19 jan, 2026 - 04:08 • Fábio Monteiro
Poucos acreditavam. Há cerca de 15 dias, as sondagens não lhe davam grande margem para sonhar. Belém era uma miragem, Marques Mendes e André Ventura iam, supostamente, na dianteira das presidenciais. Nem Pedro Nuno Santos, que lançara (de forma não intencional) a sua candidatura presidencial, parecia acreditar – afinal, apenas esta semana formalizou o seu apoio. Mas, esta noite, António José Seguro ganhou.
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O antigo secretário-geral socialista, que andou mais de uma década afastado da vida política, foi, este domingo, o candidato mais votado, com 31,14% dos votos, na ida às urnas para a Presidência da República. A 8 de fevereiro, irá disputar a segunda volta com André Ventura, que arrecadou 23,48%.
No seu discurso de vitória, nas Caldas da Rainha, cidade onde mora, Seguro vestiu a pele de candidato “livre”, “sem amarras”, e apelou à união de “todos os democratas, progressistas e humanistas” para derrotar “o extremismo e quem semeia ódio e divisão entre os portugueses”.
Sobre Ventura, agora o seu único adversário, não disse quase nada. Referiu apenas que entre os dois candidatos “há um oceano de diferenças”. E prometeu: "Serei o Presidente de todos os portugueses.” Que é como quem diz: não serei apenas o Presidente dos “portugueses de bem”.
Desde que saíram as primeiras projeções das televisões, ficou claro que a vitória do candidato apoiado pelo PS estava assegurada. Mas houve ainda algum suspense quanto a quem ia ser o seu adversário: André Ventura ou João Cotrim de Figueiredo? As margens de erro das projeções deixavam em aberto essa possibilidade.
A dúvida dissipou-se ainda a noite ia a meio, assim que a contagem dos votos começou a acelerar. O liberal ficou a mais de 400 mil votos de distância de Ventura, com 15,99%, sendo seguido pelo independente Gouveia e Melo (12,34%) e o social-democrata Marques Mendes (11,32%), que teve uma noite para esquecer – e criou uma dor de cabeça de que Luís Montenegro não se vai livrar nas próximas três semanas, no mínimo.
Presidenciais 2026
O candidato apoiado pelo PS venceu todos os distri(...)
Vindo da missa, algo que parece já é hábito em dia de eleições, André Ventura chegou à sede da sua campanha quando já eram conhecidas as primeiras projeções – que lhe davam a ida à segunda volta como muito provável. Começou, pois, logo a ensaiar um discurso de potencial candidato “agregador” da direita.
Foi, no entanto, quando os votos já estavam todos contados, que Ventura passou definitivamente ao ataque. E deu o tiro de arranque para a campanha da segunda volta.
As eleições “não vão ser uma luta do Chega contra o PS, vão ser uma luta do espaço socialista contra o espaço não socialista em Portugal”, apontou.
E Seguro representa “o regresso da tralha de José Sócrates a Portugal”, disse. “Há uma escolha segura, não Seguro, em relação à segunda volta. Não tenham medo da mudança.”
Contente por “derrotar o candidato de Montenegro [Luís Marques Mendes]”, o líder do Chega defendeu também que o país despertou e que a direita “só perderá as eleições” de 8 de fevereiro por causa do “egoísmo do PSD e da IL”. Por outras palavras: se o PSD e a IL não o apoiarem.
Não houve nenhum sinal, no entanto, durante a noite eleitoral, de que André Ventura venha a contar com o apoio formal do PSD e da IL. Antes pelo contrário.
Cotrim de Figueiredo, quando falou aos apoiantes no final da noite, alertou os portugueses para a “péssima escolha entre Seguro e Ventura”. O culpado? Luís Montenegro, que “não esteve à altura do legado de Sá Carneiro”.
“Embora hoje exista maioria de centro-direita, é possível que tenhamos um Presidente socialista. Tal fica a dever-se a um erro estratégico da liderança do PSD. Apesar das evidências e do apelo que lhe fiz, Montenegro não pôs o interesse do país à frente do interesse do partido”, disse.
