Presidenciais 2026

Sondagens nas presidenciais. Tracking poll “não diz quem está à frente, mostra quem se mantém forte”

13 jan, 2026 - 06:30 • Diogo Camilo

É o único barómetro a ser divulgado nas últimas semanas. Mas será que as sondagens publicadas diariamente podem ser encaradas como uma fotografia fiel da campanha presidencial? Especialistas defendem que a tracking poll da Pitagórica é um "filme" que apenas revela tendências - como a "bola de neve" de Marques Mendes ou Seguro a captar o voto útil à esquerda - e não resultados absolutos.

A+ / A-
As sondagens dizem mesmo quem vai ganhar as Presidenciais?
Veja o vídeo. "A única coisa que a tracking poll dá é tendências. Mais nada. É um instrumento que sacrifica a precisão diária para ganhar continuidade", diz Paulo Alexandre Pereira. Imagem: Rodrigo Machado/RR

As sondagens têm sido um dos pontos centrais do discurso político da campanha presidencial para as eleições deste domingo, mas nas últimas três semanas apenas uma empresa de sondagens tem divulgado barómetros, neste caso a Pitagórica com a sua tracking poll, atualizada diariamente e publicada na TVI, CNN Portugal, Jornal de Notícias e TSF.

Estarão os candidatos — e os comentadores políticos — a retirar das diferentes versões desta tracking poll mais do que a própria revela? E de que maneira pode estar a influenciar o voto e a favorecer o voto útil?

Para Paulo Alexandre Pereira, professor do Departamento de Matemática da Escola de Ciências da Universidade do Minho, este tipo de inquéritos são um "filme" e não devem ser confundidos com sondagens diárias independentes, que são uma "fotografia".

"A única coisa que a tracking poll dá é tendências. Mais nada. É um instrumento que sacrifica a precisão diária para ganhar continuidade. Não diz quem é que está à frente hoje, diz quem se mantém forte ao longo do tempo. Se quisermos saber como está o país num determinado dia específico, é a fotografia, usamos uma sondagem. Mas se quisermos perceber tendências na campanha, se está a mexer ou não está a mexer, usamos a tracking poll", afirma.

Já Henrique Oliveira, professor do Departamento de Matemática e coordenador do agregador de sondagens do Instituto Superior Técnico, considera que a tracking poll é uma "ferramenta útil", desde que a metodologia não tenha "erros sistemáticos":

"Podemos estar a ver uma fotografia que não está a acertar o alvo, mas está a acertar um bocadinho ao lado", explica à Renascença, defendendo que são necessárias outras sondagens para conferir os resultados a que estamos a assistir, mas ressalvando que não está em causa um "erro de qualidade" da tracking poll.

O que diz a tracking poll? Tudo e nada

A última atualização, feita esta segunda-feira, mostrava António José Seguro com 20%, seguido de João Cotrim de Figueiredo, com 18,4%. Mas atenção.

O investigador da Universidade do Minho, que tem divulgado análises aos primeiros dias do barómetro da Pitagórica, alerta à Renascença que o que estamos a ver não são "sondagens novas", já que a cada dia apenas uma fração (cerca de 200 inquiridos) é renovada, e que não é possível retirar vencedores e vencidos a partir de uma amostra tão reduzida.

"Do meu ponto de vista, continuam todos em empate técnico", diz Paulo Alexandre Pereira, explicando que a diferença entre quem tem mais intenções de voto (na última atualização é António José Seguro, com 20%) e quem está no quinto lugar (Luís Marques Mendes, com 12,2%) é "bem menor que o número de indecisos", o que abre a corrida a qualquer dos cinco candidatos na frente da tracking poll.

Henrique Oliveira tem a mesma opinião, considerando que "tem peso" se houver "subidas muito significativas ao longo de muitos dias". "Mas se houver apenas flutuações pouco relevantes, ou seja, que não saem da margem de erro ao longo deste tempo todo, isso não é relevante."

Desde o início da divulgação da tracking poll, quatro dos cinco candidatos da frente permaneceram em empate técnico e apenas um está agora fora - Marques Mendes, que pode voltar a entrar na corrida com os votos dos indecisos.

A somar a esta percentagem de indecisos, que está nos 11,2%, há ainda a margem de erro de 4,06% - para cima e para baixo - e um grau de confiança de 95,5% - o que significa que, em cada 20 sondagens, cerca de 19 sondagens estão corretas e uma está errada, semelhante ao de muitas sondagens.

