09 jan, 2026 - 21:11 • João Maldonado
Cinco e meia da tarde. Ligeiramente depois da hora marcada arranca o Laboratório Mulheres e Saúde. Um espaço criado pela candidatura de Catarina Martins para, neste caso, debater o setor da Saúde e como se tem relacionado com o mundo feminino. O objetivo é que seja um laboratório de ideias. Um colóquio organizado no âmbito desta candidatura, com o intuito de ser extensível à Presidência da República.
São convidadas a falar duas mulheres, mas nenhuma diretamente ligada à área em debate. “Trago esta ideia que na Democracia todos falamos sobre o que nos importa”, justifica ab initio, tomando o microfone, a candidata. Estão cerca de 30 pessoas a assistir na sala da Escola Secundária Camões, junto ao Saldanha, em Lisboa.
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“É preciso, de uma vez por todas, que se compreenda a complexidade fisiológica da mulher e que seja integrada na Medicina”, sublinha a ativista Ana Coucello, criticando a discriminação que sente, “que não pode ser comunicada com slogans”, num “sistema patriarcal” que “sempre considerou que a condição de ser mulher se reduzia à capacidade reprodutora, à atratividade sexual e à função cuidadora”.
Segue-se Cristina Mesquita de Oliveira, fundadora da Associação de Menopausa. “Porque é que temas como a menopausa ficaram tanto tempo fora do olhar clínico e político?” Questiona, terminando a apelar para que todos pensem neste tópico “como parte integrante da nossa vida”.
É esta a moldura que envolve a discussão. Catarina Martins puxa dos galões para dizer que “é preciso que a Democracia seja paritária”, de forma real, porque estes problemas, entende, não são apenas das mulheres, mas também dos homens.
“Na União Europeia tenho trabalhado com um grupo de mulheres que querem que haja aqui no espaço europeu uma estratégia para a defesa da Saúde das mulheres. Falamos bastante com a Agência Europeia dos Medicamentos, que nos explicou que agora as mulheres já estão representadas em 30% do que é feito nas farmacêuticas. As mulheres não são estáveis a nível hormonal, têm ciclos. O que as farmacêuticas acharam é que era melhor ter medicamentos para pessoas com mais estabilidade hormonal, mesmo que essas pessoas não existam”, explicou a candidata, em tom severo perante a indústria farmacêutica.
Abre-se um espaço para que o público possa fazer questões, mas, restando pouco tempo, é rapidamente interrompido. E para o final estavam guardadas as palavras de Catarina Martins diretamente para os jornalistas escutarem com redobrada atenção.
Esta candidatura, diz, não acredita na moderação como forma de mudar o país. É preciso ir mais além para que o estado das coisas se altere. “E o que é esta moderação? É aceitarmos que mulheres com enorme formação recebam pouco mais do que o salário mínimo? Não vamos continuar à esperar por uma promessa de igualdade que nunca mais chega. Proponho que contra a moderação que significa deixar tudo exatamente na mesma, haja a política da exigência de construir um país melhor, e de termos mesmo a Democracia paritária, essa democracia em que as mulheres também decidem sobre a vida.”
Para esta política da exigência, é necessário, defende a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, combater tabus, num novo modus operandi que reforce a Democracia, saindo do “debate institucional em que se discutem cartas e Conselhos de Estado para podermos ouvir as pessoas”.
Dada a bicada num tempo em que João Cotrim de Figueiredo escreveu uma carta a jurar fidelidade ao Governo se for eleito Presidente da República e numa altura em que ainda reunia o órgão de aconselhamento de Marcelo Rebelo de Sousa, Catarina Martins propõe: “A radicalidade, ou se quiserem a exigência, de dizer que a qualificação tem ser respeitada, que não vamos continuar a esperar por uma promessa de igualdade que nunca mais chega – porque queremos a igualdade agora e no tempo das nossas vidas.”
Foi em palmas e perante estas palavras que cerca de hora e meia depois o laboratório proposto terminou.