14 jan, 2026 - 00:37 • Tomás Anjinho Chagas
As folhas do calendário vão sendo arrancadas. Há cada vez menos para puxar até às eleições presidenciais do próximo domingo, 18 de janeiro. A campanha de Gouveia e Melo marca diferenças para os outros candidatos, e para isso endurece o discurso com o Governo.
O almirante tem dito constantemente que vai ser "exigente" com o executivo, mas promete não ser "oposição" a partir do Palácio de Belém. Na semana passada deixou críticas à gestão da Saúde, mas sublinhou sempre que cabe ao primeiro-ministro decidir o elenco que quer ao seu lado, e tirar "conclusões" sobre quem está (ou não) fragilizado. Esta terça-feira foi mais longe.
Depois de uma semana difícil para o Governo na área da Saúde - em que morreram três pessoas que podem ter sido prejudicadas pelo tempo que esperaram pela ambulância - o almirante foi visitar os bombeiros voluntários da Moita.
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Esta corporação, a "maternidade da Moita", como ironizava uma das pessoas presentes na visita, foi responsável por 15 partos fora do contexto hospitalar. Alguns nas ambulâncias, outros mesmo no quartel. Gouveia e Melo aproveitou, ganhou balanço e atirou ao Governo.
Sem nunca o dizer diretamente, o candidato a Belém sugere que já passou demasiado tempo para não apresentar resultados, e que Ana Paula Martins se mantém no cargo por uma lógica partidária.
"Quando as coisas falham, porque é que nós mantemos os responsáveis? Claro que há um tempo que tem que se deixar passar, mas dois anos depois, e não se tiram conclusões, porque há uma lógica partidária que se sobrepõe à lógica nacional", desfere o militar na reserva.
Gouveia e Melo considera que o Governo "já ultrapassou os prazos" para mostrar resultados. Mesmo dizendo que as conclusões devem ser tiradas pelos "responsáveis próprios" e não pelo Presidente, o almirante sugere que a ministra da Saúde já não tem condições para se manter no executivo.
Questionado sobre as declarações do primeiro-ministro, que defendeu que há uma "perceção de caos" no SNS que não corresponde à realidade, o antigo coordenador da vacinação contra a Covid-19 volta a desmontar os argumentos vindos de São Bento.
"Nós temos problemas gravíssimos na saúde há cerca de dois anos, de organização, competência e gestão, e nada acontece", começou por introduzir, mais tarde, durante um almoço com fuzileiros no Barreiro.
De seguida, foi direto ao assunto: "Ouvi umas declarações que, afinal de contas, estar 20 horas à espera nas urgências é normal, porque no ano passado eram 22 horas. Que raio de lógica é esta?".
O almirante garante que esta "não é, certamente, a lógica do interesse comum". Ainda esta segunda-feira classificou como "cinismo" o anúncio de Luís Montenegro da compra de novas ambulâncias em plena crise - que afinal já tinham sido anunciadas pelo Governo socialista.
As críticas não se ficam pelo Governo, Marques Mendes e PSD. O almirante insiste em colocar PS e PSD no mesmo saco, considerando que são os "candidatos do sistema".
Esta segunda-feira aproveitou a entrada na campanha de Pedro Nuno Santos, antigo secretário-geral do PS que apoiou António José Seguro - apesar das rivalidades internas que teve com ele. Gouveia e Melo fala em "cinismo que alimenta o populismo".
Já antes tinha falado num "casamento de conveniência", e depois foi mais longe, atacando a "casta política" que o ataca por não ter um passado ligado à política.
"O imobilismo dos últimos 20 anos, associado à retórica cínica e ao cinismo de que nós estamos a ver nestas próprias eleições presidenciais, pode criar um populismo forte", alertou.
O discurso de crítica às sondagens tem sido uma constante durante toda a campanha eleitoral. O almirante tem ficado atrás na tracking poll da CNN e voltou a ficar arredado da segunda volta na sondagem da RTP/Público, conhecida esta terça-feira à noite, mas prefere desmontar o método.
Gouveia e Melo assinala os seus conhecimentos "matemáticos" e desvaloriza essas projeções, garantindo e repetindo: "A verdadeira sondagem é no dia 18 de janeiro".
Mais concretamente, o Almirante vincou que ainda há muitos portugueses dispostos a mudar o voto e promete não desanimar perante cenários de pré-derrota.