22 jan, 2026 - 06:45 • João Carlos Malta
Alexandra Leitão, vereadora da Câmara de Lisboa e membro da comissão de honra de António José Seguro, está preocupada com o resultado das eleições presidenciais. Fala de um momento decisivo na história do país e do mundo. O perfil de André Ventura deixa-a sem dúvidas de que o que está em causa está longe de ser um embate entre esquerda e direita. É a democracia, diz, que está em causa.
Apesar das sondagens, Alexandra Leitão não acha que António José Seguro possa já reservar a entrada no Palácio de Belém depois de 8 de fevereiro.
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Recusa-se, para já, a fazer leituras políticas para o PS da vitória na primeira volta de Seguro e se isso constitui uma derrota para a ala mais à esquerda do PS. Por fim, diz-se "inquieta" por Luís Montenegro não fazer escolhas quando esta é entre António José Seguro e André Ventura.
Que leitura faz dos resultados de domingo à noite?
Nós temos hoje uma extrema-direita que cresce. Houve menos 100 mil votos do que tinham tido nas legislativas, mas, na verdade, afirma-se, como as sondagens já vinham a dizer.
Vai à segunda volta o candidato mais radical do espectro político. É uma nota que, não escondo, obviamente me deixa preocupada. Acho que é importante que a direita tradicional, moderada, tenha o seu espaço e, claramente, o candidato dessa direita, designadamente Luís Marques Mendes, teve um resultado muito, muito fraco.
O segundo candidato mais votado à direita, Cotrim de Figueiredo, também, por outras razões, não se afigura propriamente como uma direita moderada, pela via do ataque ao Estado Social, aos direitos sociais.
Enfim, não lhe escondo que como mulher, o que ele, por exemplo, disse sobre a intervenção voluntária da gravidez também me parece complicado. No fundo, os dois candidatos do espectro à direita, mais radicais, tiveram um melhor resultado do que a direita moderada.
Presidenciais 2026
"Seria o que faltava não votar num candidato da ár(...)
Mas, parece-me que há aqui uma nota importante, que é um candidato de centro, centro-esquerda, moderado, que apelou à conciliação, conseguiu vencer.
Isso obviamente significa que ainda há uma grande maioria de portugueses que não se revê nessa forma radical de estar na política. Este resultado dá-nos uma esperança de poder vir a ter um Presidente da República conciliador, moderado. enfim, que de certa forma também faça algum contraponto, mas muito moderado ao Governo.
Estas eleições têm um pendor muito personalista, no entanto, puxando agora um pouco a análise para o impacto que estes resultados têm também no espectro partidário, no caso no Partido Socialista, acha que a tese agora muito difundida de que só um PS ao centro, como Seguro personifica, pode ser um PS vencedor? É um argumentário que veio para ficar e que é correto?
Eu percebo perfeitamente, e parece-me razoável, que o que se quer num Presidente da República ou numas eleições legislativas são coisas diferentes.
Acho que nas eleições presidenciais estamos a eleger o mais alto magistrado da nação, uma pessoa que deve representar os portugueses todos, que deve ter esta lógica de conciliação, de fazer pontes.
Agora, há uma coisa que eu não tenho nenhum problema em dizer, hoje, claramente, em todo o mundo, nós temos as pessoas aparentemente a exigir moderação à esquerda e a gostar de radicalismo à direita.
Acho que isto merecia uma análise até do ponto de vista académico, acho que isto foi um bocado inculcado nas pessoas.
Qualquer pessoa que diga qualquer coisa sobre a social-democracia é um perigoso radical.
Mas concretizando a ideia para ficar claro, há ou não lições que o Partido Socialista deve tirar desta eleição, visto que vem de um resultado nas legislativas negativo e nestas eleições tem um resultado positivo através do candidato que apoia. Estes resultados vão levar, dentro do PS, a que o perfil e também a forma de fazer oposição tenha algumas diferenças?
