Presidenciais 2026

Helena Roseta: Neutralidade de Montenegro é "bem o contrário" do que faria Sá Carneiro

21 jan, 2026 - 06:30 • Alexandre Abrantes Neves

Em entrevista à Renascença, a antiga militante do PSD no tempo de Sá Carneiro lamenta o “taticismo” de Luís Montenegro e deixa um aviso: “Se não se mantém a matriz, os partidos podem tornar-se historicamente desnecessários”. Sobre a segunda volta das presidenciais, diz-se “confiante” na vitória de António José Seguro: “Nos 50 anos da Constituição, a democracia não vai andar para trás”.

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Entrevista Helena Roseta - íntegra - 21 janeiro 2026
Ouça aqui a entrevista na íntegra. Foto: Beatriz Pereira/RR

A arquiteta Helena Roseta, antiga militante e deputada do PPD/PSD no tempo de Francisco Sá Carneiro e depois deputada em várias legislaturas pelo PS, diz que a posição de neutralidade de Luís Montenegro na segunda volta das presidenciais é “bem o contrário” do pensamento do fundador social-democrata: “Sá Carneiro deixou como testemunho absoluto a clarificação”, afirma, em entrevista à Renascença.

A também antiga autarca de Cascais avisa que o “taticismo” de Montenegro pode não dar frutos à AD em eventuais legislativas antecipadas, porque as pessoas “não são estúpidas” e depositam confiança quando os partidos “governam bem” e não quando “ficam calados”.

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Pegando no exemplo do PRD (partido fundado por Ramalho Eanes) e também no do CDS-PP, Roseta avisa que qualquer partido central que fique de fora da discussão num momento “crítico” está a perder “aos pontos”: “O que é preciso é manter a matriz ou, se não se mantém a matriz, os partidos podem se tornar historicamente desnecessários”, alerta.

Sobre o PS, considera que ainda é demasiado cedo para colar o bom resultado de António José Seguro a uma recuperação do eleitorado socialista. “Também têm de pensar bem o que querem para Portugal e que propostas é que querem fazer aos portugueses”, apela.


Ficou surpreendida com os resultados de domingo?

Não, não fiquei surpreendida. O que eu vi na campanha do António José Seguro foi gente, muita gente da área socialista, mas gente que vinha de outros sítios completamente diferentes. Porque o Seguro estava a apresentar uma proposta de presidência, de defesa da democracia, da Constituição e de um certo equilíbrio no meio disto tudo. E é do que nós estamos a precisar.

Fiquei, aliás, positivamente surpreendida por ele ter tido mais votos do que todas as sondagens disseram e ainda bem. É sinal de que os portugueses perceberam que estamos num momento muito difícil, que há muita incerteza e que, neste momento, uma pessoa como António José Seguro, com a preparação que ele tem, com a convicção que ele tem, com a proposta que ele faz de defender a democracia e defender os valores constitucionais, é aquilo que nós precisamos.

E nesta segunda volta, continua com boas expectativas ou tem medo de que alguma indecisão à direita possa dar um bom resultado a André Ventura?

Em democracia, não temos de ter medo de nada. Em democracia, temos de ter as nossas convicções, comunicá-las e confiar no voto popular. O voto popular vai decidir e é provável que André Ventura suba porque, naturalmente, agora só há duas escolhas e não 11. Mas isso não quer dizer absolutamente nada. Por um se ganha, por um se perde.

Aquilo que ele [Seguro] quer é o que, neste momento, Portugal precisa. Democracia e não discursos de ódio, não histeria, não aproveitamento pessoal para outras jogadas. Faz este ano 50 anos que foi votada a Constituição da República. Faz este ano 100 anos que foi o golpe de Estado de 1926 que pôs o ditador Salazar no poder. São duas datas que nos fazem pensar o que é que nós queremos. Voltar para trás ou queremos dar seguimento à coisa maravilhosa que foi o 25 de Abril.

