Presidenciais 2026

Críticas com amor se paga. Cotrim quer todo o PSD e diz que “representa” o reformismo de Cavaco

06 jan, 2026 - 21:55 • Alexandre Abrantes Neves

Em vez de responder com críticas, Cotrim prefere elogiar os "consulados reformistas" de Cavaco Silva. Ao terceiro dia de campanha, o candidato apoiado pela IL até admite perder força nos tão desejados idosos se isso significar fazer um abraço de urso ao PSD: aos passistas, aos saudosos de Sá Carneiro, aos que não gostam do voto útil e aos antigos combatentes.

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O tema Sá Carneiro tem sido recorrente e, em boa parte, devido a Cotrim de Figueiredo. Desta vez, porém, o autor das críticas não deixou irritado o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL) – bem pelo contrário, até o fez abrir-se em elogios, em mais um dos episódios (depois de piscar o olho aos pensionistas) para capturar o máximo eleitorado possível ao PSD.

Prefiro guardar a memória desse tempo e tenho a certeza que a memória desse tempo, repito, está mais representada na minha candidatura do que noutras”, afirmou o antigo líder da Iniciativa Liberal (IL) que, em vez de responder a Cavaco Silva, preferiu sugerir que é também ele o sucessor do seu espírito reformista.

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“Não vou falar do que é ou não é tolerável para o professor Cavaco Silva. Lembro-me também dos seus consulados, da forte carga reformista que tiveram os seus governos, a forma como Portugal se desenvolveu nessa altura”, acrescentou, sem querer hostilizações e evitando esclarecer se considera ou não que Cavaco também está arrependido de apoiar Marques Mendes, como disse na segunda-feira Cotrim sobre Montenegro.

No artigo de opinião no jornal Observador e que marca o terceiro dia de campanha, Cavaco Silva dizia-se “chocado” com a evocação da memória e do exemplo de “craveira” de Francisco Sá Carneiro por João Cotrim de Figueiredo, André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. As palavras deram ainda mais balanço aos ataques de Marques Mendes, que acusou os adversários de serem candidatos “radicais”, “arrogantes” ou que fazem “política do tiro no escuro e de experimentalismos”.

A resposta de Cotrim aos jornalistas é que não se revê em nenhum destes traços – é, simplesmente, mais um português que “tem o direito” de enaltecer o trabalho de Sá Carneiro quando dirigiu os destinos do país, sem ter de ser acusado de “usurpar o património de outra instituição, de outro partido”.

“Lamento, eu sinto-o tão meu como qualquer outra pessoa tenha militado no PSD. Há coisas na maneira de estar na política, na verticalidade, na frontalidade, na forma arrojada, na falta de medo que Sá Carneiro tinha… Revejo-me nisso”, afirmou, mas, logo de seguida, Cotrim recuou ligeiramente no discurso para tentar apaziguar o tema e não afastar o eleitorado à direita que possa desgostar de tricas excessivas. “Não estou com isto a dizer que sou sequer parecido. Estou só a dizer que o admiro”, resumiu.

Encontro com Passos? "Conversas informais mantenho privadas"

O capítulo Sá Carneiro e Cavaco Silva ficou fechado, mas Cotrim havia de fazer o pleno e chegar a um terceiro peso pesado do PSD: Pedro Passos Coelho.

“Passos Coelho governou o país num período muito, muito difícil, com um caderno de encargos que o próprio não definiu, num memorando com a Troika que ele próprio não convidou nem obrigou a vir e mostrou uma coragem política extraordinária. No final do mandato, conseguiu ganhar eleições, mostrando que é possível fazer política com frontalidade, com coragem e não perder o apoio eleitoral”.

Depois de dias a fio a assumir que quer ter uma candidatura abrangente e que chegue, especialmente, aos idosos, Cotrim assumiu esta terça-feira que a insistência em pedir o apoio público de Passos Coelho pode dificultar-lhe essa missão - mas, ao mesmo tempo, não se mostrou importado.

É um excelente exemplo de como eu digo aquilo em que acredito e não estou preocupado com as consequências eleitorais do que eu digo”, explicou, mostrando que está a disparar em todas as direções do eleitorado à direita e que, por isso, também joga as fichas todas em reunir os passistas em torno da sua candidatura.

Por esclarecer, entre os vários elogios e tentativas de firmar parecenças, ficou um eventual encontro entre os dois. “As conversas que são informais vou mantê-las privadas. Se são privadas, não vou sequer dizer quando foi”, concluiu sinteticamente.

Voto útil nem pensar

Pelo segundo dia consecutivo, a sondagem diária da Pitagórica para a TVI, TSF e JN coloca Cotrim à frente de Marques Mendes e em empate técnico para a vitória: está totalmente empatado com Gouveia e Melo em terceiro lugar e a apenas uma décima de Ventura.

Durante a tarde, os números ainda não eram conhecidos, mas Cotrim já se mostrava otimista de que a percentagem ia subir mais e vai continuar num rumo ascendente durante toda a campanha. E, apesar de se mostrar focado em capitalizar votos à direita (surgiu ao lado de Liliana Reis, antiga deputada do PSD, e de Henrique Freitas, ex-militante e deputado do Chega), Cotrim recusa que alguma vez venha apelar ao voto útil.

Eu não farei apelo ao voto útil. Farei, como sempre tenho feito e as pessoas interpretaram como quiserem, apelo ao voto livre”, garantiu. “Apelo ao voto útil para quê? Para ser eleito com um conjunto de votos de pessoas que não acreditam verdadeiramente em mim? Mas que acham que sou um mal menor relativamente a qualquer coisa? Não faz sentido”, vincou, como mais uma das armas para se destacar como alternativa a Mendes e dos muitos apelos de voto útil, incluindo do primeiro-ministro.

Antigos combatentes porque sim e não por causa dos adversários

Além do debate a 11 na RTP, o terceiro dia de campanha de Cotrim contou apenas com uma visita à Liga dos Antigos Combatentes em Lisboa, numa reunião de mais de uma hora à porta fechada. Cotrim considerou-a, no entanto, “curta” para abordar “a falta de reconhecimento do valor e do serviço prestado à nação pelas pessoas que foram combatentes”.

Dos dirigentes da Liga ouviu críticas sobre a “falta de reconhecimento pecuniário” e sobre as dificuldades de fazer a “memória perdurar de avós para netos”. São temas que entram no grupo de bandeiras eleitorais de Henrique Gouveia e Melo e de André Ventura e que nunca entraram em campanhas eleitorais da IL – mas Cotrim de Figueiredo recusa que os adversários tenham influência no destaque que dá aos temas.

Eu posso-lhes garantir que a minha agenda de campanha não é determinada pelo que os outros fazem ou ainda não fizeram. É a minha vontade de honrar a memória de todos aqueles que já nos deixaram e que serviram o país e de criar condições para que todos aqueles que vierem a seguir a nós tenham igual orgulho”, defendeu.

Depois de vários dias a Sul, a campanha de Cotrim sobe esta quarta-feira para a zona centro – começa o dia em Pedrógão Grande e fecha a noite em Leiria.

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