Presidenciais 2026
"Campanha suja", ataques, cartas e apelos públicos. Como a estratégia de Cotrim largou a tranquilidade
16 jan, 2026 - 20:55 • Alexandre Abrantes Neves
Depois de uma primeira semana em crescendo, a campanha de Cotrim de Figueiredo foi abalada por duas polémicas e teve de reagir: reorganizou ações de campanha, lançou mais uma missiva a Montenegro, puxou dos apelos ao voto útil que criticava, apontou o dedo aos jornalistas e traçou a fronteira com Seguro e Ventura.
Do dia para a noite, ou de uma semana para a outra. Se o João Cotrim de Figueiredo da primeira semana encontrasse o João Cotrim de Figueiredo da segunda semana de campanha, em pouco ou nada concordaria com ele na estratégia de campanha.
Garantiu que “jamais me ouvirão a apelar ao voto útil”; depois, acabou a fazê-lo publicamente, aos portugueses e a Luís Montenegro. Apresentou-se como alguém que não mudaria de estratégia “apenas” por causa das sondagens; agora, a tática já é alterada “consoante as circunstâncias do dia”. Puxava da cordialidade com os adversários por “nunca os atacar em primeiro lugar”; mas fechou um dos últimos comícios a acusar António José Seguro de ser o “sono” das presidenciais e André Ventura de ser um “pesadelo”.
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As duas polémicas (a denúncia de alegado assédio sexual e o abrir de porta a um apoio a André Ventura numa eventual segunda volta) provocaram um rombo na campanha num momento em que Cotrim reivindicava para si um movimento em “crescendo”: o “momentum” desta campanha que o candidato sabia que o podia levar à segunda volta e que não queria perder.
Parar o vento com as mãos é uma estratégia arriscada em qualquer atividade e na política não é diferente, mas Cotrim de Figueiredo e a sua equipa assumiram que valia quase tudo para segurarem os números das sondagens que, ora o colocavam em segundo lugar, ora o punham na disputa pela segunda volta.
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Primeira estratégia: o voto útil do centro-direita
A sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1 e jornal Público (com maior número de inquiridos do que a “tracking poll” diária da TVI e CNN Portugal) colocou Cotrim de Figueiredo a apenas quatro pontos de roubar o segundo lugar a André Ventura. O ex-líder da IL viu aí uma oportunidade: ia afastar as polémicas proclamando-se como o peso forte do centro-direita nestas eleições.
“Um voto em Marques Mendes ou em Gouveia e Melo já não conta, porque não têm hipótese de chegar à segunda volta. Por outro lado, um voto em André Ventura garante que António José Seguro do Partido Socialista é eleito. Só sobra um voto útil para o futuro de Portugal. É Cotrim”, garantiu, na última terça-feira.
Os ataques continuariam semana fora, a considerar “inútil” colocar a cruz no almirante na reserva ou no antigo comentador televisivo social-democrata. Nesse jantar em Coimbra, Cotrim confirmou aquilo que subliminarmente já vinha anunciado na frase do autocarro que transporta a sua comitiva: está à procura do eleitorado que vai do CDS ao PSD, incluindo aqueles que são voláteis entre um voto socialista e social-democrata, e que se representou nas eleições legislativas de 2015 na dupla Passos Coelho/Portas. “É útil porque quer Portugal à frente”, vincou na altura, relembrando o nome da coligação que foi a votos nesse ano.
Apesar de os desenvolvimentos no caso a envolver a antiga assessora parlamentar da IL continuarem a assombrar a campanha, as sondagens não lhe tiraram o segundo lugar e Cotrim conseguiu segurar as pontas e não teve de mudar de discurso. No último dia de campanha, esta sexta-feira recusou ser “excesso de confiança” quando pediu a Marques Mendes para o apoiar publicamente numa eventual segunda volta.
“Creio que o próprio candidato Marques Mendes tem a responsabilidade e a experiência suficiente para recomendar o voto na minha candidatura, indo eu à segunda volta. Tenho essa consciência e tenho essa expetativa", apelou.
Segunda estratégia: eu é que sou do Governo
A estratégia de definhar o PSD foi para lá de se dizer “herdeiro” de Sá Carneiro, Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho ou de se afirmar como o único candidato com “reais hipóteses” no centro-direita. Ciente do cenário político saído das últimas legislativas (onde o espaço social-democrata, embora não seja maioritário, é o mais relevante), Cotrim tentou minar o eleitorado do PSD o mais possível para o juntar à segurança vinda da Iniciativa Liberal e, assim, conseguir afastar Marques Mendes.
Neste jogo de simples contas de somar, Cotrim decidiu andar a campanha quase toda com o Governo na ponta da língua. Mostrou-se como a voz viva, o “aliado construtivo” e capaz de dar “respaldo político” para dar o empurrãozinho ao executivo para avançar com as reformas (económicas, laborais, saúde) que uma boa fatia deste eleitorado exige há anos.
Isso mesmo provou-se na carta que escreveu a Montenegro no final da primeira semana e também no apelo público que fez ao presidente do PSD a pedir o apoio à sua candidatura. Nas duas situações, Cotrim trouxe o Governo à campanha para o ajudar na missão de conseguir a confiança da opinião pública: da primeira vez, para conseguir mais eleitorado e firmar o salto nas sondagens do terceiro para o segundo lugar; e da segunda, para ter um instrumento que, mesmo que não tenha servido para desviar atenções (como o próprio recusou), o ajudou a libertar a campanha que disse estar “sequestrada” com a denúncia de alegado assédio sexual.
