PRESIDENCIAIS 2026

Ferro Rodrigues antevê segunda volta “difícil” e avisa contra “processos estranhos” da PGR

26 jan, 2026 - 06:30 • Susana Madureira Martins

O antigo presidente da Assembleia da República diz, em entrevista à Renascença, que “se o país não tiver ensandecido, a vitória de António José Seguro será clara”.

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Entrevista a Eduardo Ferro Rodrigues
Ouça a entrevista a Eduardo Ferro Rodrigues.

O ex-secretário-geral do PS e antigo presidente da Assembleia da República Eduardo Ferro Rodrigues antevê uma segunda volta das eleições presidenciais “difícil” e avisa, “por uma questão de prevenção”, contra eventuais “processos estranhos que são inventados a partir da Procuradoria-Geral da República”.

Ferro Rodrigues recebeu a Renascença na sua casa em Almoçageme, onde passa grande parte do seu tempo desde que saiu do Parlamento. Nesta entrevista, diz acreditar numa vitória “clara” de António José Seguro na segunda volta das presidenciais, “se o país não tiver ensandecido”.

O antigo líder do PS, que participa atualmente no Conselho Estratégico do partido, que se reúne esta segunda-feira para discutir questões de Justiça, aconselha “nervos de aço” a Seguro no confronto com André Ventura.

Questionado sobre se uma vitória de António José Seguro pode significar um balão de oxigénio para o PS, Ferro Rodrigues admite que “a relação de forças muda”, considerando “natural que haja um reequilíbrio político”.

Sobre uma eventual participação na segunda volta, o antigo líder socialista diz que cabe a Seguro "determinar o figurino da sua campanha, as presenças, as ausências" e garante sentir-se "bem com todos os cenários".


Ficou surpreendido por António José Seguro ter chegado a esta segunda volta das presidenciais?

Não. A partir do momento em que houve os debates, percebia-se, claramente, que as coisas estavam a virar muito favoravelmente para António José Seguro e, logo no princípio da campanha eleitoral, isso foi visivelmente apreciado por toda a gente. Eu, aliás, tive o cuidado de só o apoiar antes do começo da campanha eleitoral e depois dos debates, como, aliás, tinha prevenido há uns tempos.

O que é que fez a diferença?

Os debates foram muito elucidativos, sobretudo sobre aquilo que outros candidatos representavam e que eram coisas perfeitamente inaceitáveis para um país que já tem uma democracia, apesar de tudo, relativamente amadurecida. E a agressividade que foi imprimida a alguns destes debates acabou por ter também uma quota forte para o resultado muito bom de 31% que António José Seguro teve. Sempre pensei no começo da campanha que ele iria chegar à segunda volta, mas confesso que a diferença de votos para o segundo foi muito mais apreciável do que eu estava a contar e lamento que o segundo tenha sido o André Ventura porque, quer se queira, quer não, isso representa estar às portas dos poderes principais constitucionais, alguém que representa o pior da sociedade portuguesa e da política em Portugal.

Chegados a esta segunda volta das presidenciais, António José Seguro enfrenta André Ventura. Não são favas contadas?

Bem, penso que se o país não tiver ensandecido, como uma vez disse Almeida Santos, a propósito da candidatura de Mário Soares, a vitória de António José Seguro será clara, mas, de qualquer forma, é preciso ir à luta e continuar no mesmo tom nesta segunda volta, visto que esta campanha é muito diferente das campanhas anteriores. António José Seguro só tem que manter a forma como esteve na primeira volta e, portanto, fazer da sua candidatura uma candidatura ganhadora, claramente. Era importante que nestes 50 anos depois da Constituição, que fosse claramente alguém que defenda a Constituição, os valores constitucionais na área política, na área social, na área ambiental e que estivesse como Presidente da República para os próximos anos.

Prevê uma campanha suja nesta segunda volta?

Algumas das últimas campanhas sujas não vieram propriamente do candidato ou de nenhum candidato, vieram de outras instâncias que tentam interferir, muitas vezes, nos movimentos eleitorais.

Está a falar de quê, exatamente?

Estou a falar dos processos estranhos que são inventados, muitas vezes, a partir da Procuradoria-Geral da República. Nunca se sabe o que pode sair daí e, portanto, só digo isto por uma questão de prevenção.

Acha que isso pode acontecer?

Não, não há nenhuma razão para isso, mas também não havia antigamente e aconteceu várias vezes. Em várias campanhas eleitorais, houve uma participação, aliás, nesta última também, relativamente visível de fontes da Procuradoria-Geral da República. Mas, para além disso, julgo que esta campanha vai ser uma campanha difícil, porque o candidato de extrema-direita tem um discurso muito provocatório, muito calunioso, muito fora do sistema democrático e, portanto, o António José Seguro só pode reagir a isso com bonomia e com categoria.

Com nervos de aço?

Sim, nervos de aço.

Como é que se lida com André Ventura?

