07 jan, 2026 - 20:54 • Alexandre Abrantes Neves
É típico do ser humano e nas campanhas eleitorais não é diferente. Quando alguém se aventura pelo desconhecido, tende sempre a procurar um porto de abrigo e uma zona mais confortável, onde arranja uma fórmula sempre eficiente e que o protege do erro. No caso de João Cotrim de Figueiredo, não foi preciso nem uma semana na estrada para aparecer o primeiro destes refúgios: os lares de idosos.
“Creio que não será a última visita, quer a instituições residenciais para idosos, quer a outras entidades como universidades sénior”, afirmou esta quarta-feira o candidato presidencial, depois de visitar um lar de idosos em Leiria, o quarto em seis dias.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Depois de eleições legislativas e europeias dedicado aos jovens e às empresas, João Cotrim de Figueiredo sabe que só alcança a meta da segunda volta se falar para outras camadas da população e se se virar para as causas sociais. Isso mesmo já admitiu o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL) várias vezes nos últimos dias, dizendo que tem uma “mensagem para o país que se aplica a todas as idades”.
Nesta quarta-feira, a atualidade acabou a ajudá-lo e Cotrim foi brindado com uma escapatória. Os problemas no setor da saúde desviaram a preocupação com a terceira idade e impediram-no de ser monotemático nas questões sociais.
“Recomendaria seriamente, nesse contacto pessoal com o senhor primeiro-ministro, que substituísse a ministra da Saúde”, afirmou, sobre a polémica com a não ativação pelo Governo do reforço de 100 ambulâncias para o inverno.
Quando toca nas funções do Estado, Cotrim de Figueiredo é hábil o suficiente para contornar as questões partidárias, descolar da IL e tentar mostrar o perfil que quer transportar para a Presidência da República.
No caso da morte do idoso de 78 anos por atrasos no INEM, afirmou que conversaria de imediato com o primeiro-ministro, já depois de manhã se ter descolado da IL e ter dito que era uma “notícia trágica” para um serviço “essencial do Estado e que mais ninguém pode prestar”.
E o mesmo fez também quando sacou de outra carta para se aproximar da população do interior, tradicionalmente mais próxima do centro e da esquerda: passar a manhã em Pedrógão Grande.
“Faço daqui algumas perguntas a quem é responsável nestas matérias, na administração interna. Estamos ou não preparados em termos de recursos efetivos na coordenação e comando da Proteção Civil? Estamos ou não preparados em termos de recursos técnicos e humanos nos bombeiros? Estamos ou não preparados nos contratos de utilização dos meios aéreos?”.
Presidenciais 2026
Com a notícia de que o Governo não terá acionado o(...)
E Cotrim continuou a elencar perguntas e queixas, desde a falta de planeamento para o cadastro dos terrenos até à sensação de que “nada é feito a tempo” e de que o Governo “investiu zero na revitalização destes terrenos” depois dos grandes incêndios do verão de 2017. O objetivo era só um: dizer que há uma linha que o separa de Marcelo Rebelo de Sousa.
“Pedir explicações atempadas, esclarecimentos públicos cria uma pressão sobre os decisores que não permite atrasos. É isso que eu faria junto dos responsáveis, em privado primeiramente, e se sentisse que esses apelos caíam em orelhas mocas, falaria, sem problema nenhum, publicamente”, assegurou, aproveitando para pregar mais uma alfinetada a Marcelo.
“Eu gostava de ficar mais conhecido como presidente que ajudou a resolver problemas. Se fizer isso com afetos, melhor”, rematou.
A quarta-feira política fica também marcada pelas críticas de Marques Mendes, que acusou os restantes dez candidatos de quererem “criar dificuldades ao Governo” e de serem agentes de “instabilidade política”.
Cotrim de Figueiredo não agradeceu, mas quase: em vez de lhe servir a carapuça, recuou até meados de dezembro, altura da greve geral, para pegar nas declarações de Mendes e as pôr ao serviço do objetivo de agradar ao PSD.
“Devolvo com uma pergunta semirretórica, que é: Qual foi o único candidato nesta eleição presidencial que disse sem tibiezas que promulgaria o pacote laboral? Esse candidato é o que está mais perto do Governo, ou pelo menos do Governo que quer fazer reformas. Esse candidato não foi Marques Mendes. Portanto, se ele estava a falar destes candidatos, provavelmente estava a excluir-me a mim e incluir todos os outros, incluindo o próprio”, respondeu, em Leiria.
Presidenciais 2026
Em vez de responder com críticas, Cotrim prefere e(...)
Este é mais um dos capítulos na estratégia há já muito anunciada por Cotrim: aproveitar a fragilidade de Mendes nas sondagens para tentar provar que o eleitorado do PSD e do CDS se revê mais na sua candidatura do que na do antigo comentador televisivo.
Para isto, já juntou várias narrativas: a de que Luís Montenegro está arrependido por apoiar Mendes, de que a equipa do candidato social-democrata está “preocupada”. Esta quarta-feira foi mais longe – e regressou por momentos à logica liberal para avisar o Governo de que é o único que não vai travar o reformismo idealizado pela AD.
“Se o Governo está verdadeiramente interessado em fazer reformas, tem em mim um aliado muito mais fiável e muito mais persistente do que teria em qualquer outro”, garantiu.
Ainda no espírito que o diz distinguir dos restantes candidatos, Cotrim de Figueiredo aproveitou a troca de palavras no debate de terça-feira à noite entre Marques Mendes e Gouveia e Melo (onde o ex-líder social-democrata acusou o adversário de “ordinarice”) para, mais uma vez, se pôr em bicos de pés e dizer que é diferente.
“Pelo menos, naquele debate, tentei contribuir para a elevação, não entrando nesse tipo de questão”, vincou.