Perfil

André Ventura, o eterno candidato que volta às Presidenciais

06 jan, 2026 - 07:00 • Filipa Ribeiro

Nega que o Chega seja "um partido de um homem só", mas o fundador e líder da segunda força política do país vai a votos pela 9.ª vez em menos de 10 anos. O homem que se diz "enviado por Deus" e que carrega "às costas" o Chega volta a estar na corrida a Belém, depois de ter sido o terceiro candidato mais votado em 2021.

A+ / A-

Quis ser padre, acabou a estudar Direito mas foi como comentador desportivo do Benfica que ganhou destaque na esfera pública. André Ventura entrou nas corridas eleitorais pela porta do PSD — e pela mão de Pedro Passos Coelho — em 2017, com uma candidatura à Câmara Municipal de Loures, em que "estreou" o discurso contra a comunidade cigana na política portuguesa. De costas voltadas para os sociais-democratas desde então, um ano e meio depois fundaria um novo partido: o Chega.

Conhecido pela oratória disruptiva e ideias populistas, André Ventura teve na assiduidade um dos seus maiores trunfos. Nos últimos 10 anos, entre todos os atos eleitorais a nível continental — legislativas, autárquicas, presidenciais e europeias —, Ventura participou em oito eleições e só falhou duas: europeias de 2024 e autárquicas de 2025, ambas consideradas derrotas do Chega, dado o contexto de crescimento político em que Ventura colocou o partido.

Apesar disso, o presidente do Chega esteve muito presente na campanha do partido para Bruxelas — encabeçada por António Tânger Correia — assim como fez questão de estar presente em todos os cartazes de candidatos a câmaras municipais nas autárquicas do passado mês de outubro.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

André Ventura nega que o Chega seja "um partido de um homem só", mas a sua imagem é indissociável daquela que é hoje a segunda força política do país — e talvez seja maior que o próprio partido. Os resultados de Ventura como "eterno candidato" são visíveis: depois de nas últimas presidenciais ter conseguido cerca de meio milhão de votos e de no ano passado ter colocado o Chega a quebrar o bipartidarismo nacional, Ventura arrisca-se a sonhar com uma vitória (pelo menos na primeira volta) em nova corrida ao Palácio de Belém.

De jovem seminarista a advogado

André Ventura nasce a 15 de janeiro de 1983 em Algueirão Mem-Martins, no concelho de Sintra. Filho de uma empregada de escritório e de um vendedor de peças para bicicletas, não recebe uma educação religiosa, mas aos 17 anos decide entrar no seminário.

"Tinha descoberto a razão de ser da minha vida. Quando digo aos meus pais que quero ir para o seminário, é uma tristeza. Para eles é triste, sobretudo para as mães. 'Ah, não vai ter filhos'. E isso causou apreensão aos meus pais: 'como é que alguém que não nasceu num ambiente religioso quer ir para o seminário?'", contou em entrevista ao programa "Júlia", na SIC, revelando que aos 14 anos decidiu batizar-se, começando a frequentar a Igreja e a ir à missa por iniciativa própria.

Contra a vontade dos pais, acaba por entrar no seminário de Penafirme, em Torres Vedras, e frequentar o ensino secundário no externato, onde esteve até ao décimo segundo ano.

Acabou por desistir devido a uma paixão amorosa, naquilo que considerou ser um "processo doloroso".

"A fé é o que me move, mas no seminário percebi duas coisas: que gostava de mulheres e me apaixonava, e que era-me difícil resistir a isso", afirmou, revelando que percebeu que tinha de sair quando enviou uma mensagem de telemóvel às escondidas a uma rapariga por quem estava interessado na altura.

De saída de Penafirme, fica a viver na residência de São Nicolau até terminar a licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, que conclui com uma média de 19 valores, com uma passagem de Erasmus em Salamanca pelo meio.

No podcast do Expresso "Entre Deus e o Diabo", André Ventura recorda o estágio que fez na cidade do Porto e o dia em que uma namorada levou a que fosse para a Irlanda.

Foi lá que acabou por frequentar um doutoramento, na University College Cork, onde depois de seis anos de investigação — e com uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia — apresentou em 2014 a tese "Rumo a um novo modelo de sistema de justiça criminal na era do crime globalizado", onde lamentava a estigmatização de povos associados ao terrorismo, como a comunidade mulçumana.

Além de ter sido professor de Direito na Universidade Autónoma de Lisboa e na Universidade Nova de Lisboa, Ventura inicia carreira na Administração Pública como inspetor na Autoridade Tributária, mas rapidamente a vida dá uma volta de 180 graus quando deixa de fiscalizar os impostos para fazer consultoria para uma empresa especializada em planeamento fiscal para contornar o pagamento de impostos, a Finpartner, para quem trabalhou entre 2018 e 2019.

Ao longo do percurso académico e até aos dias de hoje, André Ventura mantém-se fiel à vida religiosa. Não há noite eleitoral que não comece com uma ida ao final da tarde à missa na Igreja de S. Nicolau, em Lisboa. Recentemente, em entrevista à Renascença, confessou que nos primeiros dois dias de campanha para as autárquicas do ano passado esteve ausente, por ter ido cumprir "uma promessa" ao Santuário de Međugorje, na Bósnia-Herzegovina, devido ao problema de saúde que acabou a marcar a campanha para as eleições legislativas de 2025.

"O homem do Benfica"

É com o comentário desportivo que André Ventura passa a ser uma figura mediática. Em 2018, entra na CMTV como comentador desportivo e comentador criminal.