Não me leva a mal, mas eu não quero mesmo, pelo menos nesta fase, tirar ilações da eleição presidencial para nenhum partido. São eleições que não devem ser partidarizadas. Quem me fosse ouvir, ia dizer que estava a partidarizar e eu não quero mesmo fazer isso, são eleições diferentes, não é isso que se joga, muito menos numa segunda volta.
À luz de tudo o que sabemos hoje, o PS deveria ter apoiado mais rapidamente Seguro e por não o ter feito pode não capitalizar tanto esta vitória como o poderia fazer?
Acho que o PS faz muito bem em não capitalizar vitórias de uma eleição presidencial. Não acho que deva ser essa a abordagem.
Vitória de Seguro é uma derrota para a ala esquerda do PS? "Não quero mesmo, pelo menos nesta fase, tirar ilações da eleição presidencial para nenhum partido".
O que nós temos de tirar de positivo deste resultado da primeira volta é o facto de os portugueses terem dado a vitória a um candidato democrata, da democracia liberal, do Estado Social.
Se eu fosse agora fazer considerações sobre se devia ter apoiado mais cedo ou mais tarde, para poder agora o Partido Socialista, como aliás colocou a questão, tirar daí um bom dividendo ou tirar daí vantagens, eu estaria claramente a prestar um péssimo serviço ao país, ao partido, ao candidato que apoio, que é António José Seguro.
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Eleição do próximo Presidente da República pode to(...)
Claro que o resultado final que venha a haver, terá consequências no panorama político, mas isso é outra coisa, até na correlação de forças entre as direitas, entre os vários partidos de direita.
A ala mais à esquerda do PS, que sempre defendeu acordos com os partidos da esquerda, também sai derrotada do resultado desta primeira volta, visto que Seguro fugiu a esse posicionamento. No início, até a ser o candidato da esquerda…
Seria novamente partidarizar eleições que eu acho que não podem ser partidarizadas. E não vou fazer isso.
Mas quando o Partido Socialista pede ao primeiro-ministro que tome uma posição partidária em relação a estas eleições, não é uma contradição com esse argumento?
Eu só me posso contraditar a mim própria e eu não me contradisse. Não sei a que declarações se está a referir e pode ter-me passado a alguma.
Eu vejo a segunda volta destas eleições da seguinte forma. Nós temos um candidato que defende medidas do tipo autoritário, que já falou em criar uma 3.ª República, portanto deita fora o regime que temos hoje, que é o regime que nos deu 50 anos de desenvolvimento e democracia e saiu do 25 de Abril. Põe em causa as soluções da Constituição de 76, incluindo os limites materiais da revisão constitucional, que tem uma abordagem racista, xenófoba, que não tem amor aos direitos políticos e aos direitos civis e à igualdade de género.
E do outro lado temos um candidato que representa o oposto, que é um democrata, que é um defensor da Constituição de 76, dos direitos políticos, mas também dos direitos sociais, de uma visão mais humanista, progressista. Para mim é tão simples quanto isso.
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Luís Montenegro tinha uma escolha para fazer na no(...)
E a crítica que eu ouvi o Partido Socialista fazer, e essa eu subscrevo, mas eu não concordo que isso seja partidarizar, é como uma opção de valores, como é que perante isto um primeiro-ministro de um partido que se diz de direita moderada tem dúvidas em tomar partido, em tomar posição?
Este é que é o ponto na segunda volta. Isto não é partidário. A prova de que não é partidário é que nós temos já hoje, já se sabe, três dias depois da primeira volta, muitas pessoas de centro, de direita, que vieram apoiar António José Seguro publicamente. Exatamente porque colocaram a questão neste plano e não num plano esquerda-direita e muito menos num plano PSD-PS.
Não é um problema de direita-esquerda, é um problema de democracia e autoritarismo, é um problema de valores, é um problema de direitos, é um problema de liberdade. Nós não podemos eleger em Portugal um admirador de Trump. Chega a ser antipatriótico, porque o Trump está a atacar neste momento na Europa na Gronelândia.