Terceira estratégia: o Chega?
Mas para passar à segunda volta, Cotrim sabe que não basta afastar Gouveia e Melo e Marques Mendes: tem também de minar Seguro ou Ventura, para assegurar que não acaba em terceiro lugar.
“O candidato socialista que não exibe qualquer energia ou a menor vontade de mudar, seja o que for – é um sono. Do outro lado, o candidato populista, o tal que nem sequer quer ser Presidente da República, só quer ganhar balanço para gerar instabilidade política logo a seguir às eleições – é um pesadelo”, afirmou na penúltima noite de campanha, num jantar comício no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, em Matosinhos.
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Só que a dificultar a tentativa de chegar à segunda volta, e também na quinta-feira, esteve o ressurgimento da denunciante Inês Bichão que, em comunicado, disse ter “reportado” o caso na IL em 2023. Na primeira reação, e na tentativa de limpar a imagem e recusar a veracidade das acusações, Cotrim regressou à narrativa da “campanha suja”. À tarde, virou-se para os jornalistas.
“Antes das vossas perguntas, gostaria de fazer uma declaração”, começou por afirmar, após uma visita a uma fábrica têxtil em Santo Tirso. “Tem-se assistido a um autêntico assassinato de carácter brutal, do qual a comunicação social tem sido um instrumento e, se calhar, até cúmplice”.
Os sete minutos de acusações ao jornalista acabaram com o candidato apoiado pela IL a contradizer-se e a admitir que, afinal, tinha sido informado uma hora antes que seria questionado sobre o tema – mas não sem antes colar a comitiva jornalística que o acompanhou nas últimas duas semanas a um “péssimo serviço à democracia”.
O que pareceu um ataque e resposta isolada naquela tarde começou a aproximar-se de estratégia no comício da noite em Leixões – quando não Cotrim, mas Mariana Leitão subiu ao palco e endureceu o tom contra os jornalistas na sala.
“É lamentável que a comunicação social, em busca de polémicas gratuitas, se tenha demitido de fazer o seu trabalho mais básico. Ao ponto em que a calúnia fácil, mesmo sobre matérias graves, sem qualquer tipo de evidências ou provas, passa a ser tomada como facto consumado”, garantindo depois que “não há, nem nunca houve, qualquer queixa, relato ou denúncia sobre João Cotrim de Figueiredo.”
As críticas continuaram, dizendo que “quem leva as informações às pessoas também tem a responsabilidade de verificar factos e não disseminar mentiras”. A reação na plateia foi semelhante à que acontece em iniciativas onde está presente o eleitorado do Chega – a sala levantou-se, colocou as bandeiras de Portugal e irrompeu em palmas.
Onde estão os trunfos?
Foi repetido até à exaustão aos jornalistas pela equipa e pelo próprio candidato: “esta é uma campanha em crescendo”, “temos cartas guardadas até ao final”, “vêm aí coisas boas”. Até João Cotrim de Figueiredo aguçou o apetite e criou expectativa na última quarta-feira no Porto.
“Se eu os usasse já, não eram trunfos. Se algum de vocês já jogou as cartas, se diz quando é que vai usar o trunfo deixa de ser trunfo”, atirou, na Praça Sá Carneiro.
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Nessa mesma noite, foi divulgado um vídeo de apoio do primeiro-ministro neerlandês Rob Jetten (que venceu as eleições por margem mínima e afastou a direita radical do poder) e Cotrim disse esta sexta-feira “não estar ainda confirmado” outro apoio internacional.
Em qualquer dos cenários, há uma estratégia que fica por concretizar e que foi amplamente divulgada nas redes sociais do candidato (o meio preferencial para fazer campanha): criar uma rede de apoio com, pelo menos, uma centena nomes sonantes, vindos de vários setores da sociedade e lugares do espetro político. A ideia seria descolar o partido da IL, cujo aparelho mal esteve presente na campanha: a líder Mariana Leitão, por exemplo, apareceu apenas duas vezes.
Cotrim chamou a este coletivo Horizonte 2031, mas não chegou nenhuma personalidade fraturante à lista: ainda conseguiu o apoio e a presença da ex-deputada do PSD Liliana Reis, mas também levou a nega de António Nogueira Leite, ex-secretário de Estado num Governo PS que veio contradizer a equipa do candidato e esclarecer que lhe transmitiu apenas umas “palavras simpáticas” e não o apoio formal.
Por realizar, ficou também uma promessa de ação de campanha. No podcast “Bom Partido” do humorista Guilherme Geirinhas, Cotrim garantiu que faria um “roast” no Porto: um evento onde partilharia o palco com vários humoristas e seria o alvo principal do espetáculo. A ação acabou a ser substituída por um jantar-comício depois das polémicas – tal como a presença a duas feiras e mercados que, segundo a candidatura, foram substituídas “devido ao mau tempo” por lares de idosos, um dos terrenos mais confortáveis do antigo líder da IL nesta campanha.