Bom, eu tenho uma experiência de três anos, dois anos e tal, e lidei com ele sempre com alguma dificuldade, porque era um estilo que nunca tinha aparecido na Assembleia da República, em que as inverdades ou mesmo mentiras eram repetidas sistematicamente, a informação que era veiculada através das redes sociais que o partido dele controla é uma informação totalmente distorcida e não se percebe, aliás, porque é que a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) não é mais firme e porque é que é preciso vir a Universidade de Coimbra dizer que nesta primeira volta 80% ou 75% das fake news tiveram origem no partido dele e nele. E, portanto, esta campanha vai ser uma campanha mais difícil para se estar calmo e tranquilo, mas o António José Seguro, com a experiência que, entretanto ganhou, calculo que saiba fazer isso com mais facilidade do que outros.

Há alguns meses, disse que poderia apoiar Sampaio da Nóvoa caso ele viesse a avançar para estas presidenciais. Entretanto, declarou o seu apoio a António José Seguro. Já se rendeu a Seguro?

Bom, isto não é um problema de rendição. Na política, há sempre convicções, há sempre pessoas que representam situações diferentes. Nós não podemos imaginar o que seria, se pior ou melhor, com outro candidato da área da esquerda democrática, mas o que, neste momento, interessa não é especular sobre o passado, é ver o futuro e perceber que, neste momento, há uma larguíssima e esmagadora maioria do PS que apoia António José Seguro e na área democrática também há uma visível maioria vinda de quadros importantes do PSD, do CDS e da Iniciativa Liberal.

Essa aproximação de António José Seguro a esse setor mais de centro-direita e de setores moderados não pode causar algum ruído entre o PS ou alguns setores do PS?

Acho que só pessoas pouco inteligentes é que criariam um ruído numa circunstância destas, porque, além do mais, há a questão matemática.

António José Seguro teve 31% na primeira volta e precisa de ter 50 mais um [na segunda volta] e, portanto, não é propriamente fácil que contasse apenas com a área de onde ele é oriundo e dos candidatos mais à esquerda que imediatamente declararam o seu apoio. Portanto, acho que é uma questão de inteligência estratégica e nada de pessoal deve estar envolvido nisto.

O PS devia estar mais envolvido na campanha de António José Seguro ou diria que as estruturas devem manter-se discretas?

Sabe que participei em várias campanhas presidenciais, ao lado de Mário Soares e ao lado de Jorge Sampaio e foram sempre os candidatos que determinaram a maior ou menor presença do PS nas suas estruturas e nas suas realizações. Já com Sampaio a presença não foi muito visível. Com Mário Soares foi, porque tratava-se realmente de um combate, naquela altura, de toda a direita, e não era a direita antidemocrática, contra toda a esquerda na segunda volta e, portanto, foi necessário envolver todo o PS nas estruturas e na campanha eleitoral, sobretudo na segunda volta. Na primeira volta, o PS também se dividiu no voto entre os candidatos, Mário Soares, Maria de Lurdes Pintassilgo e Salgado Zenha. Tive muito gosto em ir votar na segunda volta da mesma maneira que votei na primeira, em Mário Soares e agora em António José Seguro.

Uma vitória de António José Seguro nestas presidenciais pode ser uma espécie de balão de oxigénio para o PS e para esta liderança de José Luís Carneiro?

Todas as alterações políticas têm sido tratadas pela atual direção do PS de uma forma construtiva e correta. E, portanto, ninguém pode escamotear o papel que o PS teve na campanha, mesmo invisível. E, portanto, penso que a relação de forças muda, se mudou a favor da direita e da extrema-direita aquando das eleições legislativas, nas eleições presidenciais é natural que haja um reequilíbrio político, que, aliás, António José Seguro pediu.

Se António José Seguro vencer, de facto, estas eleições presidenciais como é que poderá ser a relação com o Governo de Luís Montenegro e se Seguro aí poderá ter uma espécie de legitimidade fresca para obrigar o governo a acertar o passo?

O regime português não é um regime presidencialista. É um regime que tem mais características de parlamentarismo do que de presidencialismo.

E mais de semiparlamentarismo do que de semipresidencialismo. Haverá de qualquer maneira um abanão positivo na situação política portuguesa. Perante a forma completamente selvagem e sem regras com que a direita e a extrema-direita têm lidado na Assembleia da República com uma maioria que só existe pontualmente, estas eleições têm consequências também aí, porque toda a gente lê os resultados. É muito importante que o perigo de uma revisão constitucional contra a democracia, contra as principais vitórias que o 25 de Abril trouxe nos diversos planos, possa ser afastado com a presença de António José Seguro em Belém. Não é que o Presidente da República possa dissolver ou possa não aceitar os resultados do Parlamento em matéria de revisão constitucional. Mas pode interferir atempadamente, a partir do momento em que haja propostas de revisão constitucional que sejam claramente contrárias ao espírito e à letra da Constituição de 1976.

Vai estar na campanha de António José Seguro na segunda volta?

Terei exatamente o mesmo comportamento que tive na primeira. É o candidato a Presidente da República que deve determinar o figurino da sua campanha, as presenças, as ausências e, portanto, sinto-me bem com todos os cenários e apenas desejo que haja uma grande vitória de António José Seguro sobre André Ventura.

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