Bastaria isto. Eu não vou mesmo aceitar fazer o jogo do candidato Ventura, que é no fundo reduzir isto a uma questão de direita-esquerda em que ele acha que a direita é maioritária e, portanto, vai ganhar.
Mas se não enquadra estas declarações ou a reação do primeiro-ministro, Luís Montenegro, aos resultados do ponto de vista partidário, como é que enquadra? Ele não partilha os valores democráticos...
As eleições presidenciais não devem ser demasiado partidarizadas. Há aspetos políticos, há posicionamentos políticos, há partidos que apoiam, mas agora até já estamos numa outra fase.
Estamos na segunda volta, que em si ainda mais transversal, há uma divisão em torno de grandes ideias e não tanto de partidos.
É uma [segunda volta em que esta em causa] democracia-autocracia, direitos-opressão, igualdade- desigualdade, xenofobia -solidariedade.
Concluo das suas palavras, então, que o primeiro-ministro não tem uma posição clara entre os valores democratas e os valores autocratas. Não acha que faz essa distinção?
Não, o primeiro-ministro o que disse foi, temos um candidato da extrema-direita e temos um candidato do centro-esquerda e nós não somos uma coisa nem outra, portanto não apoiamos ninguém. Fez mal em colocar a questão assim.
E acho que o fez por taticismo, por taticismo, quando, neste momento, com o contexto internacional que temos, há valores que se agigantam muito mais importantes do qualquer taticismo governamental ou eleitoral.
Parece-me muito estranho, grave, que um primeiro-ministro de um Governo, que eu obviamente considero um Governo democrático, não veja as coisas assim.
E não é por acaso que muita gente, até bastante próxima do Governo, já veio posicionar-se exatamente nos modos em que eu coloquei a questão.
Mas durante a campanha, Luís Montenegro já tinha dado alguns sinais, quando não fez separações entre o Chega e o PS….
Durante a campanha da primeira volta, até posso compreender que o primeiro-ministro, enfim, enquanto presidente de um partido, tinha um candidato e faça um discurso de campanha.
"Posição de Montenegro sobre a segunda volta? Acho que o fez por taticismo, por taticismo, quando, neste momento, com o contexto internacional que temos, há valores que se agigantam muito mais importantes do qualquer taticismo governamental ou eleitoral."
Por isso, é que há duas voltas, por isso é que também há alinhamentos de uma primeira para uma segunda volta.
Mas se nós olharmos no mundo inteiro, em França, quantas vezes, entre a primeira e a segunda volta, para evitar a vitória quer do pai Le Pen, quer da filha Le Pen, houve partidos socialistas que deram indicação de voto em candidatos de direita, exatamente porque esse valor, o valor da democracia, esses realinhamentos entre a primeira e a segunda volta acontecem e devem acontecer, para quem é democrata, em defesa da democracia.
A partir do momento, em que quem passa a segunda volta são estas duas pessoas que representam os antípodas, não se pode ser valorativamente neutro.
Acha que isto terá um impacto futuro para o PSD, este posicionamento?
Não sei prever, eu acho que o facto de haver tanta gente no PSD que veio declarar o apoio público a António José Seguro, talvez mitigue esse efeito.
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Numa primeira volta em que um em cada três portugu(...)
Mas se o primeiro-ministro do meu país genuinamente se sente equidistante entre estes dois tipos de valores, isso também me preocupa um pouco.
Muitos dizem que a grande mais-valia de Seguro na primeira volta foi não ter entrado em lutas fratricidas durante a campanha, e por assim dizer, ter viajado, “no lugar do morto” durante estas eleições. Esta tática não vai conseguir mantê-la na segunda volta, o que terá de mudar?
Não sei se tem ou não que mudar alguma coisa.
Por exemplo, o que fez no Comício de Lisboa, na sexta-feira antes das eleições, em que claramente se referiu a coisas como ao pacote laboral, a revisão constitucional e a defesa da Constituição, para mim ficou bastante claro esse posicionamento que há pouco chamei de progressista, de humanista, de respeito pelos direitos.