Gostava de ter visto essa preocupação também, essa simbologia das datas, na reflexão de alguns partidos, como o PSD?

Eu tenho dúvidas do que é o PSD hoje. Hoje, o PSD não é um partido, é uma confusão, porque, efetivamente, estão desorientados. O próprio primeiro-ministro, o presidente do PSD, não toma posição: é um taticismo absoluto. Lamento profundamente.

É bem o contrário, bem o contrário… Durante a campanha falou-se muito de Sá Carneiro. A maior parte das pessoas que falaram dele nem sequer o conheceram. Eu conheci-o, trabalhei com ele, até tive algumas grandes discussões com ele e, até, quase de zanga. Agora, uma coisa que o Francisco Sá Carneiro deixou como testemunho absoluto: clarificação. Clarificação.

Como é que um partido que se reclama da social-democracia acha que é a mesma coisa votar na extrema-direita? Ou, eventualmente, até vir a recomendar o voto nos liberais, que ainda não percebemos bem o que é que são? Porque, de facto, há gente boa no partido liberal, haverá gente boa em todos os partidos, mas, no partido liberal, o que nós vemos é uma presidente que apoia o Milei na Argentina. E eu não sei o que é que o candidato apoiará, uma vez que ele próprio diz que não sabe onde tinha a cabeça quando falou.

Isto não pode ser. Nós estamos num momento demasiado grave para toda a gente, para o mundo, para a Europa, para Portugal, para estarmos a fazer experiências.

Hoje, o PSD não é um partido, é uma confusão, porque, efetivamente, estão desorientados

Mas perante essa dificuldade do momento atual e também o peso da história do PSD com Francisco Sá Carneiro, vê em Montenegro alguma possibilidade de mudança da posição até dia 8?

Ele pode mudar. Aliás, deve. Mas as pessoas não estão à espera de ordens para votar. O eleitorado é muito mais maduro do que aquilo que as pessoas que não estão tão metidas na ação política pensam. E muitos comentadores acham que os eleitorados seguem cegamente as orientações de voto. Não é verdade: o voto está solto, nunca esteve se calhar tão solto.

A grande maioria dos portugueses quer estar presente, quer ter uma palavra e teve-a. Vamos ver agora o que faz na segunda volta, mas eu tenho muita confiança. Acho que, nos 50 anos da Constituição, a democracia não vai andar para trás.

Um dos argumentos utilizado por personalidades próximas do Governo passa por dizer que Montenegro poderia estar a entregar a direita a Ventura se declarasse apoio a Seguro. Este é um risco real?

Não sei. As pessoas não são donas dos votos e donas dos eleitores, faz-me muita impressão esse tipo de discurso. As pessoas escolhem as lideranças em que confiam pelas atitudes que as lideranças tomam. Não é por ficarem caladas ou por terem atitudes táticas, ora para a esquerda, ora para a direita, que ganham a confiança das pessoas.

Ganham a confiança das pessoas, quando estão no Governo, por governar bem, em primeiro lugar. E, em segundo lugar, por terem posições muito claras para que os eleitores saibam o que podem contar. E não é isso que estamos a ver. Num grande partido de Governo que, ainda por cima, tem a responsabilidade não só do governo, como da maioria dos executivos do país todo.

Neutralidade de Montenegro é "má solução" e "passo para legitimação do Chega"
Neutralidade de Montenegro é "má solução" e "passo para legitimação do Chega"

Tem pena desta posição de Montenegro?

O Sá Carneiro fundou um partido de centro-esquerda. Hoje parece que há muita gente no PSD que tem medo de dizer que é de centro-esquerda. As coisas evoluem, os partidos evoluem. Mas o que é preciso é manter a matriz ou, se não se mantém a matriz, os partidos podem tornar-se historicamente desnecessários.

Isso tem acontecido com vários partidos que aparecem e desaparecem. Olhe, o PRD, por exemplo. Tanto os partidos fundadores da democracia, o próprio CDS, neste momento, está com muitas dificuldades de afirmação.

