12 jan, 2026 - 21:57 • Alexandre Abrantes Neves
Quando Cotrim de Figueiredo disse este domingo no mercado de Setúbal que não ia “perder o momentum” desta campanha que estava do seu lado, jamais imaginava que, pouco mais de 24 horas depois, ia ver o voo em crescendo nas sondagens ser abalado por forte turbulência, vinda de dentro e fora dos partidos políticos.
Um dia após reforçar o segundo lugar na sondagem da Pitagórica para a TVI, TSF e JN, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL) viu-se a braços com uma acusação de assédio sexual que já veio ofuscar outra polémica, quando de manhã admitiu apoiar André Ventura numa eventual segunda volta onde não participe.
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Eis o relato do dia que abanou a candidatura que estava a surpreender nestas presidenciais – e que, apesar da controvérsia, vinca o pé e diz que “não desiste” de chegar à segunda volta.
Ninguém pensou que pudesse ser premonição, mas o dia dedicado a Castelo Branco até começou mais morno do que o habitual. Pelas 9h00, a chuva dificultava a mobilização de eleitorado da IL no Fundão, a terra natal de Liliana Reis, a número dois que Cotrim escolheu (e militante do PSD) para o acompanhar na segunda semana de campanha.
Já dentro do mercado, o candidato ouviu todo o tipo de palavras de apoio, desde feirantes que o trataram por “meu amigo” até quem se queixou da “doença Cotrim”, que lhe afetava os filhos, tal era o entusiasmo do apoio ao ex-líder da IL.
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Até que ponto um eventual apoio a André Ventura nu(...)
O entusiasmo entre as bancas de frutas e legumes (o terceiro mercado em três dias) deu-lhe o balanço para, em declarações aos jornalistas, vincar mais uma vez que há muitos sinais de que vai chegar à segunda volta – e nem os ataques dos adversários o demovem.
“A ideia que me ocorre é pôr todas essas acusações numa t-shirt e usá-la com orgulho”, afirmou sobre as etiquetas que já recebeu, como “tio de Cascais”. “Esqueceram-se de olhar para mim, esqueceram-se de que, quando eu digo que tenho possibilidade de tirar a segunda volta, é porque acho mesmo que tenho e deviam ter levado isso a sério. Acordaram agora, estão um bocadinho desorientados”, considerou.
Daí para a frente, Cotrim não voltou a conseguir firmar a narrativa de uma campanha positiva e a crescer. O primeiro momento tenso do dia viria pelas 10h00 da manhã quando, questionado sobre os apoios que manifestaria numa eventual segunda volta entre António José Seguro e André Ventura, Cotrim foi perentório a responder: não exclui nenhuma hipótese.
“Não excluo qualquer candidato, mas teria de fazer uma reflexão profunda sobre que candidatos vamos estar a falar", assinalou. "O André Ventura dos últimos quatro dias eu ainda não conheci, quer dizer que se mudou o discurso e parece… um político diferente. Teria de fazer uma reflexão, não excluo ninguém”, adiantou, apesar de no início da campanha ter afirmado várias vezes: “Todos, menos Ventura”:
O tiro demorou a ser corrigido. Às 12h30, já numa fábrica em Castelo Branco, pouco ou nada adiantou. Disse apenas que mantinha a postura, que incluía tanto Ventura, como Manuel João Vieira ou António José Seguro. Questionado pela Renascença, não especificou a razão para mudar a visão sobre o presidente do Chega.
“Não mudou absolutamente nada. Agora há uma convicção que a dinâmica de campanha me obriga a ponderar profundamente aquilo que vai ser o cenário na segunda-feira", disse.
As críticas de Marques Mendes (que falou num voto “inútil” em Cotrim e que afirmou que o próprio se punha de fora da corrida presidencial) e o aparente medo de vir a perder eleitorado da AD e de Seguro, que tenha sido conquistado nas últimas semanas, fizeram Cotrim perceber o risco de dar um passo em falso. Por isso, e nas redes sociais, veio assumir que foi “pouco claro” e sugerir que, afinal, a expressão “não excluo” não era a mais alinhada com aquilo que pensa.