É claro que agora temos quase três semanas de campanha, muita coisa será perguntada. Não sei prever o que é que vai acontecer nesta campanha.
André Ventura vai fazer destas eleições uma antecâmara também para o futuro, proclamando-se líder da direita e o candidato do espaço não socialista no aprofundar de uma lógica esquerda-direita. Como é que António José Seguro pode combater esta agressividade vocal durante estas três semanas de campanha?
Acho que não deve entrar, e tenho a certeza, conhecendo o perfil, que não vai entrar nessa agressividade verbal.
Aliás, já na primeira volta não entrou, manteve elevação durante a campanha. Acho que isso também agradou aos portugueses. Tivémos muitos outros candidatos a entrar numa certa campanha mais agressiva, mais pessoal, ele não o fez e acho que fez bem. Acho que continuará nessa linha.
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Figuras relevantes do PSD, do CDS e da IL dizem qu(...)
Agora, claro que André Ventura tem interesse em colocar a questão entre direita e esquerda.
Acho que a resposta a isso é tendo em conta o tipo de eleição que é, já estarmos numa segunda volta e os candidatos que se apresentam e que passaram, o que está em causa é muito mais profundo e importante do que esquerda ou direita.
"Acho que não deve entrar, e tenho a certeza, conhecendo o perfil, que não vai entrar nessa agressividade verbal. Aliás, já na primeira volta não entrou, manteve elevação durante a campanha. Acho que isso também agradou aos portugueses"
É democracia ou não democracia. É liberdade ou repressão. É solidariedade ou xenofobia. É igualdade de género. Portanto, nesse sentido, acho que é nessa linha e nesse plano que António José Seguro se vai colocar e nesse plano.
Dá a vitória na segunda volta como segura ou não?
Não. E por uma razão que não é um jargão, não é um clichê. Não existem vitórias por antecipação, não existem e muito menos em política. Esta é uma eleição, pelo contrário, em que as pessoas devem perceber o que está em causa, a gravidade do momento que se vive hoje em Portugal e no contexto do mundo. Não devem achar que são favas contadas.
Para terminar, mesmo num cenário de vitória de António José Seguro, é provável certo que André Ventura sairá desta eleição com cerca de dois milhões de votos. Que efeito terá na vida política portuguesa?
Há uma coisa que tem de se concluir, e que é verdade, a extrema direita em Portugal demorou um bocadinho mais a chegar do que noutros países da Europa, mas chegou em força e rapidamente.
Presidenciais
Líder do Chega desafiou o adversário a três debate(...)
Noutros países a extrema-direita já surgiu há mais tempo, mas demorou muito mais a chegar na implantação eleitoral que hoje, de facto, o Partido Chega tem em Portugal.
Tenho a certeza que depois, quando isto passar, isto terá consequências políticas de equilíbrios na Assembleia, etc. Acho que terá.
Não consigo neste momento prever, mas acho que terá algumas consequências. Acho que algum empoderamento, mesmo saindo derrotado, será usado seguramente pelo Chega e, conhecendo as suas ideias, será mau para o país.
Mesmo perdendo já ganhou?
Não digo que mesmo perdendo já ganhou, mas naturalmente que o seu objetivo principal provavelmente seria chegar à segunda volta e solidificar, fixar em torno da sua pessoa, um conjunto de votos, e isso, mesmo perdendo cerca de 100 mil votos, é verdade, conseguiu fazer.
"Ida de Ventura à segunda volta terá algumas consequências. Acho que algum empoderamento, mesmo saindo derrotado, será usado seguramente pelo Chega e, conhecendo as suas ideias, será mau para o país."
Mas é por isso que é importante que todos aqueles que somos democratas e que somos democratas liberais, sociais-democratas, nos juntemos todos nesta lógica transversal em torno do projeto que corporiza aquilo que é o chão comum do nosso regime.
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