Contactada pela Renascença, a Pitagórica não quis prestar declarações. A Renascença requisitou ainda os relatórios das três vagas da tracking poll, mas não obteve resposta.

Então, o que podemos retirar da tracking poll? Que a percentagem de indecisos permanece inalterada há três dias e que isso significa que as flutuações estão a acontecer entre candidatos. Gouveia e Melo tem uma tendência de descida, enquanto Marques Mendes mostra uma queda prolongada há mais de três dias - o que torna menos provável que seja apenas ruído estatístico.

Ainda assim, é cedo ainda para definir a ordem pela qual estão ordenados os candidatos nas intenções de voto, principalmente na luta entre Seguro, Ventura e Cotrim.

As sondagens podem influenciar o voto?

Para Henrique Oliveira, é certo que a divulgação de sondagens pode beneficiar ou prejudicar certos candidatos. Só não se sabe exatamente como.

E o matemático dá o exemplo de Luís Marques Mendes, que está em queda nas sondagens e mostra uma "dinâmica mais de derrota".

"Um candidato que está a perder votos numa sondagem começa a desmoralizar a sua massa de apoio. A sondagem interfere inapelavelmente no sistema e pode até ter um efeito bola de neve. Marques Mendes começou a descer nas sondagens a partir do momento em que teve o debate com Gouveia e Melo. Começou a admitir que já não ia à segunda volta. Começou a estar mais desanimado. E esses apoiantes vão procurar o voto útil em candidatos na mesma área política", explica.

Para Henrique Oliveira, o maior beneficiado com isto foi Cotrim de Figueiredo, que cresce à mesma medida que Marques Mendes cai, com a tracking poll a "alimentar" este efeito, que já não esconde uma "dinâmica de descida muito grande" do candidato apoiado pelo PSD, acima da própria margem de erro.

Do outro lado, à esquerda, António José Seguro aproveita o voto útil e tem crescido nas intenções de voto, à mesma medida que os candidatos de esquerda têm encolhido na tracking poll da Pitagórica. "As candidaturas de António Filipe, mas, sobretudo, Catarina Martins e Jorge Pinto, têm diminuído expressivamente", considera.

O matemático do IST conclui assim que, neste momento, a probabilidade de Seguro chegar à segunda volta é de 92,1%, enquanto a de Cotrim é de 79,1%. André Ventura tem 23,5% e Gouveia e Melo apenas 5,3%, tendo em conta os mais recentes resultados. Ainda assim, ressalva que esta terça-feira serão divulgadas duas sondagens "muito importantes" e que vão "confirmar ou não estes efeitos".

Já Paulo Alexandre Pereira conclui que sondagens e tracking polls "podem sempre influenciar pela positiva ou pela negativa".

"Vamos imaginar que eu hoje estou indeciso em utilizar o meu voto útil para um determinado candidato. As pessoas podem olhar para as sondagens e dizer, olha, o meu voto já não é necessário, ou se calhar pode ser exatamente o contrário, o voto agora é mais necessário do que nunca para ver se aquele não vai lá", explica.

O matemático alerta ainda para "erros de comunicação" que possam levar os leitores a pensarem que se tratam de várias sondagens diárias.

"As pessoas acabam por se agarrar àquilo que existe e muitas vezes os próprios jornalistas olham para aquilo quase como 'quem é que vai à frente e quem é que vai atrás', quando o que importa realmente é ver a tendência, se há uma tendência de subida, se há uma tendência de manter", considera o investigador da Universidade do Minho.

Sondagens podiam ter mudado o desfecho de 1986?

E olhando para o cenário de presidenciais mais disputadas que Portugal já observou, uma maior divulgação das sondagens teria que efeito?

Para Henrique Oliveira, e tendo em conta a dinâmica de crescimento, Mário Soares talvez tivesse passado de maneira "mais confortável" à segunda volta das presidenciais de 1986.

"Havendo uma dinâmica de crescimento nas sondagens de dia para dia, isso vai estimular o crescimento dos seus apoiantes em detrimento dos outros que vão ficando mais desanimados. Quando temos eleições com segunda volta e só passam dois, o efeito de voto útil é altamente significativo", afirma.

O matemático do IST indica ainda que o leque "muito amplo" destas eleições se irá cristalizar até ao próximo domingo, com o voto útil a eliminar alguns candidatos.

O investigador lembra ainda o efeito André Ventura, com o Chega e ele próprio a terem vindo a ser subvalorizados em eleições anteriores - numa reedição do efeito do conservador tímido, lembrando John Major que chegou a primeiro-ministro no Reino Unido em 1992.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+