Presidenciais 2026

Ventura já não esconde e assume que quer eleitorado de Marques Mendes

08 jan, 2026 - 23:30 • Filipa Ribeiro

O candidato presidencial acusa o adversário apoiado pela AD de dizer "disparates" e de "se perder" com o Governo. André Ventura recorda Freitas do Amaral e as Presidenciais de 1986, para assumir que quer congregar os votos da direita ao centro-direita. Sobre o sonho de ser Presidente da República, não esclarece se uma crise na Saúde seria suficiente para dissolver um Governo, ao mesmo tempo que continua focado nas edições para as redes sociais.

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André Ventura no mercado de Ourém Foto: Tiago Petinga / Lusa

A chegar ao final da primeira semana de campanha e depois de Luís Marques Mendes ser tema diário na campanha de André Ventura, o candidato presidencial não deixa dúvidas e clarifica que está a tentar agregar votos do centro-direita.

Esta quinta-feira, numa ação de campanha no mercado de Ourém, André Ventura considerou "natural" que, como candidato de um partido que "nasceu no centro direita e na direita", tente agregar os votos do seu lado político.

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A concorrer para o Palácio de Belém, Ventura recorda as eleições presidenciais de 1986 para realçar que também Freitas do Amaral o tentou fazer há 40 anos. "Quando se lidera à direita, como fez Freitas do Amaral em 86 - ele conseguiu unir todo o espectro do centro-direita até à direita mais conservadora num grande movimento", sublinhou.

André Ventura considera que "tem que ser esse movimento de congregação à direita e de liderança à direita".

Questionado pela Renascença sobre o foco que tem colocado nas críticas a Luís Marques Mendes, André Ventura diz que o faz porque o candidato apoiado pela AD só diz "disparates", mas repara que, antes, as críticas eram mais direcionadas a Gouveia e Melo quando dizia "disparates sobre imigração e nacionalidade".

André Ventura entende que Marques Mendes "não é de direita nenhuma" e clarifica que quer chegar aos 100% de eleitores do Chega convencidos e "extravasar o apoio para uma grande parte do eleitorado da AD que não se revê na candidatura de Marques Mendes".

Nesta campanha, Ventura já apelidou Luís Marques Mendes de "candidato do montenegrismo", de futura "marioneta do Governo" e tem aproveitado a crise na saúde para mencionar o "silêncio de Marques Mendes". Na outra ação desta quinta feira, em Vila de Rei, e num dia em que a campanha continuou marcada pela crise na Saúde, o candidato presidencial acusou que Marques Mendes de "tentar segurar o Governo" e de "se perder" com o executivo.

Ainda no campo dos social-democratas, que deixou há menos de dez anos, Ventura voltou a mencionar o antigo primeiro-ministro Sá Carneiro para citar a frase: "a política sem risco é uma chatice e sem ética é uma vergonha", para reforçar que mesmo apelando a outro eleitorado manter-se-á fiel aos ideais que tem defendido.

No entanto, do lado da candidatura de Luís Marques Mendes não tem chegado nem um aceno.

Ventura pedia demissão da ministra, mas não esclarece se dissolvia o Parlamento

As mortes pelo atraso no socorro estão a invadir a campanha presidencial e, no caso de André Ventura, o pedido de demissão da ministra da Saúde é constante. O candidato presidencial considera que deve haver consequências políticas e avisa, inclusive, que "se o primeiro-ministro não toma conta como deve será afetado a muito breve prazo pela incompetência".

Num dia em que ficou a ver de fora o debate quinzenal, por ser candidato à Presidência da República e ter suspendido o mandato de deputado, André Ventura vestiu a camisola de Presidente da República para dizer que, no lugar de Marcelo Rebelo de Sousa, já tinha avisado o Governo, acreditando que seria ouvido pelo Executivo no momento em que pedisse a demissão da ministra no papel de chefe de Estado.

Questionado sobre o porquê de ter tanta confiança de que não seria ignorado, Ventura defende que um primeiro-ministro não pode ignorar o que é dito por um Presidente da República e, no caso de assim ser, "era um Governo que já não merecia a confiança do povo".

Ventura quer a demissão da ministra da Saúde, acredita que seria ouvido por esperar que haja "uma boa convivência de órgão" e, se não houvesse, admite que se poderia partir para um conflito aberto. Chegado a esse ponto, o líder do Cega e candidato presidencial foi questionado se, perante um cenário de crise na saúde e de uma rejeição de um Governo em demitir determinado ministro, dissolveria o Parlamento. Na resposta, hesitou, acabando por não esclarecer o ponto, apesar da insistência de alguns jornalistas.

