06 jan, 2026 - 07:00 • Filipa Ribeiro
Quis ser padre, acabou a estudar Direito mas foi como comentador desportivo do Benfica que ganhou destaque na esfera pública. André Ventura entrou nas corridas eleitorais pela porta do PSD — e pela mão de Pedro Passos Coelho — em 2017, com uma candidatura à Câmara Municipal de Loures, em que "estreou" o discurso contra a comunidade cigana na política portuguesa. De costas voltadas para os sociais-democratas desde então, um ano e meio depois fundaria um novo partido: o Chega.
Conhecido pela oratória disruptiva e ideias populistas, André Ventura teve na assiduidade um dos seus maiores trunfos. Nos últimos 10 anos, entre todos os atos eleitorais a nível continental — legislativas, autárquicas, presidenciais e europeias —, Ventura participou em oito eleições e só falhou duas: europeias de 2024 e autárquicas de 2025, ambas consideradas derrotas do Chega, dado o contexto de crescimento político em que Ventura colocou o partido.
Apesar disso, o presidente do Chega esteve muito presente na campanha do partido para Bruxelas — encabeçada por António Tânger Correia — assim como fez questão de estar presente em todos os cartazes de candidatos a câmaras municipais nas autárquicas do passado mês de outubro.
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André Ventura nega que o Chega seja "um partido de um homem só", mas a sua imagem é indissociável daquela que é hoje a segunda força política do país — e talvez seja maior que o próprio partido. Os resultados de Ventura como "eterno candidato" são visíveis: depois de nas últimas presidenciais ter conseguido cerca de meio milhão de votos e de no ano passado ter colocado o Chega a quebrar o bipartidarismo nacional, Ventura arrisca-se a sonhar com uma vitória (pelo menos na primeira volta) em nova corrida ao Palácio de Belém.
André Ventura nasce a 15 de janeiro de 1983 em Algueirão Mem-Martins, no concelho de Sintra. Filho de uma empregada de escritório e de um vendedor de peças para bicicletas, não recebe uma educação religiosa, mas aos 17 anos decide entrar no seminário.
"Tinha descoberto a razão de ser da minha vida. Quando digo aos meus pais que quero ir para o seminário, é uma tristeza. Para eles é triste, sobretudo para as mães. 'Ah, não vai ter filhos'. E isso causou apreensão aos meus pais: 'como é que alguém que não nasceu num ambiente religioso quer ir para o seminário?'", contou em entrevista ao programa "Júlia", na SIC, revelando que aos 14 anos decidiu batizar-se, começando a frequentar a Igreja e a ir à missa por iniciativa própria.
Contra a vontade dos pais, acaba por entrar no seminário de Penafirme, em Torres Vedras, e frequentar o ensino secundário no externato, onde esteve até ao décimo segundo ano.
Acabou por desistir devido a uma paixão amorosa, naquilo que considerou ser um "processo doloroso".
"A fé é o que me move, mas no seminário percebi duas coisas: que gostava de mulheres e me apaixonava, e que era-me difícil resistir a isso", afirmou, revelando que percebeu que tinha de sair quando enviou uma mensagem de telemóvel às escondidas a uma rapariga por quem estava interessado na altura.
De saída de Penafirme, fica a viver na residência de São Nicolau até terminar a licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, que conclui com uma média de 19 valores, com uma passagem de Erasmus em Salamanca pelo meio.
Entrevista Renascença
Candidato a Belém lembra que em França as pessoas (...)
No podcast do Expresso "Entre Deus e o Diabo", André Ventura recorda o estágio que fez na cidade do Porto e o dia em que uma namorada levou a que fosse para a Irlanda.
Foi lá que acabou por frequentar um doutoramento, na University College Cork, onde depois de seis anos de investigação — e com uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia — apresentou em 2014 a tese "Rumo a um novo modelo de sistema de justiça criminal na era do crime globalizado", onde lamentava a estigmatização de povos associados ao terrorismo, como a comunidade mulçumana.
Além de ter sido professor de Direito na Universidade Autónoma de Lisboa e na Universidade Nova de Lisboa, Ventura inicia carreira na Administração Pública como inspetor na Autoridade Tributária, mas rapidamente a vida dá uma volta de 180 graus quando deixa de fiscalizar os impostos para fazer consultoria para uma empresa especializada em planeamento fiscal para contornar o pagamento de impostos, a Finpartner, para quem trabalhou entre 2018 e 2019.
Ao longo do percurso académico e até aos dias de hoje, André Ventura mantém-se fiel à vida religiosa. Não há noite eleitoral que não comece com uma ida ao final da tarde à missa na Igreja de S. Nicolau, em Lisboa. Recentemente, em entrevista à Renascença, confessou que nos primeiros dois dias de campanha para as autárquicas do ano passado esteve ausente, por ter ido cumprir "uma promessa" ao Santuário de Međugorje, na Bósnia-Herzegovina, devido ao problema de saúde que acabou a marcar a campanha para as eleições legislativas de 2025.
É com o comentário desportivo que André Ventura passa a ser uma figura mediática. Em 2018, entra na CMTV como comentador desportivo e comentador criminal.
No programa "Pé em Riste", destacou-se pela forma fervorosa com que defendia o Benfica e a sua mediatização acaba por ser a rampa de lançamento para o crescimento do Chega, fundado um ano depois, em 2019.
Durante os seus tempos como comentador não escondeu o apoio ao então presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira.