“Eu disse que votaria André Ventura? Não disse. Fui pouco claro, assumo. Eu gosto sempre de responder às perguntas dos jornalistas. O que eu disse é que não me comprometia com o apoio a nenhum candidato na segunda volta. É óbvio que não quero André Ventura como Presidente da República. Eu acredito que quem vai à segunda volta somos nós", sublinhou num vídeo no Instagram.
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Funcionária, que esteve com a Iniciativa Liberal n(...)
Cotrim admite que as palavras foram para lá daquilo que queria dizer, mas a estratégia continua nas entrelinhas. Depois de dois dias em segundo lugar nas sondagens a captar eleitorado de Seguro e Mendes, o antigo líder da IL deu um passo em frente na estratégia para piscar o olho à única franja de eleitorado que lhe restava: os que ainda podem estar indecisos no voto para Ventura.
“Um voto em Ventura é um voto em Seguro”, afirmou, várias vezes esta campanha, chegando até a dar a entender que uma segunda volta entre ele e Seguro seria a mais interessante para o país. “Teria a maior clivagem ideológica”.
A confusão com as declarações de Ventura foram da exclusiva responsabilidade de Cotrim e da sua equipa, mas o dia horribilis de Cotrim de Figueiredo não ficaria por aqui. O tema da manhã acabou ofuscado por outra polémica que começou a cozinhar em lume brando ainda este domingo e que levantou em chama alta na tarde de segunda-feira: uma denúncia de assédio sexual, que começou a circular nas redes sociais.
A Renascença já confirmou, junto de duas fontes de diferentes partidos políticos, que a publicação em causa foi postada este domingo num grupo restrito de amigos chegados na rede social Instagram, cuja composição e número de membros é desconhecido.
Segundo a denunciante (já contactada pela Renascença, mas sem resposta), o assédio terá ocorrido em contexto de trabalho na Assembleia da República, onde foi assessora do grupo parlamentar da IL até 2023: refere que havia elogios ao seu trabalho, mas que eram sempre acompanhados de investidas sexuais, nunca recíprocas. Por isso mesmo, diz “não suportar a ideia” de ver Cotrim e outros quatro membros da IL em Belém.
Pelas 16h40, quando chegou à Covilhã para uma visita a um centro de investigação da Universidade da Beira Interior, Cotrim mostrava-se “sorridente”, mas o ambiente mudou quando a comitiva se apercebeu de que a fotografia com a denúncia já circulava entre jornalistas.
Ao nervosismo dos assessores (que se pregaram ao telemóvel e nem acompanharam a visita) juntou-se a irritação de Cotrim de Figueiredo, no momento de prestar declarações, pelas 17h40.
“É absolutamente e completamente falso o que essa senhora pôs a circular e vai ser obviamente objeto de processo por difamação”, começou por afirmar, com a voz já titubeante e a ansiedade a mostrar-se no papel que ia passando de uma mão para a outra.
“Perguntem a qualquer uma das dezenas de mulheres que trabalharam comigo ao longo destes anos se alguma tem razão de queixa – incluindo as mulheres que trabalharam comigo na mesma altura dessa senhora”, já com um tom mais elevado.
Cotrim só demorou três minutos a virar costas aos jornalistas e a não responder mais, mas ainda houve tempo para dizer que não desiste.
“Por causa de uma alegação falsa seria absolutamente estúpido [desistir]. Não, irei até ao fim para apurar exatamente porque é que esta mentira apareceu”, afirmou, acrescentando depois que nada disto põe em causa a bandeira da transparência que tem puxado desde o início da campanha: "Se tem uma vida absolutamente impoluta e transparente e, de repente, aparece uma mentira que abala isso, seria muito, muito, muito grave", frisou.
Rodeado por vários membros e apoiantes da sua candidatura, Cotrim incluiu o caso no mesmo pacote do episódio da manhã: a “política suja”, que surge numa altura em que está a “crescer”, mas que “não vão amedrontar” a sua candidatura. Questionado pela Renascença sobre a quem se referia, chutou para a comunicação social: “Gostavam muito de saber. Descubram vocês. Era um bom trabalho”, atirou.