06 jan, 2026 - 00:32 • Alexandre Abrantes Neves
Era o número esperado para fazer o sonho pular da perceção para a possibilidade palpável. A sondagem da Pitagórica para a TVI, TSF e JN desta segunda-feira coloca João Cotrim de Figueiredo em quarto lugar, mas em empate técnico para a vitória e cerca de três pontos à frente de Luís Marques Mendes.
A repetir desde o início da pré-campanha que vai chegar à segunda volta, este era o balão de oxigénio que Cotrim de Figueiredo esperava para ganhar tração, acalorar a campanha debaixo das temperaturas gélidas e contrariar a perda de eleitorado para o voto útil. Mas Cotrim sabe que Roma não se fez num dia e que ainda surgirão muitas sondagens até ao final da campanha – e, por isso, avisa que as pequenas vitórias devem ser festejadas com os pés bem assentes na terra.
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“Mais do que o lugar, são os 18% que é uma marca que eu já sentia que era possível atingir e que, pela primeira vez, me coloca em empate no primeiro lugar. Mas não chega, temos de continuar a crescer”, avisou esta segunda-feira à noite em Lisboa, sem definir uma meta específica de percentagem. “Tenho pedido aos meus apoiantes que continuem. A mensagem está a passar, a campanha está a ser excelente e ainda faltam duas semanas até ao dia das eleições”.
O primeiro passo nessa estratégia passa, mais uma vez, por colocar a mira à direita e, particularmente, em Marques Mendes para capitalizar o eleitorado do PSD e do CDS que possa estar indeciso. Depois de este domingo reivindicar para a sua candidatura o “espírito reformista de Sá Carneiro”, Cotrim de Figueiredo esperou quase 24 horas para dar significado à presença de Luís Montenegro na campanha – e moldar a perceção do eleitorado para sair favorecido e com uma imagem de força contra o adversário.
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“Acho que um candidato sentir a necessidade de vir buscar, e tão precocemente, o apoio daquele que não deixa de ser um peso pesado, o presidente do partido que tem mais assentos no Parlamento em Portugal, acho que é uma prova de fraqueza”, atirou de manhã em Santarém, contra Marques Mendes, mas visando logo de seguida os apelos de voto útil de Luís Montenegro.
“O presidente do PSD optou por apoiar um candidato. Hoje, provavelmente, já apercebeu de que é um candidato que não consegue sequer mobilizar o próprio eleitorado do PSD e da AD, porque o CDS também o apoiou. Se calhar, está arrependido da escolha do candidato, mas isso não me diz respeito”, defendeu.
Para Cotrim, o que reina na caravana de Mendes é a “preocupação”, seja no próprio candidato ou nos seus apoiantes. Isso mesmo pareceu dizer quando reagiu às declarações de Sebastião Bugalho, que o acusou de não ter trabalho feito no Parlamento Europeu e de se aproveitar do silêncio de Pedro Passos Coelho para se associar ao antigo primeiro-ministro. “Nestes quase dois anos do Parlamento Europeu, fiquei a conhecer muito bem Sebastião Bugalho. Prefiro nem comentar”, começou por dizer Cotrim, para depois complementar nas entrelinhas que tudo não passa de estratégia.
“Tenho a certeza de que um dia se virá a retratar. Mal fora que uma carreira inteira e uma vida inteira fossem determinadas pela opinião de um ex-comentador, ou quem sabe futuro comentador também”, criticou.
O segundo dia de campanha terminou com um jogo de futebol, onde Cotrim jogava em casa, mas onde não cumpria duas promessas da campanha: aderiram maioritariamente jovens (e não eleitores de todas as idades) e não responderam à convocatória personalidades políticas fora da IL – apenas o antigo deputado liberal, Bernardo Blanco, calçou as sapatilhas.
