PRESIDENCIAIS 2026

André Pestana. O professor sindicalista que quer ser Presidente da República

09 jan, 2026 - 17:10 • João Maldonado

Conhecido pelo trabalho no STOP, opõe-se ao dinheiro pago para "financiar as máquinas partidárias e os chamados boys". Quer que a idade da reforma baixe para os 62 anos com um mínimo de mil euros mensais. Diz-se de uma "nova esquerda" e entende que a verdadeira guerra é contra a "degradação dos Serviços Públicos".

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Entrevista a André Pestana, o professor sindicalista que quer ser Presidente da República
Ouça a entrevista a André Pestana

É professor, doutorado em Biologia e ficou famoso em Portugal pela liderança do STOP, o Sindicato de Todos os Profissionais de Educação. Em entrevista à Renascença garante que não está limitado ao tópico onde desenvolve a atividade sindical – já que desde que se lembra luta é figura ativa na luta contra as injustiças sociais.

Como principais bandeiras defende o fim dos apoios estatais aos partidos políticos, o estabelecimento da idade da reforma nos 62 anos e mais tempo para a família e amigos – num “horário de trabalho muito sobrecarregado”.

Deixa também críticas ao orçamento para a Defesa: “A guerra que nós devemos fazer não é contra outros povos; a guerra que nós devemos fazer é contra os baixos salários, a precariedade, a destruição ambiental, a falta de habitação digna e acessível”.

Uma entrevista Renascença para ler e ouvir.

O que o motiva a candidatar-se à Presidência da República, a dar este salto do meio sindical para o Palácio do Belém?

Tornei público que não partiu de mim. Basicamente foi um desafio que cerca de 50, até foram mais, mas 50 dirigentes sindicais e de movimentos sociais portugueses que me desafiaram, digamos assim, perante o papel que eu tive na luta dos profissionais de Educação e que conseguiu vitórias importantes para quem trabalha nas escolas. Desafiaram-me para avançar porque consideram que reúno características de uma pessoa que luta contra as injustiças e que falo de uma forma diferente, que é uma forma democrática. Porque acho que também o STOP inovou nesse sentido. Acho que certamente se reconhecerá que o STOP tem muitas diferenças em relação ao sindicalismo tradicional. Ou seja, as principais lutas são decididas democraticamente por quem trabalha nas escolas, sejam assistentes operacionais, professores, assistentes técnicos, técnicos especializados, mas também porque, por exemplo, nós somos o único sindicato da Educação que tem no estatuto, até foi a proposta minha, mandatos consecutivos finitos para os dirigentes. Aqui ninguém ficará 30 anos seguidos sem dar aulas como dirigente, nem 20, nem 10, há mandatos consecutivos finitos.


Desafiaram-me para avançar porque consideram que reúno características de uma pessoa que luta contra as injustiças e que falo de uma forma diferente, que é uma forma democrática.

Ao vir deste meio da Educação, da luta pelos profissionais deste setor, não estará demasiado restrito na sua área de conhecimentos para o cargo de Presidente da República?

Sinceramente penso que não, porque além desses dirigentes sindicais e de movimentos sociais que me fizeram o desafio serem de várias áreas — obviamente que os dirigentes da área de Educação têm um peso significativo — mas tenho desde dirigentes sindicais da área dos Transportes, movimentos sociais de Ecologia, etc. Foi de facto um setor muito amplo e muito diverso que me dirigiu e também, se me permite, o próprio meu percurso de vida, desde que me recordo como gente, como se costuma dizer, que luto contra as injustiças. Vem desde muito cedo, recordo-me no Secundário, por exemplo, ter estado nas lutas em defesa da autodeterminação do povo timorense, de ser o mais jovem estudante, apesar de ser do Secundário, que participava no núcleo da Universidade do Coimbra da Amnistia Internacional — ou seja, eu era o miúdo

É assim que eu me consigo deitar à noite, e como a minha mulher costuma dizer que eu adormeço muito rapidamente, porque de facto o mundo está tão injusto. Até se me permite esta inconfidência, quando comecei na adolescência, precisamente, a preocupar-me com o mundo, lembro-me que tinha ficado chocado na altura, porque tinha saído uma notícia, isto nos anos 90, que cerca de 270 pessoas mais ricas do mundo tinham tanta riqueza como a metade da humanidade mais pobre.

As diferenças sociais, apesar do avanço tecnológico, que permite produzir muito mais e muito mais rapidamente, e que devia permitir libertar-nos como seres humanos para termos mais tempo para estar com os nossos filhos, com os nossos amigos, com os nossos pais, doentes, muitas vezes, ou avós. Para o lazer, para o desporto, para tudo, para no fundo fazermos coisas diferentes, aprender um instrumento musical ou o que quiséssemos. Cada vez vemos mais o nosso horário de trabalho continua muito sobrecarregado. Por isso é que eu também estive e estou contra esta reforma laboral, porque quer agudizar ainda mais e aprofundar ainda mais, por exemplo, permitindo jornadas de trabalho semanais até 50 horas. Imagino o que é para quem tem um filho, seja um pai ou uma mãe, para ir buscar à escola, a alteração que isso implica.

Tem sempre dito que a ganância é um dos maiores problemas da sociedade.