Um grande partido que não clarifica posições num momento de crise está a perder aos pontos

E acha que esta decisão do PSD de não apoiar ninguém na segunda volta pode contribuir para essa falta de necessidade no espetro político?

Não vou fazer esses juízos de valor. Não sou comentadora. Aquilo que eu acho é que um grande partido que não clarifica posições num momento de crise está a perder aos pontos.

Sobre os políticos não serem donos dos votos. É demasiado cedo para fazer a leitura de que este bom resultado de António José Seguro possa dar força ao Partido Socialista em eventuais eleições legislativas antecipadas?

Primeiro, tem o António José Seguro de conseguir uma vitória, que é uma vitória dele e das pessoas que acreditaram nele. Nenhuma dúvida sobre isso. Se o Partido Socialista tirará vantagem disso ou não, depende do que é que o Partido Socialista vai fazer daqui para a frente. As pessoas confiam no Partido Socialista se o Partido Socialista tiver respostas claras e se tiver uma posição também mais assertiva na política portuguesa.

Que não tem neste momento?

Tem-se esforçado, mas estão muito condicionados. Aliás, vimos a dificuldade que tiveram para conseguir, pelo menos, apoiar um candidato. O candidato até já existia, já estava a fazer o seu trabalho, fez o seu trabalho todo e estiveram até ao fim para se pronunciar.

Acho que também têm de pensar bem o que é que querem para Portugal e que propostas é que querem fazer aos portugueses. Nesta altura, estão na oposição: pois, façam uma boa oposição e façam-na com cabeça e com inteligência.

Quanto a essa hesitação em apoiar António José Seguro. O PS também sofreu do mesmo mal que o PSD está a sofrer agora?

Não foi a mesma coisa, foi dificuldade encontrar um nome que tivesse consenso no partido. Mas não precisava de ter consenso nos partidos. Esta ideia dos consensos internos é um bocado absurda. Eu vivi muito tempo no PPD, depois estive no PS. Nos partidos democráticos não tem de haver unanimidade: há maiorias e minorias e a gente tem de respeitar.

E é preciso enfrentar essa capacidade de ter maiorias ou não as ter. Eu fiz 30 campanhas eleitorais desde o 25 de Abril. Houve vezes que ganhei, houve vezes que perdi. Não deixei de ser quem era. Há momentos em que as coisas, por muito que um candidato esbraceje, não funcionam.

O eleitorado tem a palavra final e é isso que nós temos de respeitar. A mesma coisa em relação ao comportamento do partido perante o seu eleitorado: tem de se abrir, ouvir o que pensam os militantes, os eleitores e tem de pensar no futuro do país.

Não só no imediato, mas no futuro do país a prazo, nestes tempos incertos. Temos de apostar com muita clareza no combate às desigualdades e no combate às injustiças, no combate ao funcionamento da justiça e no combate aos direitos sociais para os fazer cumprir. Mas a palavra final que eu gostava de deixar é que os eleitores não são estúpidos. Sabem o que querem. Estamos num momento decisivo para a democracia portuguesa.

Partido Socialista? Acho que também têm de pensar bem o que é que querem para Portugal e que propostas é que querem fazer aos portugueses

E se Ventura ganhar, o que vai ser o “day after” para o PS e para o PSD? O que é que devem fazer?

Essa hipótese é uma hipótese meramente académica e não estamos em alturas de fazer hipóteses académicas. Estamos em alturas de lidar para o problema que temos na nossa frente.

Unir esforços para isso é o que defende?

Unir esforços para isso e dar o nosso testemunho, que é o que estou, neste momento, a fazer.

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  • Petervlg
    22 jan, 2026 Trofa 08:31
    Nesta situação e para quem o conhecia, Francisco Sá Carneiro, mantinha-se neutral, porque era chefe do governo.

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