"André Ventura é fixe, e o resto que se lixe"

A frase surge de uma peixeira do mercado municipal de Ourém que, com um barco de madeira na cabeça, vai dançando em frente a André Ventura, gritando um slogan que surge de uma adaptação da frase que marcou a campanha de 1986 de Mário Soares. André Ventura não se mostrou importado por lhe associarem uma frase de um histórico socialista.

A ação no mercado decorreu em ritmo muito ligeiro, com breves pausas em algumas bancas. Não trouxe lista de compras, mas acabou por comprar numa banca com bijuteria uma vela. Inicialmente procurava uma vela que ardesse na noite eleitoral, mas acabou por conselho de quem lá estava a comprar uma vela com sal para afastar "o mau olhado".

Tocou na vela laranja, mas fugiu da cor que um dia já foi sua, acabando a comprar uma branca. Das senhoras do mercado levou o aviso: "às vezes, o mau olhado vem dos que estão mais próximos" e o candidato a Belém sorriu a apontar para os apoiantes que andam sempre com ele nesta campanha.

O candidato a Belém, que arrancou a pré-campanha com cartazes dedicados à comunidade cigana com direito a julgamento no Tribunal, esta quinta-feira não ganhou coragem para falar com os elementos desta comunidade que estavam a vender na feira montada no largo do mercado.

O incómodo por saberem que lá estava André Ventura era visível. À saída, o líder do Chega, bem de longe, fez um ligeiro aceno - quase despercebido - e alguns dos feirantes até gostavam que o candidato presidencial lá fosse. Uma das mulheres, acordou muito cedo para ali estar a trabalhar, diz que "não tem nada contra o André Ventura, mas lamenta que ele fosse racista" e conta que até gostava que o candidato a Belém fosse inteirar-se da vida de quem trabalha todos os dias em feiras.

Com orgulho dizem que são "ciganos". "Não temos nome, nós somos ciganos", dizem ainda transtornados pela passagem de André Ventura, mesmo que ao longe.

Também ao final do dia, em Vila de Rei, no arranque da visita a quartel dos Bombeiros Voluntários, André Ventura foi confrontado por uma jovem que lhe perguntou se podia “ser sincera” com ele. “Gostava de o ver a ir para outro país e a fazer metade do que os imigrantes fazem no nosso ”, desafiou.

Na resposta, André Ventura disse que a compreendia e afirmou que "não é contra quem vem", mas realçou a necessidade de serem cumpridas regras no caso de "quem entra" em Portugal. “Não tem a ver com ódio contra ninguém, nem discriminação. É só evitar que o país não entre nos riscos de outros como a Bélgica ou França”, defendeu.

No entanto, as explicações não mudaram a opinião da jovem, que não perdeu tempo em defender que Ventura irá piorar o país. “Eu acho que com você vai-se tornar ainda pior”, afirmou.

A campanha nas redes sociais

Nesta primeira semana, André Ventura dedicou os dias de campanha a, pelo menos, duas ações em distritos diferentes. A agenda ainda se mantém calma, no entanto, o candidato presidencial e líder do Chega continua com a produção diária de conteúdos para as redes sociais.

Publica uma média de três vídeos por dia - por vezes resumos editados das ações de campanha, outras vezes vídeos com referências a comunidades e até à corrupção.

Os vídeos que publica são sempre editados, com cortes, que mostram sobretudo momentos que troca com os apoiantes - a maioria deles desanimados com as reformas baixas e muito revoltados com a política nacional. Quase todos falam em 50 anos de corrupção e esperam em André Ventura a mudança. Os vídeos, que em média ultrapassam o meio milhão de visualizações, geram centenas de comentários de apoio ao candidato.

A edição pode, por vezes, nem sempre ser perceptível e conduzir o utilizador da rede social a ter uma ilação errada. Esta quinta-feira, no programa Hora da Verdade da Renascença e do Jornal Público, o presidente do Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC) defendeu que "não se pode generalizar e dizer que Portugal é um país de corruptos".

A Renascença, sendo André Ventura um dos agentes políticos que mais insiste no assunto, questionou o líder do Chega sobre o que Mouraz Lopes disse na entrevista: "Ele [o presidente do MENAC] diz que não se pode generalizar e dizer que Portugal é um país de corruptos. Concorda?" e, na resposta, André Ventura foi afirmativo: "Portugal é um país de corruptos".

Nas redes sociais, com o corte, a percepção é a de que é feita pela comunicação social a afirmação de que "não se pode generalizar que Portugal é um país de corruptos", mas erradamente.

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