21 jan, 2026 - 07:00 • Diogo Camilo
Até à noite eleitoral do passado domingo, António José Seguro só tinha aparecido em primeiro numa sondagem e na tracking poll da Pitagórica. Contados os resultados em território nacional, o candidato apoiado pelo PS venceu com mais de 400 mil votos de diferença para André Ventura e uma vantagem de mais de 7,5 pontos percentuais.
A vitória de Seguro na primeira volta das presidenciais é explicada pelo voto de indecisos, sobretudo mulheres e pessoas na faixa etária mais velha, mas também da mobilização de mulheres que pensavam votar em João Cotrim de Figueiredo até à semana passada.
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Esta é a leitura de Henrique Oliveira, professor do Departamento de Matemática, que analisou as sondagens mais recentes antes das eleições e a sondagem à boca das urnas da SIC e da TVI, realizada pela GkK-Metris e pela Pitagórica, que nos diz que um em cada três portugueses que votaram no domingo só decidiu o seu voto na última semana.
"Com a dinâmica de crescimento, António José Seguro perfilava-se como o vencedor, com cerca de 26% das intenções de voto. Ele vai ter mais de 30% e esses 5% são devido aos indecisos, os eleitores de última hora, e sobretudo com grande aceitação por parte dos eleitores mais idosos e por parte das mulheres. Aliás, nas mulheres ganha de uma forma bastante significativa", afirma à Renascença o especialista em sondagens.
O coordenador do agregador do Instituto Superior Técnico explica que a última semana de campanha foi decisiva para a transferência de até cinco pontos percentuais entre mulheres que estavam a pensar votar em João Cotrim de Figueiredo e acabaram a votar em Seguro.
"Cotrim de Figueiredo estava com um grande momento de crescimento na primeira semana de campanha e esse momento retrai-se muito no final da segunda semana de campanha, o que pressupõe que houve ali efeitos devido aos ataques que sofreu e às afirmações que preferiu também, nomeadamente sobre o aborto. E, portanto, esse efeito pode-se ter feito sentir", considera.
Nesta sondagem, Seguro consegue quase 40% dos votos daqueles que decidiram o seu voto na última semana, enquanto André Ventura tem apenas 14% destes votos e Cotrim de Figueiredo 19%.
O estudo da Pitagórica e da GfK-Metris, divulgado na noite das eleições, revela ainda que Seguro venceu em quase toda a linha, entre os dois sexos e entre gerações.
O candidato apoiado pelo PS tem o dobro da votação de Ventura entre as mulheres e mais do dobro que a de Cotrim: consegue 38%, contra 19% para o candidato apoiado pelo Chega e apenas 16% para o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal.
Entre os mais velhos, a diferença é quase a mesma: Seguro consegue 37% dos votos, mais do dobro de Ventura (18%) e mais do triplo que Cotrim (10%) entre os eleitores com mais de 65 anos.
Pela primeira vez nos últimos atos eleitorais, Ventura ou o Chega não vencem o PS entre os mais novos, com o candidato apoiado pelo PS a conseguir 30% das votações na faixa etária entre os 18 e os 34 anos, enquanto André Ventura não vai além dos 20%. No entanto, o mais votado foi Cotrim de Figueiredo, com 33%. Aqui, Gouveia e Melo e Marques Mendes não vão além dos 6%.
Na faixa etária intermédia, entre os 35 e os 64 anos, Seguro é o mais votado, com 31%, mas a vantagem para Ventura é mínima (27%).
Os únicos setores onde Ventura vence Seguro — e por curta margem — são entre os eleitores com o ensino básico (34% de Ventura, contra 32% de Seguro) ou com o ensino secundário (29% de Ventura contra 26% de Seguro).
Entre quem tem um curso de Ensino Superior, Seguro foi quem teve mais votos (38%), enquanto Ventura teve quase tantos votos como Gouveia e Melo e Marques Mendes (11%).
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Para Henrique Oliveira, e dado que o vencedor não estava encontrado no início do ano, a campanha eleitoral que começou a 3 de janeiro pode ter sido "mais importante do que em eleições anteriores".
"Os eleitores procuraram mais o mal menor, digamos assim, do que uma grande adesão a um candidato a quem tivessem uma particular estima. E, portanto, andaram ali a oscilar muito entre possíveis candidatos e a ver as sondagens para decidir em quem votavam para ir à segunda volta", refere na entrevista à Renascença.
E com isso, considera, Marques Mendes terá sido prejudicado pela tracking poll da Pitagórica, que se inicia no dia 5 de janeiro e o dá como o quinto candidato com mais intenções de voto, quando estava em empate técnico com os restantes quatro e até poderia continuar a liderar as sondagens por essa altura.
"O eleitorado de Marques Mendes, ao ver que o seu candidato se está a reduzir, começa a perceber que não tem hipóteses de ir à segunda volta, começa a mudar o seu sentido de voto. A acentuação da descida de Marques Mendes pode ter sido até efeito da própria tracking poll. As sondagens têm efeito nos resultados eleitorais", afirma o especialista e professor de Matemática.
Para a queda de Marques Mendes terá contribuído também os debates: "Acho o efeito dos debates muito, muito significativo. O debate entre Marques Mendes e o almirante Gouveia e Melo, é o primeiro ponto de viragem na retirada de Marques Mendes da liderança".
Na publicação da primeira tracking poll da Pitagórica, Marques Mendes surgiu em quinto lugar, enquanto António José Seguro aparece no primeiro lugar. Os dois estavam separados por três pontos, numa sondagem com 13,7% de indecisos e uma margem de erro de quatro pontos.