Há dinheiro, ao contrário de como nos têm dito há muitos anos, há dinheiro para todos em Portugal trabalharmos e vivermos com dignidade, mas para isso é preciso enfrentar poderosos interesses e eu aponto quais são. Por exemplo, a questão dos banqueiros. Se no passado, em 2008, socializámos o prejuízo deles, agora pelo menos grande parte deste grande lucro não devia ser socializado para melhorar, por exemplo, uma das principais propostas que eu tenho, para diminuir a idade de reforma após 62 anos. Para termos tempo para viver — aposentação muito antes de caixão. Para termos uma reforma mínima de mil euros para dar dignidade a todos os nossos idosos.

Como também fui o único que disse que os milhões que o governo aceitou por imposição da NATO e de Donald Trump, para a NATO, que é passarmos a gastar 5% do nosso PIB, que será cerca de 15 mil milhões de euros, mais do triplo do que o ano passado gastámos em Defesa. Para quê? Para alimentar uma indústria, sobretudo dos Estados Unidos, que além de ser extremamente poluidora, também, já agora se me permite, a questão das alterações climáticas que vai pôr em casa o nosso presente e o futuro dos nossos jovens, dos nossos filhos, dos nossos netos. E por isso é que eu digo não, esse dinheiro não é para aí.

A guerra que nós devemos fazer não é contra outros povos. A guerra que nós devemos fazer é contra os baixos salários, as baixas reformas, a precariedade, a destruição ambiental, a falta de habitação digna e acessível. A degradação dos serviços públicos, Saúde, Educação, essa é que é a nossa guerra e é isso que eu quero dar o meu contributo, se eu for eleito Presidente da República.

É também contra os apoios estatais aos partidos. Acha que deveriam acabar?

Sim, porque esse dinheiro é sobretudo para alimentar as máquinas partidárias, os chamados “boys” partidários ou para encher este país de “outdoors”. Se um partido quer ter a sua máquina partidária, aqueles “boys” partidários, tem que ser com o dinheiro dos seus militantes, não tem que ser com os impostos da senhora que tem um pequeno comércio, ou do operário que farta-se de trabalhar.

Não é com o dinheiro desses impostos que os partidos devem pagar os seus “boys” partidários. Se querem ter, têm todo o direito, mas que seja com o dinheiro dos seus militantes, não com o dinheiro do Estado, dos nossos impostos, e também não com o dinheiro das empresas.

Em que lado do espectro político é que se coloca?

Quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa naturalmente de esquerda, o que eu não gosto é ser confundido com a esquerda que o senso comum associa. E qual é que normalmente é essa esquerda? É a esquerda que está associada ao antigo Bloco de Leste, regimes ditatoriais de partido único.

Nunca concordei, mesmo quando há muito, muito tempo da minha juventude estive na JCP, saí precisamente porque discordava desse apoio aos regimes. E também não quero ser conotado com a esquerda que também muita gente associa ao Partido Socialista, ou mesmo à Geringonça, que desiludiu muita gente.

Nesse sentido, o que eu posso representar é uma esquerda nova, completamente diferente da que nós temos tido, uma esquerda que acredita sobretudo no poder da mobilização das pessoas.


Se um partido quer ter a sua máquina partidária, aqueles “boys” partidários, tem que ser com o dinheiro dos seus militantes, não tem que ser com os impostos da senhora que tem um pequeno comércio, ou do operário que farta-se de trabalhar.

Quanto aos custos de campanha, como é que vai pagar?

Isso também é muito simples e muito transparente. Somos uma candidatura independente, que não tem apoio de empresas, seja de quem for, e por isso apelamos a donativos, e temos uma estimativa, que é quase risível, de 7.200 euros.

Em termos de expectativa para esta primeira volta, o que é que seria um bom resultado para o candidato André Pestana?

Eu acho que, acima de tudo, é sentir que as pessoas começaram a abrir a pestana, começaram a perceber que, de facto, este país tem muito dinheiro, só que está muito mal distribuído. E, por isso, é que há milhões de portugueses que dão o seu melhor diariamente, mas sentem que a sua vida não tem dignidade, mesmo às vezes, quando têm melhor salário estão sugados por trabalhos e atrás de horas e mais horas extraordinárias, que, às vezes, nem se paga como horas extraordinárias.

Não vem aqui nenhum Dom Sebastião, não vem aqui nenhum Salvador, que eu também não sou, sempre disse isso também no STOP. Quero é, se as pessoas confiarem em mim, poder ajudar a que as pessoas acreditem nelas próprias, na sua força coletiva e isso pode mudar o mundo para o bem.

5% seria uma grande vitória para esta candidatura?

Bem, se for 5%, eu venho aqui a fazer a entrevista que quiser, o número de vezes que quiser.

Se tivéssemos André Pestana como Presidente da República, poderíamos esperar manifestações organizadas pela Presidência contra medidas do Governo?

Não, porque mesmo na questão do STOP, mesmo a greve mais conhecida, a greve por tempo indeterminado, essa forma de luta, não foi proposta do André Pestana. Nós sufragámos e foi a vontade da maioria, na altura, quando começou a greve eram só professores. Por isso é que a partir de janeiro de 2023, passou para assistentes operacionais, assistentes técnicos, técnicos superiores.

E por isso é que é muito simples, eu estarei ao lado das lutas que naturalmente surgirem, mas sabem que terão um Presidente ao seu lado, coisa que nunca tem acontecido nos últimos anos. Tem que haver uma mudança, é hora de abrir a pestana.

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