No Debate da Rádio desta sexta-feira, quando questionado sobre se já tinha recusado alguma reunião ou negócio por conflito de interesses, Ventura disse que não participou em reuniões no Parlamento que envolvessem o clube.
Durante a visita de Luís Filipe Vieira à Comissão Parlamentar de Inquérito ao Novo Banco e Banco Espírito Santo, na qualidade de gestor de uma empresa que devia 181 milhões ao banco, André Ventura — na altura deputado único do Chega — faltou à audição.
Durante vários anos nos corredores do Partido Social Democrata, André Ventura chegou a ser conselheiro nacional do PSD e, sob a asa do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, foi candidato à Câmara Municipal de Loures nas autárquicas de 2017.
Nesse ano, em julho, fez capa no Jornal i com uma entrevista onde deixou críticas à comunidade cigana. Foi a primeira vez que André Ventura se dirigiu publicamente aos ciganos. O título? "Os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado". Na época, o candidato autárquico justificou a declaração com o que "ouvia" na rua em Loures. O laranja de André Ventura começava a perder a cor e foram imediatas as reações dos restantes partidos às declarações do então candidato autárquico.
O PS — e António Costa — criticou a não retirada de confiança de Pedro Passos Coelho e a entrevista levou a que o CDS, na altura liderado por Assunção Cristas, deixasse a coligação da candidatura em Loures.
Nessas eleições André Ventura é eleito vereador, com um terceiro lugar, longe da CDU e do PS, dando início à maratona de candidaturas que ainda perdura.
No ano seguinte às eleições autárquicas de 2017, e perante um ciclo de divergências com Rui Rio, André Ventura deixa o PSD. Em janeiro de 2018 demite-se do Conselho Nacional, após a eleição de Rio para presidência do partido, e em outubro acaba por de desfiliar oficialmente do PSD. Um mês depois renuncia ao cargo de vereador na câmara de Loures.
Nessa altura, André Ventura começa a recolha de assinaturas para a criação do Chega — partido que acaba por ser fundado a 9 abril de 2019, com a aprovação do Tribunal Constitucional.
Ainda assim, e apesar da legalização, o Chega não foi a tempo das eleições europeias desse ano, onde Ventura concorreu como cabeça de lista da coligação BASTA!, entre o Partido Popular Monárquico (PPM), o Partido Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC) e o movimento Democracia 21, recolhendo quase 50 mil votos e quase 1,5%.
A inquirição do candidato social-democrata resulta(...)
Por mais que uma vez, André Ventura já mencionou que acredita que "Deus lhe deu a missão de transformar Portugal" — como sublinhou em entrevista ao Observador, quando falou num "milagre de ascensão política". Desde que fundou o Chega, o líder do partido é presença assídua em todas as candidaturas — apenas nas europeias de 2024 e nas autárquicas não encabeçou nenhuma lista.
Meses depois da fundação do Chega, em outubro de 2019, André Ventura é eleito como deputado para a Assembleia da República. Consegue na altura mais de 67 mil votos. O "milagre da multiplicação" acontece um ano e meio depois, quando nas eleições presidenciais de 2021 é o terceiro candidato mais votado, com cerca de meio milhão de votos, ficando apenas atrás de Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa.
A quantidade de votos no Chega é reforçada cerca de um ano depois, em janeiro de 2022. Nas eleições legislativas desse ano o Chega consegue eleger 12 deputados para a Assembleia da República, com cerca de 400 mil votos.
De 400 mil votos, o partido cresce para quase 1,2 milhões de votos em 2024, quando o Chega passa a ter 50 cadeiras ocupadas no Parlamento — número que aumentou para 60 nas últimas eleições, em maio do ano passado.
No entanto, quando Ventura não é a cara no boletim de voto ou à frente das campanhas, o apoio murcha. Nas europeias de 2024, com Tânger Correia, o partido teve metade da percentagem — e menos 700 mil votos — do que tinha tido nas legislativas realizadas três meses antes.
E nas autárquicas de outubro passado, depois de umas legislativas em que acabou com o bipartidarismo e venceu quatro distritos, o Chega apenas venceu três câmaras — o que dá força ao argumento, rejeitado por Ventura, de que o "Chega é um partido de um homem só".
Apesar de muitas críticas ao facto de querer ser primeiro-ministro e mesmo assim avançar com candidaturas nos diferentes atos eleitorais, André Ventura volta a ser candidato presidencial.
Na Renascença, em entrevista, o líder do Chega colocou como "obrigação" a ida à segunda volta das eleições — e as sondagens apontam para esse objetivo. André Ventura garante que abandona a liderança do Chega se for eleito Presidente. No campo da Defesa, onde o Presidente da República tem mais influência, rejeita o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia.
Presidenciais 2026
Ventura voltou a insistir que teve um encontro com(...)
A pré-campanha presidencial do candidato André Ventura volta a ficar marcada por declarações dirigidas a várias comunidades minoritárias. Desta vez não foi em entrevista, mas em cartazes. André Ventura chegou a ir ao Tribunal de Lisboa responder a um processo judicial sobre os cartazes que espalhou pelo país com frases contra os ciganos — e que acabou por ser obrigado a tirar.
Em mais uma jogada de discurso disruptivo — e lembrando as suas origens políticas em Loures — acabou por substituir nos cartazes a palavra "ciganos" por "os mesmos do costume".