horizonte. Hoje, é candidato ao mais alto cargo do Estado.
Gouveia e Melo garante que é o único candidato verdadeiramente independente, acima dos partidos. Mas quem é ele? O que fez antes de liderar o processo de vacinação contra a Covid-19? Quem é o homem antes da farda? A Renascença traça o perfil do candidato que começou destacado nas sondagens.
O nome é grande e peculiar: Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo. Doravante chamá-lo-emos pelo trio de nomes que é conhecido, Henrique Gouveia e Melo.
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Nasceu em Moçambique, na cidade de Quelimane, no centro do país, em 1960, ou seja, tem 65 anos. O pai era um "advogado respeitado" e a mãe era professora. Teve uma "infância verdadeiramente feliz", descreve na longa entrevista que dá à jornalista Valentina Marcelino, que culminou no livro "As Razões". Uma sessão de entrevistas com mais de 230 páginas.
Sentia-se "seguro" e recorda um tempo de "liberdade" em Moçambique, descreve-se como um "miúdo tranquilo", que tinha melhores notas nas matemáticas do que nas letras.
Tudo mudou quando era adolescente. A vida era boa para os "colonos brancos", com "mais liberdade" do que os portugueses que viviam em Portugal. O 25 de Abril mudou-lhe a vida radicalmente.
O tio de Gouveia e Melo estava ligado ao antigo regime, o que terá sido suficiente para a família começar a sentir-se ameaçada pela FRELIMO (Partido Frente de Libertação de Moçambique). Foi para Portugal depois da Revolução dos Cravos, com a família. Em 1975 zarparam para o Brasil, em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso), com medo de uma ditadura de esquerda: "O meu pai achava que Portugal ia cair no comunismo".
Em São Paulo, para onde se mudou aos 14 anos, manteve-se como "bom aluno". Os brasileiros gozavam com o sotaque, mas Gouveia e Melo garante que continuava a manter "excelentes notas".
Descreve o seu círculo mais próximo de amigos como "todos nerds" e é no Brasil que ganha o espírito de liderança. Era o "líder dos nerds".
Aos 17 anos diz ao pai que quer ser militar. O pai resiste, mas adapta-se à ideia. A família também estava com vontade de regressar a Portugal. Juntou-se a fome à vontade de comer.
Chega à Escola Naval como um dos alunos "mais velhos", porque perdeu um ano na mudança de Brasil para Portugal. Descreve um "ambiente confuso", mas com "muita esperança". Vai viver para a Parede, no concelho de Cascais, onde a família tinha uma casa.
Entrevista Renascença
Almirante na reserva levanta suspeita sobre a pert(...)
A sua fornada, nas palavras do próprio, era "excecional" e produziu quatro vice-almirantes. Começaram 156 aspirantes e só 16 terminaram o curso. "Na altura a matemática e as físicas selecionavam a sério", argumenta.
A praxe era a única coisa que verdadeiramente o "incomodava". Relata "exageros" que acabavam em praxes "humilhantes". Garante que nunca o fez, nem deixou que passassem alguns limites com ele. Chegaram a chamá-lo de "comunista", por ter manifestado desagrado aos seus superiores em relação à mudança de estatutos na Marinha.
Fez o estágio de embarque em duas fragatas, e foi o único aluno a ir voluntariamente para os submarinos.
Tinha fama de ser "intransigente" e reto. Foi o melhor aluno da sua esquadrilha, mas na primeira vez que foi destacado para um submarino, acabou dececionado com a desorganização. O comandante perguntou-lhe por que andava em baixo: "Isto não é um submarino, é um mercante que anda debaixo de água", respondeu. A frase valeu-lhe a expulsão do submarino.
Tem outra oportunidade, noutro submarino, e quando termina o curso é promovido a Guarda-Marinha. Vai subindo na hierarquia e comanda dois submarinos. Nunca sentiu claustrofobia por estar num espaço fechado debaixo de água durante semanas. Descrevia o submarino como uma "extensão" do seu corpo, chegou a estar 31 dias consecutivos submerso.
Nesta altura, cruza-se com Carol Costeloe, que viria a tornar-se psicóloga, e com quem viria a casar em 1986, na Parede. Juntos tiveram dois filhos, Ryan e Eduardo.
Separou-se mais tarde e passou a viver com Cristina Castanheta, atual companheira. Formalizou o divórcio com Carol já em 2025, pouco tempo antes de oficializar a sua candidatura à Presidência da República.
Numa pausa dos submarinos, Gouveia e Melo torna-se chefe do Serviço de Relações Públicas e porta-voz da Marinha. Mas nem aí se afastou por completo dos "tubos metálicos". Esteve envolvido na aquisição da nova classe de submarinos Tridente.
Volta ao terreno para ser comandante da fragata NRP Vasco da Gama. Numa carreira em ascensão constante, passa por diretor do Instituto de Socorros a Náufragos, chefe de gabinete do Chefe do Estado-Maior da Armada e torna-se comandante naval. Chega a comandante do EUROMARFOR, uma equipa que junta forças portuguesas, espanholas, francesas e italianas.
O país desesperava com uma pandemia e preparava uma mega-operação de vacinação contra a Covid-19. Depois de uma má experiência com Francisco Ramos, que acabou com a demissão do então coordenador da "task force", António Costa corta a direito e escolhe um militar para colocar à frente da operação.
A escolha tinha contexto. Gouveia e Melo tinha-se destacado nas operações de apoio militar de emergência nos grandes incêndios de 2017 e, já em pandemia, tinha sido o responsável pelo apoio das Forças Armadas à gestão das Camas de Cuidados Intensivos em Lisboa e o coordenador-planeador da reforma da Saúde nas Forças Armadas.
