09 jan, 2026 - 00:59 • Alexandre Abrantes Neves , Isabel Pacheco
Está aberta a guerra ao eleitorado tradicional da AD nas eleições presidenciais. Depois dos ataques de Marques Mendes de que estaria a “dividir o centro-direita” e de o colocar no grupo de candidatos que se dedicam à “instabilidade”, Cotrim de Figueiredo decidiu subir a parada: deixou as simples declarações onde se compara ao espírito reformista do Governo e escreveu uma missiva a Luís Montenegro, onde se assume como um “aliado construtivo” para resolver os problemas do país.
“Dirigi hoje [quinta-feira] uma carta ao Senhor primeiro-ministro em que me comprometo a ser um aliado do Governo e a fornecer os respetivos respaldos políticos, se o Governo optar decididamente e corajosamente por introduzir mudanças substantivas, reformas se quiserem chamar-lhe assim, em três áreas”, anunciou o eurodeputado, num jantar em Vila Nova de Gaia.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Os temas foram selecionados a dedo: primeiro a economia, para acabar com os “salários inaceitavelmente baixos”; depois uma reforma profunda na segurança social para garantir pensões justas sem hipotecar os mais jovens; e ainda a saúde, o tema do momento e que Cotrim de Figueiredo tem aproveitado para tentar mostrar que é o “candidato da esperança”, que saiu da esfera liberal e já fala dos temas sociais.
“Isto tem que ter solução e quero encorajar o Governo a fazê-lo”, vincou, pedindo um sistema que funcione para todos.
Presidenciais 2026
Marques Mendes criticou o título do jornal Express(...)
A mudança de discurso da tarde para a noite é notória – em Vagos, Cotrim de Figueiredo lamentou a resposta “tardia” do Governo ao anunciar a compra de mais ambulâncias e voltou a atirar contra a ministra da Saúde, afirmando que Ana Paula Martins não “terá condições políticas para continuar” se se confirmar que não renovou o reforço inicial de ambulâncias para o inverno.
Depois de apontar o dedo forte ao governo, Cotrim teria de dar um passo atrás e aprimorar a cartada “reformista”, sob pena de perder o eleitorado mais fiel a Luís Montenegro para Marques Mendes, que esta noite voltou a colocar a mira no também eurodeputado em Torres Novas.
“Num país como o nosso, um Presidente da República tem de estar profundamente empenhado na justiça social, não pode ser um Presidente como o candidato da IL. Não é uma crítica, é uma constatação.”
Já de manhã, após a visita a uma fábrica de velas e cosméticos em Mira D’Aire (a primeira empresa desta campanha), Cotrim de Figueiredo já tinha falado de Marques Mendes, dizendo quase nas entrelinhas que se alguém do centro-direita não passar à segunda volta será culpa do candidato apoiado pela AD e não da sua candidatura.
“Quem é que está a fazer a divisão do espaço não socialista? Não se está a enganar? Não sei, as últimas sondagens que eu conheço dão-no atrás de mim. Não sei quem é que está a dividir o quê”, afirmou Cotrim, em resposta a Marques Mendes que, na noite de quarta-feira, o acusou de dividir o “centro-direita”.
O ataque a Marques Mendes expande-se também à restante caravana do antigo comentador televisivo – nesta quarta-feira, o exemplo máximo disso foi o momento em que Cotrim não reagiu diretamente às acusações de Hugo Soares que anda a “brincar às eleições”, preferindo apenas classificar o líder parlamentar do PSD como um “apoiante fervoroso”.
A estratégia da IL parece ser a de desenhar uma campanha quase nos antípodas de Marques Mendes. Enquanto o candidato apoiado pela AD já andou pela rua a falar com o povo, Cotrim prefere iniciativas mais controladas e dedicadas a certos eleitorados. Em parte, a decisão parece ajudar a reunir votos mais difíceis (como os idosos, onde o PSD é mais popular), mas também a garantir que os bons números das sondagens não saem beliscados pelo risco de um mercado ou feira.
Além disso, e ao contrário de Mendes, a comitiva de Cotrim (excluindo o evento em Lisboa no domingo) não tem contado com grandes nomes da Iniciativa Liberal (IL), seja a líder Mariana Leitão ou deputados. Isso ajuda tanto na meta de descolar da IL (e chegar a outros eleitorados, do interior, de maior idade e mais preocupados com questões sociais), como na narrativa de que a caravana do candidato da AD está “desesperada” – isso mesmo disse Cotrim na última segunda-feira, sobre a aparição de Luís Montenegro logo no primeiro dia de campanha.
Presidenciais 2026
No quarto lar de idosos, Cotrim de Figueiredo soco(...)
O sonho é a segunda volta e Cotrim de Figueiredo parece estar atento a todos os sinais. Fora Marques Mendes, o candidato apoiado pela IL raramente se lança aos restantes adversários, mas esta quinta-feira não deixou passar ileso André Ventura e o objetivo do presidente do Chega em limpar tudo o que vai da direita ao centro-direita. “Um voto em Ventura é um voto em Seguro”, afirmou Cotrim no jantar desta noite em Vila Nova de Gaia.
Os olhos estão bem abertos e Cotrim vai deixando pistas: e, embora ainda não tenha assumido o discurso de querer a vitória nas presidenciais, tem aproveitado a atualidade para revelar a postura que pretende adotar se for Presidente da República.
Isso mesmo acontece com os recentes casos na saúde, onde o candidato apoiado pela IL não dá ponto sem nó – a cada comentário que faz, lança-se para a frente, dizendo como reagiria e pressionaria o primeiro-ministro se fosse dono da cadeira em Belém.
“Seja qual for a pressão que está a ser feita, não está a ser suficiente, porque os casos sucedem-se, os problemas não se resolvem. Há um fator de incómodo, de pressão que o Presidente da República – e quanto mais conhecimento técnico e capacidade de discutir os assuntos tiver, melhor – pode ter junto o Governo, para se tornar o tal maçador e persistente que obriga os Governos a tomarem posição”, afirmou Cotrim de Figueiredo, depois de uma visita a uma associação sénior em Vagos onde defendeu também que o chefe do Estado deve ser um “chato de morte” perante o executivo.
A entrevista da Renascença ao presidente do Mecanismo Nacional Anti-Corrupção (MENAC) valeu-lhe também para partilhar as preocupações com a transparência no setor de defesa, agora que vai chegar um grande envelope financeiro de Bruxelas.
“Sempre que há um projeto ou investimento que, por motivos de urgência ou de complexidade, não é compaginável com a contratação pública e que, portanto, exige a adoção de um modelo de ajustes diretos, devem, em minha opinião, sempre ser estabelecidos mecanismos alternativos de verificação da transparência”, resumiu.