No programa "Pé em Riste", destacou-se pela forma fervorosa com que defendia o Benfica e a sua mediatização acaba por ser a rampa de lançamento para o crescimento do Chega, fundado um ano depois, em 2019.

Durante os seus tempos como comentador não escondeu o apoio ao então presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira.

No Debate da Rádio desta sexta-feira, quando questionado sobre se já tinha recusado alguma reunião ou negócio por conflito de interesses, Ventura disse que não participou em reuniões no Parlamento que envolvessem o clube.

Durante a visita de Luís Filipe Vieira à Comissão Parlamentar de Inquérito ao Novo Banco e Banco Espírito Santo, na qualidade de gestor de uma empresa que devia 181 milhões ao banco, André Ventura — na altura deputado único do Chega — faltou à audição.

Passado alaranjado

Durante vários anos nos corredores do Partido Social Democrata, André Ventura chegou a ser conselheiro nacional do PSD e, sob a asa do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, foi candidato à Câmara Municipal de Loures nas autárquicas de 2017.

Nesse ano, em julho, fez capa no Jornal i com uma entrevista onde deixou críticas à comunidade cigana. Foi a primeira vez que André Ventura se dirigiu publicamente aos ciganos. O título? "Os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado". Na época, o candidato autárquico justificou a declaração com o que "ouvia" na rua em Loures. O laranja de André Ventura começava a perder a cor e foram imediatas as reações dos restantes partidos às declarações do então candidato autárquico.

O PS — e António Costa — criticou a não retirada de confiança de Pedro Passos Coelho e a entrevista levou a que o CDS, na altura liderado por Assunção Cristas, deixasse a coligação da candidatura em Loures.

Nessas eleições André Ventura é eleito vereador, com um terceiro lugar, longe da CDU e do PS, dando início à maratona de candidaturas que ainda perdura.

No ano seguinte às eleições autárquicas de 2017, e perante um ciclo de divergências com Rui Rio, André Ventura deixa o PSD. Em janeiro de 2018 demite-se do Conselho Nacional, após a eleição de Rio para presidência do partido, e em outubro acaba por de desfiliar oficialmente do PSD. Um mês depois renuncia ao cargo de vereador na câmara de Loures.

Nessa altura, André Ventura começa a recolha de assinaturas para a criação do Chega — partido que acaba por ser fundado a 9 abril de 2019, com a aprovação do Tribunal Constitucional.

Ainda assim, e apesar da legalização, o Chega não foi a tempo das eleições europeias desse ano, onde Ventura concorreu como cabeça de lista da coligação BASTA!, entre o Partido Popular Monárquico (PPM), o Partido Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC) e o movimento Democracia 21, recolhendo quase 50 mil votos e quase 1,5%.

Ventura e o "milagre da multiplicação" de votos

Por mais que uma vez, André Ventura já mencionou que acredita que "Deus lhe deu a missão de transformar Portugal" — como sublinhou em entrevista ao Observador, quando falou num "milagre de ascensão política". Desde que fundou o Chega, o líder do partido é presença assídua em todas as candidaturas — apenas nas europeias de 2024 e nas autárquicas não encabeçou nenhuma lista.

Meses depois da fundação do Chega, em outubro de 2019, André Ventura é eleito como deputado para a Assembleia da República. Consegue na altura mais de 67 mil votos. O "milagre da multiplicação" acontece um ano e meio depois, quando nas eleições presidenciais de 2021 é o terceiro candidato mais votado, com cerca de meio milhão de votos, ficando apenas atrás de Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa.

A quantidade de votos no Chega é reforçada cerca de um ano depois, em janeiro de 2022. Nas eleições legislativas desse ano o Chega consegue eleger 12 deputados para a Assembleia da República, com cerca de 400 mil votos.

De 400 mil votos, o partido cresce para quase 1,2 milhões de votos em 2024, quando o Chega passa a ter 50 cadeiras ocupadas no Parlamento — número que aumentou para 60 nas últimas eleições, em maio do ano passado.

No entanto, quando Ventura não é a cara no boletim de voto ou à frente das campanhas, o apoio murcha. Nas europeias de 2024, com Tânger Correia, o partido teve metade da percentagem — e menos 700 mil votos — do que tinha tido nas legislativas realizadas três meses antes.

E nas autárquicas de outubro passado, depois de umas legislativas em que acabou com o bipartidarismo e venceu quatro distritos, o Chega apenas venceu três câmaras — o que dá força ao argumento, rejeitado por Ventura, de que o "Chega é um partido de um homem só".

Mais uma volta pelas eleições presidenciais

Apesar de muitas críticas ao facto de querer ser primeiro-ministro e mesmo assim avançar com candidaturas nos diferentes atos eleitorais, André Ventura volta a ser candidato presidencial.

Na Renascença, em entrevista, o líder do Chega colocou como "obrigação" a ida à segunda volta das eleições — e as sondagens apontam para esse objetivo. André Ventura garante que abandona a liderança do Chega se for eleito Presidente. No campo da Defesa, onde o Presidente da República tem mais influência, rejeita o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia.

A pré-campanha presidencial do candidato André Ventura volta a ficar marcada por declarações dirigidas a várias comunidades minoritárias. Desta vez não foi em entrevista, mas em cartazes. André Ventura chegou a ir ao Tribunal de Lisboa responder a um processo judicial sobre os cartazes que espalhou pelo país com frases contra os ciganos — e que acabou por ser obrigado a tirar.

Em mais uma jogada de discurso disruptivo — e lembrando as suas origens políticas em Loures — acabou por substituir nos cartazes a palavra "ciganos" por "os mesmos do costume".

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+