Entre Ventura e Seguro, Cotrim afirmou que não vai aconselhar o voto em nenhum dos candidatos. “Os eleitores que confiaram o voto hoje fizeram-no livremente e deverão fazê-lo livremente na segunda volta.”
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O candidato apoiado pelo Chega promete combater o (...)
Durante meses a fio o favorito das sondagens, Gouveia e Melo passou quase despercebido (e incólume) à derrota da noite eleitoral.
O almirante, que se tornou famoso graças à gestão da vacinação durante a pandemia de covid-19, não clarificou qual será o seu futuro. Este domingo, ainda antes de serem conhecidos quaisquer resultados, disse: "Farei o que os portugueses quiserem, tenho dois planos: continuar ou seguir com a minha vida privada.”
Já no seu discurso de final de noite, não foi muito mais longe. Referiu apenas que o país “continuará a contar” com ele. Não tomou nenhuma posição individual quanto ao apoio a um candidato. Mas não deixou essa ideia de parte. “Falarei”, prometeu.
Por comparação, Marques Mendes teve uma noite bem mais dura. Teve o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo PSD à Presidência da República – e, em grande medida, gerou uma derrota por proxy para Montenegro.
Ladeado de seguranças, protegido de microfones, Mendes não aceitou responder a perguntas dos jornalistas. Foi um dos primeiros a falar na noite eleitoral. "Responsabilidade por derrota é minha, toda minha e apenas minha", disse.
Mendes fez saber que não irá apoiar publicamente Seguro nem Ventura, apesar de ter uma opinião “pessoal”. Luís Montenegro, primeiro-ministro e líder do PSD, que falou aos portugueses poucos minutos depois, seguiu o mesmo caminho.
"O PSD não estará envolvido na campanha eleitoral e não emitiremos qualquer indicação, nem é suposto fazê-lo. Não vale a pena estarmos com jogos políticos, podem colocar as questões, mas não vão encontrar uma resposta diferente desta", disse.
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Candidto apoiado pelo Livre anuncia apoio a Seguro(...)
Os resultados dos candidatos à esquerda de Seguro foram quase residuais. Ou seja, na segunda volta, Seguro não tem aí uma grande fatia de votos para captar.
Catarina Martins, antiga coordenadora do Bloco de Esquerda, conseguiu uns meros 2,06%. António Filipe, apoiado pelo PCP, foi até 1,64%. E Jorge Pinto, do Livre, só amealhou 0,68%.
Satisfeito com o “marcar de agenda”, o candidato apoiado pelo Livre formalizou o que já havia insinuado durante a campanha: na segunda volta, irá votar em Seguro.
"Tinha dito que não seria por mim que Seguro não seria Presidente da República. Agora, digo algo diferente: será por mim que ele será Presidente. Vou votar Seguro na segunda volta e apelarei que o meu partido faça o mesmo", afirmou Jorge Pinto.
Catarina Martins, que contava com o apoio do Bloco de Esquerda, congratulou-se com a luta para “quebrar o tabu que uma mulher não pode ser Presidente da República” e descreveu o resultado de Marques Mendes como uma “hecatombe”, uma “derrota” de Montenegro.
Alertando para a “trumpização” em curso da política, a candidata do BE aconselhou o eleitorado a votar no socialista “com os olhos bem abertos”. “A resposta adequada é votar em António José Seguro com os olhos bem abertos.”
Já o apoio do PCP foi mais titubeante, menos claro. Mas também chegou. Ao início da noite, o Comité Central ainda disse que não é por Seguro passar à segunda volta “que transporta consigo os valores de Abril”. Mas Paulo Raimundo apareceu mais tarde para engolir o sapo. “Impõe-se impedir a vitória de alguém que assume de forma clara uma agenda reacionária”, disse.
Nada está decidido, nada ficou fechado esta noite. Sim, ou as sondagens para a segunda volta estão muito erradas (mais uma vez), ou António José Seguro está em boa posição para, a 8 de fevereiro, ser eleito o próximo Presidente da República. O 6.º Presidente da República desde 1975. A primeira volta acabou esta noite, a segunda acabou de começar.