Ainda assim, Cotrim diz que vai marcar penálti a 18 de janeiro e sustenta o argumento de uma candidatura aberta a todos com uma agenda pontuada por ações bem diferentes do habitual – em vez de apostar nas tradicionais reuniões com empresas, o também eurodeputado está mais na rua, com visitas estratégicas a setores que lhe podem trazer votos do centro e do PSD.
Nesta missão, Cotrim de Figueiredo parece consciente dos vários entraves à sua frente, nomeadamente daqueles que lhe podem dificultar o objetivo de se colar à imagem de reformismo de Francisco Sá Carneiro. Um deles assenta na camada da população que melhor se recorda do malogrado primeiro-ministro e fundador do PSD: os idosos.
“Mais de um quarto da população portuguesa tem mais de 65 anos. Muitos desses idosos têm problemas específicos”, afirmou aos jornalistas, depois de visitar um lar de idosos em Santarém, o terceiro em quatro dias. Foi lá que ouviu lamentos de abandono do Estado por parte dos utentes e queixas de comparticipação insuficiente vindas das instituições – e que apontou o dedo à falta de empenho da magistratura de influência de Belém nesta matéria.
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“Está muita coisa por fazer e fala-se pouco do cuidado integrado dos idosos. Alguém que quer ser presidente de todos os portugueses, em todo o território, de todas as idades, não podia deixar de falar destes temas”, assinalou.
Com a Iniciativa Liberal (IL) especialmente popular entre as camadas mais novas da população e a presença de Cotrim de Figueiredo em crescimento nas redes sociais, nomeadamente no TikTok, o candidato assume que pode ser visto como um candidato que “privilegia os jovens” e que está “mais longe dos idosos”, talvez por haver “maior resistência à mudança com a idade”.
Ainda assim, Cotrim – o candidato que “não nega que está em campanha e quer conquistar votos” – propõe-se a alterar essa imagem, a quebrar a tradicional “estratificação do eleitorado pelos partidos” e a lutar por se aproximar dos mais velhos – uma promessa onde cabe a terceira idade, mas também os restantes eleitorados que habitualmente não votam IL, nomeadamente os de classe económica mais baixa.
“Tudo o que quero para Portugal deve beneficiar todos os portugueses, de forma direta ou indireta. Mais: uma sociedade que se quer solidária, verdadeiramente coesa não pode viver com alguém que, tendo uma profissão diferente da minha, uma região de habitação diferente, uma idade diferente, mas se tem problemas graves… Então, esses são também os meus problemas”, vincou.
A tentativa de resvalar e expandir o eleitorado que lhe deu um grupo parlamentar, em 2022, na Assembleia da República e o lugar de primeiro eurodeputado da IL, em 2024, nota-se também quando os temas internacionais vêm à baila.
Apesar de preocupados com o Direito Internacional e falarem numa intervenção dos Estados Unidos da América (EUA) na Venezuela “discutível” em vários pontos, os liberais, em comunicado no último sábado, começavam por enaltecer o facto de Caracas viver agora “livre de um ditador narcotraficante”.
Cotrim de Figueiredo também combina as duas faces da moeda, mas tem vindo a optar por um discurso que sabe que lhe vai render votos, para lá do terreno políticos a que está habituado. Publicamente crítico de Donald Trump, mais puxado ao centro e num tom de maior apreensão até do próprio governo, Cotrim diz que não vai “chorar lágrimas de crocodilo” por Maduro, mas teme que a postura de Washington traga uma nova ordem mundial que não vai ajudar Portugal.
“O dia seguinte não foi planeado nem previsto, havia um objetivo de capturar e julgar Nicolás Maduro. Ninguém sabe o que quer dizer gerir, quanto tempo é que isso significa, que interesses políticos e económicos serão servidos “, criticou. “Tudo o que diz respeito à política internacional preocupa-me muitíssimo porque voltamos a uma lei do mais forte. Nesse mundo, Portugal não está particularmente bem apetrechado, portanto eu, como candidato à presidência, estou preocupado”.