14 jan, 2026 - 01:43 • Filipa Ribeiro
"Abanar o país" e o "maior tremor político" são as expressões mais repetidas por André Ventura nesta campanha presidencial para se referir ao que irá acontecer se for eleito como Presidente da República. O candidato a Belém moderou, ainda assim, o tom nos últimos dias, ao dizer que não quer "picardia" e que o mais importante é "debater os problemas dos portugueses".
Sempre que recebe um ataque das outras campanhas sublinha aos jornalistas que não quer que as declarações se fiquem apenas pela troca de acusações e chegou a dizer que tem como objetivo "elevar o debate político" desta campanha.
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Nos últimos dias, tem sido questionado sobre o porquê de tentar ser moderado, mas André Ventura não responde diretamente. Na primeira semana de campanha, o candidato apoiado pelo Chega chegou a assumir que queria "furar" o eleitorado além do Chega e agregar toda a direita incluindo a do centro (PSD), como fez Diogo Freitas do Amaral em 1986.
Com o novo tom, ou sem ele, André Ventura tem conseguido manter a preferência nas sondagens para uma ida à segunda volta e a verdade é que a sua campanha não se foca numa agenda pesada cheia de iniciativas.
A André Ventura tem bastado duas ações por dia, mas estando sempre presente nas redes sociais e na rua - que parece ser "a sua praia" e um dos lugares que lhe dá mais conforto.
Na rua, nunca passa despercebido e são sempre muitas as pessoas que tentam furar a segurança para falar com o candidato a Belém. Grande parte promete-lhe o voto e fala com Ventura com um determinado "tom de desespero na voz", ou porque a pensão é baixa, ou porque os problemas de saúde nunca mais são atendidos nos hospitais, ou porque foram obrigados a emigrar, ou porque consideram injusto que sejam atribuídos subsídios a imigrantes ou a membros da comunidade cigana.
Sentem-se à vontade para desabafar com "o André", tratando-o sempre com um grande nível de proximidade, mesmo os que lhe chamam "presidente" ou "doutor". O candidato presidencial procura sempre ouvir quem se aproxima dele na rua e mantém uma escuta ativa - até em comícios que são verdadeiro "talk shows" políticos.
Já no primeiro dia de campanha em Castro Verde, André Ventura discursava no anfiteatro municipal para defender que será "um tornado em direção ao sistema político". Neste comício, logo no arranque, André Ventura provou uma vez mais ser atento ao que lhe é dito e que é um "bom leitor de sala".
Enquanto falava sobre o "esquecimento do interior", nesse discurso, da plateia com mais de uma centena de apoiantes um homem gritou: "ninguém está acima da lei" , Ventura ouviu e seguiu com críticas a Luís Montenegro.
André Ventura seguiu o discurso e falou sobre a imigração e outra voz gritou: "estão a dar-lhe subsídios". O também líder do Chega apercebeu-se e respondeu a dizer que não "quer que venham para cá viver de subsídios".
Ainda nessa mesma sessão, quando o candidato a Belém criticava a falta de energia na campanha de Luís Marques Mendes, um homem gritou contra os ciganos da plateia interrompendo Ventura que, eficazmente, defendeu que "os ciganos têm que cumprir a lei".
Em Mirandela, esta segunda feira, o comício com os apoiantes teve um modelo ainda mais "intimista". Sem guião aparente para o discurso, André Ventura passou o microfone à D. Lúcia, uma doente oncológica que tinha reclamações a fazer sobre o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o setor da saúde.
Num pequeno palco em frente ao Mercado Municipal de Mirandela, André Ventura caminhou de um lado para o outro de microfone na mão rodeado de apoiantes por todos os lados.
Pouco depois de começar passou o microfone a D. Lúcia que contou ter-se encontrado com o atual Presidente da República, no Ribatejo, onde lhe pediu que não esquecesse os transmontanos e André Ventura interrompe-a e questiona: "Os transmontanos foram abandonados ou não?" E ela diz: "forma abandonados", acrescentando que Marcelo lhe disse, na altura: "para lá do Marão, mandam os que lá estão" e André Ventura completamente à vontade em palco, num papel que lhe é natural, prometeu que nunca esquecerá a região quando for Presidente da República.
Neste mesmo comício, André Ventura brincou com um cartão de um mecânico que lhe foi entregue por um dos apoiantes nas filas da frente, pediu aos jovens que gritassem pelo país e levou as largas dezenas de pessoas a gritar "Presidente do Povo".
O modelo de proximidade do candidato presidencial é sempre bem recebido em todos os pontos do país e o poder de "leitura de sala" nota-se na eficácia que André Ventura em adaptar o discurso conforme quem o está a ouvir. E, ao mesmo tempo que procura ter um discurso mais moderado, vai utilizando nas arruadas e em comícios expressões como "acabar com a mama", "bandalheira", "paraíso de tachos" etc - dependendo sempre de quem está à sua frente e dos problemas que partilha.
Noutro plano, André Ventura considera, como disse esta terça-feira em Guimarães, que o seu discurso não é radical nem extremista. "Qual o extremismo de dizer que quem não gosta destes castelos, que quem não vive bem com uma cruz não está bem em Portugal?” perguntou. Acabando por responder às perguntas, dizendo que "o país precisa de alguém com firmeza e radicalismo de convicções”.
Enquanto defende os valores patriotas de "amor à bandeira" e ao país, André Ventura discursa caminhando pelo palco, agarrando a bandeira nacional e olhando para as pessoas na plateia - acena-lhes e, por vezes, incluí-as no seu discurso. Um verdadeiro "one man show".