Presidenciais 2026

A tentar fechar polémicas, o "day after" de Cotrim trouxe apelos ao voto útil e um "mea culpa"

14 jan, 2026 - 00:12 • Alexandre Abrantes Neves

Disse que jamais o faria, mas a necessidade de afastar as polémicas e as sondagens a colocá-lo de fora da segunda volta fizeram Cotrim enveredar pela cartada do voto útil. O candidato tenta a todo o custo ultrapassar o que disse sobre um eventual apoio a André Ventura na segunda volta - mas a IL está atenta e há quem admita "danos severos".

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Para dar o passo em frente que precisava, Cotrim de Figueiredo teve de recuar e corrigir o que disse várias vezes desde o início da campanha presidencial: que “nunca o iriam ver” a fazer um apelo ao voto útil.

“Um voto em Marques Mendes ou em Gouveia e Melo já não conta, porque não têm hipótese de chegar à segunda volta. Por outro lado, um voto em André Ventura garante que António José Seguro do Partido Socialista é eleito. Só sobra um voto útil para o futuro de Portugal. É Cotrim”, afirmou, convictamente, na noite desta terça-feira num jantar comício com cerca de 250 apoiantes em Coimbra.

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As sondagens que o colocam em terceiro lugar (mas a apenas quatro pontos de uma segunda volta) e a necessidade de conter as polémicas dos últimos dias podem explicar o apelo. Cotrim, no entanto, prefere puxar de uma panóplia de argumentos, que foram desde referências breves às polémicas dos últimos dias (“é um voto que não desmoraliza com ataques e campanhas rasteiras”) até ao puro e simples cálculo eleitoral: “É útil porque coloca Portugal à Frente”.

A referência é subliminar, mas não é de pouca importância: em 2015, a coligação PSD/CDS-PP liderada por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas chamava-se precisamente “Portugal à Frente” e esse é o eleitorado que mais interessa a Cotrim.

“A sondagem da Universidade Católica [para a RTP], que acabou de sair, comprova isso mesmo: continuamos a crescer. E comprova outra coisa: Marques Mendes já está fora da corrida”, afirmou, em mais uma investida de garantir um assalto ao eleitorado da AD que, acredita Cotrim, explica muito do quinto lugar de Mendes nas sondagens.

E, entre os apelos ao voto útil, Cotrim de Figueiredo vai misturando (ainda que intercalados) a ofensiva à campanha de Mendes com as referências à turbulência dos últimos dois dias. Enquanto diz ironicamente aos adversários para “trabalharem melhor” para segurar votos e pede aos eleitores para “não se deixarem condicionar”, o antigo líder da Iniciativa Liberal também garante que não se verga perante “ataques pessoais” e a “política suja”.

É a continuação da narrativa dos últimos dias, que se resume no momento mais emotivo que o candidato precisava para afastar a ideia de que ficou abalado pela turbulência desde segunda-feira.

“Tenho de vos dizer que estes últimos dias não foram fáceis. Não o escondo, mas os que julgam que me conseguem desmoralizar com estes ataques vis e esta campanha suja, desenganem-se”, garantiu “Aqui estou, aqui estou, de pé, inteiro, pronto para lutar, pronto para fazermos história juntos”. E a sala levantou-se em palmas.

IL está atenta

A mudança de estratégia sobre o voto útil não é inocente, nem isolada. Cotrim acelerou e quis passar para a última fase da campanha, com apelos cada vez mais claros e intensos ao voto – a ideia é deixar os temas problemáticos para trás e deixá-los serem esquecidos na espuma da atualidade e da restante campanha.

Já de manhã, e sobre a denúncia de assédio sexual, Cotrim (também amparado pelas parcas reações dos adversários) foi sintético e conclusivo. Falou num tema que é “doloroso”; voltou a levantar suspeitas de influência política, mas sem esclarecer (recusando tornar o problema numa “questão política”); sobre a denunciante trabalhar para um gabinete do Governo, mostrou-se apenas preocupado por uma funcionária do executivo “publicar mentiras”; e adiantou que quer apresentar queixa-crime por difamação ainda durante a campanha eleitoral.

A carta de apoio assinada por 30 mulheres foi divulgada para gerir danos e tentar afastar a nuvem cinzenta que pairava sob a reputação do candidato, mas nas entrelinhas acabou a resolver outro problema: a posição da Iniciativa Liberal sobre o tema, numa altura em que já passaram mais de 24 horas e é cada vez mais improvável que a direção do partido se pronuncie publicamente.

“Enquanto presidente do partido, não gostaria de ser uma das signatárias [da carta], por motivos que eu entendo. Não querer estar no rol de assinatura de pessoas que trabalharam comigo, mas não foram meus superiores. Registo apenas que recebi uma chamada bastante calorosa, bastante enfática da parte da Mariana Leitão”, afirmou, após uma visita a um lar de idosos em Viseu.

Apesar de admitir que as polémicas podem dificultar a passagem a uma segunda volta, Cotrim diz-se determinado a “transformar a revolta em força” – e também em colocar uma pedra sobre o assunto André Ventura e o pé que colocou em falso a admitir que o podia apoiar numa eventual segunda volta.

“Eu não queria abrir a porta e porque é que eu fiz aquelas declarações, eu próprio gostava muito de perceber. Não consigo explicar o que é que me passou pela cabeça”, admitiu, palavras que foram aproveitadas pelos adversários.

Depois de esclarecer que não pretendia qualquer jogada estratégica para pescar em águas do Chega, Cotrim deixou o “mea culpa”.

“Foi um momento bastante infeliz da minha parte, assumo, e a única coisa que eu devia ter dito é o que eu estou a dizer agora: só admito cenários de segunda volta em que eu esteja a participar. Assumo essa falta de clareza, não consigo explicar muito bem, exceto talvez pelas circunstâncias difíceis em que estas últimas horas têm sido vividas”, justificou, deixando no ar a possibilidade de já saber da denúncia sexual antes da circulação pelas redes sociais.

Daqui para a frente, Cotrim fechou-se em copas, mas garantindo que "não há nesta posição política nenhuma diferença em relação àquela que ao longo de anos sempre tive". Em Lamego, na segunda ação do dia, recusou três vezes responder a novas perguntas sobre o tema, sempre com a mesma frase: “Tudo o que eu dissesse agora iria fortalecer ou enfraquecer os adversários”.

As palavras prometem ficar nas bocas do também eurodeputado até ao final da campanha: por um lado, para evitar novas acusações de “radicalismo” ou de que “já desistiu da segunda volta”, mas também devido ao ambiente interno na IL.

Várias fontes liberais admitem à Renascença que as declarações de Cotrim provocaram um “severo dano” entre várias estruturas do partido, por irem contra os “valores liberais de base” e as posições assumidas veementemente pela IL contra o Chega. Por essa razão, e a partir de domingo, a oposição interna do partido promete ficar “atenta” à postura de Cotrim e tomar uma posição pública se necessário: se passar à segunda volta sem Ventura, esperam um discurso “leve” para angariar o eleitorado do Chega; caso Cotrim fique de fora, não querem ver o apoio declarado a Ventura.

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