Quando recebe o convite do Governo fica "surpreendido" e admite que que ficou com "pena" de adiar (e eventualmente abdicar) o sonho de liderar a Marinha, mas aceita: "O que disse foi que cumpriria a missão de que o país precisasse". No entanto, António Costa compromete-se a tentar encontrar uma forma de Gouveia e Melo liderar a Marinha quando acabar a sua missão à frente da vacinação.
Henrique Gouveia e Melo combina com o Governo: precisa de um ano para vacinar a população portuguesa. Mas a tempestade perfeita tornou tudo mais fácil. A pré-disposição dos portugueses a vacinar-se e a logística a funcionar bem permitiram fechar o processo em nove meses. "Vacinámos cerca de 97% das pessoas elegíveis, fomos o primeiro país do mundo a atingir essa taxa".
Durante esse período, torna-se uma face familiar dos portugueses, muitos deles em confinamento, a conviver com as suas intervenções públicas através da televisão. Ganha o élan de um homem capaz de executar e com um certo messianismo próprio de um momento de crise.
Quando termina a missão dirige-se a António Costa: "E agora?". O primeiro-ministro agradece o seu serviço e o ministro da Defesa convida-o para ser Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA), ou seja, o cargo mais alto da Marinha.
O processo é atribulado. Ao contrário do que é normal em nomeações deste género, Gouveia e Melo tem em si os holofotes mediáticos. A comunicação entre o Governo e o Palácio de Belém falha e o Presidente da República vai adiando a decisão de nomeá-lo CEMA: "Parecia que só quando o Senhor Presidente um dia acordasse bem-disposto é que eu poderia ser nomeado CEMA", critica Gouveia e Melo, no livro "As Razões".
Foram quase três meses de espera: "No dia 27 de dezembro [2021] fui nomeado CEMA, numa cerimónia triste. Deprimente e com comentários deprimentes", resume. Nessa altura, garante, estava longe de pensar em Belém: "Claramente que nem me passava isso pela cabeça". Só em "finais de 2024" é que começa a equacionar.
Entre o momento em que a comunicação social e os comentadores começam a apontá-lo como um possível candidato à Presidência da República, e o momento em que decide que é candidato, profere afirmações veementes, garantindo que não tenciona ir para a política.
Chegou a dizer aos jornalistas que não queria ceder a essa tentação: "Se isso acontecer, dêem-me uma corda para me enforcar", respondeu. Mais tarde atirou: "A democracia não precisa de militares". E em entrevista a Francisco Pinto Balsemão, no podcast "Deixar o Mundo Melhor", projetava a reforma depois de chefiar a Marinha: "Nunca desejei ter um cargo político. O meu rumo é ser marinheiro e fechar o ciclo enquanto marinheiro".
Mas entretanto, Gouveia e Melo mudou de ideias, e assegura que as circunstâncias à volta dele o empurraram para a corrida: "Quando afirmei que ninguém precisa de militares na política fi-lo de forma franca e aberta. Mas o mundo mudou muito e a nossa política interna também".
Com sondagens estrondosas para Belém, é visto como uma ameaça pelos partidos tradicionais, Henrique Gouveia e Melo diz que já estava a perder a paciência e relata alguma frustração por não conseguir consumar as mudanças que sonhava para a Marinha.
Montenegro ganha as eleições, a direita volta ao poder, Nuno Melo diz que conta com ele. "Aceitei. Não disse logo que sim, mas mostrei, pela minha atitutde, que estava alinhado". Só que depressa começou a sentir algumas limitações para empreender o que queria para este ramo das Forças Armadas.
Em setembro de 2024, Gouveia e Melo avisa os altos dirigentes da Marinha que "não estaria disponível para continuar" se a sua presença "não fosse realmente decisiva para uma mudança no rearmamento e na forma como o poder político olhava para a Marinha".
O Expresso chega a escrever que Gouveia e Melo estava a chantagear o Governo, que aceitaria não se candidatar a Belém se tivesse mais meios na Marinha. "Quando o li fiquei danado". O almirante diz que o Governo estava à espera que ele ficasse contente com a possibilidade de ser Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, o mais alto cargo das Forças Armadas. Mas, diz, enganaram-se.
"Queriam dar-me importância sem me darem poder para fazer nada. (...) Foi aí que decidi: vou entrar no campo das verdadeiras decisões, a política", afirma Gouveia e Melo nesta longa entrevista.
Em dezembro de 2024, o almirante passa oficialmente à reserva. O caminho para a corrida a Belém estava aberto.
O início de 2025 foi marcado pelas perguntas constantes a Henrique Gouveia e Melo sobre as suas intenções políticas. Foi alimentando o tabu, sem descartar por completo o cenário. Escreveu artigos para o Expresso sobre o que defende para a função do Presidente da República. O segredo estava cada vez mais mal guardado.
A 14 de maio de 2025, em declarações exclusivas à Renascença, Henrique Gouveia e Melo revela finalmente que vai ser candidato a Belém. "A minha decisão é avançar", dizia então o almirante na reserva. O timing valeu-lhe uma chuva de críticas, uma vez que Portugal estava em plena campanha para as eleições legislativas de 18 de maio de 2025.
De lá para cá desdobrou-se em palestras e entrevistas, já passou pelos debates com os seus adversários. As sondagens mostram uma tendência descrescente, mas o próprio vai avisando: "A sondagem que interessa é a 18 de janeiro".
Nesse dia, vamos ficar a saber se depois do general Ramalho Eanes, Portugal volta a ter um militar no Palácio de Belém.
Nota: este perfil tem como base dois livros: "Gouveia e Melo, As Razões", de Valentina Marcelino, e "Gouveia e Melo, Uma Biografia", de Vítor Matos, e as informações das páginas oficiais da Marinha, do ministério da Defesa e da candidatura de Gouveia e Melo.